— Quero como antes, percebi que foi um erro ter ido embora. Sinto saudades. Quando posso voltar? — perguntou ingenuamente aquele que a abandonou com os filhos.

Inês estava na fila há quarenta minutos. À sua frente — quatro pessoas, atrás — mais seis. Os papéis para o subsídio estavam todos prontos, arrumados dentro de uma pasta transparente.

Folheava o telemóvel quando ouviu uma voz.

— Inês? Inês, és tu?

Levantou os olhos. Vasco estava ao lado do balcão vizinho, ligeiramente de lado, como se se tivesse virado por acaso. Trazia um casaco amarrotado, mal abotoado. Por baixo do olho esquerdo espalhava-se um hematoma amarelado, já a desaparecer, mas visível.

— Olá — disse Inês, sem emoção.

— Que coincidência! — Vasco sorriu largo, com um ar de actor. — Dois anos, hem? O tempo voa.

Aproximou-se, ficou ao lado dela como se tivessem combinado. Inês não recuou, mas também não se mexeu para o lado. Olhou-o calmamente, sem expressão.

— Estás com bom aspecto — disse ele. — A sério. Mudaste qualquer coisa. O cabelo está diferente?

— É o mesmo — respondeu Inês.

— Não, mudaste mesmo. Emagreceste? Ou apanhaste sol? — Franzindo os olhos, examinou-a, e Inês reparou num estremeção no canto da boca dele.

Por trás da aparente boa disposição havia qualquer outra coisa. Desconcerto. Ou o hábito de esconder o embaraço com palavras.

— Lembras-te daquela vez que fomos a Sintra? — disse Vasco. — O Miguel deixou cair o gelado no sapato, e a Beatriz consolou-o. Foi tão engraçado. Ela tinha três anos, não?

— Quatro — corrigiu Inês.

— Quatro, exacto. Tempos bons.

Inês ficou em silêncio. A fila andou uma pessoa. Ela deu um passo em frente.

— E tu, como estás? — perguntou Vasco, inclinando-se um pouco. — Estás a aguentar-te?

— Aguento-me.

— E os miúdos?

— A crescer.

— O Miguel já vai à escola?

— Vai.

Vasco calou-se. Depois mudou o peso de um pé para o outro.

— Pronto, foi bom ver-te. Se precisares de alguma coisa…

— Tenho de ir — disse Inês. — O balcão ficou livre.

Virou-se e dirigiu-se ao balcão. Tirou os documentos, colocou-os em frente da funcionária. As mãos moveram-se com firmeza, habituadas.

Quando se voltou, dez minutos depois, Vasco já não estava.

— Olá — disse Inês, a descalçar-se.

— Olá! — Beatriz levantou a cabeça. — Compraste o esmalte?

— Comprei. Dois frascos. Azul-petróleo e terracota.

— Posso experimentar?

— Amanhã. Hoje tem de descansar.

O Miguel não levantou a cabeça. Inês aproximou-se, colocou a palma no alto da cabeça dele. Ele inclinou-se ligeiramente para trás, num gesto habitual.

— Tens fome? — perguntou ela.

— Um bocado.

— Aqueço o guisado. Quinze minutos.

A noite passou tranquila. As crianças jantaram, a Beatriz adormeceu cedo, o Miguel foi para o quarto. Inês sentou-se à mesa de trabalho, onde estavam quatro chávenas incompletas — encomenda de um café na Rua da Rosa. A argila estava húmida, maleável. Pegou numa ferramenta, começou a retirar o excesso.

Mas os dedos moviam-se distraídos.

Largou o instrumento. Fechou os olhos. Vasco estava à sua frente — amarrotado, com o hematoma, com aquele sorriso sem graça. Dois anos antes, ele arrumara as coisas num saco de desporto, dissera «preciso de ficar sozinho» e fechara a porta.

Inês não chorara na altura. Lavou a loiça, deitou os filhos e ficou acordada até às quatro da manhã na roda de oleiro. De manhã, levou o Miguel à escola e inscreveu-se num curso de cozedura.

Agora não conseguia dormir outra vez. Mas a razão era diferente. Não era dor. Não era saudade. Era qualquer coisa como vigilância. Um instinto que lhe dizia: ele vai voltar.

De manhã, tocaram à campainha. Sofia estava à porta com um saco de onde saía uma ponta de papel de alumínio e uma caixa de pasta de faiança branca.

— Trouxe bolo de maçã e dois quilos de pasta — disse ela, em vez de cumprimentar.

— Entra — Inês recuou.

Sofia passou para a cozinha, pousou o saco na mesa, sentou-se num banco. Sentava-se sempre assim — logo, sem cerimónias.

— Então, conta lá — disse Sofia. — Tinhas a voz estranha ao telefone.

— Vi o Vasco ontem. Na Loja do Cidadão.

Sofia imobilizou-se com a faca na mão.

— E?

— Estava na fila. Hematoma debaixo do olho. Casaco amarrotado. A sorrir como se tudo fosse maravilhoso.

— Clássico — Sofia cortou um pedaço de bolo. — E o que é que ele disse?

— Falou de Sintra. Disse que estava com boa aparência. Perguntou pelos miúdos.

— E tu?

— Respondi curto. Fui-me embora quando chegou a minha vez.

Sofia calou-se. Depois pousou a faca.

— Inês, vou ser directa. Sabes que eu sou sempre directa.

— Sei.

— Há dois anos, este homem levantou-se e foi-se embora. Não porque se zangaram. Não porque aconteceu nada de grave. Foi-se embora porque se aborreceu. Ou se sentiu apertado. Ou decidiu que merecia mais.

— Sofia…

— Espera. Nestes dois anos, tu levantaste as encomendas do zero. Fizeste-te um nome. Três cafés usam a tua loiça. Tens os miúdos alimentados, vestidos, numa boa escola. Tu fizeste tudo sozinha. E agora ele está numa fila com um hematoma e fala de gelados em Sintra.

Inês ficou calada.

— Ele vai tentar voltar — disse Sofia. — É questão de dias. O hematoma, a roupa amarrotada, o aspecto miserável — é tudo preparação. Primeiro a pena, depois «mudei», depois «vamos tentar».

— Talvez eu esteja enganada — disse Inês baixinho. — Talvez ele realmente…

— Não — Sofia abanou a cabeça. — Inês, não estás enganada. Tu és é boa pessoa. E isso são coisas diferentes.

A mensagem chegou dois dias depois. Curta, educada: «Inês, podemos encontrar-nos? Para conversar. Nada de grave, só conversar.»

Inês leu-a sentada à roda de oleiro. A argila girava debaixo dos dedos, macia, obediente. Desligou a roda. Limpou as mãos ao pano. Escreveu: «Parque junto à escola. Amanhã ao meio-dia.»

Ele veio sem o hematoma. Barbeado, de camisa limpa. Sentou-se no banco ao lado, deixando meio metro entre eles.

— Obrigado por teres aceitado — disse ele.

— Estou a ouvir.

— Quando me fui embora… — Calou-se, à procura das palavras. — Nos primeiros meses senti liberdade. Sabes, aquela sensação de poderes fazer o que queres, quando queres. Sem obrigações.

— Depois a liberdade acabou. Ficou o vazio.

Inês olhava em frente.

— Tenho saudades do Miguel — continuou Vasco. — Da Beatriz. De ti. De casa. Das noites em que tu estavas a modelar e eu lia para os miúdos. Do cheiro a barro na cozinha.

— Vasco, aonde queres chegar?

— Posso ir aí? Só para jantar com os miúdos. Uma vez. Não peço mais nada. Só vê-los.

Inês ficou muito tempo calada. Um minuto, talvez dois.

— Está bem — disse por fim. — Um jantar. Tu és convidado. Nada mais.

— Claro.

— Isto significa: chegas, comes, conversas com os miúdos e vais-te embora. Sem falar do passado. Sem promessas. Sem nada.

— Percebi.

— Sábado. Às seis.

Levantou-se e foi-se embora, sem olhar para trás.

Em casa, contou aos filhos.

— Miguel, Beatriz. O vosso pai vem jantar no sábado.

Beatriz levantou a cabeça:

— O pai?

— Sim.

— Fica muito tempo?

— Só para jantar. Come connosco e vai-se embora.

Miguel ficou calado. Depois perguntou:

— Porquê?

Inês sentou-se ao lado dele.

— Ele pediu. Quer ver-vos.

— Eu aceitei. Uma vez.

Miguel acenou com a cabeça. O rosto dele era sério, adulto para a idade.

O sábado chegou depressa. Inês fez frango com batatas — simples, sem pretensões. Pôs a mesa para quatro. Tirou os pratos — os seus, feitos à mão, com bordos irregulares e esmalte azul-petróleo.

Vasco chegou às seis em ponto. Com um saco — sumo, chocolates, um caderno de colorir para a Beatriz.

— Olá — disse ele à entrada.

— Entra. Descalça-te.

Beatriz foi a primeira a sair. Parou a um passo, a observá-lo.

— Olá, Beatriz — Vasco agachou-se.

— Tens barba — disse ela.

— Sim. Deixei crescer.

— Faz cócegas?

— Um bocado — ele sorriu.

Miguel saiu do quarto. Acenou. Sentou-se à mesa.

O jantar correu sem incidentes. Vasco perguntou pela escola, pelos desenhos, pelos animais de plasticina. Beatriz falou da amiga Leonor e de como fizeram uma cabana com mantas. Miguel respondia curto, mas sem hostilidade.

Inês quase não falou. Servia a comida, tirava os pratos, enchia os copos.

Quando as crianças foram para o quarto, Vasco ficou à mesa.

— Pratos bonitos — disse ele, passando o dedo pela borda. — Foste tu?

— Fui.

— Tens muito talento.

— Obrigada.

Calou-se. Depois disse:

— Inês, ainda gosto de ti.

Inês pousou a chávena na mesa. Devagar, com cuidado.

— Vasco.

— Espera, deixa-me dizer. Sei que te deixei. Sei que foi uma traição. Mas mudei. Mudei a sério. Pensei em ti todos os dias.

— Todos os dias durante dois anos são setecentos e trinta dias — disse Inês. — E nem uma chamada.

— Tive vergonha.

— Vergonha não é desculpa. É uma justificação.

Ele estendeu a mão, tentou tocar-lhe na palma. Inês afastou a mão — suavemente, mas com firmeza.

— Não — disse ela.

— Inês…

— Foste convidado. As condições eram claras. O jantar acabou.

Vasco olhou para ela. Algo brilhou nos olhos dele — mágoa, surpresa, talvez raiva.

— Está bem — disse ele. — Percebi.

Levantou-se, vestiu o casaco, abotoou-o. Voltou-se à porta.

— Posso vir outra vez?

— Vou pensar.

A porta fechou. Inês recolheu a loiça que ficou na mesa, lavou-a, arrumou-a. Depois sentou-se à roda e trabalhou até à meia-noite.

Quatro dias depois, Vasco voltou. Sem avisar. Com um ramo — crisântemos brancos, embrulhados em papel kraft.

Inês abriu a porta e viu as flores antes de ver o rosto.

— Não te convidei — disse ela.

— Sei. Mas tinha de vir. Inês, quero voltar.

Ela ficou na soleira, sem o deixar entrar.

— Voltar para onde?

— Para casa. Para vocês. Para ti, para os miúdos.

— Isto não é tua casa, Vasco. Já há dois anos.

— Mas são meus filhos.

— Os filhos são teus, sim. A casa não.

Ele trocou o peso de um pé para o outro. As flores na mão balançaram.

— Inês, dá-me uma oportunidade. Uma oportunidade a sério. Vou arranjar trabalho, vou ajudar. Vou estar presente. Tudo vai ser como antes.

— Não quero «como antes» — disse Inês. — «Antes» era eu sozinha com dois filhos e um marido que olhava para o tecto e sonhava com a liberdade. «Antes» era eu à espera. Já não espero.

— Estás zangada.

— Não. Estou a dizer como é. Há uma grande diferença.

— Nem me deixas entrar em casa.

— Porque vieste sem ser convidado. Com flores. Com um plano já feito. Nem sequer perguntaste se eu queria.

— E tu não queres?

— Não — disse Inês. — Não quero.

Vasco baixou o ramo.

— Não acredito — disse ele. — Não acredito que em dois anos tudo passou. Isso não acontece.

— Acontece. Quando uma pessoa se vai embora em silêncio, e tu ficas com dois filhos, o frigorífico vazio e trezentos euros na conta — acontece. Quando aprendes a fazer loiça de noite porque de dia não tens tempo — acontece. Quando a Beatriz pergunta «onde está o pai?» e tu não sabes o que responder — acontece. Tudo passa, Vasco.

— Errei.

— Sim. Erraste.

— E não me perdoas?

Inês olhou para ele — direito, sem raiva, sem pena.

— Perdoei-te há muito tempo. Perdão e volta são coisas diferentes. Perdoei para poder viver em frente. Mas não há para onde voltar. Aquela casa de onde saíste já não existe. Há outra. A minha.

Vasco ficou mudo. O ramo pendia ao longo do corpo.

— Podes ver os miúdos — disse Inês. — Combinado. Aos fins-de-semana. Se eles quiserem. Mas não aqui. E não assim.

— Como — não assim?

— Não com flores e promessas. Não com a tentativa de recuperar o que tu próprio destruíste. Com honestidade. Simples. Como um pai que vem ver os filhos — e vai-se embora.

— Isso é cruel — disse ele baixinho.

— Não, Vasco. Cruel é ir-te embora sem explicações. Cruel são dois anos de silêncio. Cruel é apareceres com um hematoma e falares de Sintra quando a tua filha já se esqueceu da tua voz. Isso é cruel. O que eu estou a fazer é ordem.

Ele ficou ali mais meio minuto. Depois estendeu-lhe as flores.

— Ao menos fica com elas. Deita-as fora, se quiseres.

Inês não as aceitou.

— Vai-te embora — disse ela. — Sossegado, sem fazer cena. Quando estiveres pronto para falar dos miúdos — escreve. Eu respondo.

Vasco acenou. Virou-se. Desceu as escadas com o ramo pendurado na mão.

Inês fechou a porta. Rodou a chave. Ficou um segundo encostada à porta.

Depois endireitou-se, voltou à cozinha e ligou o lume para o chá.

O telefone tocou uma hora depois. Sofia.

— Então?

— Veio. Com flores. A pedir para voltar.

— Recusaste.

— Como é que ele ficou?

— Desorientado. Magoado. Mas foi-se embora sem barulho.

— Foste fantástica — disse Sofia. — A sério.

— Não fui fantástica. Sei apenas o que não quero.

— Isso é ser fantástica. A maioria das pessoas não sabe. Ou sabe — mas tem medo de dizer.

— Não tive medo — disse Inês. — Tive clareza. Pela primeira vez em muito tempo — clareza absoluta.

— Bebe um chá. Deita-te cedo. Amanhã é um dia normal.

— Sim. Normal. É bom.

A manhã chegou sem ansiedade. A luz caía no chão em riscas oblíquas. Inês levantou-se às sete, como sempre, e foi para a cozinha.

Tirou farinha, ovos, queijo fresco. Amassou a massa para os pastéis de nata — com movimentos precisos, habituais. A frigideira aqueceu, o açúcar caramelizou.

Beatriz apareceu primeiro — descalça, com um urso de peluche.

— Pastéis? — perguntou.

—— Pastéis.

—— Com canela?

—— Com canela.

O Miguel saiu passados cinco minutos. Sentou-se à mesa, puxou o prato para si. O prato era de um tom areia quente — Inês tinha-o feito no mês passado, de propósito para os pequenos-almoços.

Comeram em silêncio. Depois o Miguel pousou o garfo.

—— Ele volta? — perguntou.

Inês olhou para o filho. Tinha dez anos, mas às vezes parecia ter vinte.

—— Não sei — disse ela. — Talvez vos veja aos fins-de-semana. Se vocês quiserem.

—— Eu não quero. Não tenho nada para lhe dizer.

—— Porquê?

—— Porque ele queria recuperar o que foi. E o que foi já não existe. Existe o que é agora. E agora é melhor.

O Miguel acenou. Calou-se.

—— Os teus pratos são bonitos — disse ele.

Inês sorriu.

—— Obrigada, Miguel.

—— A sério. Contei na escola. Os miúdos pediram para ver.

—— Mostras. Dou-te um para levares — aquele com o desenho de bétula.

—— Posso ficar com o azul? O que tem a fissura no lado?

—— Podes. Mas com cuidado.

Beatriz levantou a cabeça do prato.

—— E para mim também dás?

—— Faço-te um à parte. Qual é que queres?

—— Com um gato.

—— Combinado.

Depois do pequeno-almoço, Inês verificou o e-mail. Duas novas encomendas — um conjunto de tigelas para uma loja de chá e uma série de pratos decorativos para um restaurante na Rua das Portas de Santo Antão. Anotou as medidas, calculou o esmalte, esboçou a lápis no caderno.

O telemóvel estava ao lado. Não havia mensagens de Vasco. E Inês sabia que não haveria. Não hoje. Talvez amanhã. Talvez daqui a uma semana. Mas, fosse o que fosse que ele escrevesse, a resposta já existia. Clara, definitiva, dita em voz alta.

Ligou a roda. Colocou uma bola de barro no centro. Molhou as mãos.

O barro cedeu, como sempre. Macio, obediente. As paredes da taça cresciam debaixo dos dedos — direitas, finas, vivas.

Beatriz espreitou para a sala.

—— Bonito — disse ela.

—— Vai ser uma tigela. Para chá.

—— Posso experimentar?

—— Senta-te aqui. Toma um pedaço.

Beatriz sentou-se num banco baixo, pegou na bola de barro e começou a amassá-la com os dedos. Concentrada, com o lábio entalado entre os dentes.

Inês trabalhava. A luz caía sobre a mesa, sobre as mãos dela, sobre o barro húmido. Tudo estava no sítio. Os pratos estavam no escorredor — aqueles mesmos de que tinham acabado de comer. Os esboços estavam no caderno. As encomendas esperavam.

Não precisava de provar nada. Nem a ele, nem a si mesma. A vida que construíra naqueles dois anos falava por si — baixinho, com segurança, sem palavras a mais.

Já não esperava por ninguém. E aquilo não era solidão. Era um conhecimento quieto e firme: tudo o que era preciso já estava ali.

O barro girava. A taça ganhava forma.

Inês trabalhava.

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— Quero como antes, percebi que foi um erro ter ido embora. Sinto saudades. Quando posso voltar? — perguntou ingenuamente aquele que a abandonou com os filhos.
Дъщеря ми не вдигаше телефона – и тогава разбрах какво криеше