Mistério
Num lugarejo do interior, com ares de aldeia portuguesa, vivia uma rapariga chamada Benedita. Certa vez, a sua mãe, mulher supersticiosa de fé em bruxarias e rezas, decidiu levar a filha à cartomante da terra.
A anciã tirou as cartas na mesa de pinho gasto e disse, com voz soturna:
A tua Benedita será feliz, mulher. Tudo na vida dela vai dar certo. Só não lhe vejo homem ao lado.
Benedita tinha uns dez anos na altura e as palavras da velha ficaram-lhe gravadas na memória, mesmo sem as entender completamente.
O tempo passou. Benedita transformou-se numa jovem formosa, de beleza que deixava todos os rapazes do lugar de olhos em bico. Mas nunca se prendeu a ninguém. Namoriscava ora com um, ora com outro, e ninguém sabia se era caso sério.
Apesar das boas notas, nunca pensou em ir estudar para Lisboa ou Porto. Quis ficar e conseguiu emprego na queijaria local. Sopravam rumores de um romance com o chefe, mas ninguém chegava mesmo a vê-los juntos.
As mulheres do fabrico diziam à nova trabalhadora:
Olha que não te deixes ficar por aqui toda a vida, Benedita. Com essa figura, em Lisboa eras rainha! Tinham-te por lá num instante!
Benedita sorria, sem dar grandes respostas.
Um dia, espalhou-se pelo povoado como pólvora: a Benedita está grávida!
E começou o falatório, cada um mais curioso: Quem seria o pai do bebé? Ninguém conseguia dar resposta. Tudo ficou no mistério.
A mãe de Benedita não perdeu tempo:
Ora aí está, fizeste asneira! Que vergonha, minha filha. Agora orienta-te sozinha. Não contes comigo. Fizeste? Cria. E pensa bem onde vais viver, aqui não ficas. Tens um mês.
Está bem, mãe respondeu Benedita serenamente , eu vou-me embora. Só não me chames um dia de volta.
Duas semanas depois, Benedita apareceu com a chave de uma casa pequena, já mobilada e apetrechada. Diziam as vizinhas que dera sorte: a dona, idosa, foi para Lisboa viver com os filhos e vendeu a casa por uns tostões. Como conseguiu Benedita arranjar dinheiro mesmo pouco , ninguém nunca soube ao certo.
A seguir, sucederam-se os milagres. A casa foi recuperada num instante, ficou moderna. Ergueu-se uma vedação nova, abriu-se um poço no quintal. Vinham trabalhadores de furgoneta, faziam, consertavam e iam embora.
Pouco depois, Benedita recebeu uma entrega de eletrodomésticos e móveis novos. Parecia outra, sempre feliz e sorridente, sem aquele ar de desgraçada e abandonada própria das mal-línguas.
No outono, nasceu o filho, Manuelzinho. No quintal viam-se um carrinho de bebé azul, tudo limpo, tudo organizado. Benedita recuperou-se depressa e logo voltou a andar pelo povoado confiante, bem vestida, mais bonita do que nunca.
Em casa, arregaçava as mangas: criança pequena, horta para tratar, forno para acender, correr ao minimercado, pilhas de roupa para lavar ao tanque. Nunca se queixava. Desde pequena que o trabalho era parte da vida.
Com o tempo, as mulheres da vizinhança, vendo a coragem e dedicação de Benedita, afeiçoaram-se a ela. Tomavam conta de Manuelzinho sempre que era preciso, colaboravam no quintal, traziam o marido para cavar a terra ou tratavam das ervas. Mas era Benedita quem fazia quase tudo.
Quando Manuel já tinha quase dois anos, uma vizinha, apressada, bateu à porta da outra:
Viste?!
O quê?
A nossa Benedita grávida outra vez!
Não acredito! Tens a certeza?
Vai ver com os teus olhos!
E logo a aldeia ficou de novo em alvoroço. Quem seria o pai do segundo filho? Suspeitas não faltavam, mas ninguém jamais vira Benedita com algum homem.
Benedita não dava ouvidos ao falatório. Seguia a sua vida. Entretanto, construiu um anexo no quintal para fazer de casa de banho nova. Uns homens desviaram a canalização de gás só para lhe meterem aquecimento. Um estufim de vidro ergueu-se na horta: caro, moderno.
De onde lhe vem tanto dinheiro? murmuravam. Algum patrão apaixonado, só pode! Mas o segredo de Benedita ficou por desvendar.
Pouco depois apareceu, no mesmo quintal, o carrinho azul. Era o irmão de Manuel, Francisco.
E dois anos passados, nasceu o terceiro rapaz João.
Três filhos, e nunca ninguém soube dos pais.
Havia quem a gozásse, chamando-a de tola. Outros, vendo as crianças saudáveis, asseadas e a mãe trabalhadora e sóbria, elogiavam a sua coragem. Uns usavam Benedita como exemplo para advertir as filhas.
A mãe de Benedita sentia vergonha da filha. Nunca quis saber dos netos, nunca lhes deitou a mão.
Mas Benedita caminhava altiva, sem ligar a nada nem a ninguém.
O tempo foi passando e, numa tarde, uma grande carrinha preta parou à porta de Benedita. O diretor da queijaria, o senhor António Ribeiro homem muito respeitado , saiu do carro com um enorme ramo de flores.
Entrou em casa e, mal fechou a porta, começou a juntar-se gente em redor, curiosa.
Que se passa? cochichavam. Porque terá vindo o senhor António, ele que perdeu a mulher há um ano? Toda a gente sabia que ficara viúvo, a mulher doente, acamada durante anos, e ele sempre cuidou dela sem jamais a abandonar.
Quando Benedita apareceu à porta para o acompanhar, uma multidão olhava, espantada. António Ribeiro tomou-lhe a mão suavemente, deu-lhe um beijo público e disse em alto e bom som:
A Benedita aceitou casar comigo. Convidamo-vos a todos para a boda nós e os nossos meninos.
Houve silêncio total. Só então muitos perceberam de quem eram aqueles meninos tão parecidos com o patrão.
Logo choveram felicitações por toda a aldeia
Após uma festa de casamento cheia de música, comida e alegria, António levou Benedita e os filhos para a sua casa. Todos ajudaram na mudança, com risos e lágrimas.
Um ano depois, nasceu a esperada menina
E ficou a dúvida: afinal para que servem os vaticínios das cartomantesNo dia seguinte, Benedita atravessou a praça do povoado agora de braços dados com António e rodeada pelos filhos. Entre abraços, doces caseiros e flores, Benedita olhou para trás, para a sua antiga casa. Sorriu, sentiu um calor antigo subir-lhe ao peito, como um segredo enfim revelado.
A mãe, entre a multidão, hesitou, mas os olhos marejados buscaram a filha. Benedita percebeu, aproximou-se e, sem mais palavras, abriu-lhe os braços. Ali, entre todos, mãe e filha abraçaram-se longamente, enquanto Manuel, Francisco e João se penduravam-lhes às saias.
Ao cair da tarde, Benedita ergueu o olhar para os telhados vermelhos e, por um instante, lembrou-se da profecia da cartomante. Sorriu para António, seguro ao seu lado, para os filhos alegres a correr ao seu redor, para as vizinhas e compadres, agora família inteira. Sentiu, mais do que nunca, que era verdade: tudo na vida dela tinha dado certo mesmo que, para ser feliz, primeiro precisasse ensinar aquela aldeia que felicidade não cabe nos olhos dos outros, mas no destino de quem se atreve a vivê-la.
Assim, Benedita viveu e foi plenamente feliz de mãos dadas com o amor e com o seu próprio mistério.







