Surpresa! gritou a família, aparecendo no meu aniversário redondo sem convite. O sentimento é mútuo, respondi. Quem faz surpresa, paga a conta da mesma.
Inês ajeitou a alça do vestido verde-esmeralda ao espelho, lançou um olhar crítico para o reflexo e, satisfeita, sorriu de lado. Quarenta anos. Para alguns, um número assustador; para Inês significava liberdade, independência financeira e o glorioso poder de dizer não sem pestanejar.
Inês, o táxi já está lá fora avisou Henrique da entrada, nitidamente fascinado com a mulher. Mas temos mesmo a certeza que não vamos convidar ninguém?
Já falámos disso, Henrique respondeu ela, pegando na clutch. Nada de convidados, nada de tachos, nada de corta o tomate ou onde estão as minhas pantufas. Só nós dois, um restaurante caro e silêncio absoluto. Quero saborear um bife sem ouvir dicas da tua mãe sobre mastigação saudável.
Henrique riu-se. Ele bem sabia que a relação de Inês com Dona Odete era uma espécie de guerra fria: ora glaciares de silêncio, ora bombardeamentos de conselhos indesejados.
Feito. Hoje, és tu quem manda concordou ele.
O restaurante Pavão Dourado não era escolha ao acaso: um sítio pomposo, com estuques, cortinados de veludo e preços que faziam qualquer português franzir o sobrolho e pôr-se a fazer contas de cabeça. O sítio ideal para se sentir rainha do pedaço.
Entraram no salão, à espera da tranquilidade de uma mesinha junto à janela. O gerente, de sorriso Colgate, conduziu-os para o fundo do restaurante. Mas não para a janela.
Aqui está a vossa mesa anunciou, apontando para o centro do salão.
Inês gelou: em vez do recanto a dois, havia um banquete para doze montado bem no centro. E não estava vazio.
Na cabeceira, mais majestosa que uma duquesa exilada, estava Dona Odete toda vestida de lurex cintilante. Ao lado, o tio Manel, primo afastado que Inês só via em funerais, enchia a boca de pataniscas. Do outro, a cunhada Graça limpava o queixo do filho mais novo com o guardanapo, enquanto o mais velho, traquina de sete anos, picava o estofo da cadeira antiga com o garfo.
Surrreeeessaaa! proclamou Dona Odete, assim que viu os atónitos recém-chegados. A sua voz tinha a ressonância de quem já trabalhou anos nas finanças.
Toda a sala se virou. Henrique ficou lívido e espreitou a mulher. Inês manteve-se muda, só com aquele olhar frio que prenunciava justiça à moda antiga.
Mãe…? murmurou Henrique. O que é que estão a fazer aqui?
Então?! Dona Odete agitou as mãos, quase derrubando o copo. Tens a tua esposa de parabéns! Achavas que íamos deixar a pobre Inês sozinha? Somos família! Sentem-se, sentem-se, nós já começámos enquanto esperávamos.
Inês aproximou-se devagar. A mesa ameaçava ceder com tanto bacalhau, presunto, garrafas de Porto e ostras que o tio Manel olhava de lado mas comia como um buldózer.
Dona Odete, disse Inês com uma calma suspeita reservámos só para duas pessoas.
Ai, não sejas assim, pá! desvalorizou Graça, enchendo o copo. A mãe telefonou e avisou que éramos mais. Deu um bocadinho de confusão, mas a coisa resolveu-se! Inês, para que queres um vestido com as costas à mostra? Com quarenta anos já era altura de esconder os ossos!
Graça, tens molho no queixo ripostou Inês com um sorriso glacial e o teu filho está prestes a entornar o molho todo no tapete persa do século XVIII.
O estrondo de vidro partido confirmou o mau presságio. O petiz de Graça havia já despejado o arranjo de flores ao chão.
Que se parta! berrou Dona Odete por cima do barulho. É sinal de felicidade! Senhor empregado, traga aí salada de polvo e os pratos quentes!
Inês sentou-se. Henrique encolheu-se até parecer um berlinde, reconhecendo no olhar da esposa o calibre de quem está prestes a pedir a conta a alguém.
Então isto era um… surpresa? perguntou Inês com toda a serenidade, abrindo o guardanapo.
Claro! exclamou Dona Odete, já a engolir outro medalhão de bacalhau. Sabemos que és forreta, fazes tudo sozinha… Aqui ninguém passa fome hoje! Até o tio Manel veio de propósito do interior, faltou ao trabalho.
Sou ajudante de armazém, rebentei as costas, preciso de descanso esclareceu o Manel. E esse Porto é que é bom, Inês! Não é o zimbro que tu serviste no Natal passado…
A ousadia crescia: Graça criticava alto que Inês devia era ter filhos (os teus relógios nem tique-taque fazem, antes cucam!) e carreira era só para homens. Dona Odete incentivava, acrescentando ao pedido as iguarias mais caras.
Quero experimentar lagosta ordenou a sogra. Nunca comi. E para a Graça também! Para as crianças, sobremesa, a maior.
Mãe, isso fica caro… murmurou Henrique.
Calado! cortou-lhe Dona Odete. A tua mulher faz quarenta anos, abre os cordões à bolsa!
A apoteose surgiu ao fim de uma hora. Dona Odete, já coradinha do verde vinho, levantou-se, bateu com o talher no copo:
Inêsinha começou, num tom venenoso já vais em quarenta. Vida de mulher não se faz à conta, vê a Graça três filhos e um marido que, embora beba que nem um penico, sempre cuida do quintal. E tu? Escritórios, ginásio… Egoísta! Mas, vá, gostamos de ti, vai-se lá saber porquê. À família!
À família! cortou o Manel.
Graça riu-se, Henrique preparava-se para intervir mas Inês parou-o com um gesto. Levantou-se, a sala silenciou. O sorriso de Inês fez o empregado recuar meio passo.
Obrigada, Dona Odete, disse Inês, firme acabou de me abrir os olhos. Pensei que o aniversário fosse meu, mas vejo que é da família.
A sogra acenou, orgulhosa.
E já que falamos em surpresas e generosidade… Inês fez uma pausa. Empregado!
O rapaz apareceu a correr.
A conta, por favor.
Agora? admirou-se Graça, lambendo o dedo coberto de mousse. Ainda não chegou a sobremesa!
Aproveitem, aproveitem assentiu Inês.
O empregado trouxe a conta. Quando Inês abriu o talão, quase teve uma síncope: com aquele valor, alguém comprava um Renault usado em bom estado. A família, em menos de duas horas, devorara e bebera como se não houvesse amanhã mais de 1 500 euros à bela portuguesa.
Xiça! assobiou Dona Odete. Henrique, saca lá do cartão!
Inês fechou a pasta e passou-a ao empregado.
Por favor, disse em voz alta para todos ouvirem faça a conta separada: dois Caesar, dois rib-eye e água. Era só isto, obrigado.
O silêncio abateu-se na sala. Até a mosca parou no ar.
Como? o rosto de Dona Odete ficou cor vermelho maduro. Inês, é piada?
Nada de piadas esclareceu Inês, encostando o cartão ao terminal. Bip. Pago.
Não podes fazer isto! choramingou Graça. É o teu aniversário! Tu convidaste-nos!
Eu? Inês levantou as sobrancelhas. Vocês disseram: Surpresa!
Levantou-se, endireitou o vestido e olhou a sogra de cima.
Vieram ao meu dia sem convite, pediram o que não era suposto, azedaram o ambiente e ainda me deram lições. Pois fiquem sabendo: surpresa boa é paga por quem a faz.
Henrique! choramingou Dona Odete, agarrando-se ao peito. A tua mulher está maluca! Faz qualquer coisa! Estou para morrer!
Henrique ergueu-se devagar, perscrutando a sala. Olhou para a mãe, depois para o tio Manel que, sem jeito, tentava esconder a garrafa de Porto. Fixou a irmã e os sobrinhos, imundos de migalhas.
Mãe, disse com calma a Inês tem razão. Isto era para ser uma surpresa? Aproveitem bem. Nós os dois vamos seguir caminho. Ainda temos planos.
Depois, agarrou o braço de Inês e encaminharam-se para a porta.
Ingratos! berrou Dona Odete, esquecida da tensão e do falso enfarte. Nem um euro vos desejo! Graça, chama a polícia!
Não há necessidade intrometeu-se o gerente, robusto e de auricular, ladeado por dois seguranças. Mas a conta tem de ser paga. Agora.
Inês e Henrique saíram, atravessando o mar de acusações disparatadas pelas costas.
Não tenho isso tudo! gritava Graça, mãos no ar. O Manel é que comeu mais, que pague ele!
Eu? indigna-se o Manel. Só provei as entradas! Foi a tua mãe!
Quem? urrava Dona Odete, já sem filtro.
Ao apanharem o ar fresco da noite lisboeta, Inês respirou fundo, sentindo-se leve.
Estás bem? perguntou Henrique, rodeando-a com o braço.
Sinto-me ótima Inês sorriu, desta vez genuinamente. Melhor presente de anos. Como largar uma mochila cheia de calhaus que levei uma década às costas.
Eles nunca nos vão perdoar… gracejou Henrique.
Espero que não. Agora já perceberam que surpresa pode ter troco.
Epílogo (uma semana depois)
O número de Dona Odete já estava bloqueado, mas as novidades passavam pelos conhecidos. A vingança abateu-se célere: andavam todos tesos. O escândalo no restaurante arrastou-se hora e meia.
Gerente inflexível. Manel teve de deixar em penhor o relógio dourado que tanto gabava e preencher uma declaração. Graça telefonou ao marido furioso, que chegou a bufar andava a juntar para os pneus novos e agora, além de falhar a revisão, entrou Inverno em modo contenção.
Quanto à Dona Odete? Tentou a cena do enfarte, mas o INEM diagnosticou só um excesso de verde tinto e excesso de rissóis. Teve de ir ao colchão guardar para o casaco novo.
O melhor de tudo? Começaram à bulha entre si. Graça culpa a mãe, a mãe acusa o Manel, o Manel quer o relógio de volta. O clube anti-Inês implodiu.
Inês, tranquila, tomava café na cozinha, de livro na mão. Nenhum telefonema a pedir transferências, ninguém a pregar moral.
A justiça, afinal, serve-se fria. E, de preferência, com uma conta separada.






