O diretor apertou-lhe as mãos e disse: “Que queres que eu faça? Os pais desses arruaceiros ajudaram nas obras da escola.”

O Ricardo e a Filipa eram amigos desde os tempos do infantário. Viviam lado a lado, o que fez com que os pais optassem por os pôr na mesma escola, e até na mesma turma. Pediram à professora para os sentar juntos à frente da sala. Afinal, a turma era grande e cheia de rapazes traquinas; assim o Ricardo podia proteger a Filipa, caso alguém lhe fizesse algum mal. Os dois estavam contentes por ir à escola, e o estudo era fácil para ambos.

No entanto, quando passaram para o terceiro ano, a mãe da Filipa começou a notar que a filha não era a mesma. Filipa estava sempre receosa, evitava ir para a escola. Numa manhã, pediu mesmo para ser mudada de escola. Este pedido surpreendeu a mãe, que decidiu ligar à mãe do Ricardo. Por lá, a situação também não era melhor.

O Ricardo, tal como a Filipa, começou a pedir insistentemente transferência para outra escola. Numa tarde, ao chegar a casa, a mãe do Ricardo reparou em nódoas negras no corpo do filho. As duas mães decidiram ir juntas à escola, tentar entender o que se passava com os seus filhos.

A professora apressou-se a garantir-lhes que estava tudo sob controlo, que talvez os meninos se tenham envolvido em algum desentendimento fora da escola. Nesse momento, uma multidão de crianças entrou de rompante na sala, aos gritos. As mães olharam em redor e viram vários rapazes a puxarem a camisola do Ricardo e, um pouco mais afastadas, outros rapazes faziam o mesmo à Filipa.

As mães correram a defendê-los, mas ninguém lhes prestava atenção. A professora tentava acalmar a confusão sem sucesso. Uma das meninas correu até ao gabinete da directora. Só quando a directora apareceu é que o tumulto serenou.

As mães de Ricardo e Filipa afirmaram que não iriam deixar a situação impune. Decidiram exigir à escola uma reunião com os pais dos rapazes agressivos ou então iriam fazer queixa à GNR. A directora acalmou-as e prometeu que no dia seguinte chamaria os encarregados de educação dos miúdos ao colégio, e que elas próprias também estariam presentes.

Ao encaminhá-las para a saída, a directora desabafou: aquelas crianças eram filhos de famílias muito ricas, não respeitavam ninguém, interrompiam as aulas, humilhavam os colegas. E os pais, já várias vezes chamados à escola, mostravam a mesma falta de educação.

No dia seguinte, as mães chegaram à escola à hora combinada. Os pais dos rapazes já lá estavam. A professora tinha avisado com razão: gritavam, defendiam os filhos com unhas e dentes e não deixavam ninguém falar. Foram rudes até com a professora, apenas a directora conseguiu impor alguma ordem e mesmo assim, por pouco tempo.

Nada ficou decidido, pois os pais revoltados levantaram-se e saíram, dizendo para não se preocuparem com “coisas insignificantes”. A directora, de mãos atadas, explicou: O que é que se pode fazer? Esses pais ajudaram a pagar as obras da escola, eu não posso simplesmente propor que retirem os filhos.

Em casa, os miúdos explicaram que os agressores intimidavam toda a turma. Se algum rapaz andava sozinho pelos corredores, era logo apanhado e agredido. O Ricardo e a Filipa apanharam porque andavam sempre juntos, e isso incomodava os bandidos da turma. As mães acabaram por os transferir para outra escola. A directora pediu a demissão pouco depois, confessando que não conseguia continuar numa escola com crianças assim e pais tão malcriados.

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