« António, não percebo o que pretendes », disse Catarina.
« Nada de especial », respondeu António. « Quero apenas ficar só, descansar um pouco. Vai para o campo, relaxate, perde uns quilos. Caso contrário ficarás esbranquiçada. »
Deslizou um olhar de desdém à silhueta da esposa. Catarina sabia que tinha engordado um pouco com a gravidez, mas não comentou nada.
« Onde fica esse campo? » perguntou ela.
« Numa zona muito pitoresca », sorriu António. « Vais adorar. »
Catarina não contrargumentou. Também ela precisava de repouso. « Talvez estejamos apenas cansados um do outro », pensou. « Deixemos as coisas descansar um pouco. E não voltarei até que ele o peça. »
Começou a arrumar as suas malas.
« Não tens nada contra mim, não? », insistiu António. « É só por uns dias, só para te recuperares. »
« Não, vai tudo bem », respondeu Catarina com um sorriso.
« Então vou », disse António, beijandoa na bochecha antes de sair.
Catarina suspirou profundamente. Os beijos que antes trocavam já não tinham o calor de outrora.
A viagem prolongouse muito mais do que o previsto. Catarina tomou o caminho errado duas vezes o GPS fazia asneira e não havia sinal. Por fim, avistou um letreiro com o nome da aldeia. O lugar era isolado; as casas, embora de pedra, estavam bem cuidadas, com lindos entalhes nas portas.
« Aqui não há conforto moderno », refletiu Catarina.
E não estava enganada. A habitação parecia uma cabana derruída. Sem carro nem telefone, sentiase transportada para outra época. Tirou o telemóvel. « Vou ligar agora », dissese, mas ainda não havia cobertura.
O sol descia no horizonte e Catarina já estava exausta. Se não encontrasse a casa, teria de passar a noite no carro.
Não tinha ânsia de regressar à cidade, nem queria dar a António a oportunidade de dizer que não sabia lidar com a situação.
Desceu do veículo. O seu casaco vermelho destacavase quase cómico no pano de fundo da aldeia. Sorriu para si mesma.
« Bem, Catarina, não nos vamos perder », exclamou em alta voz.
Na manhã seguinte, o canto estridente de um galo despertoua enquanto dormia no carro.
« Que barulheira? » resmungou Catarina, abaixando a janela.
O galo fitoua com um só olho, depois continuou a cacarejar.
« Por que gritas tanto? » exclamou, mas viu uma vassoura a passar pela janela e o galo calouse.
No caminho apareceu um velho.
« Bom dia! » saudouo.
Catarina observouo, surpresa. Os aldeões pareciam ter saído de um conto de fadas.
« Não te importes com o nosso galo », disse o velho. « É bonzinho, mas cacareja como se lhe rasgassem as penas. »
Catarina riu, o sono desapareceu na mesma hora. O velho sorriu de volta.
« Ficas aqui muito tempo ou é só uma passagem? »
« Para descansar, enquanto puder », respondeu ela.
« Entra, minha querida. Vem tomar o pequenoalmoco. Vais conhecer a avó também. Preparanos uns bolos e não há quem os coma. Os netos vêm uma vez por ano, os filhos também »
Catarina não hesitou. Queria conhecer os aldeões.
A avó de Pedro, que na aldeia chamavam Maria da Conceição, era uma verdadeira avó de conto: usava um avental e um lenço na cabeça, sorria sem dentes e tinha rugas compassivas. A casa era limpa e aconchegante.
« É maravilhoso aqui! » exclamou Catarina. « Por que as crianças já não vêm com mais frequência? »
Maria da Conceição fez um gesto de ombro.
« Nós é que pedimos que não venham. As estradas são péssimas. Depois da chuva há que esperar uma semana para poder sair. Existia um ponte antes, mas era velha. Quebrou há uns quinze anos. Vivemos como reclusos. António vai ao mercadinho só uma vez por semana. O barco já não aguenta carga. António é forte, mas a idade »
« Estes bolos são divinos! » replicou Catarina. « Ninguém cuida de vocês? Alguém tem de o fazer. »
« Para que? Somos só cinquenta. Antes éramos mil. Agora todos se foram. »
Catarina refletiu.
« Estranho. E a administração, onde está? »
« Do outro lado da ponte. E com o desvio são sessenta quilómetros. Pensam que não fomos buscar ajuda? A resposta é única: não temos dinheiro. »
Catarina percebeu que havia encontrado um projeto para as suas férias.
« Dizemme onde posso encontrar a administração? Ou acompanhamme? Não parece que vai chover. »
Os idosos trocaram olhares.
« Estás a falar a sério? Vieste aqui para descansar. »
« Estou. O descanso pode assumir muitas formas. E se chover? Preciso pensar também em mim. »
Os anciãos sorriram calorosamente.
A administração municipal respondeu:
« Até quando nos irritarás! Achamnos os vilões. Olhem as estradas da cidade! Quem vai pagar por uma ponte para uma aldeia de cinquenta habitantes? Procurem um patrocinador. Por exemplo, Almeida. Já o conheceram? »
Catarina assentiu. Conheciao bem Almeida era o dono da empresa onde trabalhava o marido. Era natural da região; os pais tinham mudado para a cidade quando ele ainda era criança.
Depois de uma noite a meditar, Catarina tomou a decisão. Tinha o número de Almeida o marido o tinha chamado várias vezes do seu telemóvel. Decidiu ligar como terceira pessoa, sem dizer que António era o seu esposo.
A primeira tentativa falhou; na segunda, Almeida atendeu, ficou em silêncio um instante e depois riu.
« Sabes, quase me esquecia de que nasci aqui. Como vai? » indagou.
Catarina alegrouse.
« Muito bem, tudo tranquilo, a gente é ótima. Vou mandar fotos e vídeos. Rui, eu tentei de tudo ninguém quer ajudar os idosos. Vocês seriam os únicos capazes de fazer alguma coisa. »
« Pensarei nisso. Envia as fotos, quero recordar como era. »
Durante dois dias, Catarina filmou e fotografou para Almeida. As mensagens foram lidas, mas não houve resposta. Estava quase a desistir, quando Rui Silva ligou ele próprio:
« Alzira Varela, poderia vir amanhã ao meu escritório na Rua da Liberdade, por volta das três? E preparar um plano preliminar das obras. »
« Claro, obrigada, Rui! »
« É como voltar à infância. A vida correse nunca há tempo para parar e sonhar. »
« Entendo. Mas tem de vir pessoalmente. Amanhã estarei lá, tenho a certeza. »
Ao desligar, percebeu que era o mesmo escritório onde trabalhava o marido. Sorriu consigo, imaginando a surpresa que seguiria.
Chegou cedo, ainda faltando uma hora à reunião. Estacionou o carro e dirigiuse ao escritório do marido. A secretária não estava. Entrou e, ouvindo vozes vindas da sala de descanso, aproximouse. Lá encontrou António e a sua assistente.
Ao ver Catarina, ficaram visivelmente surpreendidos. Ela ficou parada na porta, enquanto António levantouse apressado, tentando ajeitar a gravata.
« Catarina, o que fazes aqui? »
Catarina fugiu do escritório e, no corredor, cruzou Rui. entregoulhe uns documentos e, incapaz de conter as lágrimas, correu para a saída. Não se lembrava de como havia voltado à aldeia. Quando chegou, desabou na cama e soluçou.
Na manhã seguinte, bateram à porta para acordála. Na soleira estava Rui acompanhado de um grupo de pessoas.
« Bom dia, Alzira Varela. Vejo que ontem não estava pronta para conversar, então vim pessoalmente. Quer um chá? »
« Claro, entrem. »
Sem mencionar a noite anterior, tomaram o chá e juntaramse quase todos ao redor da casa. Rui olhou pela janela.
« Que delegação! Alzira, não será por acaso que este homem é o avô Almeida? »
Catarina sorriu: « É ele. »
« Trinta anos atrás já era avô, e a companheira alimentavanos com os seus bolos. »
O homem fitou Catarina com apreensão, e ela respondeu prontamente:
« Maria da Conceição está em ótima forma e continua a fazer os seus famosos bolos. »
O dia passou entre mil tarefas. Os assistentes de Rui mediam, anotavam e contavam.
« Alzira Varela, posso fazer-lhe uma pergunta? » indagou Rui. « Sobre o seu marido perdoao? »
Catarina refletiu e sorriu:
« Não. Sabes, até agradeço que as coisas tenham chegado a este ponto E então? »
Rui ficou em silêncio. Catarina levantouse e olhou à volta.
« Se a ponte for reconstruída, este lugar pode tornarse extraordinário! Restaurar as casas, criar cantos de descanso. A natureza está intocada, autêntica. Mas não há quem a cuide. E se não quiseres regressar à cidade »
Rui observavaa admirado. Aquela mulher era especial, decidida, inteligente. Nunca a tinha notado, mas agora viaa sob outra luz.
« Catarina, posso voltar? »
Ela respondeu cuidadosamente: « Vem quando quiseres, ficarei feliz. »
A construção da ponte avançou a passos largos. Os aldeões agradeciam a Catarina, e os jovens começaram a regressar. Rui tornouse um visitante assíduo.
O marido ligouse repetidas vezes, mas Catarina recusouse a atender e acabou por bloquear o número.
ao alvorecer, um golpe soou na porta. Ainda sonolenta, Catarina abriu, esperando más notícias, mas encontrou António.
« Olá, Catarina. Vim buscarte. Não faças a difícil. Desculpa, » disse ele.
Catarina explodiu em riso:
« Desculpa? É isso? »
« Tudo bem Preparate, vamos voltar. Não podes expulsarme de casa, não te esqueças, não é a tua casa, lembraste? »
« Agora eu é que te expulso! » exclamou Catarina.
A porta rangeu ao fechar. Da sala entrou Rui, vestido casualmente:
« Esta casa foi adquirida com recursos da minha empresa. E tu, António Silva, estás a brincar comigo? Neste momento há uma auditoria nos nossos escritórios, e terás muitas perguntas. Quanto à Catarina, já lhe disse para não se preocupar a sua saúde já está comprometida »
Os olhos de António arregalaramse. Rui abraçou Catarina:
« Ela é a minha namorada. Por favor, deixe a casa. Os documentos de divórcio já foram apresentados, espere a notificação. »
O casamento foi celebrado na aldeia. Rui confessou que redescobriu o amor por aquele recanto. A ponte foi reconstruída, a estrada renovada e abriuse uma mercearia. Os habitantes começaram a comprar casas para fins de verão. Catarina e Rui decidiram também reformar a sua própria casa para ter um refúgio quando os filhos viessem visitar.
Assim, ao recordar tudo, vejo como um simples desejo de repouso desencadeou a transformação de um vilarejo esquecido, trazendo de volta a vida, o pão quente das avós e a esperança de pontes não só de pedra, mas também de corações.







