«Nunca vou de visita de mãos vazias!» – declarou orgulhosamente o noivo de 59 anos, tirando um pacote de chá já aberto. Como o dispensei elegantemente à porta.

Sabe, sempre achei que encontros depois dos cinquenta eram coisa de pessoas com opiniões formadas, experiência de vida e, pelo menos, um conhecimento básico de boas maneiras. Ilusões de príncipes em cavalos brancos já não alimentava há muito tempo.

Tenho cinquenta e cinco anos, trabalho, tenho uma filha adulta, um apartamento acolhedor e uma vida bastante equilibrada. Mas, de vez em quando, apetece um pouco de calor humano. Ir ao teatro, beber um café, conversar sobre um livro que se leu.

Foi com esses pensamentos que me inscrevi num site de encontros. Entre uma série de mensagens estranhas e propostas francamente absurdas, o perfil do Valério destacava-se pela agradável sensatez.

Tinha cinquenta e nove anos. Nas fotografias — um homem elegante, de casaco bem cortado, ao fundo de um parque de verão. Na troca de mensagens era educado, fazia elogios, falava do seu trabalho como engenheiro e do amor pela música clássica.

Depois de uma semana a conversar, encontrámo-nos num café. O Valério era exatamente como nas fotos: imponente, com um leve toque de cãs, boa educação. Puxou-me a cadeira com galanteria, pediu dois cappuccinos (embora tivesse recusado a sobremesa, dizendo que estava a vigiar o açúcar) e passou a noite a falar da importância de manter os valores tradicionais nos dias de hoje.

— Sou um homem à moda antiga, Inês — dizia ele, fitando-me os olhos com eloquência. — Para mim, a mulher é uma musa. O homem deve ser o provedor e o protetor. Não suporto a moda moderna de dividir a conta. É preciso cortejar com elegância.

Soava a música. Encontrámo-nos mais duas vezes, passeámos pela marginal, conversámos muito. Até que chegou o fim de semana e o tempo piorou de vez. Caía uma chuvinha chata de novembro.

— Inesinha, que tal aparecer aí para jantar? — sugeriu o Valério com voz aveludada ao telefone. — Ficamos no quentinho, conversamos. E claro, não vou de mãos vazias! Trato de tudo da melhor maneira. Só preciso do seu aconchego e de um sorriso.

Eu, como boa portuguesa que sou, não me fiei no «só do seu sorriso». Logo de manhã, pus-me a fazer uma limpeza geral. Depois fui ao supermercado: comprei um bom lombo de vitela, legumes frescos, queijos, um baguete caro. Passei umas três horas ao fogão.

Assei a carne com ameixas secas — a minha receita de estalo, que nunca deixou ninguém indiferente. Fiz uma salada ligeira, arranjei a mesa da sala com todo o cuidado. Tirei os copos de cristal, acendi velas. Usei um vestido caseiro elegante, fiz uma maquilhagem ligeira.

À hora combinada, estava nervosa como uma rapariga no primeiro encontro.

A campainha tocou às sete em ponto. Ajeitei o cabelo, inspirei fundo e abri a porta. À entrada estava o meu cavalheiro. O casaco estava ligeiramente molhado da chuva, mas o ar era de uma enorme satisfação.

— Boa noite, linda anfitriã! — O Valério entrou no hall, tirou o chapéu e começou a desapertar o casaco. Da cozinha vinha um aroma divinal a carne assada. Ele aspirou ruidosamente e sorriu, satisfeito: — Oh, sinto que me espera um verdadeiro banquete!

— Entra, Valério. Despe-te. Deixa-me pendurar o teu casaco — disse eu, afável, à espera que ele tirasse os tais «presentes» prometidos. Para ser sincera, não esperava um ramo de cem rosas ou um vinho de coleção. Uma caixa de chocolates, um bolo simples ou um ramo de crisântemos já me bastava. É a questão de atenção.

O Valério pendurou o casaco, endireitou o blazer. Depois meteu a mão no bolso interior, com um ar solene de ilusionista a tirar um coelho da cartola, e disse a frase:

— Como prometi, Inês, não venho de mãos vazias. Um homem deve sempre contribuir.

Com estas palavras, estendeu-me… um pacote de chá.

Peguei nele maquinalmente e baixei o olhar. Era uma caixinha de cartão do chá preto mais barato que há. Sabe, daqueles que se vendem nas prateleiras de baixo dos supermercados em promoção. Mas o mais interessante não era a marca. O selo da caixa não existia; a patilha de cartão estava rasgada e metida para dentro, sem cuidado.

Congelei, a tentar perceber o que se passava.

— Valério, está… aberto? — perguntei baixinho, com medo que fosse alguma piada estranha.

Ele não se perturbou nada. Pelo contrário, o rosto iluminou-se com um sorriso condescendente de quem explica o óbvio a uma criança.

— Claro! Comprei há dias, usei dois saquinhos só. Um chá ótimo, forte, que se faz depressa. Resolvi partilhar contigo. Não ia trazer o pacote inteiro, não vamos beber tanto numa noite. Para que é que o bem se há de estragar? E para acompanhar, tenho a certeza de que tu, como anfitriã, tens alguma coisinha.

Eu estava no hall da minha casa limpa e acolhedora. Atrás de mim, as velas tremeluziam e a vitela com ameixas arrefecia, para a qual tinha gasto meio dia e uma boa nota.

E à minha frente estava um homem feito, empregado, bem vestido, de cinquenta e nove anos, a discorrer sobre valores tradicionais, que trazia a uma mulher para um jantar romântico um pacote de chá barato já aberto. Faltavam vinte saquinhos lá dentro.

Milhares de reações passaram-me pela cabeça. Podia rir-me na cara dele. Podia fazer um escândalo e dizer-lhe tudo o que pensava da sua mesquinhez. Podia calar-me, engolir a mágoa, sentá-lo à mesa e servi-lo com carne, a sentir-me uma criada humilhada.

Mas escolhi outro caminho. A calma que me veio naquele momento surpreendeu-me a mim mesma.

Pousei a caixinha amarrotada na mesinha ao lado do espelho. Olhei o Valério nos olhos. Sorri — não com falsidade, mas com total sinceridade, com um enorme alívio por aquele homem se ter revelado ali mesmo, à porta, e não meses ou anos depois.

— Valério — a minha voz saiu firme e suave. — Estou imensamente comovida com a sua generosidade. Mas, receio, não vamos precisar deste chá.

As sobrancelhas dele subiram. — Porquê? Não gostas de chá preto? Posso trazer verde da próxima, tenho meio pacote no trabalho…

— Não vai haver próxima — interrompi-o, sempre calma. — Sabe, você tinha razão. Um homem deve contribuir. E a sua contribuição foi tão… impressionante, que não posso retribuir à altura. O meu jantar não está à sua medida.

Tirei do cabide o casaco ainda húmido e estendi-lho.

— O que se passa? Inês, estás chateada por causa do chá? Que materialismo! — a voz aveludada dele tremeu, o rosto ficou vermelho. — Eu venho de alma e coração, depois de uma semana dura, e ela faz uma birra por uma ninharia! Vocês, mulheres modernas, só querem dinheiro e restaurantes!

— O que eu quero é respeito, Valério. Primeiro, respeito por mim própria. Vista o casaco, está frio lá fora. E não se esqueça do seu chá. Não vá constipar-se e não ter com que se tratar.

Coloquei-lhe o pacote aberto nas mãos, empurrei-o suavemente mas com firmeza para a saída e fechei-lhe a porta.

A fechadura estalou. No apartamento, um silêncio perfeito, apenas o tiquetaque do relógio. Fui para a cozinha, servi um copo de um bom vinho tinto, cortei um pedaço de carne cheirosa e sentei-me à mesa lindamente posta. Sozinha.

E sabem que mais? Aquele jantar foi magnífico. A carne derretia-se na boca, o vinho brilhava no cristal. Não senti desilusão nem solidão. Senti orgulho por não ter deixado que me pisassem.

Os homens acusam-nos muitas vezes de materialismo. Dizem que procuramos patrocinadores. Mas sejamos honestos: a questão não é o valor do presente. É a atitude. Um homem que leva a uma mulher comida já aberta não está a poupar dinheiro.

Está a poupar nela os seus sentimentos, o seu respeito. Mostra que ela não merece o mínimo esforço. E eu não vou gastar mais o meu tempo, a minha energia e a minha vida com esses «provedores tradicionais».

E vocês, caras leitoras, o que acham? Já se depararam com estas manifestações de «generosidade» masculina? Ou talvez eu tenha sido demasiado brusca e devesse ter dado uma oportunidade?

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

3 × 5 =

«Nunca vou de visita de mãos vazias!» – declarou orgulhosamente o noivo de 59 anos, tirando um pacote de chá já aberto. Como o dispensei elegantemente à porta.
Изневеряващият съпруг криеше телефона си, но паметта му изигра лоша шега