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013
A Felicidade Renascida: Como Superei a Perda do Meu Marido num Termas em Portugal, Conheci um Novo Amor (mesmo com muitas dúvidas!), Juntei Famílias, Enfrentei Tabus e Ganhei um Neto chamado Paz
SENHORA DO DESTINO Ó homem, por favor, deixe de me seguir! Já lhe disse que estou de luto pelo meu marido.
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030
– Vai-te embora! – Gritou Boris. – O que é isso, filho… – A sogra tentou levantar-se, agarrando-se ao tampo da mesa. – Eu não sou teu filho! – Boris agarrou a mala dela e atirou-a para o corredor. – Quero que nem o teu espírito volte a pôr os pés aqui! – Vai-te embora! – Gritou Boris. Maria estremeceu. Nunca, em seis anos, o tinha ouvido falar assim. – O que é isso, filho… – A sogra tentou levantar-se, agarrando-se ao tampo da mesa. – Eu não sou teu filho! – Boris agarrou na mala dela e atirou-a para o corredor. – Quero que nem o teu espírito volte aqui! …A Aninhas dormia, de braços abertos como uma pequena estrela-do-mar. Maria ajeitou-lhe o cobertor. Gostava de ficar assim, só a olhar para a filha. Sonhou com ela durante tantos anos, lutou tanto para ser mãe. O marido chegou do turno da noite – percebeu pelo ruído no hall de entrada. Maria saiu do quarto da menina, fechando a porta suavemente. Boris descalçava-se. Exausto, nitidamente mais magro. Trabalhou como um boi para pagar os empréstimos que tinham contraído para os tratamentos de fertilidade. – Está a dormir? – Perguntou ele em voz baixa. – Está. Comeu e adormeceu logo. Boris puxou Maria para junto de si, encostou o rosto ao pescoço dela. Raramente falava sobre amor, mas Maria sabia que ele lhe era grato até à loucura. Por não o ter abandonado, por não o ter trocado por alguém saudável, por tê-lo feito feliz. Aos dezasseis anos, Boris teve papeira “em pé” – teve vergonha de contar à mãe que estava inchado e que doía. Quando contou, já era tarde. As complicações trouxeram-lhe quase esterilidade total. – A mãe telefonou, – disse Boris baixo, sem largar Maria. Maria ficou tensa. – O que quer a dona Alice? – Vem aí. Ao almoço está cá. Diz que trouxe uns bolos, que tem saudades. Maria suspirou, soltando-se do abraço. – Boris, achas mesmo que é boa ideia? Da última vez deixou-me em lágrimas com os conselhos para lavar com bicarbonato. – Maria, é a mãe… Quer ver a neta. Passou um ano e só viu a Aninhas em fotografia. É avó, afinal. – Avó… – sorriu Maria, com amargura. – Que considera a nossa filha uma “intrusa”. Adotaram a Aninhas há um ano. As listas de espera por recém-nascidos saudáveis na região eram tão longas que só dava para desesperar. Ajudaram contactos, um envelope generoso “para a maternidade” e a sensatez de uma amiga enfermeira. A menina nasceu de uma adolescente de dezasseis anos, assustada, desamparada, para quem um filho significaria o fim da vida. Maria lembrava aquele dia: um pequeno embrulho de três quilos e duzentos, e uns olhos azuis a fitá-la. – Está bem, – disse Maria. – Que venha. Sobrevivemos. Mas se ela começar outra vez… – Não vai começar, prometo – disse Boris. A sogra chegou para o almoço. Alice entrou na casa ocupando todo o espaço. Era uma mulher corpulenta e barulhenta, com aquele jeito aldeão capaz de parar um cavalo, apagar um incêndio e dar cabo do juízo de quem estivesse à volta. – Ai, meu Deus! – Queixou-se ela à porta, pousando a mala quadriculada no chão do hall. – O transporte é um horror! Comboios abafados, no metro só empurrões. – Por que razão vivem tão alto? O elevador rangia, achei que ia morrer! – Bom dia, mamã, – Boris deu-lhe um beijo na face e levou-lhe a mala pesada. – Venha, lave as mãos. Alice tirou o casaco, exibindo um vestido com padrões florais que moldava as formas robustas, e olhou logo de cima a baixo para Maria. Olhou-a como se fosse um cavalo à venda. – Olá, Dona Alice, – sorriu Maria. – Olá, olá, – a sogra crispou os lábios. – Estás tão mirrada, Maria. Só ossos. O marido vai agarrar-se a quê? Boris está magro, noto eu. Não o alimentas bem? Só comes relva e deixas o homem à fome? – O Boris come bem, – cortou Maria, corando. – Venha para a mesa. Na cozinha, Alice começou logo a abrir a mala – de lá tirou recipientes com empadas, um frasco de pepinos em conserva, um pedaço de toucinho. – Comam. Nesta cidade só há comida artificial. Mastigam plástico. Sentou-se à mesa, apoiando os cotovelos pesados. – Então, contem-me. Como vai a vida? Já pagaram esses… experimentos? Maria apertou o garfo. “Experimentos!” Assim chamava a seis anos de dor, esperança e desespero. – Quase pagámos, mamã, – resmungou Boris, servindo-se de salada. – Não falemos de dinheiro. – E falamos de quê? – estranhou a sogra, mordendo uma empada. – Do tempo? O irmão do Boris, lá na aldeia, já tem terceiro filho. A menina saudável, linda! Quatro quilos! E a Tânia, a irmã, está grávida de gémeos. Isso é que é saúde! A nossa linhagem, Boris, é forte. Somos férteis. Olhou Maria com significado. – Se não se estragarem os genes, claro… Maria pousou o garfo devagar. – Dona Alice, já falámos disto cem vezes. O problema não é meu. Temos relatórios médicos. – Ora, deixa-te disso! – sacudiu a mão Alice. – Papéis esses os médicos só para sacar dinheiro. Papeira! Deixa-me rir! – Os rapazes lá na aldeia tiveram todos, e têm filhos às carradas. – Isso é a tua esposa a contar-te histórias para tapar as doenças dela. – Mãe! – Boris bateu com a mão na mesa. – Chega! Alice agarrou teatralmente no peito. – Não me fales assim! Criei cinco filhos, conheço a vida. Vejo que ela é estreita, magra, de quadris miúdos. Onde é que hão-de estar os filhos? Vazio. – Somos felizes, mamã, – murmurou Boris. – Temos a nossa filha, Aninhas. – Filha… – bufou Alice. – Mostra-me ao menos. Foram ao quarto das crianças. A Aninhas estava acordada, sentada na cama, a brincar com um ursinho de peluche. Ao ver a senhora, franziu o sobrolho, mas não chorou. Era de feitio calmo. Alice aproximou-se da cama. Maria ficou por perto, pronta para agarrar a filha – da sogra tudo se esperava. A mulher olhou a menina demoradamente, semicerrando os olhos. Tocou-lhe na face rechonchuda. Aninhas virou-se de lado. – Então, a quem saiu esta? – perguntou a sogra, irritada. – Que olhos pretos! Os meus são todos claros. – Tem olhos azuis escuros, – corrigiu Maria. – E o nariz? Batata. Tu, Maria, tens o nariz fino, o Boris direito. E esta? Endireitou-se, sacudiu as mãos como se estivessem sujas. – Sangue estranho, isso é! Voltaram para a cozinha. Boris encheu-se de água, com as mãos a tremer. – Mamã, escuta, – começou ele, com voz calma. – Amamos a Aninhas! Ela é nossa! Legal, de coração, de tudo! – E ainda vamos tentar ter filhos biológicos. Os médicos dizem que há hipóteses, mesmo que pequenas. Mas mesmo se não der – já temos uma família. Alice estava de lábios apertados. Estava aflita. Ela, mãe de cinco, avó de doze, doía-lhe ver o filho “gastar-se com criança alheia”. – És um tolo, Boris, – suspirou ela, por fim. – Mas que tolo! Trinta e cinco anos. Homem feito. E andas a criar uma enjeitada! – Não digas isso! – gritou Maria. – E que hei-de chamar-lhe? Princesa? – Tu bem calavas! Tu não consegues parir, baralhaste o homem. Até pagaram… Compraram-na como um gato no mercado! – É nossa filha! – Filha é quando é nossa! Quando não dormes à noite, quando há dores e sufocos, quando a pariste! – E esta… – acenou em direção ao quarto. – Faz-de-conta de mãe e filha. Pegaram numa pronta. De uma rapariga desacertada. – Acham que os genes se escapam, é? Ela vai mostrar-vos! Vai dar problemas! Como a mãe! Entreguem-na a tempo! Maria viu os olhos de Boris arregalarem-se. Ele levantou-se devagar. – Rua, – disse ele, baixinho. Alice ficou espantada. – O quê? – Vai-te embora daqui! – gritou Boris. Maria estremeceu. Nunca, em seis anos, o tinha ouvido assim. – O que é isso, filho… – A sogra tentou levantar-se, agarrando-se ao tampo da mesa. – Eu não sou teu filho! – Boris agarrou a mala dela e atirou-a para o corredor. – Quero que nem o teu espírito volte aqui! Entregar? Entregar a filha?! Confundes gente com coisa? É minha filha! Minha! E tu… tu… Ficou ofegante. – É horrível ser mãe assim! Vai para a aldeia contar os teus “puras”. Mas não voltes mais aqui! Nunca mais! Do quarto ouviu-se o choro da menina. Maria correu à porta, mas parou ao ver a cara mudada da sogra. O vermelho foi ficando cinzento. Alice abriu a boca, sem apanhar ar, como peixe fora d’água. A mão apertou o vestido. – Boris… dói… como dói… Foi caindo. Pesada como um saco de trigo, virou a cadeira. O estrondo misturou-se ao choro da criança. Maria chamou o INEM. Boris ajoelhou-se ao lado da mãe, com mãos a tremer, a desabotoar-lhe a gola. – Mãe, o que tens? Respira, mãe! Alice arfava. Os médicos chegaram depressa. Logo da porta o enfermeiro gritou: – Enfarte! Grande! Maca, rápido! Quando a porta se fechou atrás dos médicos, Boris sentou-se no chão do hall, encostado à parede. Olhou para o lenço esquecido da mãe, em cima da cómoda. – Fui eu que lhe fiz isto? – perguntou. Maria sentou-se ao seu lado e segurou-lhe a mão gelada. – Não. Foi ela mesma. Com tanto veneno. – Era mãe, Maria. – Ela quis que deitássemos fora a nossa filha como produto com defeito. Boris, acorda. Defendeste a tua família. Uma hora depois, o telemóvel vibrou. Chamava a irmã, Tânia. Depois o irmão, Nicolau. Boris não atendeu. Veio uma mensagem de uma tia: – A mãe está nos cuidados intensivos. Os médicos dizem que não tem hipótese. És um monstro? Que te faça falta. A família toda te amaldiçoa! Não apareças, nunca! – Pronto. Fiquei sem família. Maria abraçou-o pelos ombros, sentindo o corpo dele tremer. – Tens sim, – disse ela firme. – Tens-me a mim. Tens a Aninhas. Somos a tua família! De verdade! A que não te abandona. Levantou-se e puxou-o pela mão. – Anda, a Aninhas precisa de comer. Assustou-se. À noite, estavam na cozinha. A filha, depois de se acalmar, brincava com cubos no tapete. Boris olhava-a como se a visse pela primeira vez. – Sabes, – disse ele de repente, – a mãe tinha razão numa coisa. Maria ficou alerta. – Em quê? – Os genes não se apagam com um dedo. Só que genes não são só olhos ou nariz. São também saber amar. A minha mãe tem cinco filhos e amor… como uma pedra. Será que sou adotado? Porque amar eu sei… não é, minha pequena? Pegou na filha ao colo. A menina agarrou-lhe o nariz e riu. – Papá, – disse ela com clareza. Foi a primeira vez. Até aí só “ba-ba” ou “ma-ma”. O Boris parou. As lágrimas que segurou todo o dia rolaram pelas faces, caindo no macacão cor-de-rosa. – Papá, – repetiu ele. – Sim, minha pequena. Sou teu pai. E nunca te vou deixar. A mãe recuperou, mas Boris nunca mais lhe falou. Para a família agora foi banido. Maria até tem vergonha de admitir, mas está feliz por assim ser. Sem rancores, sem torturas, vive-se melhor. Para quê família assim? Só fazem falta os que nos querem bem… E vocês, o que acham do desabafo desta mãe? Escrevam nos comentários e deixem o vosso “gosto”!
Vai-te embora! gritou Beto. O que foi isso, filho? Dona Lurdes começou a levantar-se, segurando-se à
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031
Lina era má. Muito má, coitada da Lina, era mesmo má, essa Lina. Toda a gente tentava mostrar à mulher o quanto ela era má. Má, e ainda por cima infeliz. Claro, não tem marido, o filho já é adulto, vive sozinho. Lina está sozinha, não faz falta a ninguém. Segunda-feira chega ao trabalho, todas gabam-se do fim de semana a limpar, a lavar, umas trabalharam no quintal, outras fizeram compotas. Lina cala-se, não tem o que contar, não tem homem, o filho já cresceu, fica calada. Hoje saiu mais cedo, todos sabem que, um par de vezes por mês, ela sai antes. Abanam a cabeça em desaprovação, convencidos de que Lina vai ter com os seus inúmeros amantes, porque toda a gente ali sabe: Lina tem muitos amantes, afinal, é tão má. Lina é mesmo má. As outras são todas boas mulheres casadas, ocupadas, mas Lina, essa é má. — Lina, diz a mãe, — porque é que tu és assim? — Assim como, mãe? — Tão desarrumada na vida, olha, podias ao menos arranjar um homem qualquer, filha. Ainda vais a tempo até de ter outro filho, agora todos têm filhos depois dos quarenta. — Mãe, para quê mais um homem? Para que quero outro filho de um homem qualquer? Já tenho o meu filho, o Léo chega-me bem… E esse homem, como tu dizes, para quê? O que faço com ele? Já tenho o Óscar. — Lina! — exclama a mãe, — Lina, tu não percebes, o Óscar não é teu homem! — Então não é? Claro que é, — ri-se Lina. — Convida-me para sair uma vez por semana, dá-me presentes, ajuda-me nas férias, não me chateia, não me manda para a quinta dos pais, não me obriga a lavar-lhe cuecas e meias, não exige jantar, não me enche de problemas, nem fica esparramado no sofá. Uma bênção. — Pois é uma bênção, mas tudo isso fica para a pobre da mulher dele. — Então, querias que isso tudo ficasse para mim? Não, mãe, eu já tenho quarenta e poucos, já fui casada duas vezes, lembra-te, DUAS. E fugi de tanta felicidade a correr descalça. O primeiro marido, pai do Léo, lembro-te, foi porque tu insististe: “é mais velho, é sério, ama-te, tem bom emprego…” Cinco anos estive presa, sem poder estudar, sem amigas, até do meu filho não podia cuidar: “és nova, vais fazer asneira”, só podia trabalhar para ele e para a mãe dele. Mas, ah, estava cheia de ouro. Uma vez por mês exibia-me como se fosse um troféu, para mostrar que tinha uma mulher direita. Ele até gostava das tais “bonecas”, não se coibia… Quando fugi e pedi divórcio, agradeço à minha avó querida que me ajudou, ele quis tudo de volta, até as minhas cuecas… Na segunda vez, casei por amor, estudava e trabalhava, lembras-te, mãe? De dia na faculdade, à noite trabalhava para não ser um peso em casa… — Lina! Como podes dizer isso? Alguma vez te atirei à cara o pão ou o prato de sopa, a ti ou ao teu filho? — Tu não, mãe… Mas não és só tu… Há quem sempre tenha medo que eu “salte para o pescoço” e fique aí dependente. — Mas de quem falas? — Do pai, claro. E do mano, o Nuno, sempre no sofá, a jogar no computador… Trabalhas em dois sítios, chegas a correr, ainda tens de passar no supermercado porque “os passarinhos têm fome”. Cozinhas, limpas… Por isso, casei outra vez por amor, porque viver sem era igual. Mudou alguma coisa? Nada. Trabalho a dobrar — passei a Lina-que-deve-a-todos. O homem no sofá, eu no trabalho, depois ao infantário buscar o meu filho. Nem pensar em pedir-lhe ajuda, “não é filho dele, e mesmo que fosse, homem não cuida”. De carro, nem falar, só ele precisa. “Quem vai à fábrica de eléctrico? As mulheres vivem assim, o que é que queres?” Jantar feito, mesa posta, roupa lavada, tudo direitinho, e ainda “satisfaz o marido, senão ele trai-te, tesouro”. Falta dinheiro? “É para o teu filho, não para mim.” “Se ao menos fosse meu, via-se.” “Não, procura outro otário que sustente a ti e ao pirralho.” Desculpa lá, enganaste-te na filha… “Não ajudas com o carro? Mas somos família, não somos?” “Olha essa, a diferença entre o que tu ganhas e o que eu ganho, sem fazer nada.” “Tiveste sorte…” “Vais embora?” “Vá, quem é que te vai querer, já com filho? Haha.” Pois foi assim, mãe, já estive com quem ganhava mais e com quem ganhava menos. Não mudou nada. Para eles tudo bem, só eu é que não era feliz, mãe. — Lina, toda a gente vive assim, filha. — Pode ser, mãe, mas eu não quero isso, não vou viver assim. Como foi o teu sábado? — Olha, o Nuno e a Sónia deixaram-me os filhos, fui passear, fiz panquecas, limpei, aspirei, lavei o chão, pus roupa a lavar, à noite deitei-os, dei jantar ao avô, passei a ferro e fui-me deitar quase à uma, e domingo de manhã já eles pediam panquecas outra vez, depois o Nuno e a Sónia voltaram, assei frango, fiz salada, pizza, jantámos, arrumei e fui-me deitar às onze estafada, o avô foi acordar-me para ir para a cama. — Mãe, não me lembro de tu teres ficado com o Léo assim… Nunca te deixei o miúdo e fui correr para descansar, pois não? — Tu sempre foste muito independente, estes agora… nem sei. — Queres saber como foi o meu fim de semana passado? Sexta à noite ligou o Léo a pedir para ficar com o Timóteo, que queria ir à Serra com a namorada. Claro que fiquei, porque não? Timóteo é o gato da Mariana, do Léo, e tu se estivesses menos ocupada com a família do Nuno, até sabias disso. Vieram trazer o gato, com pizza, e foram-se embora. Comi pizza e fui ver séries, porque não tenho de me levantar cedo ao sábado. De manhã dei comer ao Timóteo, fiz café, limpei o pó, pus roupa a lavar, liguei-te para irmos ao museu ou só conversar. O pai atendeu, estavas ocupada, com as mãos molhadas. Chamou-me de preguiçosa, disse que tu trabalhas sem parar, aturas os meus sobrinhos, e eu ando feita madame em museus. Até queria ficar ofendida, mas nem vale a pena. Fui ao museu, havia exposição do teu pintor favorito, lembrei-me porque gostavas tanto dele. Fui ao café, às compras, voltei a casa, o gato a dormir. Não me apetecia sair, deitei-me no sofá a ver séries. Domingo dormi com o Timóteo até tarde, tentei convidar-te para andar de cacilheiro, mas a Sónia atendeu e disse que estavas ocupada, a lavar a loiça ou a arrumar. À noite o Óscar ligou, convidou-me para jantar fora, fui, porque não? Sou mulher livre, não lhe pergunto pela mulher dele, nem ele me fala disso, não me enche a cabeça de problemas. Tive um ótimo serão e segunda fui trabalhar bem-disposta. Tentei conhecer homens solteiros, mãe, mas foi desilusão. Só aparecem miúdos à procura de mãe ou homens amuados com a vida, cheios de filhos e ex-mulheres, divorciados. Estás a olhar para mim assim porquê, mãe? O mundo mudou, sabes? Um deles disse que eu tinha de aceitar os filhos dele, claro, porque toda mulher tem amor de sobra pelos filhos dos outros. Ele vai sustentar os filhos e a ex-mulher — “ela é mãe dos meus filhos, merece”. E vivemos os dois do meu ordenado, porque o resto ele gasta na pesca, que gosta muito. Em troca, prometeu “dar-me bom peixe para comer”. Perguntei se ele ajudaria o meu filho, ficou ofendido: “O Léo tem o pai dele, que seja ele a ajudar” — Justo? Justíssimo, e por isso mandei-o à fava. O Léo tem mãe, sou eu. Claro que fiquei má, egoísta, calculista, sem vergonha. Queria arranjar um homem para criar o meu filho e ser feliz às custas dele… Por isso apareceu o Óscar. Sim, posso ser má aos olhos dos outros, mas não me envergonho da vida que levo. O que me custa é ver-te a ti, mãe, assim, por isso tento tirar-te de casa, como hoje, menti a ti e ao pai, disse que precisava de ajuda. Mãe, comigo está tudo bem, agora vamos cuidar de nós, fazer algo por ti, por mim, tua filha. — Estás maluca, Lina, e o teu pai? — O que tem o pai? Está doente? — Não, mas… o almoço… — Não acredito que não tenhas almoço feito. — Mas é preciso aquecer, e o Nuno… — Mãe! Olha que me ofendo… eu sei que sou má, deixa-me ser boa agora, vem descansar comigo, faz-me esse favor… No trabalho, segunda-feira, as mulheres contam como “descansaram” a cansar-se. Lina sorri de lado, todos dizem que a Lina é má, ela passa leve e feliz, sorrindo sozinha. Afinal, toda a gente adivinha o que lhe passa na cabeça — só pode ser coisa má.
Aurélia era má. Má, mas daquelas que até metem pena, de tão mázinhas que são. Uma vergonha, coitada da Aurélia.
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014
OLHANDO PARA O VAZIO Dinis e Ana casaram-se aos 19 anos, loucamente apaixonados e incapazes de viver um sem o outro. Os pais, preocupados, trataram de formalizar o relacionamento antes que algo “menos próprio” acontecesse, e organizaram uma boda portuguesa memorável: boneca no carro, chuva de flores, fogo de artifício, salão de festas, e muitos gritos de “Beijinho!” à mesa. Os pais de Ana, sem recursos, mal tinham dinheiro para a comida do dia-a-dia e algum vinho; toda a despesa ficou a cargo da mãe do noivo, Dona Alexandra Alexandrina. Como achava o nome difícil de pronunciar, pedia que a tratassem por Xana Xandina. Xana Xandina nunca aprovou o namoro do filho com uma rapariga de família dada ao copo, mas Dinis insistia: o amor deles superava todos os maus fados de família. Xana tentou alertá-lo: “Olha que de uma oliveira, não nascem laranjas! Que a tua paixão não seja coisa breve…”. O jovem casal sentia-se no início de uma felicidade sem fim: só eles, a alegria, a festa, o mundo aos seus pés. A história, porém, não tardou a trocar-lhes as voltas. Xana Xandina e o marido ofereceram-lhes um apartamento de presente de casamento: “Vivam felizes, meus filhos!” Ana teve duas filhas, Tânia e Solange, e Dinis fartava-se de mimar as meninas; orgulhava-se do seu papel de novo chefe de família. Porém, ao fim de menos de cinco anos, Ana começou a desaparecer inexplicavelmente de casa e, ao regressar, Dinis notava-lhe o cheiro a álcool. A princípio, ela recusou explicações, depois respondeu friamente: nunca amara realmente Dinis, fora só paixão de juventude, agora tinha encontrado o seu verdadeiro amor e ia-se embora — não importava que o novo homem fosse casado e pai de três filhas. Dinis ficou devastado, sentido de traição. Ana fugiu para uma aldeia remota com o amante, dizendo: “Com quem se ama até uma cabana é um palácio, com quem não se gosta nem um campo chega.” As filhas ficaram ao abandono. Xana Xandina, sempre irrequieta e cheia de energia, acolheu as netas. Ela e o marido mimavam-nas e protegiam-nas contra as agruras da vida. Dinis, desamparado, foi parar por conselho de um amigo a uma seita religiosa, onde o casaram com uma viúva, Cláudia, mãe de dois rapazes. O tempo de Dinis tornou-se escasso para as filhas, pois Cláudia enchia-lhe os dias de tarefas e problemas próprios. Sempre que falava nas filhas, ouvia: “Olha, Dinis, elas têm mãe, não têm? Vai levar o Olegário à escola e dá o lanche ao Victor…” Dinis resignava-se; continuava a amar Ana, mas o caminho de regresso estava fechado. Passaram sete anos. Um dia, inesperadamente, Ana apareceu em casa de Xana Xandina de mão dada com uma menina de quatro anos. Xana fitou a ex-nora: “A vida não te poupou, Ana… É tua filha?” “Sim, é a Maria. Podemos ficar aqui uns tempos?”, pediu Ana, hesitante. “Não esperava estas visitas. Foste posta na rua?”, questionou Xana. “Não, saí por vontade própria. Já não aguentava. O meu marido batia-me e vivia bêbado.” “Foste tu que escolheste. Ninguém te arrastou! Porque não vais para teus pais?” “Tenho saudades das minhas filhas… Vim vê-las.” “Ah! Agora lembras-te… És mesmo uma mãe-cuco, Ana!” — disse Xana antes de ser interrompida pelo toque à porta. Tânia e Solange, agora adolescentes, viram desconfiadas a mãe ausente. Sentiam-se afastadas, guardavam-lhe rancor. Frequentemente, Xana lamentava que as netas fossem órfãs de pais vivos. Apesar de tudo, Xana acolheu Ana e a pequena Maria. Mas, passado um mês, Ana desapareceu novamente — voltou para o “supliciante encantado” da aldeia, deixando a filha aos cuidados da ex-sogra. Assim, Xana ficou a cuidar de três netas. Em casa reinavam afeto, integridade e respeito mútuo. Os anos passaram. Xana e o marido faleceram, deixando as netas sozinhas no mundo. Tânia casou, mas foi estéril. Solange nunca constituiu família. Maria foi mãe solteira aos dezassete e foi viver com Ana para a aldeia. A juventude passou sem avisar; a velhice chegou sem pedir licença. Ana já só vivia na sua solidão — o companheiro foi levado pelas filhas dele para a cidade, adoentado, acabando inválido. As enteadas nunca perdoaram Ana, culpando-a pela doença do pai: “Não metas a colher no prato alheio!” Na aldeia, todos lhe apontavam o dedo, chamavam-lhe “sem vergonha”, falavam nas costas: ali, paredes têm ouvidos! Dinis acabou por fugir de Cláudia e da seita, ficou sozinho, na casa da mãe, sobrevivendo com dificuldade, companhia apenas de três gatos para não perder o juízo. E pensar que a felicidade bateu à porta de Ana e Dinis…
OLHANDO O VAZIO O Tiago e a Beatriz casaram-se quando ambos tinham apenas 19 anos. Não conseguiam viver
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014
“Mãe, somos nós, os teus filhos… Mãe…” Ela olhou para eles. Ana e Roberto viveram na pobreza durante toda a vida. Ana já tinha perdido as esperanças numa vida feliz e desafogada. Em tempos fora jovem, apaixonada e sonhava com um futuro brilhante para ambos. Mas a vida não correu como imaginava. Roberto trabalhou arduamente, mas o dinheiro mal chegava para as despesas. Depois, Ana engravidou. Nasceram-lhes três filhos, quase de seguida. Ana já não trabalhava há muito. Só o salário do marido não chegava. As crianças cresciam, precisavam de roupa e calçado. Todo o ordenado ia para comida, contas e mais nada. Doze anos assim deixaram marcas na família. Roberto começou a beber. Sempre trazia o ordenado para casa, mas voltava bêbedo todos os dias. Ana perdeu o ânimo com essa vida. Um dia, o marido chegou a casa com uma garrafa de aguardente. Farta, Ana tirou-lha das mãos e bebeu. E foi a partir daí que começou a beber. Passado algum tempo, sentiu-se melhor. Os problemas pareciam desaparecer. Até se animava. Depois disso, quase todos os dias esperava que o marido trouxesse a bebida. Começaram a beber juntos. Ana esqueceu os filhos. No aldeamento todos se perguntavam como é que a aguardente mudou aquela mulher. Depois, os rapazes andavam pela aldeia a pedir comida. Um dia, um vizinho não aguentou mais e disse: – Ana, é melhor entregá-los ao orfanato do que deixá-los morrer à fome. Até quando vais beber e ignorar os teus filhos? Ana ficou com aquelas palavras gravadas na memória. Pensava nelas constantemente. Talvez fosse melhor que os filhos nem lhe andassem a chatear. Passado algum tempo, Ana e Roberto acabaram por abandonar os filhos. Os rapazes foram para um orfanato. Choravam à espera dos pais, mas ninguém lá ia. Ana e Roberto já nem se lembravam deles. Passaram-se alguns anos. Um a um, os rapazes saíram do orfanato. Receberam cada um um pequeno apartamento de renda social. Mas pelo menos tinham onde viver. Todos arranjaram trabalho e sempre se apoiaram. Não falavam dos pais, mas queriam vê-los, perguntar porque é que aquilo lhes aconteceu. Um dia, juntaram-se e foram de carro até à casa onde tinham vivido. Pelo caminho, cruzaram-se com a mãe, que ia com dificuldades pelo passeio. Ela passou por eles sem os reconhecer. – Mãe, somos nós, os teus filhos… Mãe… Ela olhou para eles com um olhar vazio. E depois reconheceu-os. Começou a chorar e pediu-lhes perdão. Mas como podia ser perdoada? Os filhos ficaram parados, sem saber o que dizer. Depois decidiram: fosse quem fosse, ela era a mãe deles. E perdoaram-na.
Mãe, somos nós, os teus filhos Mãe Olhou para nós. Maria e António viveram toda a vida com dificuldades.
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022
O meu marido sempre disse que eu não era suficientemente feminina. No início, fazia comentários em tom de brincadeira – que se eu usasse mais maquilhagem, se vestisse mais vestidos, se fosse “mais delicada”. Eu nunca fui assim. Sempre fui prática, direta e não muito vaidosa. Trabalho, resolvo problemas, faço o que é preciso. Ele conheceu-me assim. Nunca fingi ser outra pessoa. Com o tempo, estes comentários tornaram-se mais frequentes. Começou a comparar-me com mulheres das redes sociais, com as esposas dos nossos amigos, com colegas de trabalho. Dizia que parecia mais uma amiga do que uma esposa. Ouvia-o, às vezes discutíamos, mas seguíamos em frente. Nunca pensei que fosse algo sério. Via como diferenças normais num casal. No dia em que enterrei o meu pai, tudo isso deixou de me parecer insignificante. Estava em choque. Não dormia, não comia, não pensava em mais nada a não ser conseguir aguentar o funeral. Vesti a primeira roupa preta que encontrei, não pus maquilhagem, não fiz nada ao cabelo, só o essencial. Não tinha forças para mais. Antes de sairmos de casa, o meu marido olhou para mim e disse: “É assim que vais? Não queres pelo menos arranjar-te um bocadinho?” Ao início, nem percebi. Disse-lhe que não me importava com o aspeto, tinha acabado de perder o meu pai. Ele respondeu: “Sim, mas mesmo assim… as pessoas vão falar. Pareces desleixada.” Senti algo estranho no peito, como se me tivessem esmagado por dentro. No velório, ele estava com os outros, cumprimentava, apresentava condolências, parecia sério. Mas comigo foi distante. Não me abraçou muito. Não me perguntou como estava. A certa altura, ao passarmos por um espelho na sala, disse-me baixinho que devia “estar mais composta”, que o meu pai não gostaria de me ver assim. Depois do funeral, já em casa, perguntei-lhe se aquilo era mesmo a única coisa que tinha reparado naquele dia. Se não tinha visto que eu estava despedaçada. Ele respondeu para eu não exagerar, que apenas estava a dar a sua opinião, que uma mulher não se deve desleixar “mesmo nestes momentos”. Desde então olho para ele de forma diferente. Mas não consigo deixá-lo. Sinto que não consigo viver sem ele. ❓ O que diriam a esta mulher, se estivesse à vossa frente?
O meu marido sempre disse que eu não era suficientemente feminina. Ao início, eram apenas comentários
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050
O casamento seria daqui a uma semana quando ela me disse que não queria casar. Tudo já estava pago – o local, os documentos, as alianças, até parte da festa familiar. Meses organizei cada detalhe. Sempre acreditei que fazia o certo: trabalhava a tempo inteiro e todo mês destinava cerca de 20% do salário para ela – fosse para cabeleireiro, manicure ou o que quisesse. Não porque ela não tivesse rendimentos – tinha o seu próprio dinheiro e usava como queria. Assumia as despesas porque sentia que, como homem e companheiro, era minha responsabilidade. Nunca lhe pedi para dividir contas. Pagava saídas, restaurantes, cinema, pequenas viagens – tudo. Um ano antes do casamento fiz algo grande – propus levar toda a família dela ao Algarve: não só pais e irmãos, mas também sobrinhos, até dois primos. Éramos muitos. Para conseguir, trabalhei horas extra, deixei de comprar para mim, poupei meses a fio. Quando chegou o momento, paguei alojamento, transporte, alimentação – tudo. Ela ficou feliz, a família grata. Ninguém suspeitava que, para ela, isso não significava nada. Quando disse que queria acabar, contou que eu era “demais”. Que exigia muito amor, atenção, proximidade. Que queria abraços, mensagens, saber como estava. Que ela nunca foi assim, que era mais distante e eu a sufocava. Disse-me que esperava dela coisas que nunca poderia dar. Revelou também algo nunca antes dito – que, na verdade, nunca quis casar. Aceitou porque insisti demasiado. Que envolvi os pais, o que a pressionou. Pedi-lhe em casamento num restaurante, perante a família. Para mim, foi um gesto bonito; para ela, uma armadilha. Não conseguiu recusar na frente de todos. Cinco dias antes do casamento civil, com tudo pronto, decidiu dizer a verdade. Explicou que se sentia imposta a uma vida que não queria. Que fiz demasiado por ela e isso a fazia sentir-se desconfortável, em dívida, presa. Preferiu partir a fazer algo que não sentia seu. Após essa conversa, saiu. Sem gritos, reconciliações, tentativas de resolver. Ficaram contratos, contas pagas, planos feitos e um casamento cancelado. Ela manteve-se firme. E ali tudo terminou. Naquela semana percebi que ser o homem que paga tudo, arranja tudo e está sempre presente não garante que alguém queira ficar connosco.
O casamento estava marcado para daqui a uma semana quando ela me disse que não queria casar.
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038
O meu marido nunca me traiu, mas há anos deixou de ser meu esposo: dezassete anos de casamento, cumplicidade que se perdeu no silêncio, rotinas que apagaram o amor, e uma solidão partilhada entre contas, tarefas e promessas de conversas “amanhã” — até que percebi que vivia com um colega de apartamento em vez de um companheiro.
O meu marido nunca me traiu, mas há anos deixou de ser meu marido. Dezassete anos com o Duarte.
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017
Tenho 38 anos e durante muito tempo achei que o problema era eu. Que era uma má mãe, uma má esposa. Que havia algo de errado comigo, porque apesar de dar conta de tudo, sentia que já não tinha mais nada para dar. Acordava todos os dias às 5h da manhã. Preparava pequenos-almoços, fardas, lancheiras. Deixava os miúdos prontos para a escola, arrumava a casa à pressa e seguia para o trabalho. Cumpria horários, atingia objetivos, participava em reuniões. Sorria. Estava sempre a sorrir. Ninguém no trabalho suspeitava de nada. Pelo contrário — diziam que eu era responsável, organizada, forte. Em casa também tudo corria. Almoço, tarefas, banhos, jantar. Ouvia os desabafos dos filhos, respondia a perguntas sobre a escola, resolvia pequenas discussões. Abraçava quando precisavam, corrigia quando era preciso. Por fora, a minha vida parecia normal. Até boa. Tinha família, trabalho, saúde. Não havia nenhuma tragédia visível que justificasse o que eu sentia. Mas por dentro, estava vazia. Não era tristeza constante. Era cansaço. Um cansaço que não passava com sono. Deitava-me exausta e acordava cansada. O corpo doía sem razão. O barulho irritava-me. Desesperava com perguntas repetidas. Comecei a ter pensamentos que me envergonhavam: que os meus filhos talvez estivessem melhor sem mim, que não era capaz, que se calhar há mulheres que nasceram para ser mães, e eu não sou uma delas. Nunca falhava uma tarefa. Nunca chegava atrasada. Nunca “perdia” o controlo. Nunca gritava mais do que o normal. Por isso, ninguém reparou. Nem o meu companheiro reparou. Via que estava tudo “bem”. Se eu dizia que estava cansada, respondia: — Todas as mães se cansam. Se dizia que não me apetecia nada, dizia: — Isso é falta de vontade. E deixei de falar. Houve noites em que ficava fechada na casa de banho só para não ouvir ninguém. Não chorava. Ficava a olhar para a parede e a contar os minutos até precisar de sair e voltar a ser “aquela que aguenta tudo”. A ideia de ir embora apareceu devagar. Não foi drama. Foi um pensamento frio: desaparecer uns dias, afastar-me, deixar de ser necessária. Não por não amar os meus filhos, mas porque já não tinha mais nada para lhes dar. O dia em que bati no fundo não foi especial. Era uma terça-feira. Um dos meus filhos pediu ajuda com uma coisa simples e eu só consegui olhar sem perceber. Tinha a cabeça vazia. Senti um nó na garganta e um calor no peito. Sentei-me no chão da cozinha e não consegui levantar-me durante minutos. O meu filho olhou para mim assustado e perguntou: — Mãe, estás bem? E eu não consegui responder. Naquele momento ninguém veio ajudar. Ninguém veio salvar-me. Simplesmente não pude fingir mais que estava bem. Procurei ajuda quando já não tinha forças. Quando já não conseguia “dar conta de tudo”. O terapeuta foi o primeiro a dizer algo que ninguém tinha dito: — Isso não é por seres uma má mãe. E explicou-me o que eu tinha. Percebi que ninguém ajudou antes porque eu nunca deixei de funcionar. Porque enquanto uma mulher faz tudo, o mundo acha que ela pode continuar assim. Ninguém pergunta como está quem nunca cai. Não foi uma recuperação rápida. Não foi magia. Foi lento, desconfortável e com culpa. Aprender a pedir ajuda. Dizer “não”. Não estar sempre disponível. Perceber que descansar não me faz uma má mãe. Até hoje cuido dos meus filhos. Continuo a trabalhar. Mas já não finjo ser perfeita. Já não acho que um erro me define. E acima de tudo — já não acredito que o desejo de fugir me tornava má mãe. Estava apenas exausta.
Tenho 38 anos e durante muito tempo achei que o problema era eu. Que era um mau pai, um mau marido.
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019
O Que Cortares, Não Recuperas: Uma História de Amor, Liberdade e Consequências nas Vidas de Tânia, Olegário e Sua Filha Masha Entre Lisboa e Porto
O QUE SE ENCOLHE NÃO SE ALONGA Sempre que Margarida mostrava as fotos do seu casamento, lançava logo