Ouvido tapado
O avião mostrou o nariz para fora das nuvens timidamente, deu uma voltinha, flertou com a pista e pousou com delicadeza, tal qual noivo beijando a noiva pálida no altar.
A salva de palmas foi de arromba, mas os pilotos nem sentiram o ego inflar.
Nem ouviu nada também o Nicolau Capela, cujo ouvido ficou entupido durante o voo.
Capela apertava o nariz e soprava sem parar.
O ar saía por tudo quanto era lugar, menos o que precisava, e a cabeça só ouvia chiado branco.
Nicolau chegara de casa da mãe pela frescura da manhã, na risca para se arranjar e ir trabalhar.
A esposa, Inácia, não dormiu um tostão e andava pela casa, às voltas, mudando coisas de sítio como se procurasse o sentido da vida nos armários.
Capela foi para a cozinha tratar do almoço.
O ouvido não dava sinal.
Estou farta!
Chega!
Farta desta vida, farta deste teu salário de trocos, farta deste apartamento no cu de Judas.
Eu pensava que o que sentia era amor crónico, mas afinal só apanhei uma doença!
Inácia despejou estes segredos nas costas de Capela, enquanto ele calmamente passava a batata da panela para o termo.
Vou ter com o António, nem o conheces, ele também não te conhece, mas é um espetáculo de homem.
Sinto por ele aquilo que devia sentir.
E não te preocupes, sou uma mulher decente, ainda não rolou nada.
Saio limpinha, para não andares por aí a falar de mim, especialmente com a tua mãe!
Terminando o almoço e já com tudo na saca, Capela pôs-se a fazer café.
Não tens nada para dizer?
Estou aqui a despir-me de alma e tu ficas calado.
Ináááácia!
gritou Capela por cima do ombro.
Podias por favor passar-me as calças a ferro?
As calças?!
Estou a falar de sentimentos, tu respondes com roupa?!
Vai à vida!
Achei que ias fazer algo para me segurar.
Inácia pegou na mala errada, misturou-a com a de Capela com tantas pressas e saiu furiosa.
Só quando a porta bateu com força, a casa tremeu e, finalmente, Capela percebeu: a mulher foi embora.
Para onde é que ela vai àquela hora?
E as calças?
Bolas, onde está o meu almoço? pensou Capela, com a cabeça a mil no divórcio matinal.
Desolado por não encontrar os seus dois termos, Capela saiu para o trabalho de calças amarrotadas.
Ao entrar no elevador, cumprimentou com um aceno Dona Filomena, presidenta do condomínio, que parecia que juntava dinheiro todo o mês para mandar ao Império Otomano.
Dizem que os seus perfumes levantavam cavalos mortos e expulsavam inimigos das trincheiras.
Capela prendeu a respiração, entrou e virou-se para a porta.
O elevador desceu uma espécie de sauna química.
Não pagou a taxa para a desinfestação.
Hoje exterminam os escaravelhos no prédio inteiro, avisou Filomena.
Capela olhava o cheiro derreter a borracha da porta Era preciso pagar até ao fim do dia, pode fazer uma transferência para o meu IBAN?
Capela ficou calado.
Filomena dobrou-se ao ouvido dele e berrou:
Espero o pagamento até ao final do dia!
Parabéns.
Vai ser transferida para onde?
animou-se Capela.
Estão a mandá-la de volta para Braga?
Ele acreditava mesmo nos rumores de que Filomena era descendente do D.
Afonso Henriques.
Filomena despejou-lhe uma coleção de insultos e palavras soltas: -ária, -ente, -uda, -ilho, tudo numa língua que parecia proto-português.
Capela não ligou, ficava a acenar como quem está num vernissage.
O elevador abriu, Capela fugiu ao ar livre, Filomena marchou em busca de rendas.
Capela era eletricista.
Andava numa obra desde a semana passada, onde um cliente mimado, sem grande jeito nem para arte nem para finanças, queria transformar ruína em palácio.
Os materiais e os desenhos do homem vinham com cheiro a desespero.
Capela não era o único a sofrer.
Com ele estavam o canalizador e os pintores no mesmo inferno.
Enquanto Capela cortava parede para passar fios, os outros suavam noutras divisões até que o cliente apareceu, ainda a ressacar do aniversário do amigo, numa vibe criativa e impaciente.
Está tudo errado!
gritava o homem, batendo o pé.
As tomadas têm de fazer padrão de tabuleiro de xadrez, o lustre desloca-se três graus da Terra, à direita.
Façam como digo ou não pagarei nada!
Com estas genialidades e ameaças bolava pelas divisões, trancou-se na quarta dos putos e adormeceu nos sacos de cimento.
Sete horas depois, levantou-se meio fantasmático, abriu a porta e viu a sua obra-prima: os operários ligaram a sala à cozinha, o wc tinha sanita para convidados, e ele próprio vestia-se de pó de cimento, cara mais horrorizada que burro em festa.
Tentou acusar os trabalhadores de mentiras, mas eles mostraram-lhe tudo em vídeo.
Só Capela deixou tudo igual, porque as novas ordens tinham passado ao lado do seu ouvido tapado.
O cliente, entre lágrima e apatia, deu-lhe um bónus por resistência à criatividade bêbada, e despediu todos os outros incapazes de resistir.
Mas pagou, pressionado pelo vídeo, tudo o que lhes devia.
À noite, esfomeado e doido, Capela engoliu o orgulho e foi ao médico restaurar-se para o mundo dos sons.
Pelo caminho apareceu-lhe um cão raivoso, que tentou assustá-lo aos berros, mas a vida de Capela era um filme mudo, só gestos e expressões.
Sem texto, impossível perceber o que o animal queria, então Capela andou confiante e o bicho, cansado, largou-o.
Que os sons estejam contigo!
proclamou o doutor, desentupindo o ouvido do Nicolau.
De volta ao mundo audível, Capela apressou-se para casa.
No caminho sacou do bónus inesperado, comprou uma salsicha enrolada e um raminho de flores para a esposa.
À porta, encontrou o vizinho, com ar de quem viu o Benfica perder.
Ouviste a notícia?
perguntou-lhe o vizinho.
Nem um pio ouvi hoje, respondeu Capela, enfiando o dedo no ouvido.
Filomena, aquela do Império Otomano, recolheu dinheiro de toda a gente, fugiu ao pôr-do-sol.
Mudou-se para outra cidade, cortou os contactos todos.
Planeou tudo de antemão, grande esperta.
Passou por todos os sete prédios.
Tu pagaste?
Eu?
Não, nem percebi o que ela queria de manhã, só falava em transferências, abanou Capela.
Sorte a tua!
Eu, que sou idiota, paguei.
Só consolo: antes de visitar todos os andares, os escaravelhos já tinham morrido com o cheiro dos perfumes dela, sorriu o vizinho.
Já não é tão mau.
Chegado a casa, Capela foi recebido por aromas deliciosos e por uma Inácia mais adorável que nunca.
Perdoa-me, Nicolau, que disparate me deu!
Nem eu sei explicar.
Deve ser efeito das tormentas solares.
Quero retirar tudo o que disse, acredita: não fiz nada de mal.
Não há António nenhum!
Fui só à casa da minha irmã, desabafei, e a cabeça clareou.
E tu, como reageiste de manhã, foi mesmo ao jeito de homem.
Isso foi que me pôs na linha.
Perdoas-me, tontinha?
Cheia de beijos e abraços, Inácia chamou-o para a mesa.
Olha, eu nem ouvi nada, admitiu Capela, sentindo-se premiado sem esforço.
Obrigada!
exclamou Inácia, apertando-o.
Só visto, pensou Capela, sem ter feito rigorosamente nada de extraordinário.
Devia calar o ouvido mais vezes.
Assim a vida fica mais jeitosa.Capela sorriu e saboreou cada garfada, enquanto Inácia lhe contava histórias do dia, radar sentimental recém-afinado.
O ouvido recobrado era como uma porta aberta: entravam risos, confidências improváveis e até uma promessa de, na próxima semana, aprenderem juntos a passar calças a ferro.
Quando a noite caiu sobre o prédio, o casal brindou com café e restinhos de bolo, janelas abertas ao vento fresco e aos sons da cidade gente a conversar, carros distantes, o eco de Filomena fugindo com a fortuna do condomínio.
Ao fundo, um anúncio na rádio dizia rios de dinheiro para quem soubesse sempre ouvir.
Capela só piscou para Inácia e pensou que, afinal, o melhor som era aquele que vinha de dentro, e que fazer ouvido mouco, uma vez por outra, podia salvar mais do que uma manhã.






