Ontem à noite aconteceu uma história daquelas que nos faz mesmo pensar duas vezes sobre como olhamos para os outros. Isto tudo foi ali à porta de um dos restaurantes mais caros aqui em Lisboa, daqueles cheios de luzes e onde só se vê gente toda bem vestida.
Imagina: O restaurante está em alta, muita conversa e carros de luxo a parar na porta. Sai cá para fora o Tomás, impecavelmente vestido com um fato à medida, e a Inês, que tinha um vestido de noite lindíssimo nota-se à distância que foi caríssimo.
Mesmo ali à entrada, encostado a uma coluna discretamente, estava um senhor de idade, cheio de rugas e com um casaco velho, todo desbotado. Dava para ver que já tinha passado por muita coisa. O senhor nem tirava os olhos do Tomás.
A Inês olhou logo com ar de nojo e agarrou-se ao braço do Tomás. E diz-lhe assim, baixa mas num tom que se ouviu bem:
Nem olhes para ele, Tomás! É só mais um a tentar sacar uns trocos. Vamos mas é já para o carro.
Só que o Tomás nem mexeu um dedo. Soltou-se devagar do braço dela, ficou com uma cara completamente diferente sem desprezo nenhum, só respeito e um carinho enorme. Aproximou-se do senhor quase até ficarem frente a frente.
A Inês ficou a olhar, sem perceber nada. E nisto, o Tomás mete a mão ao bolso do casaco e tira um envelope gordo, daqueles mesmo a sério nada de moedas ou trocos.
E diz, com voz forte, para toda a gente ouvir:
Tu dedicaste a vida toda a criar o meu futuro, pai. Fizeste sempre tudo para que eu chegasse onde estou. Agora é a minha vez de olhar por ti.
Tomás mete o envelope nas mãos trémulas do senhor. A Inês ficou branca como a cal acho que nunca a vi tão surpreendida. O senhor olha para o envelope, depois para o filho, os olhos cheios de lágrimas.
Filho, não preciso de nada… Só quero saber que és feliz, sussurrou o pai, a quase chorar.
O Tomás abraçou-o forte, nem se importou com o fato caro ou com quem os via. Depois até se virou para a Inês e, de repente, já não era o mesmo olhar quente de antes estava gelado.
Sabes, Inês, diz ele, calmo, o meu pai ensinou-me a dar valor às pessoas, não à aparência. Tu viste um sem-abrigo, eu vi o homem que me deu tudo para chegar aqui. Acho que cada um segue o seu caminho.
Depois só abriu a porta do carro, ajudou o pai a sentar-se ao lado dele e arrancou, deixando a Inês ali plantada no passeio, sozinha.
Sabes qual é a lição? Nunca julgues ninguém pela aparência. Por trás de um casaco velho pode estar um coração de ouro, e atrás de um vestido caro nada de especial.
E tu, o que achas da atitude do Tomás? Conta-me!






