SENHORA DO DESTINO
Ó homem, por favor, deixe de me seguir! Já lhe disse que estou de luto pelo meu marido. Não me persiga! Já começo a ficar assustada consigo! acabei por levantar a voz.
Lembro-me, lembro-me Mas dá-me a sensação de que está de luto por si mesma. Desculpe-me não se calava o meu pretendente.
Estava eu numa estância termal, a tentar descobrir o milagre do descanso. Só queria sossego e o chilrear dos passarinhos, não conversas de homens entediantes. O meu marido tinha falecido há pouco tempo. Precisava de encontrar um bocadinho de paz para lamber as minhas feridas e perceber esta perda absurda.
Eu e o Gregório tínhamos começado a remodelar o apartamento, poupávamos cada centavo, quase vivíamos a pão e água E, de repente, pronto, foi-se. O Gregório sentiu-se mal, veio o INEM, mas pouco puderam fazer foi o segundo enfarte, não resistiu. Fiquei eu, duas mãos a abanar, dois filhos adolescentes, nada de meio laranja, menos ainda de obras na casa. As forças só me davam para suspirar. Como é que se sobrevive ao vazio?
No trabalho, deram-me uma estadia nas termas. Relutei. Já nem sair do quarto queria. Mas lá insistiram:
Não és a primeira viúva, nem serás a última. E tens dois filhos, Cecília! A vida continua. Vai espairecer um bocadinho, põe a cabeça em ordem.
Lá fui, contrariada.
Tinham passado quarenta dias desde a morte do Gregório. A dor teimava em marinar o peito.
Na estância, puseram-me no quarto com uma fulana sempre de sorriso rasgado: a Tatiana. Um raio de sol, a rapariga, mas energia a mais para quem só queria um ninho de silêncio. Não me apetecia despejar as mágoas sobre ela. E, francamente, será que lhe interessava?
Já lhe andava um recreador atrás porque nestes sítios, como se sabe, os solteirões, divorciados e viúvos têm a criatividade à flor da pele. Mas a mim não me enganam… E já avisava a Tatiana: aquilo era homem para ter duas ou três à perna.
Ela ria-se:
Ó Cecília, não se preocupe! Eu já sou experiente nestes assuntos…
E lá ia o pardalito dela, todas as noites, pelas asas do namoro fora. Eu, pelo contrário, fiquei uma semana de quarentena voluntária no quarto: lia livros que não me ficavam na memória, via televisão e nem reparava nas imagens.
Uma manhã acordei invulgarmente animada. Abri a janela: sol, céu limpo, cheiro a pinheiro. Se calhar vou dar um passeio pelo bosque, ouvir os pássaros. Mal pus o nariz fora da porta, cruzei-me com um desconhecido.
Já o tinha visto no refeitório. Não gostei do ar do senhor pequeno, atrevido, olhava-me sem vergonha nenhuma. Era um daqueles homens minúsculos que olham sobretudo para cima. Enfim, não era simpático.
O homem, porém, sempre muito arranjadinho, barbeado à navalha, roupas de catálogo. Ao jantar, fazia-me vénias do outro lado da sala. Eu respondia com um aceno, assim só por boa educação.
Um dia, toma lá disto, senta-se à minha frente.
Está aborrecida, menina? perguntou, em tom sedoso.
Nem por isso respondi, emancipada.
Não minta, menina. Tem a tristeza escrita na cara. Talvez eu consiga ajudar? insistia o petulante.
Pois adivinhou. Estou de luto pelo meu marido. Mais alguma pergunta? sequei as mãos ao guardanapo e levantei-me para dar por terminado o bate-papo inútil.
Peço desculpa. Os meus sentimentos. Mas… deixe-me apresentar: sou o Valentim disse, todo apressado.
Via-se mesmo que o Valentim tinha medo de me perder de vista.
Cecília balbuciei, já a virar costas.
A partir daí, ficava sempre na minha mesa ao jantar e dava-me raminhos de campainhas, flores que apareciam ali como cogumelos. Não nego: era simpático. Mas não tencionava dar-lhe esperanças. Para quê?
Só que o Valentim não desistia. Já me acompanhava nos passeios à noite. Eu, que já calçava só sapatos rasos não fosse dar diferença de altura. Mas o Valentim pouco ligava: o cabelo fugia-lhe, mas a confiança era de leão. Saía-se com um grave de voz que amolecia qualquer mulher. Acho que fui apanhada nas redes deste pescador de palavras.
Íamos dançar, fazíamos excursões à vila à procura de fruta decente O meu cavaleiro várias vezes insinuou que passasse pelo quarto dele para um chá tardio. Mas eu mantinha-me firme, que a honra é coisa do século passado, mas alguma tradição tem de sobrar.
Por fim, na véspera da partida, o Valentim saiu-se com um convite requintado:
Cecília, amanhã já te vais embora. Não vens ao meu quarto beber um chá comigo, só para nos despedirmos?
Logo se vê atirei, misteriosa.
E assim foi: no último serão, cedi. Não tinha coragem de dizer não a um homem sedento de companhia. Quando cheguei, a mesa estava posta como num restaurante fino: os talheres, de certeza, foram gamados da cantina. Havia champanhe, petiscos.
Vamos brindar, Cecília? Não sei como é que me vou aguentar amanhã sem ti. Deixa-me o teu endereço: prometo visitar-te suspirou Valentim.
Vais esquecer-me em dois dias, conheço a vossa raça. Mas, diga lá: por que brindamos?
Por amor, Cecília, por amor! disse, levantando o copo.
De manhã, acordei nos braços do Valentim. Céus, tanta resistência e afinal valia a pena? Porque é que não lhe bati à porta logo no primeiro dia? Em suma, apaixonei-me como uma miúda. E agora tinha de fazer as malas e zarpar.
Despedi-me da Tatiana, que estava encolhida na cama, a chorar desalmadamente.
O que se passa, Tatiana?
Estou grávida, Cecília. E nem sei de quem soluçava ela.
Aposto que foi aquele teu recreador…
Não sei. Conheci outro rapaz, do hotel ao lado. Casado, veja lá!
Ai Tatiana, vai ter que chamar os teus pais, para te ajudarem. Que confusão! Olha, vamos falar com a diretora do hotel, vê-se o que se faz.
A Tatiana saiu disparada, feito aguaceiro em agosto. Tadita, anda uma jovem a creditar-se aos galanteios de meia dúzia de pernetas, só confusão.
Eu preparei-me para voltar à rotina. Vinte e quatro dias depois, já sentia falta daquele sítio especialmente do Valentim…
Chegou o autocarro. O Valentim apareceu para me despedir, raminho de campainhas na mão. Fiquei de lágrima no canto do olho, dei-lhe um abraço apertado. Estava tudo dito. Fim de verão, fim de romance. Mas se o Valentim me chamasse, eu largava tudo e corria atrás dele
Morávamos em cidades diferentes. Trocávamos só cartas. Até que um dia recebo uma carta não do Valentim, mas da senhora Valentim. Dizia ela que sabia tudo, mas que não valia a pena, que ela tinha trinta anos e eu quarenta, por isso nada feito. Nem respondi. Para quê?
Seis meses depois, o Valentim aparece-me à porta. Os meus filhos, Martim e Tomás, ficaram a olhar para ele como quem vê uma estrela de cinema.
Valentim? De passagem ou…? apostava eu ouvir um: Vim para ficar.
Ou… talvez. Não me escorras, Cecília?
Os miúdos, embaraçados, refugiaram-se no quarto.
Então, Valentim, que vento te trouxe? Vieste entregar-me outra carta da tua esposa? ironizei eu.
Desculpa, Cecília. Escrevi-te uma carta e a minha ex-mulher leu. Sinto muito. Já nos divorciámos confessou-se.
Não fazias ideia que eras casado ou que tinhas sido. Agora? nem queria pensar nas consequências.
Vamos casar, Cecília propôs inesperadamente.
Não sei, homem. Tenho dois rapazes, viste bem. Como é que vão reagir? Não sou de decisões repentinas hesitei, mas por dentro estava com o coração aos pulos.
Ter filhos é ótimo. Eu também tenho uma uma menina de dez anos , surpreendeu-me Valentim.
Tens uma filha? E agora ficas sem ela?
Nem pensar, Cecília! Vou buscar a Leninha, a mãe tem uns copos a mais… Vamos viver todos juntos, uma família feliz anunciou o meu noivo.
Calma lá, Valentim! Eu nem conheço a tua filha e já queres que seja madrasta? Uma coisa de cada vez. Vou falar com os meus filhos, depois te digo. Anda, almoça qualquer coisa, noivinho à pressa sorri eu, a digerir tudo.
A verdade é que família feliz foi coisa que ficou nos contos de fadas. Houve zaragatas, portas a bater, discussões. Cada um com o seu feitio. Nem todos sabem engolir o orgulho a tempo.
O tempo voa, como um comboio para o Algarve em agosto.
O meu filho mais velho, Martim, e a filha do Valentim, a Leninha, acabaram por casar… e viraram costas a mim e ao pai. Diziam que tínhamos destruído famílias, que o Valentim nunca devia ter fugido da mulher e que eu, viúva, devia ter ficado quieta. Foram viver para um T1 arrendado, muito ofendidos.
Eu e o Valentim olhámos um para o outro, demos de ombros e continuámos a gostar um do outro à nossa maneira.
Passou um ano.
Os filhos pródigos não voltaram. A Leninha só telefonava ao pai no aniversário dele.
Ao fim de três anos, convidaram-nos para jantar. Fomos Meio desconfiados, mas fomos.
Afinal tinham tido um bebé, o nosso primeiro netinho em comum. Alegria como nunca! À mesa, pediram-nos desculpa. Explicaram-nos que a vida é cheia de reviravoltas, que é preciso saber perdoar, e agradecer aos pais por nos trazerem ao mundo. Por isso, chamaram ao filho Salvador, para que trouxesse paz à família.
E assim, eu e o Valentim ganhámos finalmente o nosso recém-nascido pedaço de felicidade.







