Já tinha descalçado as botas e posto a chaleira ao lume quando me apareceu uma mensagem da minha chefe: Consegues vir amanhã à loja no lugar da Sílvia? Está com febre e não há quem feche a loja. As mãos ainda estavam molhadas do lava-louça, deixei marcas no ecrã do telemóvel. Sequei-as ao pano de cozinha e fui ver o calendário. Era o único dia em que planeava deitar-me cedo, sem atender ninguém tinha o relatório logo de manhã, e a cabeça já zunia.
Digitei: Não me dá jeito, tenho que e parei. Senti aquele desconforto familiar: se dissesse que não, estava a deixar os outros na mão. Não era esse tipo de pessoa. Apaguei e escrevi apenas: Sim, posso. Enviei.
A chaleira começou a chiar. Deitei água na caneca, sentei-me no banco junto à janela e abri a nota do telemóvel, a que chamo Coisas Boas. Já lá estava a data e o ponto: Fiz o turno pela Sílvia. Pus um ponto final e um pequeno mais, como se equilibrasse a balança.
Há quase um ano que ando com esta nota. Comecei-a em janeiro, depois das festas, quando a casa ficou especialmente vazia e queria provas de que os dias não me escoavam por entre os dedos. Nessa altura escrevi: Levei a Dona Teresa ao centro de saúde. A Dona Teresa, do quinto andar, andava devagar, de saco na mão, com medo do autocarro. Tocou-me à porta: Como vais de carro, deixas-me, senão não chego a horas. Levei-a, esperei no carro enquanto ela fazia análises e trouxe-a de volta.
No regresso, dei por mim irritado. Ia chegar atrasado ao trabalho, e a cabeça já rodava de queixas e médicos. Envergonhado, engoli a irritação e afoguei-a num café na bomba de gasolina. Quando escrevi na nota, fi-lo com cuidado, como se tivesse sido só generosidade.
Em fevereiro, o meu filho foi em trabalho para fora e trouxe-me o neto para o fim de semana. Tu estás aí em casa, não custa nada, disse, como quem afirma, não pergunta. O miúdo é engraçado, barulhento, sempre no avô, olha!, vá, anda! Gostava muito dele, mas à noite as mãos tremiam-me do cansaço, a cabeça zumbia como numa discoteca.
Deitei-o, lavei a loiça, arrumei os brinquedos na caixa que ele logo despejou de manhã. No domingo, quando o meu filho chegou, só consegui dizer: Estou exausto. Ele sorriu, como se fosse graça: És mesmo avô. E beijou-me na face. Escrevi na nota: Fiquei com o neto dois dias. Pus um coração ao lado, para não sentir que foi só por obrigação.
Em março, ligou-me a minha prima a pedir para lhe emprestar dinheiro até ao fim do mês. Preciso para os medicamentos, sabes como é. Eu sabia. Transferi, não perguntei quando me pagava. Fiquei depois na cozinha, a ver como me aguentava até ao salário, deixando o casaco novo para depois, que o outro já estava gasto nos cotovelos.
Na nota, só escrevi: Ajudei a prima. Nem referi que tinha adiado algo meu. Parecia tão pequeno, nem me ocorreu fixar.
Em abril, uma das raparigas novas no trabalho, de olhos inchados, ficou presa na casa de banho sem saber sair. Chorava baixinho: tinham-na deixado, não era importante para ninguém. Bati à porta: Abre, estou aqui. Sentámo-nos nas escadas, onde cheirava a tinta fresca, ouvi-a repetir tudo. Ouvi-a até anoitecer, e falhei a fisioterapia que o médico recomendou para as minhas dores nas costas.
Deitado no sofá senti a lombar arder. Quis zangar-me com ela, mas a zanga era comigo: porque não sei dizer tenho de ir? Escrevi: Ouvi a Daniela, apoiei-a. Escrevi o nome, deu-lhe calor. Não escrevi que falhei a sessão, como se não contasse.
Em junho, levei a colega Anabela com as malas até à casa de campo, porque o carro dela pifou. Ela foi a resmungar com o marido ao telefone, nem perguntou se me dava jeito. Fiquei calado a ver a estrada. Lá, largou as malas e disse: Vais sempre para aquele lado, obrigada. Não ia nada para aquele lado. Entrei nas filas de trânsito, cheguei a casa tarde e já não vi a minha mãe, que depois ficou ofendida.
Na nota: Levei a Anabela ao campo. O vais para aquele lado ficou-me atravessado e fiquei tempo a olhar para o ecrã apagado.
Em agosto, a minha mãe ligou a meio da noite. A voz tremia: Sinto-me mal, a tensão, estou sozinha. Saltei da cama, vesti o casaco, chamei um táxi através da cidade deserta. O apartamento estava abafado, no prato estavam os comprimidos, o medidor ao lado. Medi-lhe a tensão, dei os remédios e fiquei ali, ao lado, até adormecer.
De manhã fui direto trabalhar, sem passar por casa. No metro, os olhos teimavam em fechar, quase me esqueci da estação. Escrevi: Fiquei com a mãe à noite. Ao lado queria pôr um ponto de exclamação, mas apaguei parecia exagero.
Quando o tempo arrefeceu, a lista cresceu. Ficou tão comprida como uma bobina de papel, sem fim. Quanto mais crescia, mais sentia que não vivia: só prestava contas. Era como se o carinho que os outros sentiam por mim fosse comprovativo, memorizado no telemóvel, caso alguém perguntasse: Mas tu fazes alguma coisa?
Procurei lembrar quando a lista teve algo sobre mim não para mim, mas por mim. Tudo era sobre os outros: as dores, os pedidos, os planos deles. Os meus desejos pareciam birras de criança, para esconder.
Em outubro, houve uma cena pequena, mas ficou-me marcada. Fui a casa do filho levar uns documentos impressos. Esperei no hall, ele à procura das chaves, ao telefone. O neto, sempre traquina, pedia desenhos animados. O filho, a cobrir o microfone, atirou: Já agora que estás cá, passas no supermercado? Precisamos de leite e pão, não temos tempo.
Respondi: Olha que também estou cansado. Nem olhou, só encolheu os ombros: Claro que podes. Tu consegues sempre. E voltou ao telefone.
Estas palavras soaram definitivo. Não era um pedido, era um dado. Senti algo a borbulhar por dentro seguido da velha vergonha, por não querer sempre dizer sim. Por querer finalmente dizer não.
Mesmo assim fui ao supermercado. Comprei leite, pão e ainda maçãs, porque o neto adora. Levei, deixei as compras na mesa, ouvi um Obrigado, pai, dito como quem preenche uma lista. Sorri, como sempre, e fui embora.
Em casa, escrevi: Comprei mantimentos para o filho. Fiquei muito tempo a olhar para a linha. Os dedos tremiam mas de zanga, não de cansaço. Apercebi-me que a lista deixou de servir de apoio: era mais uma corrente.
Em novembro, marquei consulta nas finanças públicas, dores nas costas a aumentar, já não aguentava a cozinha de pé. Marquei para sábado de manhã, para não faltar ao emprego. Na véspera, a mãe ligou: Passas cá amanhã? Preciso de ir à farmácia, e não quero estar sozinha.
Disse: Tenho consulta marcada. Silêncio breve do outro lado: Pronto. Se calhar já não preciso de ti.
Esta frase abria sempre portas. Ia logo explicar-me, prometer, adiar o que era meu. Abri a boca, ia dizer: Vou depois do médico, mas parei. Era cansaço, não teimosia. Senti finalmente que a minha vida também tinha importância.
Disse baixinho: Mãe, vou depois de almoço. Preciso mesmo do médico.
O suspiro do outro lado foi gelado. Está bem, disse, e naquele está bem ia tudo: ressentimento, velho hábito.
Dormei mal. Sonhei com corredores cheios de pastas e portas a fechar-se. De manhã, fiz papas para mim, tomei os comprimidos antigos e saí. Na sala de espera ouvi conversas de exames e reformas, não sobre o meu diagnóstico, mas sobre finalmente fazer algo por mim, e isso assustava.
No regresso, passei pela farmácia, subi ao terceiro andar. A mãe recebeu-me calada e, depois, perguntou se fui à consulta.
Respondi: Fui. Acrescentei firme, sem desculpas: Precisava mesmo.
Ela olhou-me como nunca, a ver uma pessoa, não um serviço. Desviou o olhar, foi para a cozinha. No regresso a casa, senti um alívio estranho. Não era alegria, era espaço.
Em dezembro, mesmo a fechar o ano, dei por mim a desejar o sábado não como pausa, mas como possibilidade. De manhã, o filho voltou a pedir: Podes ficar com o miúdo umas horas? Temos assuntos para tratar. Li a mensagem, os dedos já a digitar claro.
Sentei-me, o telemóvel quente na mão. O silêncio era só cortado pelo ranger do radiador. Lembrei-me do plano para o dia: ir ao centro, ao museu, ver uma exposição que adiava há meses. Queria passear naquele silêncio, sem ninguém me pedir meia ou perguntar o que há para jantar.
Escrevi: Hoje não posso. Tenho planos. Enviei, pousando o telemóvel com o ecrã para baixo, como se custasse menos.
A resposta veio logo: Está bem. Outra depois: Estás zangado?
Virei o telefone, li e senti o instinto de explicar-me, suavizar tudo. Podia escrever um texto comprido, contar que estou cansado, que tenho de viver. Mas explicações tornam-se negociação, e não quero negociar a minha vida.
Respondi: Não. Só é importante para mim. E nada mais.
Preparei-me tranquilo, como num dia de trabalho. Revisei tudo, fechei janelas, levei carteira e carregador. Na paragem, entre sacos e pressas alheias, percebi que não tinha ninguém para salvar naquele momento. Era estranho, mas não assustador.
No museu, andei devagar. Olhei para os rostos nos retratos, as mãos, a luz nas janelas pintadas. Pareceu-me que reaprendia a notar, mas não no que os outros precisavam em mim. Tomei café na cafetaria pequena, comprei um postal com uma reprodução, guardei na mochila. Era de cartolina rija, soube-me bem ao toque.
Quando cheguei a casa, o telemóvel ficou na mala. Primeiro tirei o casaco, pendurei, lavei as mãos, pus água na chaleira. Depois, sentei-me à mesa e abri a nota Coisas Boas. Fui à data de hoje.
Olhei a linha vazia muito tempo. Finalmente, pus um mais e escrevi: Fui ao museu sozinho. Não troquei os meus planos pelos de ninguém.
Parei. Soava grandioso, como uma acusação. Apaguei e escrevi mal mais simples: Fui ao museu sozinho. Cuidei de mim.
Depois, fiz algo novo. No topo da nota, abri duas colunas e dividi a lista. À esquerda: Pelos outros. À direita: Por mim.
Na coluna Por mim só ia uma linha. Olhei para ela e senti que uma coisa importante se alinhava, como a coluna depois de um bom exercício. Não precisava provar o meu valor a ninguém. Bastava-me lembrar que existo.
O telemóvel vibrou de novo. Não corri. Deitei chá, bebi e só depois vi: a mãe mandou Como estás?
Respondi: Estou bem. Levo-te pão amanhã. E adicionei, antes de enviar: Hoje estive ocupado.
Enviei e deixei o telefone à vista. O silêncio da casa já não pesava. Era finalmente um lugar feito para mim também.
Aprendi, enfim, que cuidar dos outros não pode significar esquecer-me de existir. Há espaço para todos, e também para mim.






