O Presente do Destino: A História de Diana, que Enfrentou o Divórcio, a Dificuldade de Ser Mãe e Descobriu o Verdadeiro Amor e a Felicidade numa Nova Família em Lisboa

Um Presente do Destino

Rui chegou a casa da mãe já tarde, o que para ela não era novidade o filho era assim, inesperado nos horários. Depois do divórcio, Rui vivia sozinho; o filho, Martim, ficara com a mãe.

O Martim ficou à tua espera. Tinhas prometido levá-lo à pista de gelo. Adormeceu há pouco, por isso nem o acordes. Vai aquecer a comida, come e deita-te.

Rui jantou em silêncio. Depois foi ao quarto de Martim e deitou-se ao lado do filho. O sono tardava e, sem querer, deu por si a pensar na primeira mulher, Leonor ainda vieram duas depois, mas nenhuma ficou. A Leonor nunca saiu da memória dele. Cresceram lado a lado, brincarom juntos, eram vizinhos, estudaram na mesma turma e até entraram juntos na Universidade de Lisboa. Casaram-se, como se sempre estivessem destinados a isso. As duas famílias estavam radiantes; já se tinham habituado a vê-los juntos desde sempre.

Parecia uma história de amor perfeita. Viviam bem num apartamento em Campo de Ourique, herança da avó de Leonor. Mas havia um vazio doloroso Leonor não conseguia engravidar. Tinham tudo: saúde, estabilidade, amor, mas um filho não vinha.

Um médico recomendou a Leonor uma ida ao Algarve, para um tratamento numa estância termal. Rui recusou de imediato:

Só faltava que voltasses de lá com um filho que não fosse meu.

Rui… não confias em mim? Ela chorou, magoada.

Os pais sugeriram a adoção, mas Rui recusava sequer ouvir:

Quero é um filho meu, só isso.

No décimo aniversário de casamento, reuniram amigos e família para festejar, apenas Rui foi-se atrasando tanto que os convidados acabaram por ir embora. A mesa ficou cheia e quase intocada. Nessa noite, Rui nem sequer voltou a casa. Leonor ficou a chorar de solidão, mas já o esperava, nos últimos tempos Rui mudara muito. Pela manhã, apareceu, anunciando que tinha passado a noite com outra mulher, que já tinha dois filhos e lhe prometera dar-lhe um terceiro, para eles criarem.

Rui… traíste-me! Nem sequer falaste comigo. Não posso perdoar-te… Vai-te embora, soluçava Leonor. Ou melhor… ajuda-me primeiro a adotar uma criança.

Só faltava! Para depois pôres o meu apelido e arranjar que eu te pague pensão? Esquece!

Foi um desgosto imenso para Leonor, mas teve o apoio da família, dos amigos e dos colegas de trabalho. Sonhava com a adoção, mas a uma mulher solteira ninguém confiava uma criança. Fechou a porta do apartamento ao marido para sempre. Dez anos de esperança, de comprimidos amargos, cheiros de hospitais e aquela solidão, cada vez mais densa. Rui saiu, silencioso, quase como quem sai para o escritório.

Desculpa, Leonor. Cansaço. Estou cansado.

Meio ano depois, soube por conhecidos que Rui já tinha um filho recém-nascido. Não foi um colapso, simplesmente sentiu que o mundo perdia a cor, como uma fotografia antiga ao sol.

Durante um ano andou em piloto automático trabalho, casa, insónias, nada mais. Um dia, abrigando-se da chuva num café pequenino da Graça, avistou o Tiago antigo amigo do Rui, piadista incorrigível do grupo. Agora era só um homem cansado, a rodar devagar o fundo de uma chávena vazia.

Tiago? Olá… És mesmo tu?

Tiago levantou os olhos, surpreso e sorriu, sem alegria:

Leonor? Há quanto tempo…

Conversaram muito, derramaram desabafos. Ele explicou:

A Rita deixou-me. Tu sabes como ela era, só pensava em dinheiro e a oficina quebrei num incêndio. Ela atirou-me com as malas à porta e nunca mais me deixou voltar. Não tenho família, os meus pais morreram cedo… fiquei mesmo sozinho.

Queres vir para minha casa? ofereceu Leonor, surpreendendo-se consigo.

Não havia pena naquele gesto, só decisão. Era ajudar um amigo caído. Foi assim que alguém entrou na fortaleza vazia de Leonor, alguém ainda mais ferido.

É estranho… e o Rui?

O Rui saiu. Não consegui dar-lhe um filho, e ele foi para quem lhe pôde dar…

Ele ficou chocado:

Não fazia ideia, achava que vocês estavam sempre juntos! Vejam só o destino, Leonor.

Já me habituei.

Tiago ficou instalado no sofá. Nos primeiros dias mal comia, pedia desculpa por qualquer coisa. Depois começou a arregaçar as mangas: arranjou a torneira, montou uma estante, cozinhou um bacalhau. Era atencioso e sereno com ele o silêncio tornou-se agradável.

À noite conversavam longamente. Leonor arranjou um lugar para ele no escritório onde trabalhava. Deu certo e aos poucos começaram a partilhar a vida. Acabaram por casar.

Uma vez cruzaram-se com Rita, a ex-mulher de Tiago, na rua. Ela deitou-lhes um olhar mordaz, largando:

Aproveita bem, eu já não o quero nem dado… pode ser que te faça um filho!

Obrigada, Rita, que Deus te oiça respondeu Leonor, serena.

Ao lado de Tiago, Leonor reaprendeu a rir, não por cortesia, mas de felicidade verdadeira. Voltou a viver. Faziam planos, discutiam filmes, tomavam café juntos na cozinha, de manhã cedo.

Um dia, Tiago, muito sério, perguntou:

Leonor, e se fôssemos buscar uma criança ao orfanato?

Ela ficou sem fala, pasmada e comovida.

Sim, Leonor, não te enganaste no que ouviste Tiago sorriu.

Com os olhos a brilhar, Leonor murmurou:

Ser mãe sempre foi o meu maior sonho. Nem sei como agradecer… sempre quis falar nisto, mas não queria impor-te nada.

Tiago sentia-se realizado por lhe dar aquela surpresa.

Então vamos começar o processo amanhã. Vamos juntos.

És o melhor, meu amor Leonor ria de felicidade.

Começaram a juntar os documentos para a adoção, esperaram as entrevistas, visitaram instituições e aprenderam a viver esse novo desafio. Um mês depois, Leonor sentiu que algo mudara foi à farmácia e o teste mostrou dois riscos, firmes, quase trocistas: “é este o teu caminho, o teu milagre”.

Incrédula, correu para Tiago:

Tiago, não vais acreditar… olha! mostrou-lhe o teste Vamos ter um bebé!

Meu Deus, Leonor! A sério? Amanhã vamos ao hospital…

O médico confirmou e logo a gravidez ficou registada.

A alegria que encheu aquela casa parecia impossível. Quatorze anos de esperança viraram festa. Tiago paparicava Leonor, não a deixava levantar pesos, enchia-lhe a despensa de coisas que lhe apeteciam.

Agora, tinham um tesouro uma filha. Chegou no tempo certo, lourinha e cheia de vida, a quem deram o nome de Madalena. Tiago chorou sem vergonha ao pegar Madalena pela primeira vez nos braços, à saída da maternidade:

Finalmente vamos para casa, minha filha. Agora sim, temos tudo. És o nosso tesouro.

A casa recomeçou. Agora havia gargalhadas, cheiros doces de bebé, noites mal dormidas de mãos dadas, ruídos felizes. A felicidade não era perfeita: havia discussões, dias de cansaço, obstáculos, mas era forte e duradoura, como um sobreiro em solo duro.

Certa tarde de verão, passeavam pelo jardim da Estrela com o carrinho. Madalena adormecida, eles de mãos dadas, decidem por onde ir, quando quase esbarram com Rui. Sozinho, mais velho, olhar apagado, uma garrafa de Super Bock na mão. Pararam. Um instante de silêncio grave.

Olá disse Rui, quase sem voz.

O olhar perdeu-se em Leonor, em Tiago, depois no carrinho.

Ouvi dizer que estão bem…

Estamos. Muito bem. E tu?

Rui deu de ombros, sem fitar ninguém:

Casado mais duas vezes, nada resultou. O Martim está com a mãe, às vezes vou visitá-lo. Eu… resto pouco. Não tenho sorte.

Não havia raiva na voz, só aquela amargura dos que já só esperam pelo fim da tarde. Olhou Tiago, murmurou um adeus e foi-se embora, vergado, figura solitária num jardim cheio de luz.

Tiago passou o braço pelos ombros de Leonor.

Vamos, meu sol. A Madalena vai acordar, está na hora de irmos para casa.

Leonor pegou na pega do carrinho, e seguiram o caminho deles, de volta a casa. Não perfeita, nem feita de ilusões, mas de resistência, de simplicidade, e de amor verdadeiro.

Obrigado por partilhares connosco a tua história. Que a vida te sorria sempre.

Оцініть статтю
Додати коментар

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

five + one =

O Presente do Destino: A História de Diana, que Enfrentou o Divórcio, a Dificuldade de Ser Mãe e Descobriu o Verdadeiro Amor e a Felicidade numa Nova Família em Lisboa
– A čo to tu robíte na mojej chate? Veď som vám kľúče nedala, – gazdiná stŕpla vo dverách, keď uvidela rodinu pri slávnostnom stole