É uma boa mulher. O que seria de nós sem ela?
Só lhe dás mil e quinhentos euros por mês.
Zulmira, já passámos a casa para o nome dela.
Manuel levantou-se da cama e caminhou devagar até ao quarto ao lado. À luz do candeeiro de mesa-de-cabeceira, espreitou com os olhos cansados para a sua esposa.
Sentou-se junto dela, escutou um pouco. Parece que está tudo bem.
Levantou-se e, arrastando os pés, foi até à cozinha. Abriu um iogurte, foi à casa de banho. Depois, seguiu para o seu quarto.
Deitou-se de novo. O sono teimava em não chegar:
Eu e a Zulmira já com noventa anos. Tanta vida vivida. O tempo de partir já deve estar perto, e não temos ninguém por perto.
As filhas, a Joana já cá não está, nem chegou aos sessenta.
O Carlos também já partiu. Gostava demasiado da noite Só há a neta, Mariana, que vive em França há vinte anos. Já nem se lembra dos avós. Se calhar, até os filhos dela já estão crescidos…
Sem dar por isso, adormeceu.
Acordou com o toque de uma mão:
Manuel, está tudo bem? ouviu-se a voz ténue da esposa.
Abriu os olhos. Ela estava inclinada sobre ele.
O que foi, Zulmira?
Vi-te aqui tão quieto que pensei o pior.
Ainda estou vivo! Vai dormir!
Sentiu passos arrastados pela casa, a luz da cozinha acendeu-se.
Zulmira bebia um copo de água, foi de novo à casa de banho e, em silêncio, voltou para o quarto. Deitou-se com cuidado:
Um dia ainda acordo e já o Manuel não está. O que será de mim? Ou então vou eu primeiro.
O Manuel até já tratou do nosso funeral. Nunca pensei que isso pudesse ser organizado antes de morrer. Mas assim é melhor. Quem fará isto por nós depois?
A neta já se esqueceu de nós. Só a vizinha, Ivone, é que vem cá. Tem a chave da nossa casa. O Manuel passa-lhe mil euros da nossa reforma. Ela faz-nos as compras e tudo o que precisamos. Para que queremos o dinheiro? E já nem conseguimos descer as escadas do terceiro andar.
Manuel abre os olhos. O sol entra pela janela. Vai até à varanda e vê o verde brilhante das árvores. Sorri:
Sobrevivemos até ao verão!
Vai ver se a esposa está bem. Ela está sentada na cama, pensativa.
Zulmira, anima-te! Anda cá que quero mostrar-te uma coisa.
Ai, que estou sem forças ela levanta-se devagar Que ideia é essa agora?
Anda, vem comigo!
Segurando-a pelos ombros, leva a esposa até à varanda.
Vê só como as árvores brilham! E tu pensavas que não íamos chegar ao verão. Vê só!
Tens razão! E o sol está tão bonito!
Sentaram-se os dois no banco da varanda.
Lembras-te quando te convidei para irmos ao cinema na escola? Também era primavera, as árvores estavam assim verdinhas.
Como esquecer? Quanto tempo já passou desde então?
Uns setenta… setenta e cinco anos.
Ficaram ali muito tempo, recordando a juventude. Tanta coisa se esquece com a idade, às vezes nem o que fizemos ontem, mas a juventude nunca se apaga.
Já estamos a divagar demasiado! disse Zulmira, levantando-se devagar Ainda nem tomámos o pequeno-almoço.
Faz-nos lá um chá decente, Zulmira! Estou farto de tisanas.
Mas o médico não aconselha.
Põe só um pouco de açúcar e faz fraquinho.
Manuel bebe o chá fraco, trinca uma sandes pequenina com queijo, e lembra-se de quando o pequeno-almoço era chá bem forte e doce, com bolos ou rabanadas, bem à moda antiga.
A vizinha entrou. Sorriu com aprovação:
Como é que vão as coisas por aqui?
Que coisas pode haver para dois velhotes de noventa anos? brincou o Manuel.
Se ainda faz piadas, é bom sinal. Precisa de alguma coisa?
Ivone, compra-nos carne! pede Manuel.
O doutor disse que não podiam…
Frango pode ser, isso não há problema.
Está bem, faço-vos uma sopa com massa!
Ivone limpou a mesa, lavou a loiça e foi-se embora.
Zulmira, vamos apanhar sol na varanda! pede o marido.
Vamos sim!
A vizinha voltou à porta da varanda.
Então, já tinha saudades do sol, foi?
Aqui está-se tão bem, Ivone! sorri Zulmira.
Esperem, vou-vos trazer o mingau. E daqui a nada começo a sopa para o almoço.
Que boa mulher, comentou Manuel quando ela saiu O que seria de nós sem ela?
E só lhe dás mil e quinhentos euros ao mês.
Zulmira, já deixámos a casa em nome dela.
Ela não sabe disso.
Ficaram sentados na varanda até à hora do almoço. E o almoço foi sopa de galinha, com massa e batata, uma delícia:
Eu fazia sempre assim para a Joana e o Carlos quando eram pequenos recorda Zulmira.
E agora são outras pessoas que nos cozinham suspira Manuel com tristeza.
É o nosso destino, se calhar. Um dia partimos, Manuel, e ninguém irá chorar.
Pronto, Zulmira, nada de tristeza. Vamos dormir um pouco!
Manuel, não é por acaso que dizem: Velhos e crianças, tanto vale.
Tudo igual ao tempo de crianças: sopa passada, sesta, lanchar a meio da tarde.
Depois da sesta, Manuel levanta-se, inquieto. Sentia-se estranho, talvez por causa do tempo a mudar. Foi até à cozinha, onde estavam dois copos de sumo preparados por Ivone.
Pegou cuidadosamente neles e, para não entornar, levou-os ao quarto da Zulmira. Ela estava sentada, a olhar pensativa pela janela.
Que foi, Zulmira, tristonha? sorriu ele. Toma lá o teu suminho.
Ela bebe um gole.
Também não consigo dormir…
Hoje o tempo está estranho.
Desde manhã que não me sinto bem, Manuel, Zulmira abana a cabeça, triste. Sinto que já não me falta muito. Vê lá que cuides de mim como deve ser.
Zulmira, não digas disparates. Como vou ficar aqui sem ti?
Um de nós há-de partir antes.
Chega! Vamos à varanda.
Ficaram lá até ao fim da tarde. Ivone trouxe-lhes queijadinhas acabadas de fazer. Comeram, depois sentaram-se a ver televisão. Só conseguiam seguir bem os filmes antigos e desenhos animados.
Naquele dia, viram só um episódio. Zulmira levantou-se:
Vou deitar-me. Estou cansada.
Eu também vou.
Oh, deixa-me olhar bem para ti! pedidos ela, de repente.
Para quê?
Porque sim.
Olharam-se longamente, talvez a recordar a juventude, quando tudo estava por viver.
Anda lá, levo-te até à tua cama.
Zulmira segura-se ao braço do marido e, juntos, caminham devagarinho.
Ele aconchega Zulmira com o cobertor e vai para o seu quarto.
Sentia o coração apertado. Demorou a adormecer.
Achou até que não dormiu nada, mas o relógio marcava duas horas da manhã. Levantou-se e foi ao quarto da esposa.
Ela estava de olhos abertos.
Zulmira!
Segura-lhe a mão.
Zulmira, então? Zul-mi-ra!
E sentiu ele próprio faltar-lhe o ar. Foi até ao quarto, pegou nos documentos que tinha preparado, pôs em cima da mesa.
Voltou para junto da esposa. Olhou-a muito tempo. Depois deitou-se ao lado dela e fechou os olhos.
Viu Zulmira, jovem e bonita, como há setenta e cinco anos. Ela caminhava para uma luz ao fundo e ele foi atrás dela, segurou-lhe a mão.
De manhã, Ivone entrou no quarto. Estavam deitados, lado a lado. No rosto de cada um via-se o mesmo sorriso sereno.
Ivone chamou logo o INEM.
O médico olhou para eles, abanou a cabeça, surpreendido:
Foram-se juntos. Devem ter-se amado muito
Levaram-nos. Ivone sentou-se, esgotada, na cadeira junto à mesa. Foi então que viu os documentos e o testamento em seu nome.
Baixou a cabeça e chorou.
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