Um Prazer Caro

Despesas de estimação

Beatriz, outra vez? Por favor! Trabalho só para o teu gato!

O gato, que Beatriz tentava enfiar à força na transportadora, escapuliu das mãos dela, aterrando de patas bem abertas no soalho, antes de se esgueirar para um canto da entrada, miando num tom tão dramático que devia estar a testar os limites do melodrama felino. Pelo aspecto, o gato a quem Beatriz deu, sabe-se lá porquê, o nome poético de Eça estava mesmo empenhado em valorizar aquela sua existência inútil (palavras do João) o mais possível.

Inútil é coisa que o Eçinha (assim o apelidava carinhosamente a dona) não era; afinal, há quase dez anos que vivia com Beatriz. A idade verdadeira dele, ninguém sabia: ela levou-o para casa já adulto, apanhado na rua, onde ele fazia cara de perdido e corpo de quem tentava engatar alguma alma caridosa.

Foi a mãe de Beatriz, a Dona Leonor, que a acompanhou ao veterinário. Segurava Eça com tamanha determinação, embrulhado numa antiga manta de bebê, que até parecia que iam salvar o próprio Dom Sebastião.

Pelo amor de Deus, valha-nos! exclamou Dona Leonor ao entrar.

Mas de onde trouxeram este espantalho? fez careta a veterinária, uma moça de Lisboa. É gata do monte!

E então? Agora só salvam os bem-nascidos? Dinheiro é dinheiro!

A veterinária calou-se. Encontrar-se com Dona Leonor de frente nunca era agradável não porque levantasse a voz, mas porque ninguém tinha argumentos para ela.

Leonor era teimosa como só uma mãe portuguesa que criou filha sozinha pode ser. Criou Beatriz sem marido, a trabalhar num infantário, cuidou dos pais idosos e nunca deixou de segurar as pontas. Mais fácil partir uma ferradura do que convencê-la de qualquer coisa.

Foi sempre assim: falava baixo, mas sabia encontrar a fraqueza de quem a afrontava e, passado pouco tempo, a discussão já tinha virado desabafo e a pessoa ia embora a agradecer-lhe, emocionada. Se era magia ou apenas boa escuta, Leonor nunca soube. Com estranhos dava-se lindamente já em casa, era um desastre.

O marido, António, tinha desaparecido uma semana depois do casamento. Sua mãe até brincou: Aguentou muito! Foi um valente! Dava vontade de chorar? Dava. Mas Leonor resignou-se: Não foi feita para marido. Quando soube estar grávida, pensou: Ao menos isso um homem não faz!

Quando a pequena Beatriz nasceu, foi o maior acontecimento desde a Expo98 para Dona Leonor. A avó, Maria da Graça, veio de Cascais de propósito, com lenço festivo e embrulho especial.

Filha, tem juízo, cria a criança. Eu ajudo. O teu avô, se não desenrascar, levo-o para a cidade.

Abriu o embrulho: ali estavam mais notas de euros do que Leonor alguma vez tinha visto. O avô vendera um pedaço de terra que, afinal, já ia servir para estrada. Dinheiro para comprar um T2 em Odivelas.

Houve logo discussão: Dona Leonor e sua mãe entraram em desacordo eterno, mas remodelaram juntas um velho apartamento lisboeta. Um grupo de pastores alentejanos, contratados pela avó, renovou tudo em tempo recorde ao ponto de Leonor duvidar se metade da mobília não tinha vindo de outra família.

Beatriz cresceu saudável, teimosa e doce. Se queria doces: Filha, só depois do almoço. Então posso dois depois? Era uma artista, e Dona Leonor, apesar de se esforçar para ser diferente da própria mãe, às vezes desesperava.

Com o tempo, a família encontrou o seu ritmo. Leonor trabalhava, os avós cuidavam de Beatriz, e todos juntos passavam os domingos a ver futebol e discutir política, como manda a lei no país.

Quando a avó adoeceu, o ambiente ficou mais pesado, mas ninguém perdeu o humor português. Foi nessa altura que Eça apareceu salvo das dentadas por canalizadores que o encontraram no quintal da escola.

O avô (já reformado e instalado em Lisboa) foi quem, por distração, perdeu Beatriz durante cinco minutos no regresso da escola. Quando finalmente ela apareceu, vinha lavada em lágrimas e com um gato quase desmaiado nos braços, a precisar de tudo menos de piadas.

Mãe, ele está a sofrer. Precisa de ajuda. Eu fico bem.

Dona Leonor não hesitou: directo ao veterinário. Entre vacinas, comprimidos e afins, saiu de lá com a carteira tão leve que quase voava e o recibo fazia fé: por aquele valor, comprava-se um cão de raça em Leiria!

Chegadas a casa, Beatriz pediu:

Não quero prenda nos anos. Posso ficar com ele? Ele é o meu presente.

Claro que podia.

Eça foi pouco a pouco conquistando a casa. Adorava os velhotes e à avó, não largava nem para ir à varanda. Mudou a sorte da família: Dona Leonor fartou-se de ganhar tão pouco, mudou de trabalho e nunca mais parou. Passou de ama a cuidadora de luxo, e cada família lhe pagava mais. Ao fim do dia, era ela e o gato, equipa de sucesso.

Quando Beatriz cresceu e foi para a faculdade, preferiu tomar conta do velho apartamento. Até trouxe para lá o namorado, Francisco.

Tás a ver isto tudo?! exclamou o rapaz ao ver a casa. Eh pá, mas que palácio!

Nesse momento, Eça entrou altivo e soprou-lhe, em jeito de aviso, daqui sou eu! Nunca se entenderam bem: Eça achava-o pouco gato, Francisco achava-o peludo demais.

Beatriz e Francisco acabaram por casar, mas cedo o casamento começou com queixas constantes desde o cozido à portuguesa até aos cuidados com o gato. A gota de água? Um recibo do veterinário.

Mas gastas em Eça o que eu não gasto comigo! Já viste o disparate?

Eça é da família retrucava Beatriz.

Família tua, porque minha não é!

Até que, numa manhã, Francisco implica com mais uma ida ao veterinário. Só que dessa vez, Beatriz já sabia que estava grávida e limitou-se a dizer:

Bem, se Eça sai, eu e o bebé também saímos.

Então saiam! explodiu o rapaz.

Beatriz olhou-o, tirou a chave da porta, entregou-lha, recolheu Eça na transportadora:

Estou grávida. Tens aqui as chaves. Quando quiseres, voltamos a conversar. Agora, tenho é compromissos com quem me quer bem.

Francisco, digno, não discutiu. E nunca percebeu porque é que o gato foi mais importante. Talvez, no fundo, não era só um gato. Era história e vida.

Eça continuou a ser o terapeuta da casa dormia com a futura neta de Beatriz nos braços, deixava-se pentear por ela e ensinou-lhe até a importância de ouvir e de saber quando não vale a pena discutir.

E quando a filha nasceu Leonor Beatriz decidiu pedir opinião à mãe sobre o nome. Foi Dona Leonor quem insistiu: Fala com o Francisco. Mesmo que estejam separados, a filha é dos dois.

E lá se entenderam. Francisco até agradeceu.

Obrigado por não teres feito da teimosia uma guerra.

Assim, a pequena Leonor foi crescendo entre duas casas, dois coelhos de peluche, duas avós e muito amor. Tanta harmonia fez com que a menina acreditasse que se os adultos querem o mesmo a felicidade dela afinal, talvez não seja tão difícil ser feliz.

E só Eça sabia mesmo o segredo daquela criança. Não porque falasse português mas porque explicações são, afinal, desnecessárias quando se é um gato português, resgatado e cheio de nove vidas para ensinar.

E um dia, Leonor crescerá, acariciará a bochecha do seu próprio bebé e dirá, com sotaque lisboeta e convicção:

Olá, meu pequenino. Esperei tanto por ti

E Eça, lá do outro mundo felino, há de ronronar de satisfação.

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