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051
Demorei quinze anos para perceber que o meu casamento era como aquele ginásio para onde toda a gente se inscreve em janeiro — começa cheio de boas intenções, mas depois fica às moscas o resto do ano.
Demorei quinze anos a perceber que o meu casamento era como aquela inscrição no ginásio feita em janeiro
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0252
Sempre soube que o meu marido tinha uma amante. Decidi contratá-la para trabalhar comigo – chamaram-me louca.
Já sabia que o meu marido tinha uma amante. Decidi contratá-la chamaram-me doida. Quando tropecei nas
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067
Achei que o meu marido pagava pensão para as três filhas do primeiro casamento. Mas não era verdade. Decidi ir conhecê-las pessoalmente.
Em tempos já distantes, recordo como sempre acreditei que o meu marido cumpria com o seu dever de prover
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0433
Fica com a nossa filha. Eu vou sozinha ao casamento do meu irmão. Meu marido chegou ontem do trabalho meio estranho. Perguntei sobre o casamento e ele logo desviou o olhar. Disse que vai sozinho à festa… – E eu? Fiquei chocada. E então o meu marido explicou: Querida, em janeiro só recebi o salário base, então provavelmente vou sozinho ao casamento. Fica em casa com a nossa filha. Não vai acontecer nada de mal. Eu vou ficar só três dias, preciso de hotel e de comer alguma coisa. E claro, comprar um presente para os noivos. Éramos um casal jovem. Morávamos num T1. A minha sogra tinha-nos dado o apartamento. Estava de licença de maternidade. A nossa filha estava quase a fazer dois anos. Ainda não tinha pressa em voltar ao trabalho, porque não tinha com quem deixar a menina. Os meus sogros emprestaram-nos o apartamento, por isso – só posso agradecer. A minha mãe sempre cuidou de si própria e ainda fazia uns biscates. Disse-me logo: se precisares MESMO de alguém para ficar com a miúda porque vais trabalhar, eu venho de certeza. Agora, para comprares vestido novo e pintar o cabelo, não contem comigo para ficar de babysitting. Conheço bem o feitio da minha mãe. Aliás, todos os anos ela viaja para o estrangeiro, e todos os fins-de-semana vai ao cabeleireiro ou ao spa. Na nossa família nunca houve emergências. Quando o meu marido está em casa, posso tratar das minhas coisas. Mas, verdade seja dita, não gosta muito e só me deixa sair por pouco tempo. Depois chegou o convite para o casamento. O irmão mais novo do meu marido decidiu casar. Era preciso irmos para outra cidade e ficar três dias. Então fui pedir à minha mãe para ficar com a neta, afinal um casamento é um evento importante. Eram só três dias, e a minha filha é calma, não faz birras. A minha mãe demorou a aceitar, mas lá tirou três dias de férias do trabalho. Fiquei contente, porque já andava a precisar de descansar depois de dois anos fechada com o bebé. Ao menos na festa poderia relaxar um pouco… Mas os meus sonhos desabaram com o anúncio do meu marido. Para mim era um acontecimento marcante. Passei um ano a amamentar sem sair de casa. Depois vi que ninguém queria ficar com ela, e o meu marido andava sempre em eventos da empresa e viagens de trabalho. Não conheço bem o irmão dele. Só vi a noiva em fotografia. Fiquei verdadeiramente magoada. Mesmo assim, o meu marido não quis perceber-me. Para ele estava tudo bem. – Olha querida, em primeiro lugar, a tua mãe não está nada entusiasmada para trazer a nossa filha para casa dela. Deixa-a descansar e tu ficas. Porque é que havíamos de deixar alguém desconfortável? Se ela não quer ficar, não fica. Além disso, tu nem conheces bem a minha família. Qual é o sentido desta viagem para ti? O teu papel é ficares em casa e cuidares da nossa filha. Eu vou, depois volto. Então decidi que afinal não vai ninguém. Porquê é que só o meu marido decide o que é que eu posso fazer? E vocês? Quem é que acham que está com razão nesta história? Na minha opinião, tanto a mãe dela como o marido são um pouco egoístas. Claro que a avó não é obrigada a ficar com a neta, mas podia pensar na filha. E o marido não entende a esposa. Ela já dedicou tanto tempo à filha. Também precisa de descanso. Se ele realmente ama a mulher, tem de a compreender também… Esta mulher está presa ao marido, sem ninguém para a apoiar. Gostava de ler a vossa opinião. Espero que ela consiga resolver o problema e mostrar ao marido o seu ponto de vista. Meninas, não se esqueçam: vivemos numa democracia! Podem dar a vossa opinião, não acontece nada. Nenhum marido vai pedir o divórcio só porque a mulher impõe uma condição. E se acontecer, é porque o amor não era verdadeiro. Temos de respeitar os outros e dar-lhes alegria.
Fica com a nossa filha. Vou sozinha ao casamento do meu irmão. O meu marido chegou ontem do trabalho
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0151
Quem Vai Querer-te Assim, Cláudia? Desdentada, Infértil, Sem Linhagem… — “Quem é que te quer assim?” — gritou Paulo, cuspiu no chão e saiu. Ela ainda correu à janela, vendo partir o homem com quem viveu quinze anos — pensava que era alma gémea, mas ele esclareceu antes de ir: era só conveniente. Experiências de Sessões Fotográficas de Família Cláudia tem apartamento próprio, cozinha divinal, é dona de casa exemplar, fazia tudo por ele. Pensou em gritar pela janela, pedir-lhe para não a abandonar. Aceitaria humilhação, que ele ficasse, mesmo estando dias fora, noutra companhia… Melhor isso do que ficar, aos 45 anos, sozinha e largada. Já tinha aberto a janela. Mas olhou sem querer para o retrato do pai, fardado, olhar firme para a fotografia. E Cláudia repensou tudo. Deu-lhe vergonha daquela fraqueza. Observou mais uma vez o elegante marido a entrar no carro de luxo, mala em mão. Foi para a cozinha, passando pelo corredor antigo, onde o espelho de corpo inteiro da avó refletiu uma mulher pesada, cansada, cabelo grisalho, olhar apagado. Cláudia sabia que não era bonita. E a saúde já não ajudava, os dentes quebravam, dinheiro não dava para novos — precisava-se da nova máquina do marido, das roupas caras para o trabalho dele. — Era só o que faltava! O teu Paulo parece artista, tu tens só um casaco velho, saias de antigamente, blusas gastas, sapatos desfeitos, botas trocadas por pantufas. E no restaurante que tens de ser chef: hoje quer bife, amanhã almôndegas, depois panquecas recheadas… que ele vá à vida dele! Não se vive sempre atrás do marido, amiga! — dizia-lhe a colega Lúcia. Cláudia ouvia, mas não mudava. Até que o marido avisou que ia embora. Para uma rapariga de 27 anos. Com quatro filhos. — É jovem… — suspirava Cláudia. Mas a amiga soube de mais coisas. Vasculhou redes sociais, perguntou vizinhos, e revelou: — E ainda te chamou de sem linhagem! Vens de boa família e lá é só confusão! Nunca trabalhou, filhos de vários homens, bebeu até no oitavo mês. A mãe igual. Da juventude não vale a pena, mas dizem que os homens gostam… por esses motivos. Família não se faz disso. Segura-te! Cláudia segurou-se. O apartamento grande no centro herdado dos pais, o pai que previu tudo, e Paulo nunca teve direitos à casa. Decidiu alugar um quarto, para aliviar as contas. Estavam a construir prédios no bairro, e apareceu um engenheiro, barba arranjada, discreto e elegante: sr. Vítor Vicente. Observou Cláudia e sugeriu: — Pago-lhe adiantado, vá renovar o sorriso, senhora tão bonita não devia sofrer! Ela corou. Não se achava bonita, mas gostava de resolver os dentes. Ele avançou mais dinheiro. E depois chegou o irmão, estilo irreverente, blazer amarelo, calças roxas, penteado ousado — Carlos, estilista. Decidiu mudar o visual de Cláudia. Mudou mesmo. Cabelo luminoso, maquilhagem realçando os traços, dentes arranjados, começou a caminhar, perdeu peso, passou a correr no parque, até o sorriso mudou: era outra mulher, inesperadamente radiante. Num dia, toca a campainha. O inquilino chama: — Cláudia, é para ti! Na porta, o ex-marido, quase irreconhecível, envelhecido, pálido, saco na mão. — O que queres? — pergunta Cláudia. Lembrava-se das tentativas de contacto, ignoradas até ser bloqueada. Agora ali estava ele. — Como mudaste…! — admirou-se Paulo. Os elogios não a atingiram. Lembrava as noites sem dormir, o sofrimento, o pânico. — Ai, Cláudia… passei mal… só quer dinheiro, os miúdos assustam, malcriados, nunca os orienta, vive ao telemóvel, cozinha só massa instantânea… imagina! Para mim! Até as camisas, tudo junto, ficaram manchadas. Gastei tudo neles, não comprei nada para mim. Senti-me num manicómio. Cláudia… eu vim por ti. Contigo sentia-me bem. Vamos recomeçar? — pedia, humilde. Ela recordava as palavras dele: — Mas quem vai querer-te? Desdentada, infértil, sem linhagem, Cláudia. Voltou a olhar para ele; a porta abriu-se, apareceu o sr. Vítor Vicente, preocupado: — Cláudia! Precisa de ajuda? E o senhor, de que se trata? Paulo exaltou-se: — E você, quem é? — Este é o meu marido, Vítor. Não volte cá! — e fechou-lhe a porta na cara, deixando-o de boca aberta. Pediu desculpa ao inquilino. Chamar-lhe marido… Ele suspirou: — Está na hora: amo-te, Cláudia! Quem deixaria passar uma mulher tão fantástica? Casa comigo de verdade? Vítor era viúvo. Cláudia aceitou. Dois meses depois, já inundada de rosas, compraram uma casa de campo. Ela não repara quando o ex-marido observa de longe, arrependido de ter trocado uma mulher boa por uma ilusão vazia — ficou sem nada. Cláudia e Vítor passeiam de mãos dadas, felizes e apaixonados. E ela está à espera de um filho. Deixa o teu gosto e comentário!
Mas quem é que precisa de ti? Sem dentes, sem filhos, sem pedigree, Clarinha. Mas quem é que precisa de ti?
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09
Sou reformada – enquanto vendia os meus pãezinhos de água na banca do costume, tentaram enganar-me
Sou reformada enquanto vendia bolos de arroz, tentaram enganar-me. Lá estava eu, no meu habitual canto
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040
Vou casar-me, mas nunca com esse rapaz bonito. Sim, ele é ótimo em todos os sentidos. Mas não é para mim «Minha mãe apareceu de novo com o companheiro e ainda trouxe um outro homem. Já estavam meio bêbados — sentei-me no canto atrás da mesinha. E não tem para onde fugir, lá fora já caiu neve. Estou tão cansada de tudo isso. No verão termino o nono ano e vou para a cidade. Vou entrar no Instituto Politécnico e virar professora. A cidade nem fica tão longe, só dez quilômetros, mas vou morar no lar de estudantes.» A mãe e os convidados sentaram-se na cozinha. Ouvi o som das bebidas nos copos, o cheiro de chouriço invadiu o ar. Me absorvi pensando no aperto: — Espera aí, menina! — gritou minha mãe. — O que é que você está se fazendo de difícil? — Vocês são dois… — balbuciei. — Como se fosse a primeira vez com dois caras assim — ironizou Micael, o companheiro da minha mãe. Ouvi barulho de louça caindo, cochichos e respiração pesada. Eu me agarrei ao canto, tentando me esconder. O barulho parou de repente. — Olha, Nuno, ela está dormindo… — disse o companheiro. — Você mesmo disse que é uma boa menina. E sei lá, ela me irrita, tenho algo contra ela… — Ouve, mas ela tem filha… — Que filha? — A Irina, já crescida. Aposto que se escondeu no quarto. — Chama ela aqui! — respondeu Nuno, animado. — Irina, onde você está? — Micael entrou no quarto, viu-me e sorriu de um jeito nojento. — Venha sentar com a gente! — Estou bem aqui mesmo. — Para de vergonha! — Micael tentou me agarrar. Peguei de repente o vaso da mesinha e bati na cabeça do companheiro da minha mãe. Vidro quebrando. Escapuli e corri para fora. — Segura ela! — ouvi. Mas já estava na porta. Sem tempo para calçar botas, saí correndo de meias, camiseta velha e calção. Eles correram atrás de mim. A rua do bairro estava deserta. Fugir pela neve, à noite? Gritos atrás de mim. Passei por uma casa grande, ouvi latidos e uma voz mandando o cão calar. Corri para o portão e bati. Um homem quarentão abriu. — Ajude-me, por favor! — pedi olhando suplicante. — Entra logo! — ele me puxou e fechou a porta. — O que foi, Oleg? — a esposa apareceu no corredor. — É essa menina, — respondeu o dono. — Uns homens estavam perseguindo ela. — Rápido para dentro! — a mulher me puxou pela mão. — Lá dentro você explica tudo. — Irina, saia daí! — ouvi a voz de Micael lá fora. — Oleg, não se mete! — gritou a esposa. — Entra logo! Do lado de fora, mais gritos. No quintal, o cão latindo. — Vou ligar para a Polícia! — a mulher pegou o telefone. — Polina, não precisa. Resolvo isso sozinho, parecem ser daqui. — E vai resolver como isso? — Pelo diálogo. Você acalma a menina! O anfitrião pegou uma sacola, foi à geladeira. Colocou uma garrafa e um pedaço de chouriço dentro. Acariciou o cão no quintal e foi para a rua. Micael, o companheiro da minha mãe, veio até ele: — Devolve a Irina! — Tome aqui e sumam! — Que é isso? — abriu a sacola, sorriu, fez sinal pro amigo. — Vamos, Nuno! *** — Então! Eu sou Polina. — a senhora botou a chaleira no fogo. — Senta, conta tua história. — Sou Irina, — gaguejei tremendo. — Moro lá no final da rua… — Filha da Kira? — Sim. — Moramos aqui há pouco, mas de tua mãe já ouvi falar… A cabeça baixo, chorei. — Pronto, não chora! — Polina me abraçou de leve. O gesto foi tão estranho para mim que chorei ainda mais, agora aliviada. — Calma, calma! Vamos tomar um chá. Oleg entrou: — Resolvido. — E o que fazemos com essa linda menina agora? — sorriu Polina. — Amanhã decidimos! Agora vamos ao chá e depois banho nela. — Quer comer? — Polina me ofereceu chá, comida, bolo. — Come, come! — Oleg sorriu, vendo como eu olhava para os alimentos. Pararam de me bombardear com perguntas e deixaram que eu respirasse. Depois do jantar, Polina me levou ao banheiro: — Lava-te, veste esse robe! *** Tudo que eu queria era não ser expulsa para a rua de novo. Como é bom a água quente — frio insuportável lá fora. Mas logo acabei o banho, os anfitriões esperavam. Saí. Polina e Oleg sentados no sofá, agradeci embaraçada: — Muito obrigada! — Veja bem, Irina, — começou Polina. — Ninguém vai te procurar mesmo. E não quer voltar para casa. Olhei para baixo, sem coragem. — Amanhã cedinho viajaremos… Você fica sozinha. Nem abra porta. O cão Jack não deixa ninguém passar. Entendeu? — Sim! — gritei animada. — Se quiser, faz uma sopa de beterraba para nós amanhã, — sugeriu Oleg sorrindo. — Sabe fazer? — Sei! — falei rápido, temendo ainda que me expulsassem. — Sou boa de cozinha e posso limpar também. — Limpa se quiser, — autorizou Polina. *** Acordei com os donos da casa, fiquei quietinha na cama, sempre achando que iam me tirar dali. Depois tudo parou, saíram. Fui para a cozinha: pão, queijo, chouriço. Costelinhas de porco na mesa. Comi, limpei tudo, lavei o chão. Vi o aspirador no corredor e aspirei a casa. Quando desliguei o aspirador… — O que significa isso tudo? — uma voz atrás de mim. Virei. Um rapaz alto, bonito, devia ter uns dezoito anos, os olhos castanhos curiosos. — Estou limpando, — murmurei. — Quem é você? — Pois bem… — balançou a cabeça e pegou o telefone. — Mãe, estou em casa. Quem é essa aí? — Filho, deixa ela morar uns dias conosco. — Por mim tudo bem. Guardou o telefone, olhou-me de cima abaixo, foi pra cozinha. — Quer que eu prepare chá? — perguntei. — Eu mesmo faço. *** Guardei o aspirador, fui tirar pó, ouvindo cada som vindo da cozinha. Ele comeu, foi ao banheiro. Saiu perfumado, barba feita. — Ei, me passa mais uma garrafa! — ouvi um grito do lado de fora. — Que será isso? — o rapaz olhou pela janela. — Não abra! — gritei assustada. Ele olhou para mim com curiosidade e foi até a porta. Corri para a janela. No portão, Micael e seu comparsa gritavam. Fiquei apavorada. O rapaz saiu. Eles correram pra cima dele e… caíram na neve, parecia que juntos. O rapaz falou algo, eles se levantaram cabisbaixos e partiram para a casa da minha mãe. *** O rapaz voltou. Olhou para mim por um instante, aproximou-se: — Tá com medo? Sem controlar, encostei no peito dele e chorei. — Como se chama? — perguntou. — Irina. — Eu sou o Ruslan. Não chore, eles não voltam. *** Ruslan subiu, ficou no quarto até o fim do dia. Preparei sopa de beterraba, sentei-me pensativa na cozinha. Queria ficar ali, com aquelas pessoas boas, mas sabia que havia invadido todos os limites. Os donos voltaram. Polina ficou surpresa com a limpeza. Oleg elogiou a sopa. — Acho bom eu voltar para casa — disse. — Obrigada por tudo! — Fique mais alguns dias! — Obrigada, Polina! Mas já vou, — repeti. Caminhei até a porta e parei. Andava desde ontem pelo lar na roupa deles. — Venha! — Polina pôs a mão no meu ombro e foi comigo ao armário. Pegou umas calças jeans, um suéter, uma jaqueta esportiva bem quente. — Vista! Temos quase o mesmo tamanho. — Não… precisa. — Não vai sair sem roupa! Vista e pronto! Não vou ficar pobre por isso! Vesti. Nunca tive roupas tão boas. No corredor, me obrigou a pegar gorro e botas de inverno. — Use com saúde, Irina! — Obrigada, Polina! *** A vida voltou ao que era. Não exatamente igual. A mãe foi trabalhar na quinta. O companheiro dela e o amigo sumiram. Chegou a primavera. Um dia, estudando, alguém bateu no portão. Olhei: era Ruslan. Ele acenou: “Venha!” Saí correndo. — Oi! — sorriu. — Olá! — Minha mãe pediu você. *** Entrei naquela casa onde passei um dos dias mais felizes. — Oi, Irina! — Polina me abraçou. — Olá, Polina! — Senta, vamos tomar chá! Preparou chá, sentou-se comigo. — Quero falar sério contigo. Eu e Oleg vamos viajar para a Turquia por um mês — falou animada. — Meu filho mal vem em casa. Pode cuidar da casa? Alimentar o Jack e o gato, regar as flores? Tenho muitas plantas… — Claro, Polina! — Ótimo, — ela tirou dinheiro. — Aqui, vinte mil. — Não precisa! — Aceite! Não vai nos faltar nada. Venha, mostro tudo! Fui aprendendo onde ficavam os vasos de flores, a comida do gato e do Jack. Polina chamou: — Ruslan! — Ele saiu do quarto. — Apresente a Irina ao Jack! — Vem! — Ruslan pôs a mão no meu ombro. Saímos juntos, soltamos Jack, fomos caminhar. Ruslan falou da faculdade, do karaté, do negócio com o pai. Mas eu pensava diferente. Entendi que havia um abismo entre mim e ele, como entre minha mãe e os pais do Ruslan. Eles são ótimas pessoas, mas não é conto de fadas de Cinderela, é vida real. «Daqui dois meses faço vestibular para o colégio, vou passar. Estudar, trabalhar, batalhar, mas vou ser alguém. Vou casar, mas nunca com esse rapaz bonito. Sim, ele é ótimo em tudo. Mas não é meu! Sou grata à Polina pelas roupas e pelos vinte mil. Vai ajudar quando eu for para a cidade.» Intuitivamente, entendi que, naquele instante, terminava minha infância difícil. E começava a vida adulta — tão dura quanto, mas agora só depende de mim. Chegamos ao chalé. Acariciei o Jack, sorri para Ruslan e fui para casa. Amanhã começa o meu novo trabalho. Só trabalho — mais nada!
Vou casar-me, mas nunca com este rapaz bonito. Sim, ele é um excelente rapaz, em todos os sentidos.
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070
O dia em que fui ao tribunal para me divorciar vestida de noiva: Como surpreendi o meu marido ao exigir que ele também usasse o fato de casamento na hora de acabar com o “até que a morte nos separe”
O dia em que fui ao tribunal vestida de noiva para me divorciar. Quando o meu marido disse que queria
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023
Descobri que o meu filho abandonou uma mulher grávida. Fui eu quem pagou o advogado dela. Quando soube o que o meu filho tinha feito, senti o mundo a desabar sobre mim. Não de vergonha, mas por causa daquela pobre rapariga, que certa vez vi entregar encomendas de mota sob o sol abrasador, com o cansaço no olhar e a barriga já bem saliente. Nessa altura, decidi agir por minha conta. Bati à porta dela numa terça-feira à tarde. Ela abriu ainda com a farda de trabalho, a barriga já bem visível, e um rosto tão exausto que me partiu o coração. — Sim? — disse ela, desconfiada. — Sou a mãe daquele irresponsável que te deixou sozinha — disse-lhe sem rodeios. — Vim arranjar a situação. Os olhos dela encheram-se de lágrimas. — Senhora, eu não quero problemas… — Não venho com problemas, menina. Venho com soluções. Conheces o melhor advogado de família da cidade? Já lhe paguei os honorários. Amanhã tens consulta com ele. Ela ficou sem palavras. Continuei: — Esse rapaz saiu do meu ventre, mas não herdou os meus valores. Vai pagar pensão para essa criança, nem que tenha de trabalhar três turnos. Assim foi. O advogado fez um excelente trabalho. Quando a minha neta nasceu — porque é a minha neta, mesmo que o meu filho não queira aceitar — fui ao hospital com fraldas, roupinhas e um berço desmontado no carro. — Senhora, não era preciso… — É sim — interrompi. — Sou a avó. O meu filho, claro está, deixou de me falar. Acusou-me de traição, de me ter metido onde não era chamada, de lhe ter arruinado a vida. Respondi que quem arruinou vidas foi ele; eu só estou a reparar o dano. Passaram dois anos. A jovem e a minha neta vivem agora comigo. Ela estuda à noite para ser enfermeira, eu cuido do bebé, e somos a família mais estranha mas também a mais unida do bairro. O meu filho ainda não me fala, mas paga a pensão certinha — o advogado é convincente. Ontem, enquanto dava o biberão ao bebé, ela abraçou-me pelas costas. — Obrigada, mãe — sussurrou. “Mãe”. E pergunto-me: haverá maior presente do que ganhar uma filha e uma neta, mesmo que se perca um filho por algum tempo? Às vezes, família não é onde se nasce, mas onde se escolhe cuidar. Uma história sobre responsabilidade, consciência e um amor inesperado.
Descobri que o meu filho abandonou uma mulher grávida. Fui eu quem pagou o advogado dela. Quando soube
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056
A minha tia veio de visita com a filha e o genro, trouxeram carne e vinho caro, mas a minha mãe pô-los na rua
A minha mãe tem uma família numerosa. Em tempos, eram seis irmãos, mas agora restam apenas três.