– João, estás a perder a cabeça? Achas que te convido a viver comigo por dinheiro? Lamento por ti, e pronto.

João, está a brincar? Pensa que eu te convido a viver comigo por dinheiro? Que pena, é tudo.

João está sentado numa cadeira de rodas, a observar pela janela empoeirada a rua. A janela do seu quarto de hospital dá para o pátio interno, onde há um pequeno jardim com bancas de artesanato e canteiros de flores, mas quase não há gente.

É inverno, e os pacientes raramente saem para passear. João fica só no quarto. Há uma semana, o vizinho Miguel Tavares recebeu alta para casa, e desde então João sentese profundamente só.

Miguel era um rapaz sociável, engraçado, que conhecia mil histórias e as contava como um verdadeiro ator. Ele estudava teatro no terceiro ano da universidade.

Em companhia de Miguel não se podia estar entediado. Além disso, a mãe dele, Inês, vinha todos os dias com doces caseiros, frutas e guloseimas, que partilhava generosamente com João.

Com a partida de Miguel, a sensação de aconchego desapareceu e João sentese mais solitário e inútil do que nunca.

Os seus pensamentos melancólicos são interrompidos pela presença da enfermeira que entra. Ao vêla, João fica ainda mais desanimado: as injeções já não as faz a simpática e jovem Dália, mas a eternamente carrancuda e insatisfeita Maria da Conceição.

Nos dois meses que passou no hospital, João nunca a viu sorrir ou rir. A voz de Maria da Conceição combina com a sua expressão: ríspida, áspera, desagradável.

Então, que está a fazer? Volte para a cama! grita Maria da Conceição, segurando um seringa cheia de medicamento.

João suspira derrotado, vira a cadeira e dirigese ao leito. Maria da Conceição, ágil, ajudao a deitarse e depois virao de bruços.

Tire as calças ordena. João obedece, mas não sente nada. As injeções são aplicadas com mestria e ele agradece mentalmente a ela a cada vez.

Quantos anos tem? pensa João, observando a enfermeira que agora procura a veia no seu braço magro deve ser já uma aposentada. A pensão é pequena, tem de trabalhar, por isso está assim tão dura.

Finalmente, Maria da Conceição introduz a agulha fina na veia azulclara de João, fazendoo apenas franzir levemente a testa.

Está pronto. O médico entrou hoje? pergunta de repente, já a preparar a saída.

Não, ainda não balança a cabeça João. Talvez mais tarde

Então espere. E não fique à janela adverte, está frio, seco como bacalhau.

João queria protestar, mas não consegue: nas palavras da enfermeira, por trás da rudeza, ele sente uma ponta de cuidado, ainda que seja mínima.

João é órfão. Os pais morreram num incêndio quando ele tinha quatro anos, na casa de campo da família. Ele foi o único a sobreviver porque a mãe, nos últimos momentos, atirouo pela janela para salválo, antes que o telhado em chamas desabasse. O resto da família ficou sob os destroços.

Foi então que foi para um orfanato. Tinha parentes, mas ninguém lhe ofereceu abrigo. Da mãe herdou o carácter suave, o olhar sonhador e os olhos verdes; do pai, a estatura alta, o passo ágil e a aptidão para a matemática.

Lembrase apenas de fragmentos da infância: um festival rural com a mãe, a agitar uma bandeira colorida; estar nos ombros do pai a sentir o vento quente do verão no rosto. Também recorda um grande gato ruivo, chamado ou Murta ou Bico. O álbum de fotos da família foi consumido pelo incêndio, restandolhe apenas memórias vagas.

Ninguém o visita no hospital. Quando completa dezoito anos, o Estado lhe atribui um quarto luminoso num lar de estudantes, no quarto andar.

Viver só agradao, embora às vezes a saudade o faça chorar. Acostumase à solidão e até encontra benefícios nela.

O passado de orfanato volta-lhe à mente ao ver crianças com pais nos parques, nos supermercados ou nas ruas da cidade; pensamentos amargos invademo.

Depois da escola queria entrar na universidade, mas faltou-lhe pontuação e acabou por ir para o politécnico. Lá gostou e encontrou a sua vocação.

Só que com os colegas não se deu bem: era calado, reservado, e eles não lhe davam atenção. Conversava pouco, preferindo livros e revistas científicas a festas estudantis ou jogos de computador. Quando falava, era sempre sobre estudo.

Com as raparigas a situação não melhorava; a sua timidez não se encaixava nos caracteres que os rapazes mais assertivos mostravam.

Aos dezoito e meio parecia não ter mais de dezesseis. Tornouse a pomba branca do grupo, mas isso não o incomodava muito.

Há dois meses, ao atrasarse para a aula, correu pelo passeio congelado e escorregou numa passagem subterrânea, partindo ambas as pernas. As fraturas são complicadas, curamse devagar e com dor, mas nas últimas duas semanas melhora um pouco.

Ele espera ser altacuidado, mas tem medo: o apartamento onde vive não tem elevador nem rampas para pessoas com mobilidade reduzida. Ficar num cadeira de rodas parece-lhe um futuro longo.

Após o almoço, entra na ala o Dr. Ricardo Almeida, traumatologista. Examina as pernas e os raiosX e declara:

João, boas notícias: as fraturas já estão a unirse como devem. Dentro de algumas semanas deve andar de muletas. Não há necessidade de ficar aqui; vai tratarse como ambulatório. Dentro de uma hora lhe entregam a alta. Alguém vai encontrálo?

João acena em silêncio.

Perfeito. Vou chamar a Maria da Conceição para o ajudar a arrumar as coisas. Desejolhe uma boa recuperação e, por favor, tente não voltar ao hospital.

Vou tentar.

O médico piscou e saiu, enquanto João começa a pensar como vai organizar a sua vida. É interrompido novamente por Maria da Conceição.

O que está a fazer aí? Já está a ser alta diz, entregandolhe a mochila que estava debaixo da cama levantase, Inês vai mudar a roupa de cama.

João coloca os pertences na mochila e sente o olhar atento da enfermeira.

Por que mentiu ao médico? pergunta, inclinando levemente a cabeça.

Do que está a falar? faz João uma cara de surpresa.

Não se engane, João. Sei que ninguém vai visitálo. Como vai chegar a casa?

Chego de alguma forma resmunga João.

Ainda tem pelo menos meio mês sem poder andar. Como vai viver?

Vou resolver, não sou criança.

De repente Maria da Conceição sentase ao lado dele, olhao nos olhos.

João, pode não ser da minha conta, mas com estas lesões vai precisar de ajuda. Não vai conseguir sozinho. Não se ofenda, estou a dizer a verdade.

Eu dou o meu melhor.

Não vai conseguir. Não sou novata na enfermagem. Por que discute como criança?

Mesmo assim, o que me diz?

Enquanto não estiver firme nos meus braços, pode ficar aqui. Moro fora da cidade, mas a porta da frente tem só duas escadas. Tenho um quarto livre. Quando puder andar, volta para casa. Vivo só; o marido faleceu há anos e não tive filhos.

João fica aturdido. Viver na casa de outra pessoa parece estranho, mas ele já não espera que alguém o ajude além de si próprio.

Por que está tão quieto? pergunta Maria da Conceição, franzindo a testa.

É meio desconfortável murmura João.

Pare de fazer drama, João. É incômodo viver num apartamento sem elevador e sem rampas numa cadeira de rodas retruca a enfermeira, na sua habitual brusquidão então, vai ficar comigo?

Ele hesita. Por um lado, mudarse para a casa de alguém desconhecido parece incômodo; por outro, ainda não pode caminhar e Maria da Conceição não parece tão alheia assim.

Agora percebe que, durante todos esses meses, ela cuidou dele à sua maneira: feche a janela, está frio, já fechou?, coma queijo, tem cálcio, é bom para si. Essas frases ecoavam no quarto.

Ela, a única pessoa no mundo, está disposta a ajudálo.

Concordo diz finalmente mas não tenho dinheiro a bolsa ainda não vem.

Maria da Conceição cruza os braços, o rosto fica ainda mais carrancudo e, com um tom de ofensa, repete:

João, está a brincar? Pensa que eu lhe ofereço casa por dinheiro? Que pena, acabou.

Eu só começa João, mas se corta, desculpandose por ter ofendido.

Não me ofendo. Vamos à enfermaria, sentese lá até acabar a minha ronda ordena a enfermeira logo a minha troca de turno termina e vamos embora.

Maria da Conceição vive numa casa pequena e bem arrumada, com janelas estreitas. Dentro há duas salas acolhedoras; uma delas é onde João se instala.

Nos primeiros dias ele sente vergonha, quase não sai do quarto e evita incomodar a dona da casa.

Vendo isso, a enfermeira idosa fala-lhe francamente:

Basta de timidez. Peça o que precisar, não está aqui como visitante.

Na verdade, João gosta do lugar: a neve nas janelas, o crepitar da lenha na lareira, o cheiro da comida caseira tudo lhe traz memórias da sua infância feliz.

Os dias passam. O carro de rodas fica guardado, depois chegam as muletas. Chega a hora de regressar à cidade.

Depois de mais uma visita ao centro de saúde, João caminha, ainda cambaleante, ao lado de Maria da Conceição, partilhando os planos para os próximos dias:

Preciso fazer exames, provas, recuperar o tempo perdido, um pesadelo. Não quero voltar ao politécnico agora.

Então vá logo responde Maria da Conceição o teu curso não desaparece. Começa a caminhar, mesmo que tropece, o médico pediulhe para reduzir a carga nas pernas!

Nas últimas semanas eles criaram um vínculo forte. João se pega a pensar que não quer deixar aquela casa aconchegante e aquela mulher tão bondosa. Ela tornouse, para o órfão, a segunda mãe, embora ele ainda não tenha coragem de admitir isso nem a ela nem a si mesmo.

No dia seguinte, ao arrumar os pertences, procura o carregador do telemóvel, olha ao redor e congela: na porta do quarto está Maria da Conceição, chorando. João, obedecendo a um impulso desconhecido, aproximase e abraçaa firmemente.

Vai ficar aqui, João? sussurra ela entre lágrimas como é que eu vou viver sem ti

Ele fica. Anos depois, Maria da Conceição ocupa um lugar de honra na mesa do casamento de João, como mãe da noiva. Um ano depois, no parto, recebe nos braços do filho recémnascido a neta, batizada em honra da avó, Maria da Conceição.

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– João, estás a perder a cabeça? Achas que te convido a viver comigo por dinheiro? Lamento por ti, e pronto.
Durante dez anos, médicos portugueses tentaram salvar a vida de um bilionário… Até que um rapaz humilde entrou no quarto e fez o impensável…