Trinta anos a trabalhar numa fábrica, para que os meninos tivessem uma vida melhor. Já no meu septuagésimo aniversário juntaram-se para me oferecer um cesto de flores, entregue pelo estafeta. Fiquei ali, de pé no meu apartamento vazio, com o cesto nas mãos e as lágrimas a correrem pela cara. Se há quarenta anos alguém me dissesse que este seria o cenário dos meus setenta anos, diria logo que era má piada. Mas a vida tem um sentido de humor sombrio nunca pergunta se estamos prontos para a punchline.
Naquela quinta-feira acordei às seis, mesmo sem precisar. Os velhos hábitos não morrem durante trinta anos levantei-me antes do nascer do sol para apanhar o autocarro das seis e meia até à fábrica em Loures.
Costurava batas, fardas, roupa de trabalho. Naquela Lisboa industrial, havia várias fábricas idênticas cheias de mulheres curvadas sobre as máquinas, com alfinetes nos dedos e os sonhos fincados nos filhos. Porque, francamente, para quem é que trabalhávamos, se não para eles?
O meu Artur, Deus o tenha, era revisor na CP. Entre os dois, íamos mantendo a casa. Não me queixo tivemos o nosso cantinho. Primeiro um T0 em Benfica, depois a troca por um T2 em Odivelas.
Aquecimento central, varanda com vista para o parque de estacionamento. Mas os meninos tinham sempre roupa lavada, almoço quente e manuais escolares. O Ricardo ia às explicações de inglês, a Rosa aos cursos de informática. O Artur fazia horas extra, eu arranjava uns trocos nas tardes a fazer bainhas às vizinhas ou vestidos para batizados.
E lá está: compensou. O Ricardo terminou Direito, hoje tem escritório no centro de Lisboa. A Rosa tem a sua consultora em Porto, qualquer coisa com branding e marketing, juro que nunca percebi ao certo, mas pelo menos recebe bem. Tenho orgulho neles, muito mesmo. Só que ultimamente esse orgulho tem o sabor a chá sem açúcar parece igual, mas falta qualquer coisa.
O Artur partiu há oito anos. O coração. De repente, sem despedidas à noite adormeceu no sofá e não acordou mais. No primeiro ano, os miúdos ligavam-me todos os dias. No segundo, ao domingo. Agora o Ricardo lembra-se se não se esqueceu, geralmente depois do almoço de domingo.
A Rosa manda SMS curtos, como se fossem telegramas: “Mãe, estás bem? Beijinhos.” Eu respondo: “Está tudo bem, filha.” O que é que posso dizer? Que à noite falo sozinha com a televisão? Que no sábado a única pessoa a dirigir-me a palavra foi a funcionária do Pingo Doce?
Preparei-me para os anos durante uma semana. Calei-me e pensei: mulher tola! Fiz o cheesecake, a receita da avó, comprei uma toalha de mesa nova. Tirei o serviço que trouxemos do casamento, porcelana fina, claro, nunca usada. Quatro pratos postos. O Ricardo disse que ia tentar cá dar um salto e a Rosa mandou mensagem: vejo como está a minha agenda.
De manhã toca o telefone, voz cansada. “Mãe, não consigo, há uma audiência que passaram para hoje — não posso mesmo faltar. Mas no sábado passo aí, está bem?”
Uma hora depois, SMS da Rosa. Nem ligou: Mãe, surgiu formação no Porto, não consigo mesmo, amo-te! No fimdesemana compenso!!! Três pontos de exclamação. Como se a quantidade deles substituísse a presença dela à mesa.
Fiquei na cozinha a olhar para aqueles quatro pratos. Para o cheesecake. Para a tal toalha nova cheia de girassóis, comprei-a por ser tão alegre. E depois fui guardando tudo. Pratos para o armário. Toalha dobrada. O cheesecake tapado com o pano.
Às três tocam à porta. O estafeta, um rapazote com vinte e poucos anos, farda azul-escura. Vinha com um cesto grande: rosas, lírios, mais umas flores que nem sabia o nome. E envelope: Querida Mãe, muita saúde e tudo de bom! Ricardo e Rosa.
O rapaz sorriu: Muitos parabéns, minha senhora! Tem quem a adore.
Aceitei o cesto pesava. Pousei-o na mesa da entrada, fechei a porta, sentei-me no tamborete do cabide. Cinco, vinte minutos? Nem sei. O cheiro das flores era intenso quase enjoativo, ali naquele corredor pequeno.
Ao fim do dia ligou-me a Dona Zulmira, vizinha e única com quem ainda converso. Setenta e cinco anos, mora no andar de baixo, tão só quanto eu. Lurdes, fazes anos, vem tomar um chá, fiz um bolo de maçã. Fui. Ficámos até às dez à conversa. A Zulmira nem perguntou pelos meninos. Já sabe.
No sábado, o Ricardo apareceu. Sozinho, sem mulher nem netos. Ficou três horas, das quais uma ao telefone na varanda. Deixou um envelope com dinheiro em cima da cómoda do hall. A Rosa desmarcou, afinal também não pôde: Mãe, aconteceu um imprevisto, mas no Natal temos de vez!
E foi aí que percebi. Não é que os meus filhos não me amem. Amam. À maneira deles, entre uma audiência e um workshop. Amam-me como eu amava o meu trabalho com honestidade, mas sempre a espreitar o relógio. Trinta anos dei-lhes para não terem que fazer como eu, e ninguém me avisou de que o custo do sucesso deles seria a minha sala vazia.
O cheesecake comi com a Zulmira. As flores duraram uma semana, depois murcharam. O envelope do Ricardo meti na gaveta onde o Artur guardava os bilhetes do comboio.
Ontem comprei bilhete para uma excursão à Serra da Estrela. Autocarro, dois dias, grupo de séniores. Vou com a Zulmira. Quando contei à Rosa ao telefone, ficou intrigada: Mãe, agora também viajas?
Desde os setenta, filha, respondi.
Silêncio do outro lado, três segundos. Depois: Que giro, mãe, e mudou de assunto. Mas aqueles três segundos de silêncio disseram mais do que todos os pontos de exclamação das mensagens dela. E sei que um dia vai perceber. Talvez quando tiver sessenta e a mesa também fique com uma cadeira a mais. Mas eu já não fico à espera.
Tenho setenta anos, pernas que ainda mexem, bilhete de autocarro e uma vizinha que faz bolo de maçã. O Artur diria: Lurdes, deixa as queixas e vai lá para fora. E assim vou eu.






