Nunca amei a minha esposa, mesmo tendo-lhe dito isso cem vezes. A culpa não era dela – vivíamos bem

Nunca amei a minha mulher, por mais que já lho confessasse cem vezes. Ela não tinha culpa vivíamos bem. Nunca discutia comigo, nem me chateava era bondosa e calma. O único problema na nossa relação era a ausência total de amor. Talheres e utensílios de cozinha pairavam entre nós como um silêncio pesado.

Todas as noites adormecia e acordava a pensar que um dia teria coragem de sair de casa. Procurar aquela mulher que fosse capaz de me fazer sentir amor verdadeiro.

Mas será que conseguiria? Ao lado da Mariana sentia-me confortável. Além de excelente dona de casa, a minha mulher era uma mulher lindíssima. Até hoje os meus amigos me invejam e não entendem como tive tanta sorte. Eu próprio não sei o que ela viu em mim para me amar daquela forma.

Sou um homem normal, sem nada de especial no meio de tantos outros. Mas ela amava-me Um verdadeiro mistério

O amor e a dedicação da Mariana não me davam descanso. E mais ainda, a sua beleza incomodava-me de certa forma. Sabia perfeitamente: no momento em que lá fora, ao romper todos os laços, outro se apresentaria para lhe conquistar o coração. Um homem mais rico, mais bonito, mais bem-sucedido.

Só de imaginar outro a abraçá-la, sentia-me a enlouquecer. Mariana era minha, mesmo sem eu sentir absolutamente nada por ela. Nem nunca senti. Casei com ela porque o simples facto de ter ao lado uma mulher tão bonita me dava prazer e vaidade.

Mas não se pode viver a vida inteira sem amor. Penso sempre que vou ser capaz de mudar, mas engano-me redondamente. Cozinha e sala de jantar, sempre frias

Tenho de lhe contar tudo amanhã, pensei para comigo, embalado finalmente pelo sono.

Na manhã seguinte, ao pequeno-almoço, decidi abrir o coração:

Mariana, senta-te. Preciso de te dizer uma coisa.

Estou a ouvir, querido.

Imagina só: nós os dois a separarmo-nos, cada um para seu lado aqui em Lisboa.

Mariana riu-se, suavemente:

Que ideia tão estranha… Isto faz parte de algum jogo?

Por favor, ouve-me até ao fim. É importante para os dois.

Pronto, já imaginei. Continua.

Diz-me com sinceridade, se eu um dia sair desta família, achas que encontras outro homem?

Rafael, o que se passa contigo? Por que raio havias tu de sair de casa?

Porque não te amo e nunca te amei.

O quê? Estás a brincar comigo? Eu não percebo nada

Quero sair de casa, mas não consigo, porque pensar em ti com outro magoa-me.

Mariana ficou calada durante minutos, depois respondeu, serena:

Melhor do que tu não vou encontrar, disso não tenhas dúvidas. Por isso, vai, sem medo de que eu venha a estar com alguém que não sejas tu.

Prometes?

Claro. garantiu Mariana, olhando-me nos olhos. Acessórios femininos sobre a mesa.

Mas para onde é que eu vou?

Não tens para onde ir?

Não, vivemos juntos a vida toda. Talvez o destino seja mesmo estarmos juntos até ao fim, disse eu com tristeza.

Não te preocupes. Quando formos oficialmente separados, vendemos esta casa e compramos dois pequenos apartamentos.

A sério? Não esperava tanta ajuda tua. Porque fazes isto?

Porque te amo. E quando se ama alguém, não se pode obrigar essa pessoa a ficar, respondeu-me Mariana, com uma calma desarmante.

Passaram alguns meses e o divórcio foi consumado. Umas semanas depois, soube que Mariana não tinha cumprido a promessa e, ao contrário do que disse, encontrou logo outro homem. E vender a casa, que herdou da avó, nunca esteve nos planos dela.

Fiquei sozinho, sem nada tão só como um velho candeeiro apagado. Depois disto, como confiar de novo numa mulher? Não faço ideia

O que acham de Rafael?

Esta história é baseada numa experiência real enviada por um leitor. Qualquer coincidência com nomes ou locais é pura casualidade. Todas as imagens neste artigo são meramente ilustrativas.

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Остави я с децата. Десет години по-късно се върна – но тя вече не беше същата жена.