Soou a campainha… E quem é que irrompeu pelo apartamento, sem dar nem um olá e ainda empurrou o filho para o lado? Pois claro, a sogra.
Ora conta-me, querida nora, tens andado a esconder algum segredinho do teu marido?
Ó mãe? O que é que se passa, mãe?
Quando o Frederico chegou a casa, só se ouvia o tic-tac do relógio. A mulher dele, Graça, já tinha avisado de manhã: ia chegar tarde, que os chefes tinham inventado uma inspeção extraordinária.
Frederico foi à cozinha, abriu o frigorífico jantar, nem vê-lo. Suspirou fundo, pôs a chaleira ao lume, improvisou duas sandes e sentou-se à frente da televisão.
Andou ali de comando na mão, zapping para cá e para lá, até apanhar o canal a dar futebol. Mas mal deu duas dentadas na sande, a vizinhança já lhe baralhava o apetite.
A campainha tocou; à porta, a mãe do Frederico, Dona Antónia, entrava porta adentro qual tempestade, sem bom dia nem boa tarde e com direito a esbarrar no filho.
Frederico, escuta o que tenho para te dizer! Quem me contou foi a Amélia, a tua tia-avó.
O que foi agora, mãe? perguntou Frederico já cansado.
O que foi? É que a tua Graça anda a alugar um apartamento e a gastar os euros sozinha!
Mãe, tu ainda levas a sério os rumores da Amélia Rádio? Ela passa a vida a inventar histórias, e tu a acreditares nela!
Está bem que a Amélia às vezes exagera, mas desta vez é verdade! Porque a quem está a alugar agora é à sobrinha da vizinha. Percebes? Pagam à Graça 400 euros por mês e acham barato, vê-se logo… E olha, a tua mulher anda nisto há mais de dois anos!
Olha o drama… disse o Frederico com cara de enterro. Mas porque é que ela nunca me disse nada?
Quando a Graça chegar, perguntas-lhe. Mas já te aviso: ela anda a arranjar pé-de-meia para te deixar prepara-te para ficares sem dinheiro e sem mulher, disse a Dona Antónia, cheia de certezas.
Graça chegou cerca de hora e meia depois. Em casa esperava-lhe um comité de receção: marido calado, sogra atiçada. Dona Antónia, que não sabe estar parada, já tinha preparado o jantar e alimentado o filho.
Mal Graça entrou na sala, dois pares de olhos cravaram-se nela, versão julgamento do século.
Começou a sogra:
Então, querida nora, quais são esses segredos bem guardados do teu marido?
Nenhum, ao que parece, respondeu Graça entre dentes.
Nenhum, dizes tu? E o apartamento na Avenida de Alvalade, nº 43?
O que é que o meu apartamento tem a ver com o assunto? admirou-se Graça.
Estás a alugá-lo e escondes o dinheiro do Frederico! acusou Dona Antónia.
É mesmo, Graça, interrompeu o marido De onde apareceu esse apartamento? E porque nunca disseste nada? E esse dinheiro, para onde vai?
Esse apartamento era da Dona Rosa, prima da minha mãe. Fiquei com ele depois de ela falecer. Já te tinha falado disso e tu até disseste que me livrava de andar sempre ali às voltas pela cidade.
E quando te pedi para me ajudares no funeral, disseste logo que o trabalho não te largava.
Mas porquê a ti, o apartamento? intrometeu-se a sogra, cheia de indiscrição.
Talvez porque, tirando eu, ninguém lhe ligava nenhuma, respondeu Graça de ombros encolhidos.
E porque é que nunca disseste nada ao Frederico sobre a herança?
E o que é que o Frederico tem a ver com a minha herança?
Como o quê?! indignou-se Dona Antónia É teu marido!
E então?
Fazes-te de desentendida, é o que é. O dinheiro do arrendamento devia ser para o lar e tu gastaste-o toda para ti!
Gastei, sim senhora, tenho esse direito! A herança é minha, pertence-me por lei. Se alugo, se vendo, os euros são meus. Não tenho que dar satisfações a ninguém, rematou Graça.
Olha, Graça, o ano passado gastei uma fortuna no arranjo do carro foram os meus dois subsídios inteirinhos! Então tinhas dinheiro guardado e não ajudaste? Não esperava isso de ti… queixou-se o marido.
Frederico, o carro é teu. És tu quem anda com ele. Quando peço boleia, tens sempre uma desculpa ou recomendas-me um Uber!
O ano passado, levei-te três vezes: uma ao mercado na véspera do Natal, uma porque esqueceste a chave do trabalho, e outra ao centro de saúde quando torceste o tornozelo.
E querias que eu pagasse as revisões do bolso? Não uso, não pago.
Então já deves ter ali uma pequena fortuna! diz a sogra. Já tens praí uns cem mil euros?
Se fosse, já estava nas Maldivas! Olha, Frederico, lembras-te que tens duas filhas na universidade? Quando foi a última vez que lhes mandaste dinheiro?
Elas trabalham, penso eu… defendeu-se o Frederico.
Trabalham para as despesas, mas não para tudo. Sabes bem que se trabalhassem a tempo inteiro, não tinham tempo para estudar!
E porque é que nunca me disseste logo que tinhas herdado o apartamento? quis saber o marido.
Porque não queria este tribunal há dois anos! E, já agora, porque eu vi muito bem como a tua mãe tramou a mulher do teu irmão com aquela história da casa.
O quê, eu armei? Que dizes tu?
Estiveram anos a moer-lhe o juízo: ‘Vende lá esse T2, compre-se um quintal e depois é só fartura e churrasco.’ Venderam o apartamento, compraram a quinta em nome de quem? Da Dona Antónia! E agora a Oksana nem pode lá pôr os pés sem pedir licença, nem pensar em levar amigos!
Mas já pode cavar terra para si, sempre serve de consolo. Acho que passo.
Que falta de vergonha, Graça! Só pensas em ti! barafustou a sogra.
Aprendi com os melhores, Dona Antónia, respondeu-lhe a nora.
Frederico, estás a ouvir? A tua mulher trata-me mal!
Só estou a dizer a verdade! Assim que soubeste da minha herança, voaste para aqui. Para quê?
Para contar ao Frederico, ora essa!
Pronto, já contaste. E então?
Então agora é exigires que o dinheiro não seja escondido da família, que venha para o lar.
Mas vai, só que para as necessidades que EU decido. Não para o carro do Frederico, nem para as obras da vossa casa de férias!
Mas podíamos conversar sobre o destino do dinheiro, não? sugeriu a sogra.
Aos 46 anos, acho que já posso gerir o meu próprio dinheiro, não acha?
Mas há que pensar nos outros! suplicou Dona Antónia.
Nos outros… Quais? Por isso não contei logo: era para o dinheiro ir só para mim e para os meus filhos!
E é assim que vai ser. Dona Antónia, esqueça lá a minha herança que é melhor para todos, disse Graça.
Ou seja, gastas sozinha?
Gasto, se for caso disso.
E não partilhas com o marido? insistiu a sogra.
Partilho se o considerar justo. Já disse. Vai tudo, mas tudo, para a minha família.
E eu, não conto como família?
Dona Antónia, família é: eu, o meu marido, e os nossos filhos. O resto… são parentes!
No fim, Dona Antónia bem tentou sacar mais uns trocos à nora, mas dali nunca tirou nada. Mas a Dona Antónia é teimosa como só ela e continuou, de vez em quando, a tentar sacar a sua justa fatia.
Mas Graça, indiferente às manhas, nunca deu parte fraca. Não nasceu para as artimanhas de Dona Antónia! Como quem diz: aqui me sento, aqui fico e ninguém me tira do meu sofá!







