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013
“Boa mulher, não é? O que faríamos sem ela? — E tu só lhe dás dois mil euros por mês. — Olena, já pusemos o apartamento no nome dela. Nicolau levantou-se da cama e foi lentamente até ao quarto ao lado. À luz do candeeiro nocturno, de olhos cansados, olhou para a mulher. Sentou-se ao lado dela, escutou. — Parece estar tudo bem. Levantou-se e foi devagar até à cozinha. Abriu um kefir, foi à casa de banho. E voltou para o seu quarto. Deitou-se. Não tinha sono: — Nós, eu e a Olena, já temos noventa anos. Quanto tempo vivemos? Já falta pouco para irmos desta para melhor, e não há ninguém por perto. As filhas, a Natália já não está cá, nem sequer tinha sessenta anos. O Maxim também já não está. Era dado à farra… Só há a neta, a Oxana, que já vive na Polónia há vinte anos. Nem se lembra dos avós. Já terá os filhos grandes… Sem se dar conta, adormeceu. Acordou com o toque de uma mão: — Nicolau, está tudo bem? — ouviu-se uma voz ténue. Abriu os olhos. A mulher inclinou-se sobre ele. — O que foi, Olena? — Estava a ver, tu estavas tão quieto. — Ainda estou vivo! Vai dormir! Ouviram-se passos arrastados. O interruptor da cozinha fez ‘clique’. D. Olena foi beber água, deu um pulo à casa de banho e seguiu para o quarto dela. Deitou-se: — Um dia acordo, e ele já se foi. O que vai ser de mim? Ou serei eu primeiro? O Nicolau até já tratou do nosso funeral. Nunca imaginei que isso se pudesse organizar com antecedência. Por outro lado, ainda bem. Quem faria por nós? A neta esqueceu-se de nós. Só a vizinha Ivone é que vem cá. Tem a chave do apartamento. O avô dá-lhe mil euros da nossa reforma. Às vezes compra comida ou o que for preciso. Para onde havíamos de gastar o dinheiro? E já nem descemos sozinhos do quarto andar. O Sr. Nicolau abriu os olhos. O sol espreitava pela janela. Foi à varanda e viu o topo verde da cerejeira-brava. Um sorriso apareceu-lhe no rosto: — Chegámos ao verão! Foi ver a mulher. Ela estava sentada na cama, pensativa. — Olena, vá lá, anima-te! Vem cá, quero mostrar-te uma coisa. — Ai, estou sem forças! — a idosa levantou-se com dificuldade. — O que vai ser agora? — Anda, anda! Apoiando-a pelos ombros, conduziu-a até à varanda. — Olha, a cerejeira já está verde! E tu dizias que não chegávamos ao verão. Aqui estamos! — Olha, é verdade! E o sol brilha. Sentaram-se no banco da varanda. — Lembras-te de quando te convidei ao cinema? Ainda na escola. Nesse dia, a cerejeira também ficou verde. — Como esquecer? Quantos anos passaram? — Setenta e tal… Setenta e cinco. Sentaram-se muito tempo ali, a recordar a juventude. Muita coisa se esquece com a idade, até o que fizemos ontem, mas da juventude nunca se esquece. — Olha, já falámos tanto! — disse a mulher. — E ainda não tomámos o pequeno-almoço. — Olena, faz um chá daqueles bons! Já chega de beber aqueles chás de ervas. — Mas não podemos. — Ao menos um chá fraco com uma colherinha de açúcar. O Sr. Nicolau bebeu o chá fraquinho a acompanhar um sandes de queijo e recordava os tempos em que tomava chá forte e doce ao pequeno-almoço, com bolos ou panquecas. Entrou a vizinha. Sorriu, satisfeita: — Então, como estão? — O que é que dois velhotes de noventa anos podem ter? — brincou o avô. — Ora, se brinca é bom sinal. O que precisam que compre? — Ivone, compra carne! — pediu o Sr. Nicolau. — Não podem comer isso. — Pode ser frango. — Ok, compro. Faço-vos uma sopinha com massa! A vizinha limpou a mesa, lavou a loiça. E saiu. — Olena, vamos à varanda — sugeriu ele —, apanhar sol. — Vamos! A vizinha foi ter com eles à varanda: — Já tinham saudades do sol? — Está-se bem aqui, Ivone! — sorriu D. Olena. — Pronto, vou trazer-vos a papa, já vou começar a preparar a sopa de almoço. — Boa mulher — comentou ele olhando-a enquanto se afastava. — O que seria de nós sem ela? — E tu só lhe dás dois mil euros por mês. — Olena, já pusemos o apartamento no nome dela. — Ela não sabe disso. Ficaram assim na varanda até ao almoço. Ao almoço houve sopa de frango, saborosa, com pedaços de carne e batata esmagada. — Sempre fazia assim para a Natália e o Maxim, quando eram pequenos — relembrou Olena. — Agora, na velhice, são estranhos que cozinham para nós — suspirou o marido. — Talvez, Nicolauzinho, seja esse o nosso destino. Quando já cá não estivermos, ninguém há de chorar por nós. — Chega, Olena, não vamos ficar tristes. Vamos dormir um bocadinho! — Nicolau, não dizem por acaso: “Idoso e criança, tudo igual”. A nossa vida é como a das crianças: sopa passada, sesta, lanche. O Sr. Nicolau dormitou um pouco, mas acordou — não tinha sono. Devia ser do tempo a mudar. Foi à cozinha. Sobre a mesa havia dois copos de sumo, preparados pela Ivone. Pegou com as duas mãos e, cuidadosamente para não entornar, levou-os ao quarto da mulher. Ela estava sentada na cama, a olhar pensativamente pela janela: — O que foi, Oleninha, que ficaste triste? — sorriu o marido. — Vamos beber sumo! Ela pegou e bebeu um golo: — Também não consegues dormir? — Deve ser do tempo. — Sinto-me fraquinha desde manhã, — abanou a cabeça tristemente Olena. — Sinto que me resta pouco. Mas quero que me dês um enterro decente. — Olena, não digas essas coisas. Como vou viver sem ti? — Alguém há de partir primeiro. — Basta! Vamos à varanda! Ficaram lá até ao fim do dia. A Ivone preparou queijadas. Comeram e sentaram-se a ver televisão. Todas as noites era assim. Os filmes novos já não lhes diziam nada. Preferiam ver comédias antigas e desenhos animados. Nesse dia viram só um desenho animado. Dona Olena levantou-se do sofá: — Vou-me deitar. Sinto-me cansada hoje. — Também vou. — Deixa-me olhar bem para ti! — pediu a mulher de repente. — Para quê? — Quero olhar. Ficaram muito tempo a olhar um para o outro. Deviam estar a recordar a juventude, quando tudo estava por acontecer. — Vou-te levar à cama. Olena pegou no marido pelo braço, e foram caminhando devagar. Ele aconchegou a mulher com o cobertor, e foi para o seu quarto. O coração pesava-lhe no peito, demorou muito a adormecer. Achou que não dormiu nada. Mas o relógio digital marcava duas da manhã. Levantou-se e foi até ao quarto da mulher. Ela estava de olhos abertos. — Olena! Segurou-lhe a mão. — Olena, então?! Olena! E, de repente, também ele não conseguia respirar. Foi ao seu quarto, pegou nos documentos já preparados, deixou-os sobre a mesa. Voltou para junto da mulher. Ficou a olhar-lhe o rosto muito tempo. Depois deitou-se ao lado dela e fechou os olhos. Viu a sua Olena, jovem e bela, como há setenta e cinco anos. Ela caminhava para uma luz ao fundo. Ele correu ao encontro dela, agarrou-lhe a mão. De manhã, Ivone entrou no quarto. Eles estavam lado a lado. Nos rostos tinham o mesmo sorriso sereno e feliz. Finalmente, a vizinha chamou o INEM. O médico, ao chegar, olhou para eles e abanou a cabeça, surpreendido: — Partiram juntos. Devem ter-se amado muito… Levaram-nos. E a Ivone sentou-se exausta junto à mesa. Foi então que viu os documentos e o testamento em seu nome. Enterrou a cabeça nas mãos e chorou… Deixe o seu gosto e partilhe a sua opinião nos comentários!
É uma boa mulher. O que seria de nós sem ela? Só lhe dás mil e quinhentos euros por mês. Zulmira, já
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021
À Porta Estava um Desconhecido – Uma História de Amor Não Correspondido, Reviravoltas do Destino e um Pedido de Casamento Inesquecível no Reveillon Português
No outro lado da porta, estava um desconhecido. Desde o secundário, o Vítor era completamente apaixonado
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0252
Tenho Vergonha de Levar-Te ao Jantar, Disse o Dinis Sem Desviar o Olhar do Telemóvel – Lá Vão Estar Pessoas, Pessoas Normais. Nádia Segurava um Pacote de Leite Junto ao Frigorífico. Doze Anos de Casamento, Dois Filhos. E Agora, Só Vergonha. — Vou Vestir o Vestido Preto. Aquele Mesmo Que Foste Tu Que Me Compraste. — Não É o Vestido, — Olhou Finalmente. — És Tu. Deixaste-Te Ir. O Cabelo, a Cara… Tens Um Ar Apagado. O Vítor Vai Estar Com a Mulher, Ela É Estilista. E Tu… Já Percebeste. — Então Não Vou. — Assim Mesmo. Digo Que Estás Com Febre. Ninguém Vai Dizer Nada. Ele Foi para o Duche e Nádia Ficou na Cozinha. Os Filhos Dormiam no Quarto ao Lado. O Cristiano Tem Dez Anos, a Sofia Oito. Crédito da Casa, Contas, Reuniões da Escola. Ela Dissolveu-se Neste Lar, Enquanto o Marido Começou a Ter Vergonha Dela. — Ele Está Parvo ou o Quê? — Helena, a Amiga Cabeleireira, Olhava Para Nádia Como Se Tivesse Ouvido Falar do Fim do Mundo. — Ter Vergonha de Levar a Mulher ao Jantar? Mas Quem Pensa Que É? — Chefe do Armazém. Recebeu Uma Promoção. — E Agora Já Não Chegas Para Ele? — Helena Ferveu a Água no Fervedor, Zangada. — Diz-me: Lembras-te do Que Fazias Antes dos Filhos? — Fui Professora. — Não Me Refiro ao Trabalho. Fazias Bijutaria. Eu Ainda Tenho o Colar Azul Que Me Deste. As Pessoas Perguntam Onde o Comprei. Nádia Recordou. Montava Peças à Noite, Quando Dinis Ainda Se Interessava Por Ela. — Foi Há Muito. — Então Podes Voltar a Fazer, — Disse Helena. — Quando É o Jantar? — Sábado. — Óptimo. Amanhã Vens Cá. Penteado, Maquilhagem. Falamos com a Olga Que Tem Vestidos. As Jóias Tu Tratas. — Mas o Dinis Disse… — Esquece o Que Ele Disse. Vais Ao Jantar. Ele que Aguente. A Olga Trouxe Um Vestido Ameixa, Comprido, de Ombros Descobertos. Experimentaram Até Assentar Bem. — Para Esta Cor, Só Um Tipo de Bijutaria, — Disse Olga. — Prata Não Fica Bem. Ouro Também Não. Nádia Abriu a Velha Caixa. No Fundo, Envolto em Tecido, o Conjunto: Colar e Brincos. Aventurina Azul, Trabalho Artesanal. Fez Para Uma Ocasião Especial Que Nunca Chegou. — Isto É Uma Obra de Arte, — Olga Ficou Sem Palavras. — Foste Tu? — Fui. Helena Fez-lhe Um Penteado em Onda Suave, Maquilhagem Elegante. Nádia Vestiu-se, Pôs as Jóias. As Pedras Frias no Pescoço. — Vai Ver-te ao Espelho, — Disse Olga. Nádia Aproximou-se. E Não Viu a Mulher Que Passou Doze Anos a Limpar e a Fazer Sopas. Viu-se a Si Mesma. Restaurante à Beira-Tejo. Salão Cheio de Mesas, Fatos, Vestidos, Música. Nádia Chegou Tarde, Como Planeado. As Conversas Pararam Uns Segundos. Dinis Estava No Bar. Viu-a e Ficou Estático. Ela Passou Sem Olhar, Sentou-se ao Fundo, Postura Erguida, Mãos Calmas no Colo. — Desculpe, Este Lugar Está Livre? Homem de Quarenta e Poucos Anos, Fato Cinzento, Olhos Inteligentes. — Está. — Óscar. Sócio do Vítor noutro Negócio. Padarias. E a Senhora? — Nádia. Mulher do Chefe do Armazém. Ele Reparou nas Jóias. — Aventurina? Feito à Mão, Vejo Bem. A Minha Mãe Coleccionava Pedras. Raro Encontrar Assim. — Fui Eu Que Fiz. — Mesmo? — Óscar Aproximou-se. — Nível. Vende-os? — Não. Sou Dona de Casa. — Estranho. Com Essas Mãos, Nunca Ficam Só em Casa… A Noite Toda Ao Lado Dela. Falaram de Pedras, de Arte, de Como se Esquecem de Si Mesmos no Dia a Dia. Óscar Pediu Dança, Trazia Espumante, Ri-se. Nádia Viu Dinis Olhá-la da Mesa Dele, com Cara Cada Vez Mais Fechada. Ao Sair, Óscar Acompanhou-a ao Carro. — Nádia, Se Quiser Voltar às Jóias, Ligue-me, — Deu-lhe um Cartão. — Conheço Quem Precisa Mesmo Disto. Ela Pegou e Acenou. Em Casa, Dinis Não Aguentou Cinco Minutos. — Que Palhaçada Foi Aquela? Tu e Aquele Óscar Toda a Noite! Toda a Gente Viu! A Minha Mulher com Outro Homem! — Só Conversei. — Conversaste! Dançaste Três Vezes! Vítor Perguntou-me o Que Se Passava. Que Vergonha Tive! — Tu Tens Sempre Vergonha, — Nádia Tirou os Sapatos. — Vergonha de Me Levar, Vergonha de Me Verem. Nunca Tens Vergonha de Ti? — Cala-te. Achas Que Pões Um Trapo e Ficas Alguém? Não És Nada. Dona de Casa. Vives à Minha Custa, Agora Fazes-te Princesa… Antes Chorava. Ia para o Quarto, Virava-se para a Parede. Agora, Algo Mudou. Ou Se Endireitou. — Homens Fracos Têm Medo de Mulheres Fortes, — Disse Quase Serene. — Tens Complexos, Dinis. Tens Medo Que Eu Veja Quão Pequeno És. — Sai da Minha Casa. — Vou Pedir o Divórcio. Ele Calou-se. Olhou-a. Não Era Raiva, Mas Medo. — Para Onde Vais com Dois Filhos? Não Vives dos Teus Brincos. — Vivo. De manhã, Pegou no Cartão e Ligou. Óscar Não Correu. Encontraram-se em Cafés, Falaram de Negócios. Disse-lhe Que Conhecia Uma Senhora com Galeria. O Artesanal Estava na Moda. — Tem Talento, Nádia. Raro Ter Talento e Bom Gosto. Começou a Trabalhar de Noite. Aventurina, Jaspe, Cornalina. Colares, Pulseiras, Brincos. Óscar Levava à Galeria. Uma Semana Depois, Ligava: Tudo Vendido. Pedidos Cresciam. — O Dinis Sabe? — Não Me Fala. — E o Divórcio? — Já Tenho Advogado. Óscar Ajudou. Sem Drama. Só Deu Contactos, Ajudou com a Casa Arrendada. Ao Fazer as Malas, Dinis Riu-se na Porta. — Voltas em Uma Semana. Ela Fechou a Mala e Saiu. Meio Ano. T2 nos Subúrbios, Filhos, Trabalho. Pedidos sem Parar. Galeria Queria Uma Exposição. Nádia Abriu Página nas Redes Sociais, Fotos. Seguidores Cresciam. Óscar Ia Lá, Levava Livros às Crianças, Ligava-lhe. Nunca Forçava. Só Estava Lá. — Mãe, Gostas Dele? — Perguntou Sofia. — Gosto. — Nós Também. Ele Não Grita. Um Ano Depois, Óscar Pediu em Casamento. Sem Joelho, Sem Rosas. Apenas ao Jantar: — Quero Que Fiquem Comigo. Todos os Três. Nádia Já Estava Pronta. Dois Anos Passaram. Dinis Caminha Pelo Colombo. Depois de Ser Corrido Descoberto Pelo Vítor, Encontra Trabalho a Carregar Caixas. Quarto Arrendado, Dívidas, Solidão. Viu-os à Porta da Ourivesaria. Nádia de Sobretudo Claro, Cabelo Arranjado, Aventurina ao Pescoço. Óscar Dava-lhe a Mão. Cristiano e Sofia Riam. Dinis Parou a Olhar. Viu-os Entrar no Carro. Viu Óscar a Abrir a Porta. Nádia a Sorrir. Depois Olhou Para o Reflexo no Vidro. Casaco Velho, Cara Cinzenta, Olhos Vazios. Perdeu a Rainha. E Ela Aprendeu a Viver Sem Ele. E Essa Foi a Maior Pena Dele — Perceber Tarde Demais o Que Tinha Nas Mãos… Obrigado, Queridos Leitores, Pelos vossos Comentários e Gostos!
Tenho vergonha de te levar à festa, disse Ricardo sem sequer descolar os olhos do telemóvel.
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09
O mais difícil de viver com um cachorro não é o que a maioria das pessoas pensa: não é sair à rua nos dias de chuva, nem nos frios de rachar, nem mesmo quando mal dormiste ou tens o coração apertado. Não é abdicar de viagens ou convívios onde te dizem “Vem, mas sem ele”, não são os pelos nos lençóis, na roupa, até na comida. Nem lavar o chão vezes sem conta, sabendo que meia hora depois estará igual. Não são as contas do veterinário, nem o receio de falhar algo importante. Não é perder um pouco de liberdade, porque a liberdade passou a ser “nós”. Nem sequer é saber que o teu coração já não é só teu… Tudo isso é amor. Tudo isso é vida. Foste tu que escolheste. O mais duro chega devagar — como aquela dor nos ossos quando o tempo muda, como o frio úmido que só mais tarde se entranha. Um dia percebes: ele já não consegue como antes. Tenta… mas não consegue. Corre para ti, mas já não é igual. Os olhos são os mesmos, mas trazem um brilho cansado que diz: “Estou aqui, mas a cada dia custa-me um pouco mais.” Lembras-te de como era. Vês como está agora — só teu, entregue de corpo e alma. Sempre confiou em ti: que estarias lá, que o ajudarias, que o salvarias. E salvaste. Mas agora não o podes salvar da velhice. O que mais dói é perceberes que ele foi o teu conforto… e tu foste para ele TUDO: a vida inteira, todo o céu, toda a esperança. E tu não estás preparado. Não estás pronto para o deixar ir. Não estás preparado para veres desaparecer quem te ensinou a amar sem limites. Depois chega o silêncio. Um silêncio pesado. O espaço vazio na almofada. A tijela que ninguém vai lamber. E o teu coração — feito em pedaços. Voltas a sair à rua. Mas já vai sem ele. E dás por ti a dizer para o vento: “Anda, meu pequenino…” Mas se pudesses voltar no tempo… voltavas a escolher tudo. Voltavas a escolher o cansaço, a tristeza, a entrega. Porque este amor é verdadeiro. Ter um cão é acender uma chama na tua vida. Uma chama que te aquece para sempre, mesmo depois de ele já cá não estar. Porque a missão do cão neste mundo é dar-te, por inteiro, o seu coração.
O mais difícil de viver com um cachorro não é aquilo que a maioria imagina. Não é levá-lo à rua quando
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020
O que Nunca Esperei do Meu Marido: Quando a Família Precisa de Ajuda e Vêm Surpresas – Um Relato de Duas Irmãs Portuguesas a Decidir o Futuro da Mãe Idosa, Entre Sacrifícios, Antigas Mágoas e a Decisão Inesperada do Meu Companheiro
Joana, precisamos mesmo de pensar numa solução… suspirou Maria ao telefone. O que se passa?
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057
Os familiares do meu marido esqueceram-se de me felicitar no meu 40º aniversário — e a minha resposta surpreendeu toda a gente
Porque será que o telefone não tocou a noite toda? Achas que é problema de rede? Ou confundiram o dia?
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011
Duas Colunas Ela já tinha tirado as botas e posto água no fervedor quando chegou uma mensagem da chefe no WhatsApp: «Consegues vir amanhã cobrir o turno da Sandra? Ela está com febre e não tenho mais ninguém.» As mãos ainda estavam molhadas do lava-louça, o ecrã ficou todo marcado. Limpou as palmas ao pano e olhou para o calendário no telemóvel. O dia seguinte era o único em que tinha planeado deitar-se cedo, desligar-se de todos — de manhã precisava entregar um relatório e a cabeça já zumbia. Escreveu «Não posso, tenho…» — e parou. Subiu-lhe aquela sensação familiar, tipo enjoo: se disseres que não, estás a falhar. Não és assim. Apagou e escreveu só: «Vou, sim.» Enviou. O fervedor apitou. Serviu-se na caneca, sentou-se no banco da cozinha e abriu a nota, intitulada simplesmente «Coisas Boas». Já lá estava a data e o novo ponto: «Cobri o turno da Sandra.» Pôs um ponto final e, no fim, um pequeno mais, como se aquilo equilibrasse alguma coisa. A nota já a acompanhava há quase um ano. Tinha começado em janeiro, quando depois das festas tudo lhe pareceu especialmente vazio e precisava daquela prova de que os dias não passavam sem deixar rasto. Então escreveu: «Levei Dona Emília ao centro de saúde.» Dona Emília, do quinto andar, andava devagar com o saco dos exames e apanhava medo dos autocarros. Tocou-lhe à campainha: «Tens carro, levas-me? Senão não chego a tempo.» Levou-a, esperou no carro enquanto ela fazia análises, trouxe-a de volta. No regresso, apanhou-se irritada. Estava atrasada para o trabalho e já tinha na cabeça as queixas alheias sobre filas e médicos. A irritação era envergonhada, disfarçou-a com um café na bomba. Na nota depois registou, como se aquilo tivesse sido feito de coração limpo. Em fevereiro, o filho teve de ir trabalhar fora e deixou-lhe o neto ao fim de semana. «Estás em casa, não te custa nada», disse ele, como se fosse um dado adquirido. O neto era querido, barulhento, sempre com o «olha», «anda», «brinca». Ela amava-o, mas ao fim do dia as mãos tremiam de cansaço, a cabeça soava a campainhas depois de um concerto. Deitou-o, lavou a loiça, arrumou os brinquedos na caixa — que ele logo voltaria a despejar mal acordasse. No domingo, quando o filho voltou, ela disse: «Estou cansada.» Ele sorriu como se ela fizesse piada: «Ora, és avó.» E deu-lhe um beijo na bochecha. Na nota escreveu: «Fiquei com o neto dois dias.» Ao lado pôs um coração, para não sentir que era só obrigação. Em março, a prima ligou a pedir dinheiro até ao ordenado. «Preciso dos remédios, percebes, não percebes?» E ela percebia. Fez a transferência e nem perguntou quando devolvia. Depois ficou na cozinha a calcular como aguentava até ao dia do pagamento, adiando finalmente o casaco novo — já o velho estava puído nos cotovelos. Na nota só escreveu: «Ajudei a prima.» Não acrescentou: «Adiei o meu casaco.» Parecia-lhe pouca coisa, sem valor para ser registado. Em abril, no trabalho, uma das raparigas, tão novinha, olhos vermelhos, ficou presa na casa de banho e não conseguia sair. Chorava baixinho, repetia que ninguém gostava dela, que fora abandonada. Ela bateu e disse: «Abre, estou aqui, não tens de estar sozinha.» Depois sentaram-se nas escadas, ainda cheirando a tinta fresca, e ouviu-a até escurecer, perdendo a aula de fisioterapia que o médico recomendara por causa das dores. Em casa, deitou-se e sentiu a lombar a queixar-se. Quis ficar zangada com a rapariga, mas ficou foi zangada consigo: porque não sabes dizer «preciso de ir para casa»? Na nota apareceu: «Ouvi a Inês, dei-lhe apoio.» Pôs o nome, parecia-lhe mais próximo. Mais uma vez, não escreveu «faltei ao meu compromisso». Em junho, deu boleia a uma colega carregada de sacos para a casa de campo porque lhe avariara o carro. A colega passou a viagem aos gritos no viva-voz com o marido, sem perguntar se era incómodo. Ela calou-se e ficou a olhar a estrada. Ao chegar, a colega largou os sacos, disse: «Pronto, obrigada, era mesmo a caminho.» E não era nada, ela teve de atravessar o trânsito para voltar, chegou tarde e já não foi ver a mãe, que acabou magoada. Na nota registou: «Levei a Isabel à casa de campo.» A expressão «a caminho» incomodou-a, ficou a olhar muito tempo para o ecrã até este se desligar. Em agosto, de madrugada, a mãe ligou aflita: «Sinto-me mal, a tensão está alta, estou com medo.» Ela levantou-se, vestiu o casaco, chamou táxi, atravessou a cidade adormecida. O quarto estava abafado, o medidor na mesa, os comprimidos espalhados. Mediu a tensão à mãe, deu-lhe o remédio, ficou ao lado dela até adormecer. De manhã foi trabalhar, sem passar por casa. No metro adormecia de cansaço, com medo de falhar a estação. Na nota escreveu: «Passei a noite com a mãe.» Pôs um ponto de exclamação e logo apagou — parecia alto demais. No outono, a lista esticou. Ficou longa, feita de rol infinito. Quanto maior, mais sentia aquela coisa estranha: como se a vida fosse entrega de relatório. Como se o amor por ela se provasse por recibos, e ela os fosse guardando no telemóvel para mostrar, se alguém perguntasse: «Fazes mesmo alguma coisa?» Tentou lembrar quando foi que o registo teve algo para ela. Não «por ela», mas «para ela». Tudo para os outros, as dores dos outros, os pedidos, os planos. Os desejos dela pareciam caprichos, a esconder. Em outubro, houve uma cena baixa, mas que a arranhou. Foi levar uns documentos ao filho, que ele pedira impressos. Ficou no hall com a pasta, enquanto ele procurava chaves e falava ao telefone. O neto correu à volta, a berrar por desenhos animados. O filho tapou o microfone e atirou: «Já agora, podes ir ao supermercado? Precisamos de leite e pão, não tenho tempo.» Ela respondeu: «Também estou cansada.» O filho nem olhou, só encolheu os ombros: «Podes, tu consegues sempre.» E voltou à conversa. Aquelas palavras caíram como selo. Não era pedido, era facto consumado. Sentiu alguma coisa a ferver dentro, junto com vergonha. Vergonha de querer dizer não. De, de repente, não querer ser sempre conveniente. Foi ao supermercado de qualquer maneira. Comprou leite, pão e maçãs, porque o neto gosta. Entregou, pôs os sacos na bancada e ouviu: «Obrigado, mãe.» Aquele «obrigado» saiu igual a uma chamada de ponto. Sorriu, como sabe, e foi-se embora. Em casa, abriu a nota e escreveu: «Fui às compras para o meu filho.» Ficou a olhar muito tempo aquela linha. Os dedos tremiam, não de exaustão, mas de raiva. Percebeu que a lista já não era apoio — era trela. Em novembro, marcou consulta para as dores nas costas que já não lhe deixavam ficar tempo à cozinha. Pela Internet, para sábado cedo, sem faltar ao trabalho. Sexta-feira à noite, ligou a mãe: «Amanha vens cá? Preciso que me leves à farmácia, e sinto-me só.» Ela disse: «Eu tenho consulta.» A mãe calou-se um instante, depois: «Pronto. Já vi que não faço falta.» Esta frase funcionava sempre. Começava logo a justificar-se, a prometer, a adiar o que era dela. Já ia dizer «vou depois», mas parou. Não era teimosia, era cansaço — como se visse que a vida dela também pesava. Disse baixo: «Mãe, vou depois de almoço. Preciso ir ao médico.» A mãe suspirou, como se a tivessem deixado ao frio. «Pronto, está bem», e naquele «está bem» vinha tudo: mágoa, peso, hábito. Dormiu mal. Sonhou que fugia com pastas num corredor, portas a fechar uma após outra. De manhã fez papas, tomou o comprimido antigo da caixa, saiu. Na sala de espera, ouvia conversas sobre pensões e exames, e não pensava no diagnóstico mas no estranho vago orgulho de estar ali só para si — e de sentir medo disso. Depois da médica foi ver a mãe, como prometera. Passou na farmácia, subiu ao terceiro. A mãe recebeu-a calada, depois perguntou: «Então, foste?» Ela respondeu: «Fui.» E acrescentou, sem justificar: «Precisei mesmo.» A mãe olhou-a fixamente — como se visse ali, pela primeira vez, não uma função, mas uma pessoa. Depois virou costas e foi para a cozinha. Ao regressar, sentiu uma leveza esquisita. Não era alegria, era espaço. Em dezembro, com o ano a acabar, percebeu que aguardava o fim-de-semana não como pausa, mas como hipótese. No sábado de manhã, o filho voltou a pedir: «Podes ficar com o neto umas horas? Temos recados.» Leu a mensagem e os dedos iam, por reflexo, escrever «sim». Sentou-se na beira da cama, o telemóvel quente na mão. O quarto silencioso, só o aquecedor fazia barulho. Lembrou-se daquele plano antigo para o dia: queria ir ao Chiado, ao museu, ver uma exposição guardada há meses. Queria caminhar entre quadros sem ninguém a perguntar pelas meias ou pelo jantar. Escreveu: «Hoje não posso. Tenho planos meus.» Enviou, pousou logo o telemóvel virado para baixo, como se assim aguentasse melhor. A resposta veio logo a seguir. «Pronto.» Depois: «Estás chateada?» Pegou no telemóvel, leu, sentiu aquela vontade antiga de explicar, justificar, suavizar. Podia ter escrito um texto: que estava cansada, que também precisa de vida própria. Mas sabia que explicações compridas são sempre o início de uma negociação, e ela não queria negociar por si. Escreveu: «Não. Só é importante para mim.» E mais nada. Preparou-se com calma, como quem sai para trabalhar. Verificou o ferro, as janelas, pegou na carteira, no cartão multibanco, no carregador. Na paragem de autocarro, entre gente com sacos e compras, sentiu que não precisava de salvar ninguém naquele instante. Era estranho, mas não assustava. No museu caminhou devagar — olhou rostos em retratos, mãos, as luzes nas janelas das telas. Parecia-lhe que reaprendia a prestar atenção, mas desta vez à sua própria voz, não aos pedidos dos outros. No bufete, bebeu café, comprou um postal com uma reprodução, guardou na mala. O papel era grosso, sabe bem na mão. Quando chegou a casa, o telemóvel ficou dentro da mala e nem foi logo buscá-lo. Tirou o casaco, pendurou, lavou as mãos, pôs água ao lume. Depois sentou-se e abriu a nota das «Coisas Boas». Foi ao fim, à data daquele dia. Ficou muito tempo a olhar a linha vazia. Clicou em mais e escreveu: «Fui ao museu sozinha. Não pus a vida dos outros à frente da minha.» E parou. As palavras «à frente da minha vida» pareceram-lhe demasiado sonoras, acusatórias. Apagou e escreveu mais simples: «Fui ao museu sozinha. Cuidei de mim.» Depois, fez algo que nunca lhe ocorrera: no topo da nota, dividiu a lista ao meio. À esquerda escreveu: «Para os outros.» À direita: «Para mim.» Na coluna do «Para mim», por enquanto, só havia uma entrada. Olhou para ela e sentiu que algo dentro finalmente ganhava forma — como coluna endireitada depois de um exercício bem feito. Não precisava provar a ninguém que era boa. Só precisava de lembrar-se que existia. O telemóvel voltou a vibrar. Não apressou. Serviu-se do chá, deu um gole e só depois leu. A mãe escreveu: «Estás bem?» Respondeu: «Estou. Amanhã levo-te o pão.» Acrescentou, antes de enviar: «Hoje estive ocupada.» Enviou e pousou o telemóvel, ecrã para cima. O quarto estava em silêncio — silêncio que não apertava, mas parecia, finalmente, um espaço aberto para ela própria.
Já tinha descalçado as botas e posto a chaleira ao lume quando me apareceu uma mensagem da minha chefe
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034
— Eu sei das tuas andanças, — disse a mulher. Victor gelou por dentro. Não, ele não estremeceu. Nem ficou pálido — apesar de sentir tudo apertar-se no peito, como uma folha amassada prestes a ser atirada ao lixo. Apenas ficou imóvel. A Larissa estava à volta dos tachos, mexendo algo na panela. Um gesto tão habitual — costas voltadas para o marido, avental às bolinhas, cheiro a cebola dourada. Um quadro caseiro. Aconchegante. Só a voz, essa parecia saída de um noticiário. Victor até pensou: será que ouviu mal? Talvez ela estivesse a falar dos pepinos — tipo “sei onde encontrar bons no mercado”? Ou do vizinho do terceiro andar, aquele que anda a vender o carro? Mas não. — Sei de todas as tuas andanças — repetiu Larissa, sem se virar. E aí sim, Victor sentiu o sangue gelar a sério. Porque no tom dela não havia histeria, nem indignação. Não havia o que sempre receara: lágrimas, lamúrias, pratos partidos. Apenas uma certeza fria, um facto consumado. Como quem diz que acabou o leite. Há cinquenta e dois anos Victor andava por este mundo. Vinte e oito deles com aquela mulher. Conhecia-lhe cada pinta: o sinal no ombro esquerdo, o jeito de franzir o nariz quando provava a sopa, o suspiro das manhãs. Mas nunca lhe ouvira aquela voz. — Lara… — começou ele, mas engasgou-se. Tossiu. Tentou de novo. — Larissa, do que é que estás a falar? Ela virou-se. Olhou-o — durante muito tempo, serena, como quem observa uma fotografia antiga onde já nada se distingue. — Da Marina, por exemplo — disse ela. — Aquela da Contabilidade. Dois mil e dezoito, se não me engano. Victor sentiu o chão fugir-lhe dos pés. Não era força de expressão — sentiu-se mesmo suspenso no ar, sem terra firme. Meu Deus. Marina?! Mal se lembrava do rosto dela. Houve qualquer coisa — no jantar da empresa, talvez? Ou depois? História curta, sem importância. Jurara a si mesmo: nunca mais. — E da Sílvia — continuou Larissa, imperturbável — aquela que te abordou no ginásio. Foi há dois anos. Ele abriu a boca. Fechou-a logo. Como é que ela sabia da Sílvia?! Larissa desligou o fogão. Tirou o avental, cuidadosamente, dobrando-o em dois. Sentou-se à mesa. — Queres saber como descobri? — perguntou. — Ou preferes saber porque é que calei? Victor ficou calado. Não porque não quisesse falar — simplesmente não conseguia. — A primeira vez — começou Larissa — desconfiei há uns dez anos. Começaste a chegar tarde ao trabalho. Sobretudo à sexta-feira. Vias-te mais alegre, olhar vivo, cheiro a perfume feminino. Ela esboçou um sorriso — amargo, sem alegria. — Na altura pensei: devo estar a imaginar coisas? Talvez alguma colega tua tenha mudado de perfume. Convenci-me disso durante um mês. Até encontrar, no bolso do teu casaco, um talão de restaurante. Jantar para dois. Vinho. Sobremesa. Nós nunca lá fomos. Victor quis dizer qualquer coisa — justificar-se, inventar, como sempre. Mas as palavras ficaram atravessadas. — E sabes o que fiz? — Larissa olhou-o nos olhos. — Chorei fechada na casa de banho. Depois lavei o rosto, preparei o jantar. Recebi-te com um sorriso. À nossa filha não contei nada — tinha quinze anos, era época de exames, o primeiro namorado. Para quê saber que o pai… Ela calou-se. Passou a mão na mesa, como quem varre pó invisível. — Pensei: isto passa. Todos os homens têm destas fases — crise da meia-idade, tolices, hormonas. O importante é a família ficar inteira. — Lar… — murmurou ele. — Deixa-me acabar — cortou ela. Ele aquietou-se. — Depois veio a segunda. A terceira. A quarta. Perdi a conta. O teu telemóvel… Nunca usaste código. Achavas que não via? Li mensagens. Aqueles SMS ridículos: “Que saudades, princesa”, “És o melhor”. Vi fotografias — tu com elas abraçado, a sorrir. — A voz vacilou, pela primeira vez. Mas logo se recompôs, inspirando fundo. — E sempre me perguntei: para quê isto? Porque viver com quem já não me ama? — Eu amo-te! — explodiu Victor. — Larissa, eu… — Não amas, — ripostou ela, seca. — Amas a facilidade. A casa limpa. O jantar quente. Camisas passadas a ferro. Uma mulher que nunca faz perguntas. Levantou-se. Foi até à janela. Ficou ali, a olhar para o escuro. — Sabes quando decidi? — disse, sem se virar. — Há um mês. A nossa filha veio cá passar o fim de semana. Conversávamos na cozinha. Ela saiu-se com isto: “Mamã, andas tão diferente. Calada. Parece que nem és tu”. E eu pensei: meu Deus, ela tem razão. Já não sou eu. Já há anos que não sou. Victor olhava-lhe as costas — direitas, tensas — e percebeu: estava a perdê-la. Não “podia perder” — estava mesmo a perder. — Eu não quero divorciar-me — suplicou. — Por favor, Larissa. — Mas eu quero. Já dei entrada dos papéis. O julgamento é daqui a um mês. — Mas porquê agora?! Larissa virou-se. Olhou-o demoradamente. E sorriu. Tristemente. — Porque percebi: tu nunca me traíste, Victor. Só se trai quem é importante. Para ti, eu fui sempre apenas uma certeza. Como o ar. E era a verdade. Ele ficou sentado no sofá — encolhido, de repente dez anos mais velho. Larissa perto da porta. Entre eles, vinte e oito anos de casamento, uma filha, um apartamento onde cada canto os conhecia. E um abismo. Intransponível. — Sabes — disse ele baixo — que sem ti não sei viver. — Vais saber. De algum modo — cortou ela. — Não! — Ele levantou-se num salto. — Larissa, eu juro! Mudo, prometo! Nunca mais… — Victor, — ela levantou a mão, travando-o. — Não é por causa delas. Nunca foi. — Então porquê?! Ela demorou-se. Procurava as palavras que nunca dissera, há anos presa entre o medo, a insegurança. Ou o hábito de não pedir espaço nem querer ser ouvida. — Sabes como me sentia? Cada vez que voltavas de mais uma dessas, eu deitava-me ao teu lado e sentia-me um zero. Tu já nem disfarçavas — o telemóvel à vista, camisas com batom para lavar. Achavas-me tola. Cega. Victor estremeceu, como se levasse um murro. — Não quis… — Não quiseste? — Aproximou-se dele de frente. Os olhos brilhavam — mas não de lágrimas. De raiva, acumulada, contida, finalmente à solta. — Nunca pensaste em mim. O que te passava na cabeça ao beijar outra? “A mulher nunca vai saber”? Ou “Que importa”? Ele calou-se. Porque a verdade era pior. Ele nunca pensava nela. Nunca. Larissa existia como uma certeza. Ele acreditava: não iria a lado nenhum. Estaria sempre lá. — Vinhas para casa depois dessas tuas e ficavas bem. Porque para ti nada mudava. Esposa no lugar, família certinha. Ela desviou o rosto. — Nessa imagem tua… eu não existia. Victor deu um passo. Estendeu a mão — querendo segurar-lhe o ombro, abraçá-la, impedir-lhe a partida. Larissa afastou-se. — Não vale a pena — disse, vencida pelo cansaço. — Agora é tarde. Ele agarrou-lhe as mãos. — Larissa, suplico! Dá-me uma chance! Eu mudo! Viro outro homem! Ela olhou para os dedos entrelaçados. Para a cara dele — desfeita, assustada. E, subitamente, percebeu: ele estava mesmo com medo. Mas não de perdê-la. Tinha medo de ficar sozinho. — Sabes — murmurou, soltando-se — eu também tive medo. Medo de ficar só, sem ti, sem família. Mas sabes o que descobri? Pegou na mala da mesa. Nas chaves. — Já estou sozinha. Há muito. Mesmo contigo aqui. E saiu. Passaram três semanas. Victor ficou num apartamento vazio — Larissa foi viver com a filha mal acabou o diálogo — e andava a vasculhar o telemóvel. Marina da contabilidade. Sílvia do ginásio. Mais dois ou três nomes nos contactos, que já tinham significado. Ligou à Sílvia. Rejeitou. Escreveu à Marina. Leu, não respondeu. As outras nem abriram a mensagem. Estranho: quando era um homem casado, todas queriam vê-lo. Agora, “livre”… Ninguém queria saber. Sentou-se no sofá, naquela casa de repente enorme e estranha — e, pela primeira vez em cinquenta e dois anos, sentiu-se verdadeiramente sozinho. Voltando ao telemóvel, encontrou “Larissa”. Olhou tempo infinito para o ecrã. Os dedos tremiam. Escreveu uma mensagem. Apagou. Tentou outra vez. Apagou. Depois escreveu só: “Posso ver-te?” A resposta chegou uma hora depois: “Para quê?” Victor pensou. O que dizer? “Desculpa”? Tarde. “Volta”? Ridículo. “Mudei”? Mentira. Escreveu a verdade: “Quero recomeçar tudo. Podemos tentar?” Três pontinhos acenderam-se. Desapareceram. Voltaram. E lá veio a resposta: “Vem sábado. A casa da filha. Duas da tarde. Falamos.” Victor respirou fundo. Não sabia o que ia acontecer. Se ela perdoava. Se voltava. Se ainda tinha direito a uma última hipótese. Olhou para a aliança no dedo. E, pela primeira vez em muitos anos, sentiu-se preparado para recomeçar tudo de novo. Se ela deixasse. Valerá a pena para Larissa ter tapado os olhos às traições do marido? Teria sido melhor fazer logo um escândalo e pôr tudo em pratos limpos na primeira traição? O que acha?
Eu sei das tuas escapadelas disse a minha mulher. Fiquei gelado. Não dei um salto nem empalideci, mas
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011
Duas Colunas Ela já tinha tirado as botas e posto água no fervedor quando chegou uma mensagem da chefe no WhatsApp: «Consegues vir amanhã cobrir o turno da Sandra? Ela está com febre e não tenho mais ninguém.» As mãos ainda estavam molhadas do lava-louça, o ecrã ficou todo marcado. Limpou as palmas ao pano e olhou para o calendário no telemóvel. O dia seguinte era o único em que tinha planeado deitar-se cedo, desligar-se de todos — de manhã precisava entregar um relatório e a cabeça já zumbia. Escreveu «Não posso, tenho…» — e parou. Subiu-lhe aquela sensação familiar, tipo enjoo: se disseres que não, estás a falhar. Não és assim. Apagou e escreveu só: «Vou, sim.» Enviou. O fervedor apitou. Serviu-se na caneca, sentou-se no banco da cozinha e abriu a nota, intitulada simplesmente «Coisas Boas». Já lá estava a data e o novo ponto: «Cobri o turno da Sandra.» Pôs um ponto final e, no fim, um pequeno mais, como se aquilo equilibrasse alguma coisa. A nota já a acompanhava há quase um ano. Tinha começado em janeiro, quando depois das festas tudo lhe pareceu especialmente vazio e precisava daquela prova de que os dias não passavam sem deixar rasto. Então escreveu: «Levei Dona Emília ao centro de saúde.» Dona Emília, do quinto andar, andava devagar com o saco dos exames e apanhava medo dos autocarros. Tocou-lhe à campainha: «Tens carro, levas-me? Senão não chego a tempo.» Levou-a, esperou no carro enquanto ela fazia análises, trouxe-a de volta. No regresso, apanhou-se irritada. Estava atrasada para o trabalho e já tinha na cabeça as queixas alheias sobre filas e médicos. A irritação era envergonhada, disfarçou-a com um café na bomba. Na nota depois registou, como se aquilo tivesse sido feito de coração limpo. Em fevereiro, o filho teve de ir trabalhar fora e deixou-lhe o neto ao fim de semana. «Estás em casa, não te custa nada», disse ele, como se fosse um dado adquirido. O neto era querido, barulhento, sempre com o «olha», «anda», «brinca». Ela amava-o, mas ao fim do dia as mãos tremiam de cansaço, a cabeça soava a campainhas depois de um concerto. Deitou-o, lavou a loiça, arrumou os brinquedos na caixa — que ele logo voltaria a despejar mal acordasse. No domingo, quando o filho voltou, ela disse: «Estou cansada.» Ele sorriu como se ela fizesse piada: «Ora, és avó.» E deu-lhe um beijo na bochecha. Na nota escreveu: «Fiquei com o neto dois dias.» Ao lado pôs um coração, para não sentir que era só obrigação. Em março, a prima ligou a pedir dinheiro até ao ordenado. «Preciso dos remédios, percebes, não percebes?» E ela percebia. Fez a transferência e nem perguntou quando devolvia. Depois ficou na cozinha a calcular como aguentava até ao dia do pagamento, adiando finalmente o casaco novo — já o velho estava puído nos cotovelos. Na nota só escreveu: «Ajudei a prima.» Não acrescentou: «Adiei o meu casaco.» Parecia-lhe pouca coisa, sem valor para ser registado. Em abril, no trabalho, uma das raparigas, tão novinha, olhos vermelhos, ficou presa na casa de banho e não conseguia sair. Chorava baixinho, repetia que ninguém gostava dela, que fora abandonada. Ela bateu e disse: «Abre, estou aqui, não tens de estar sozinha.» Depois sentaram-se nas escadas, ainda cheirando a tinta fresca, e ouviu-a até escurecer, perdendo a aula de fisioterapia que o médico recomendara por causa das dores. Em casa, deitou-se e sentiu a lombar a queixar-se. Quis ficar zangada com a rapariga, mas ficou foi zangada consigo: porque não sabes dizer «preciso de ir para casa»? Na nota apareceu: «Ouvi a Inês, dei-lhe apoio.» Pôs o nome, parecia-lhe mais próximo. Mais uma vez, não escreveu «faltei ao meu compromisso». Em junho, deu boleia a uma colega carregada de sacos para a casa de campo porque lhe avariara o carro. A colega passou a viagem aos gritos no viva-voz com o marido, sem perguntar se era incómodo. Ela calou-se e ficou a olhar a estrada. Ao chegar, a colega largou os sacos, disse: «Pronto, obrigada, era mesmo a caminho.» E não era nada, ela teve de atravessar o trânsito para voltar, chegou tarde e já não foi ver a mãe, que acabou magoada. Na nota registou: «Levei a Isabel à casa de campo.» A expressão «a caminho» incomodou-a, ficou a olhar muito tempo para o ecrã até este se desligar. Em agosto, de madrugada, a mãe ligou aflita: «Sinto-me mal, a tensão está alta, estou com medo.» Ela levantou-se, vestiu o casaco, chamou táxi, atravessou a cidade adormecida. O quarto estava abafado, o medidor na mesa, os comprimidos espalhados. Mediu a tensão à mãe, deu-lhe o remédio, ficou ao lado dela até adormecer. De manhã foi trabalhar, sem passar por casa. No metro adormecia de cansaço, com medo de falhar a estação. Na nota escreveu: «Passei a noite com a mãe.» Pôs um ponto de exclamação e logo apagou — parecia alto demais. No outono, a lista esticou. Ficou longa, feita de rol infinito. Quanto maior, mais sentia aquela coisa estranha: como se a vida fosse entrega de relatório. Como se o amor por ela se provasse por recibos, e ela os fosse guardando no telemóvel para mostrar, se alguém perguntasse: «Fazes mesmo alguma coisa?» Tentou lembrar quando foi que o registo teve algo para ela. Não «por ela», mas «para ela». Tudo para os outros, as dores dos outros, os pedidos, os planos. Os desejos dela pareciam caprichos, a esconder. Em outubro, houve uma cena baixa, mas que a arranhou. Foi levar uns documentos ao filho, que ele pedira impressos. Ficou no hall com a pasta, enquanto ele procurava chaves e falava ao telefone. O neto correu à volta, a berrar por desenhos animados. O filho tapou o microfone e atirou: «Já agora, podes ir ao supermercado? Precisamos de leite e pão, não tenho tempo.» Ela respondeu: «Também estou cansada.» O filho nem olhou, só encolheu os ombros: «Podes, tu consegues sempre.» E voltou à conversa. Aquelas palavras caíram como selo. Não era pedido, era facto consumado. Sentiu alguma coisa a ferver dentro, junto com vergonha. Vergonha de querer dizer não. De, de repente, não querer ser sempre conveniente. Foi ao supermercado de qualquer maneira. Comprou leite, pão e maçãs, porque o neto gosta. Entregou, pôs os sacos na bancada e ouviu: «Obrigado, mãe.» Aquele «obrigado» saiu igual a uma chamada de ponto. Sorriu, como sabe, e foi-se embora. Em casa, abriu a nota e escreveu: «Fui às compras para o meu filho.» Ficou a olhar muito tempo aquela linha. Os dedos tremiam, não de exaustão, mas de raiva. Percebeu que a lista já não era apoio — era trela. Em novembro, marcou consulta para as dores nas costas que já não lhe deixavam ficar tempo à cozinha. Pela Internet, para sábado cedo, sem faltar ao trabalho. Sexta-feira à noite, ligou a mãe: «Amanha vens cá? Preciso que me leves à farmácia, e sinto-me só.» Ela disse: «Eu tenho consulta.» A mãe calou-se um instante, depois: «Pronto. Já vi que não faço falta.» Esta frase funcionava sempre. Começava logo a justificar-se, a prometer, a adiar o que era dela. Já ia dizer «vou depois», mas parou. Não era teimosia, era cansaço — como se visse que a vida dela também pesava. Disse baixo: «Mãe, vou depois de almoço. Preciso ir ao médico.» A mãe suspirou, como se a tivessem deixado ao frio. «Pronto, está bem», e naquele «está bem» vinha tudo: mágoa, peso, hábito. Dormiu mal. Sonhou que fugia com pastas num corredor, portas a fechar uma após outra. De manhã fez papas, tomou o comprimido antigo da caixa, saiu. Na sala de espera, ouvia conversas sobre pensões e exames, e não pensava no diagnóstico mas no estranho vago orgulho de estar ali só para si — e de sentir medo disso. Depois da médica foi ver a mãe, como prometera. Passou na farmácia, subiu ao terceiro. A mãe recebeu-a calada, depois perguntou: «Então, foste?» Ela respondeu: «Fui.» E acrescentou, sem justificar: «Precisei mesmo.» A mãe olhou-a fixamente — como se visse ali, pela primeira vez, não uma função, mas uma pessoa. Depois virou costas e foi para a cozinha. Ao regressar, sentiu uma leveza esquisita. Não era alegria, era espaço. Em dezembro, com o ano a acabar, percebeu que aguardava o fim-de-semana não como pausa, mas como hipótese. No sábado de manhã, o filho voltou a pedir: «Podes ficar com o neto umas horas? Temos recados.» Leu a mensagem e os dedos iam, por reflexo, escrever «sim». Sentou-se na beira da cama, o telemóvel quente na mão. O quarto silencioso, só o aquecedor fazia barulho. Lembrou-se daquele plano antigo para o dia: queria ir ao Chiado, ao museu, ver uma exposição guardada há meses. Queria caminhar entre quadros sem ninguém a perguntar pelas meias ou pelo jantar. Escreveu: «Hoje não posso. Tenho planos meus.» Enviou, pousou logo o telemóvel virado para baixo, como se assim aguentasse melhor. A resposta veio logo a seguir. «Pronto.» Depois: «Estás chateada?» Pegou no telemóvel, leu, sentiu aquela vontade antiga de explicar, justificar, suavizar. Podia ter escrito um texto: que estava cansada, que também precisa de vida própria. Mas sabia que explicações compridas são sempre o início de uma negociação, e ela não queria negociar por si. Escreveu: «Não. Só é importante para mim.» E mais nada. Preparou-se com calma, como quem sai para trabalhar. Verificou o ferro, as janelas, pegou na carteira, no cartão multibanco, no carregador. Na paragem de autocarro, entre gente com sacos e compras, sentiu que não precisava de salvar ninguém naquele instante. Era estranho, mas não assustava. No museu caminhou devagar — olhou rostos em retratos, mãos, as luzes nas janelas das telas. Parecia-lhe que reaprendia a prestar atenção, mas desta vez à sua própria voz, não aos pedidos dos outros. No bufete, bebeu café, comprou um postal com uma reprodução, guardou na mala. O papel era grosso, sabe bem na mão. Quando chegou a casa, o telemóvel ficou dentro da mala e nem foi logo buscá-lo. Tirou o casaco, pendurou, lavou as mãos, pôs água ao lume. Depois sentou-se e abriu a nota das «Coisas Boas». Foi ao fim, à data daquele dia. Ficou muito tempo a olhar a linha vazia. Clicou em mais e escreveu: «Fui ao museu sozinha. Não pus a vida dos outros à frente da minha.» E parou. As palavras «à frente da minha vida» pareceram-lhe demasiado sonoras, acusatórias. Apagou e escreveu mais simples: «Fui ao museu sozinha. Cuidei de mim.» Depois, fez algo que nunca lhe ocorrera: no topo da nota, dividiu a lista ao meio. À esquerda escreveu: «Para os outros.» À direita: «Para mim.» Na coluna do «Para mim», por enquanto, só havia uma entrada. Olhou para ela e sentiu que algo dentro finalmente ganhava forma — como coluna endireitada depois de um exercício bem feito. Não precisava provar a ninguém que era boa. Só precisava de lembrar-se que existia. O telemóvel voltou a vibrar. Não apressou. Serviu-se do chá, deu um gole e só depois leu. A mãe escreveu: «Estás bem?» Respondeu: «Estou. Amanhã levo-te o pão.» Acrescentou, antes de enviar: «Hoje estive ocupada.» Enviou e pousou o telemóvel, ecrã para cima. O quarto estava em silêncio — silêncio que não apertava, mas parecia, finalmente, um espaço aberto para ela própria.
Já tinha descalçado as botas e posto a chaleira ao lume quando me apareceu uma mensagem da minha chefe
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O Temporizador na Mesa: Conversas de Casal ao Sabor do Tempo – Entre Resmungos, Silêncios e Recomeços numa Cozinha Portuguesa
Diário, segunda-feira, 20h00 Hoje foi mais um daqueles dias em que dei por mim a olhar fixamente para