Depois de três anos enclausurada, regressei a Lisboa e soube que meu pai tinha morrido, e agora a minha madrasta comandava a antiga casa dele. Ela desconhecia, porém, que ele escondera uma carta e uma chaveprovas que trariam à tona a farsa montada contra mim.
Cheguei à estação rodoviária ainda antes do nascer do sol. O cheiro a gasóleo, café torrado e metal frio enchia o arum perfume ácido típico de madrugada, capaz de nos lembrar que o mundo segue o seu curso enquanto nós permanecemos parados. Atravessei os portões de ferro com um saco de plástico transparente nas mãos, transportando os meus únicos bens: duas camisas de flanela, um exemplar esfolado de O Conde de Monte Cristo e o pesado silêncio de três anos ouvindo que as minhas palavras nada valiam.
No entanto, ao pisar o empedrado rachado da rua, não pensei nem na prisão, nem no rumor das ruas, nem na injustiça que me tirou os dias.
A minha mente fixava-se apenas numa pessoa.
O meu pai.
Todos os serões, na minha cela, reconstruía-o no pensamento: sempre no mesmo sítio, afundado na velha poltrona de pele ao lado da janela em arco, sob a luz dourada dos candeeiros que desenhavam rugas profundas no seu rosto marcado. Nos meus sonhos ele nunca partia, nunca me esquecia, aguardando por aquela filha que existia antes das manchetes, antes de ser traída pelo mundoantes de todo Portugal acreditar que Catarina Loureiro era culpada.
Mesmo com o estômago às voltas, ignorei a tasca da esquina. Não liguei a ninguém, nem me detive a olhar para o papel com a morada da reintegraçãodobrado, esquecido no bolso.
Fui direita para casa.
O autocarro deixou-me a três ruas dali. O resto do percurso fiz a correr, o peito a arder, o coração disparado como se quisesse apanhar o tempo perdido. No início, tudo soava familiaros passeios gastos, o velho plátano a dobrar-se na esquinamas quanto mais me aproximava, mais tinha a certeza de que algo mudara.
Os corrimãos ainda existiam, mas a tinta branca gasta dera lugar a um azul-acinzentado cuidado e fresco. Os canteiros que o meu pai tanto estimava estavam podados e decorados de plantas que não conhecia. Na entrada, onde outrora só o pó e as folhas brincavam, dois carros reluziam: um sedan e um jipe, importados e caros.
Abrandei os passos.
Ainda assim, subi as novas escadas.
A porta de entrada, outrora azul-escura para dissimular melhor a sujidade, ostentava agora um cinzento-carvão com um batente de latão. O velho tapete castanho fora substituído por um de fibra de coco, impecável, com as palavras:
Lar Doce Lar
Bati.
Não com doçura.
Nem timidez.
Bati como uma filha que contou os 1.095 dias da ausência. Que ainda acredita pertencer ali.
A porta abriu-se, mas o calor que esperava nunca chegou.
Diante de mim estava Sónia.
A minha madrasta.
A perfeição do seu penteado. A camisa de seda engomada. Um olhar afiado que me perscrutava como se eu fosse um contratempo, um erro desviante do seu plano.
Por um instante, pareceu que vacilava, ou talvez se abrandasse, ou ao menos demonstrasse surpresa.
Nada.
Tem de sair disse, sem emoção.
Onde está o meu pai? a minha voz soou áspera, demasiado alta.
Os lábios dela contraíram-se num traço frio.
E então, a sentença:
O teu pai faleceu o ano passado.
Essas palavras pairaram no ar, irreais.
Enterrado.
Há um ano.
O meu raciocínio recusava aceitar. Esperei por explicações, por crueldade disfarçada de brincadeira.
Mas Sónia nem pestanejou.
Agora moramos aqui. O melhor é retirares-te.
O corredor atrás dela era desconhecido: móveis novos, quadros diferentes. Nenhum sinal dos sapatos do pai, nem casaco, nem o cheiro a madeira ou a café.
Era como se ele tivesse sido apagado.
E ela segurava a borracha.
Preciso vê-lo supliquei, o desespero apertando-me o peito. O quarto dele…
Não resta nada respondeu, e fechou a porta. Sem violência, apenas decidiu fechá-la. Devagar. Para sempre.
O trinco rodou.
Fiquei ali, estatelada.
Ali, ali soube que o meu pai já não existia, vi-o, na ideia, à entrada de casaa tornar-se estranho.
Nem me lembro como fui embora. Apenas caminhei, andando até as pernas doerem e as palavras perderem o eco.
No fim, dei comigo no único lugar possível.
O cemitério.
Os pinheiros altos erguiam-se como sentinelas. Os portões de ferro chiavam à passagem. Não levei flores, só queria provas.
Cheguei ao escritório e escutei uma voz atrás de mim.
Procura alguém?
Era um senhor idoso, encostado a uma enxada junto ao barracão. Um olhar atento. Cuidadoso.
O meu pai disse. António Loureiro.
Observou-me com atenção. Depois abanou a cabeça.
Não procures mais.
O aperto no estômago voltou.
Ele não está aqui.
Chamava-se Manuel, o jardineiro. Disse-me que conhecera o meu pai.
Depois estendeu-me um envelope amarelado.
Mandou entregar-te isto. Se algum dia voltasses.
Dentro, estavam uma carta, um postal e uma chave.
ARMAZÉM 108 GUARDA NO RESTELO
A carta tinha sido escrita três meses antes de eu ser solta.
O meu pai sabia.
No armazém descobri tudo o que ele tinha ocultadopapéis, registos, provas.
Num vídeo, vi o meu paipálido, magro, porém firme.
Não foste tu, Catarina afirmou.
Sónia e o filho dela tramaram-me. Roubaram dinheiro, plantaram provas, usaram o meu acesso.
Doente, vigilante, receoso, o meu pai recolheu tudo. Silenciosamente.
E deixou para mim.
Não discuti. Procurei um advogado.
A verdade emergiu com rapidez: bens congelados, acusações, a minha sentença anulada.
No dia em que fui absolvida, não festejei.
Chorei.
Encontrei, depois, a verdadeira sepultura do meu paiescondida, serena. Um canto a salvo de Sónia.
Vendi a casa, recuperei o negócio com um nome novo. Criei um pequeno fundo para pessoas inocentes condenadas injustamente.
Porque há quem roube dinheiro.
E há quem roube tempo.
E só se vence criando algo íntegro a partir do que tentaram ocultar.
Não fui esquecida.
E a verdade já não jaz debaixo da terra.
Ela vive.
Fim.







