Diogo, eu entendo tudo, mas não fui contratada para ser cozinheira da tua mãe, murmurou indignada Filomena, largando uma lata de ervilhas na cesta do supermercado. Só me apetece largar tudo, entrar no carro e voltar para casa. Prometeram-me uma noite familiar tranquila a três, mas estamos aqui, os dois, a preparar comida para um batalhão de parentes, enquanto a tua mãe fica sentada! Achas isto normal?
Diogo encolheu-se, desviou o olhar e fingiu súbito interesse pelo rótulo das delícias do mar. Parecia um cão culpado apanhado em flagrante.
Filó, acalma-te As pessoas estão a olhar, que vergonha murmurou ele, tentando pegar-lhe no braço. Mas Filomena afastou-o bruscamente. A minha mãe perdeu um bocadinho o jeito Não é raro. Vamos comprar tudo da lista, voltamos e acabamos as saladas. Aguenta só mais um pouco, por mim e pelo dia.
Perdeu o jeito. Que bela expressão.
Filomena apertou os dentes de raiva. Sabia perfeitamente que a sogra tinha tudo calculado.
Tudo começara há uma semana, com uma chamada. Dona Antónia telefonou para desejar um bom Ano Novo ao casal e, de súbito, convidou-os para a sua casa.
Meus filhos, a voz de Dona Antónia era tão melosa que dava vontade de verificar se o açúcar subia só de ouvir. Venham cá no Natal. Tenho tantas saudades! Só nós três, em família, a recordar e conversar. É tão triste estar sozinha entre quatro paredes.
Filomena logo ficou desconfiada. Sentiu, no fundo, que vinha aí armadilha. Estes almoços familiares sossegados da sogra sempre acabavam da mesma forma: um interrogatório implacável sobre netos.
Quando Dona Antónia trouxe o assunto pela primeira vez, Filomena e Diogo nem eram casados.
Filomena, já pensaste em ter filhos? perguntou ela, quando ficaram a sós.
Filomena gaguejou.
Bem começou sem jeito, pensando na resposta. Quero filhos, mas não agora. Ainda só estou a namorar o Diogo
Ó Filomena, o casamento no papel não impede nada, fez Dona Antónia um gesto displicente. Mas a idade Os teus relógios estão a avançar, já não és nova. Nem eu Qualquer dia morro sem ver netos.
Filomena, no início, desconversava ou tentava piadas, depois começou a refilar. Acabou, sem se dar conta, por evitar encontros com a sogra para proteger os nervos.
Assim, nunca chegaram a conhecer-se realmente. Filomena teria continuado assim, mas Diogo insistiu. Era demasiado sensível, incapaz de negar à mãe.
Filó, vamos lá, só uma vez, por mim? Ela é velhota, está mesmo só. Uma vez, por mim. Por favor.
Diogo, não te prendo. Vai sozinho. Sabes que não ligo ao Natal.
Filó, vê como um jantar, só um jantar em família, insistiu o marido. A minha mãe só quer aproximar-se Somos família.
Filomena resistiu, mas cedeu. Pensava que bastaria um sorriso educado e um chá com bolo. Como se enganou
Tudo correu mal logo na véspera. Dona Antónia exigiu que chegassem às oito da manhã para aproveitar mais tempo. Filomena recusou, queria dormir. Lá conseguiu negociar para chegarem às dez.
Quando finalmente, com sono, atravessaram o limiar da casa da sogra nada. Nem cheiro a carne, nem barulho de fritar. A anfitriã recebeu-os de roupão gasto e cabelo com rolos.
Finalmente! Vieram, não se perderam! largou Dona Antónia sem cerimónia. Já são quase onze! Os convidados a chegar e nada feito. Deviam ter acordado mais cedo! Agora vão ajudar-me.
Filomena ficou parada, sem tirar o casaco.
Que convidados? perguntou, confusa.
Ó, quem A Lurdes e o Vítor vêm de passagem de Braga, era impossível não chamar. A tia Dulce do terceiro andar entra A minha sobrinha prometeu vir Não podia fechar-lhes a porta, pois não? Pronto, nada de conversa, para a cozinha todos, sem tempo a perder!
Filomena finalmente percebeu o tamanho do desastre. Não tinham sido convidados. Tinham sido convocados como mão de obra gratuita.
A festa tornou-se um pesadelo. Dona Antónia transformou-se de anfitriã em comandante, pegando no pano de cozinha só para parecer mais importante, a distribuir ordens pela casa. Não levantou um dedo para cozinhar. Pelo contrário, ainda faltavam ingredientes até esqueceu-se de comprar alguns. Deu uma lista ao filho e despachou-os para o supermercado.
Filomena estava quase a fugir, mas aguentou pelo marido.
Logo se instalaram nos postos de trabalho. Filomena no tabuleiro, Diogo a descascar batatas. Em vez de ambiente festivo, um rol de tarefas, meia dúzia de horas a suar, sem pausas.
Por volta das quatro, começaram a chegar os convidados. Bem vestidos, perfumados, alegres. Filomena e Diogo, por outro lado, estavam suados e exaustos, as roupas sujas, rosto vermelho. Não apetecia celebrar nem viver.
Dona Antónia, entretanto, já se tinha arranjado, vestindo um vestido elegante, lábios pintados. Sentou-se à cabeceira, ouvindo elogios dos convidados.
Tu, Antónia, como sempre Que mestra, tanta coisa feita! elogiou uma senhora desconhecida, enchendo o prato de salada feita por Filomena.
Faço o que posso. Tudo pelos convidados, por vocês! respondeu a sogra, modestamente.
Em dado momento, Dona Antónia voltou a insistir nos netos, com um discurso de taça sobre os relógios. Se Diogo não tivesse apertado o joelho da esposa por baixo da mesa, Filomena teria virado a travessa da salada.
Foi a última vez, disse ela secamente ao marido, quando regressavam a casa já de noite. Nunca mais ponho os pés na tua mãe. Vai lá, ajuda o quanto quiseres, mas sozinho. Acabou.
Diogo nem tentou discutir. Acenou em silêncio.
Passaram-se três meses. As costas de Filomena já não doíam, mas a mágoa ficou. Por isso, quando em março Diogo anunciou: A minha mãe chamou-nos para o Dia da Mulher. Diz que desta vez só seremos três, talvez a tia Lúcia apareça um minuto para felicitar, mas vai logo embora, Filomena apertou o maxilar.
Mas não te obrigo! Só estou a informar, apressou-se Diogo ao ver o olhar dela.
Esperava um escândalo, mas Filomena apenas olhou pela janela, pensativa, antes de dizer:
Está bem. Diz à tua mãe que vamos.
Filó? A sério? Tu própria disseste
Lembro o que disse. Mas se recusar, ela volta a pressionar e ligar todos os dias, como da última vez. Quero que ela não tenha mais coragem de chamar-nos, chorar ou apelar à piedade. Confia em mim. Se não queres perder outro domingo na cozinha dela, deixa-me fazer isto à minha maneira.
Diogo desviou o olhar e optou por não perguntar mais.
No Dia da Mulher, contrariando as expectativas de Dona Antónia, Filomena e Diogo relaxavam na cama, a ver um tonto programa na televisão, comendo gelado. Nada de preparações ou camisas decentes.
Ao meio-dia, Dona Antónia começou a ligar.
Olá, Dona Antónia? Não vai acreditar Só agora acordámos, disse Filomena, com fingida culpa. Ontem fomos jantar com amigos, adormecemos o despertador.
Como é possível, Filomena? Estou aqui à espera, respondeu a sogra, já aborrecida. O pato está a arrefecer!
Já estamos a arranjar-nos! Uma hora, um pouco mais e chegamos! prometeu Filomena, desligando e voltando ao televisor.
Diogo olhou nervoso para a mulher, mas ficou calado. Melhor estar na cama do que trabalhar na cozinha da mãe.
Às uma da tarde, nova chamada. Filomena fez uma pausa antes de atender.
Já estamos quase a sair, Dona Antónia! Vamos chamar um táxi e voamos para aí, cantou ela, sem sair da cama.
Mais uma hora, nova desculpa.
Houve um acidente, fecharam a estrada toda, explicou Filomena, baixando o volume da televisão. Uma fila enorme, mas deve abrir em breve.
Quase às quatro, Dona Antónia já não aguentou.
Onde é que vocês andam?! gritou ela, sem o tom docinho da manhã. Se tivessem vindo a pé já cá estavam!
Filomena ouviu vozes e risos no fundo. Suspeitou.
Dona Antónia, não está sozinha, pois não? perguntou ela.
Só ou acompanhada Qual é a diferença? Tenho familiares a felicitar-me. Não os ia mandar embora! Vocês vêm ou não?! Já mal me aguento em pé, está tudo em cima de mim!
Filomena percebeu. De novo esperavam mão de obra, mas tiveram de cozinhar sozinha. Não teve outra escolha.
Sabe Afinal não vamos, disse Filomena com calma.
O quê?!
Sentimo-nos mal, parece que enjoámos no caminho. Vamos voltar para casa.
Primeiro silêncio, depois uma torrente de indignação.
Como ousas?! Mal agradecida! Estou na cozinha desde manhã, para quem faço isto?! Para quem?! explodiu Dona Antónia. Fazes de propósito! Vais matar-me de fúria! Diogo, passa-me o telefone!
Diogo escutou tudo, imóvel. Filomena, com um gesto sereno, pressionou o botão vermelho e desligou.
Era o esperado, disse Filomena ao marido. Estava tudo pronto para nos fazer servir aquela multidão. Que se desenrasque sozinha, se quis chamar tanta gente.
À noite, visitaram os pais de Filomena.
A diferença sentiu-se logo à entrada. Também havia agitação, mas o ambiente era outro: ninguém estava de cara feia à espera de serviçais. A mãe de Filomena tentava acomodar uma taça enorme de salada; até o pai fazia sanduíches.
Ó, chegou a juventude! exclamou alegremente, ao ver a filha e o genro. Diogo, traz uns bancos do quarto para a sala, que não há onde sentar.
Diogo foi buscar assentos. Filomena ajudou a mãe a pôr a loiça.
Aqui todos ajudavam, sem obrigação. Era natural, sentido como união e cuidado.
Filomena, sentada à mesa, olhava para a mãe sorridente e para Diogo, que conversava animado com o sogro, sentindo a tensão sumir. Finalmente, justiça feita. Foi duro, foi ao custo de um escândalo, mas Dona Antónia dificilmente ousaria repetir o truque. Agora, os laços entre Filomena e a sogra estavam queimados, mas era muito melhor do que ser criada no festim dos outros.






