Cavalheiro de 67 anos convidou-me para jantar. Depois de investigar o meu passado, a sua filha de 30 anos fez-me uma pergunta indiscreta… ele ficou sem palavras… e eu fugi dali naquele instante…

Cavaleiro de 67 anos convidou-me para jantar. Após vasculhar o meu passado, a sua filha de 30 anos fez-me uma “pergunta indelicada”… ele ficou calado… E eu fugi dali naquele instante.

Leonor Fernandes era uma mulher que o tempo só valorizara, emprestando-lhe uma graça serena e uma força interior admirável.

Leonor era viúva há já cinco anos. A dor da perda há muito estava adormecida, os filhos um rapaz e uma rapariga seguiam as suas vidas, e aos sessenta anos Leonor vivia sozinha num T2 aconchegante, cuidadosamente arranjado. A solidão nunca a incomodou: ia à piscina, visitava exposições e até já tinha aprendido a fazer macarons franceses, que antes só admirava nas montras das pastelarias.

Mas, como se diz, ninguém nasceu para ser ilha. Leonor sentia falta de ter alguém com quem comentar as notícias, resmungar sobre o tempo ou simplesmente ver uma série em silêncio, apreciando a companhia.

Joaquim Pires entrou-lhe na vida como um protagonista de um filme antigo. Conheceram-se num baile para seniores. Ele convidou-a para dançar uma valsa, não lhe pisou os pés o que era raro e passou a noite a fazer-lhe elogios, que, depois de tanto tempo sem tal atenção, deixaram Leonor com as bochechas coloridas.

Joaquim tinha sessenta e sete anos, cabelo grisalho, postura elegante, camisa bem passada. Parecia um senhor à moda antiga, dizia que tinha trabalhado toda a vida como engenheiro, também era viúvo, vivia com a filha e a família dela.

Leonor, és uma mulher espantosa, dizia, ao deixá-la à porta de casa. Uma raridade. Já não se fazem assim mulheres.

O romance foi rápido, mas casto: passeios, cafés, gelados, longas conversas ao telefone. Joaquim era atencioso, nunca se queixava de saúde nem lhe pedia dinheiro emprestado, o que para Leonor era sinal de respeito.

Ao fim de um mês, chegou o momento que Leonor esperava com uma pontinha de nervosismo. Joaquim convidou-a a jantar em sua casa para conhecer a filha.

A minha filha, Margarida, tem muita curiosidade em conhecer-te, disse ele com voz suave. Já lhe falei tanto de ti. Vem cá, fazemos um jantar de família.

Leonor preparou-se como uma adolescente para o baile de finalistas: penteou-se com esmero, vestiu o melhor vestido que tinha.

O apartamento de Joaquim revelou-se um T3 espaçoso num prédio antigo, com pé-direito alto, estuque, cheiro a livros velhos e um certo ambiente de tensão.

A porta abriu-se. Era Margarida. Tinha trinta anos mas aparentava mais idade. Imponente, queixo firme, olhar crítico, avaliador, como uma chefe de compras a inspecionar uma remessa duvidosa.

Boa noite, cumprimentou ela, sem sequer sorrir. Entre. O pai está há horas a escolher a gravata.

Leonor entregou o bolo-rei que preparara de manhã. Margarida recebeu-o como se segurasse uma ratoeira, e seguiu para a sala.

A mesa estava posta em grande: cristal, saladas, pratos quentes. Via-se que tinham trabalhado para agradar. Joaquim saiu do quarto radiante e imediatamente se pôs a tratar da convidada:

Leonor, senta-te aqui. Margarida, serve a senhora, faz favor.

O jantar começou civilizadamente. Falaram do tempo, dos preços, de eventos. Margarida quase não falava, mastigando lentamente a carne, sem nunca tirar os olhos de Leonor.

Leonor começou a sentir-se desconfortável. Era como estar em leilão.

Quando terminaram o prato principal e Joaquim serviu o chá, Margarida pousou o talher, limpou os lábios ao guardanapo e, olhando Leonor nos olhos, perguntou:

Leonor Fernandes, diga-me, que casa tem?

Leonor estremeceu, engasgou-se com o chá. A pergunta foi tão inesperada e inadequada, que pareceu algo íntimo e invasivo.

Desculpe? balbuciou, incrédula.

A casa, insistiu Margarida. Sua? Tamanho? Localização? Andar?

Joaquim Pires parecia ter encolhido, fixando o olhar na chávena, fingindo extremo interesse pelo que ali se passava.

Bom T2 na Avenida da Liberdade, respondeu Leonor, atrapalhada. Mas porquê a pergunta? Tem algo a ver com o jantar?

Margarida recostou-se, cruzou os braços:

Tem tudo a ver, Leonor. Somos adultos, vamos evitar suspiros românticos. Eu preciso saber as condições.

Que condições? Leonor olhou de Margarida para o pai, mas Joaquim continuava a examinar o desenho da toalha, como se lá estivesse o enigma das pirâmides.

Condições de acolhimento, respondeu Margarida, quase em tom de gerente bancária. Estou a confiar-lhe o meu pai. Quero saber se ele ficará bem, se terá cuidados, se a zona é calma, com centro de saúde perto. O meu pai precisa de tranquilidade e alimentação regrada.

Leonor pousou a chávena no pires. O toque da porcelana soou como um sino distante na sala silenciosa.

Como assim confiar-lhe o seu pai? perguntou, devagar. Quem disse que aceito?

Margarida ficou genuinamente surpreendida. Até arqueou as sobrancelhas:

Como assim? Veio jantar cá. O pai só fala de si Se estão juntos, é normal avançarem para viverem juntos, não?

Suponhamos que sim, disse Leonor, cautelosa. Mas um mês é muito pouco, não acha? E porque acha que o seu pai deve morar comigo?

De que outra forma? Margarida começou a enumerar argumentos. Temos um T3, mas eu, o meu marido e dois adolescentes. Muito barulho. O meu pai precisa de paz. Você está sozinha num T2. Parece-me o ideal!

Falava como quem trata de entregar um gato temporariamente.

Pensei que ia ficar contente, acrescentou, perante o silêncio de Leonor. Um homem na casa, ajuda com pequenas reparações. Para mim é um alívio: menos jantares para cinco, menos lavagens de roupa, menos ajudar com os trabalhos das crianças.

E claro, o meu pai com o colesterol e as teimosias. Não lhe mexo na reforma. Ele é simples, sobra mais para si.

Leonor fitou Joaquim:

Joaquim, porque estás calado? murmurou. Também achas que sou uma espécie de serviço de acolhimento para te aliviar a vida?

Joaquim levantou finalmente o olhar. Tinha tanta tristeza e resignação nos olhos que Leonor sentiu um arrepio.

Leonor, balbuciou. A Margarida só está preocupada. A casa é pequena, os rapazes fazem barulho, contigo é tudo mais calmo, mais fácil.

Por dentro estava em ebulição. Pensava que tinha encontrado atenção, afeto, romance. Afinal, participava num casting para cuidadora grátis, com estadia incluída.

Olhe, Leonor levantou-se. Obrigada pelo jantar. A salada russa estava ótima.

Vai-se já embora? franziu a testa Margarida. Ainda não falámos dos detalhes. Quando será a mudança? São poucas coisas, mas a poltrona favorita tem de ir.

Leonor olhou para aquela mulher forte, prática, que decidia o futuro do pai como se ele fosse um sofá velho:

Margarida, a voz de Leonor era de aço. Procurava um companheiro para a vida, não uma solução para os seus males domésticos. Não sou um lar de idosos.

Virou-se para Joaquim:

E tu, Joaquim, não tenho nada a dizer-te. Um homem que deixa a filha tomar estas decisões por si não serve para mim.

Mas Leonor tentou Joaquim, mas Margarida puxou-o levemente para o banco.

Deixa estar, pai! disparou ela. Paciência. O pai é uma jóia, boa reforma. Se não quer, outra haverá. Há fila de senhoras sozinhas à espera.

Leonor recolheu-se ao hall, vestiu o casaco a tremer. Os botões teimavam em não entrar. Da sala, a voz monocórdica de Margarida ecoava:

eu disse, são todas iguais. Só querem dinheiro e distração. Nenhuma responsabilidade. Pai, sempre se pode falar à Dona Vitória do 2º esquerdo, anda de olho em si há anos.

Leonor desceu, apanhou o Metro e pensava: Ainda bem que isto se esclareceu já hoje, ao jantar, e não daqui a meses, depois de me ter apegado.

O tema da habitação, como dizia o nosso Eça, vira as pessoas do avesso. Os filhos querem viver a vida deles, empurrando o pai para uma boa senhora na velhice. É prático, é cómodo.

E, infelizmente, muitos aceitam é duro estar só, ao menos assim, é dos nossos, que pena.

E você? Como acha que Leonor procedeu? Fez bem ao ir-se embora? Ou deveria ter tido pena do homem e aceite, afinal ele não tem culpa, e a filha é assim mesmo?

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Cavalheiro de 67 anos convidou-me para jantar. Depois de investigar o meu passado, a sua filha de 30 anos fez-me uma pergunta indiscreta… ele ficou sem palavras… e eu fugi dali naquele instante…
— Не давайте кучето в приют — умоляваше Петьо! Възрастните не послушаха — и съжалиха.