Fica com a nossa filha. Vou sozinha ao casamento do meu irmão.
O meu marido chegou ontem do trabalho e parecia estranho, como se tivesse atravessado uma ponte feita de pão de ló em vez de chão. Assim que perguntei pelo casamento, ele fixou o olhar na sombra dos próprios pés, como se ali houvesse um segredo de família. Disse-me que iria sozinho ao casamento…
E eu? perguntei eu, espantada, com a voz a sair como vapor de caldo verde.
O meu marido murmurou: Querida, recebi um ordenado magro este mês de janeiro. Acho que vou sozinho ao casamento. Tu ficas com a nossa filha. Não vai acontecer nada de mal. Só vou por três dias, tenho de ficar num hotel, comer qualquer coisa, comprar um presente para os noivos. O habitual.
Éramos um casal jovem, com raízes fincadas num T2 emprestado pela minha sogra algarvia. Eu estava de licença de maternidade e a nossa menina, Beatriz, quase fazia dois anos pulava sobre os tapetes como se fossem campos de malmequeres. Não tinha pressa em regressar ao emprego, pois a quem deixaria a menina? Os sogros tinham-nos emprestado o apartamento, dou-vos isto, mas tratem bem da mobília, dizia a sogra, entregando-nos as chaves como quem entrega sardinhas a um gato esfomeado.
A minha mãe cuidava de si própria com a solenidade de uma fadista antes do palco: fazia uns biscates, punha-se a jeito para viagens e não dispensava o fim de semana no cabeleireiro ou nas massagens do spa ali na Baixa. Disse-me logo: se for uma emergência de trabalho, eu fico com a Beatriz, mas se for para gastares dinheiro em vestidos novos e pintar o cabelo, nem penses. Ninguém cuida da tua filha para te veres de lantejoulas.
Conheço bem aquele feitio dela, impaciente como uma velha janela em dia de vento. Todos os anos, a minha mãe voava para algum canto da Europa. Os fins de semana eram sagrados, passados entre vernizes e cremes rejuvenescedores.
Em casa, nada de dramas: o marido em casa, eu podia tratar de mim. Mas ele estranhava que eu quisesse sair deixava-me sair pouco e depressa, como quem solta um cãozito numa maré baixa.
Um dia, chega o convite para o casamento do irmão mais novo do meu marido, em Braga três dias fora. Fui logo à minha mãe pedir-lhe que ficasse com Beatriz: Ó mãe, são só três dias, e ela é mansinha, nem grita nem faz birras!. A minha mãe resmungou, torceu o nariz e, ao fim de muita conversa, lá tirou três dias de férias. Fiquei radiante. Dois anos a viver em função de uma criança ao menos, na boda, descansava uns minutos largos
Mas os sonhos desfizeram-se ao anúncio seco do meu marido. Aquilo parecia um peixe arrelampado no meio da torrada matinal.
Já amamentei a menina um ano inteiro sem sair. Ninguém queria ficar com ela. O meu marido ia a festas de empresa e viagens de trabalho como quem vai apanhar limões. Claro que mal conhecia o irmão dele e só vira a noiva num postal.
Fiquei triste. Senti-me uma sombra perdida no Rossio em dia de feira. Mas o meu marido não quis saber. Achava tudo normal.
Querida, a tua mãe não quer a menina em casa deixa-a descansar, fica tu. Não queiras forçar. Não conheces bem a minha família. Para quê vires? O teu lugar é aqui, com a nossa filha. Eu vou, depois volto.
Decidi logo: ninguém vai a lado nenhum. Porque há-de decidir ele o destino dos meus dias?
Digam-me lá: quem terá razão nisto tudo?
Acho que tanto a mãe da rapariga como o marido são um pouco egoístas. Uma avó não é obrigada a tomar conta da neta, mas podia pensar um bocadinho na filha. E o marido… não entende a mulher. Ela dedicou tudo à menina, também merece um pedaço de descanso.
Se ele ama mesmo a esposa, devia demonstrar.
Esta rapariga sente-se triste, presa como um pardal numa gaiola de alfazema. Não tem quem a ajude. É como se vivesse num sonho onde os risos estão todos do outro lado do rio.
Gostava de saber a vossa opinião. Espero que ela consiga defender a sua vontade e diga ao marido aquilo que sente.
Queridas amigas, em Portugal somos livres! Digam de vossa justiça. Nada vos acontecerá não é por imporem uma condição justa que vem o divórcio bater-vos à porta. E se vier, talvez o sentimento não fosse verdadeiro. O essencial é respeitar e dar alegria uns aos outros, como quem oferece castanhas quentes numa noite fria.







