Aurélia era má. Má, mas daquelas que até metem pena, de tão mázinhas que são. Uma vergonha, coitada da Aurélia. Toda a gente fazia questão de lhe lembrar o quão má era. Má, e ainda por cima, pouco sortuda. Marido, nem vê-lo, filho já homem feito, mora longe. Aurélia sozinha no apartamento, desnecessária a todos.
Chega à repartição numa segunda-feira, e ali estavam elas, a vangloriarem-se dos dotes domésticos do fim de semana: uma lavou, outra esfregou, outra até fez compota na casa da sogra no Cartaxo. E Aurélia? Calada, mexia no café sem açúcar. Que havia ela de dizer? Marido, nem vê-lo, o filho fora de casa pois claro que ficava a comer o silêncio às colheradas.
Saiu mais cedo outra vez já é de lei, duas vezes por mês pede para sair antes. As colegas, entre o roer de bolachas e o levantar das sobrancelhas, já murmuram: que vai ela encontrar-se com os seus inúmeros amantes, essa má pecadora! Toda a gente sabe! A trabalhar, mulheres decentes, elas, sim. Aurélia, má. Muito má.
Aurélia diz-lhe a mãe, com a voz arrastada , mas porque é que tu és assim?
Assim como, mãe?
Uma desgraçadinha, filha! Ao menos arranjavas um homenzito. Olha que ainda vais a tempo de ter outro filho, hoje em dia toda a gente tem filhos depois dos quarenta.
Oh mãe, mas para quê? Eu já tenho o Joãozinho, chega-me bem. E homem para quê? O que é que fazia eu com ele? Já tenho o Ernesto.
Aurélia! A mãe faz-se de escandalizada O Ernesto não é teu homem!
Como não é? e desata-se à gargalhada Leva-me a jantar, dá-me prendas, leva-me de férias, não se põe a dar-me ordens, nem me manda limpar janelas na casa da mãe dele, não exige jantar pronto nem roupa lavada; nem se estende no sofá a pedir favores!
Ah, maravilha.
Pois, maravilha… Mas deixa lá, que é a pobre da mulher dele que atura isso tudo.
Tu querias que fosse eu? Já fui duas vezes, mãe. Duas! E fugi a correr, quase deixava as pantufas.
Primeiro casamento, com o pai do Joãozinho, só casei porque tu insistes-te: É mais velho, sabe o que faz, tem posses, ama-te, respeita-te, é sério… Pois sim. Cinco anos presa. Não podia estudar, nem sair com amigas, nem passar tempo com o Joãozinho era nova, não sabes, só podia trabalhar para ele e para a santa da sogra. Ai, mas ao menos tinha ouro… Pois, ouro. E era sair à rua uma vez por mês, mostrar à malta que a mulher era honesta e nova ao contrário das outras. Mas ele, pois claro, não resistia às bonecas. E quando fugi e pedi o divórcio? Até quis as cuecas de volta, mãe! Cuecas!
Segundo casamento? Por amor, que ingenuidade! Estudava, trabalhava, para não ser peso morto para ti e para o pai. Lembras-te? Tu, nunca me negaste nada, mas havia quem não fosse assim! Quem vivia à sombra da tua força era o pai… E o meu querido irmão, Martinho, esse então! Dois empregos, tu, a correr entre casas, a alimentar os teus galitos um no sofá, outro ao computador. Eu, por amor, casei outra vez, sem amor é que não podia. Mudou alguma coisa? Só trabalho. Eu era a Lurdes dos favores: cuidava do Joãozinho, ia às compras, lavava a roupa, carregava sacos sozinha carro, claro que não, o carro era para o marido que, afinal, não ia de elétrico para o emprego. Vida de mulher portuguesa! Cozinhava, punha a mesa, alimentava tudo e todos, depois ainda tinha que afagar o marido, que não viesse ele a saltar a cerca! Se não havia dinheiro, era porque o Joãozinho precisava, filho dele não era, por isso, que procurasse parvo que sustentasse a mãe solteira e o rebento não era ele!
Lá se fez à vida, e eu também, mãe! Já casei com quem ganha mais, já casei com quem ganha menos, e, no fim, só para mim é que nunca era bom.
Aurélia, toda a gente vive assim, filha.
Pois, que vivam! Eu não quero.
E tu, mãe, como passaste o sábado?
Olha, a Mónica e o Martinho deixaram-me os miúdos, fui com eles ao parque, fiz panquecas, limpei um pouco, aspirei, lavei o chão, pus a roupa a lavar, embrulhei os miúdos na cama, dei jantar ao avô, fui passando a ferro, e só depois consegui deitar-me, já passava da meia-noite.
Domingo de manhã, acordaram cedo, queriam panquecas, toma panquecas. Almoço? Veio o Martinho, frango assado, salada, pizza, arrumei tudo, caí para o sofá exausta.
Então, filha, nunca te lembro de me largares o Joãozinho só porque sim… Nunca me atiraste o miúdo e foste passear feita madame.
Eu era mais independente, mãe, estes agora, ui
Oiço-te, e até me arrepio. Queres ouvir como foi o meu fim de semana? Sexta à noite, o Joãozinho ligou: Ficas com o Barroso? Barroso é o gato da Marina, a namorada do Joãozinho se sou lesses mais sobre a vida dele, sabias. Trouxeram o gato e uma pizza e fizeram-se à vida.
Eu, pizza pela noite fora, e séries, imagina! Porque podia dormir até tarde.
Sábado, levantei-me às dez, fiz café, dei comida ao Barroso, limpei o pó, pus uma máquina a lavar, liguei-te para ir ao museu ou qualquer coisa. O pai atendeu, tu estavas com as mãos na água. Chamou-me dona vadia, que a mãe trabalhava e eu só passeava. Ia ofender-me, mas lembrei-me: era parvo não vale a pena.
Fui ao museu, estava lá uma exposição do teu pintor favorito, mãe lembra-te de quando gostavas dele! Fui ao café, dei umas voltas nas lojas, vim para casa, Barroso dormia como um rei. Ainda pensei sair mais, mas fiquei na ronha no sofá.
Domingo, dormi até às onze, quis chamar-te para irmos passear de cacilheiro ali no Tejo, quem atendeu? A Mónica, a boca cheia, tu ocupadíssima a lavar loiça.
À noite, o Ernesto convidou-me para jantar, aceitei e por que não? Eu sou livre, não lhe pergunto como está a mulher dele, nem ele me conta os problemas: somos leves. Passei uma noite ótima, fui dormir cedo, fresca pronta para segunda-feira.
Já tentei andar com solteiros, mãe. Uma tristeza! Uns querem mãe, outros são divorciados cheios de filhos, outras ex-mulheres para sustentar.
E ainda me dizem: tens obrigação de amar os meus filhos, é natural, mulheres são assim! Ele? Olha, sobra-lhe dinheiro para a pescaria, e a mim restava o ordenado que ele gastava com o isco, ficava eu com a conta do supermercado. Da minha criança, nem pensar, o puto tem pai, que seja ele a ajudar. Justo? Pois, justo Foi de vela rápido, que o Joãozinho tem mãe e bem boa.
Sou má, demasiado exigente, uma egoísta, calculista dizem eles. Queria era pendurar o puto num desgraçado e gozar Pois claro.
Por isso, mãe, fiquei com o Ernesto. Nas vossas contas, continuo má. Só que eu não sinto a menor vergonha de assim viver. O que me custa é ver a tua vida, sempre presa à rotina. Por isso, enganei-te hoje disse-te que precisava de ajuda só para te arrancar de casa.
Mãe, comigo está tudo bem. Agora vamos é tratar de nós, tu e eu. Aproveita este tempo, desfruta da tua filha.
Estás doida, Aurélia? E o pai?
O pai está doente?
Não, mas o almoço…
Não acredito que não tenhas o almoço pronto!
Faltava aquecer e, além disso, a Mónica…
Mãe! Olha que posso ofender-me Já sei que sou má, mas deixa-me pelo menos ser boa filha, vá, vamos sair. Por favor?
Na segunda-feira, as colegas arrastam as pernas, a queixar-se do descanso do fim de semana. E Aurélia, ai Aurélia, pisca o olho, sorri de canto, gira nos corredores todos sabem que Aurélia é má. E só ela sabe porquê. Ora pois!







