Na minha carreira de educadora, vivi certa vez uma situação inesquecível. Havia um menino na minha turma chamado João. Desde o nascimento, João enfrentava muitas dificuldades: teve atraso no desenvolvimento, problemas graves no coração e, além disso, nasceu com lábio leporino e fenda palatina.
Até aos quatro anos, ninguém conseguia compreender o que ele dizia. Aos seis anos, depois de muito acompanhamento de especialistas e persistência, a fala foi melhorando um pouco. Ainda falava pelo nariz e com entoação rouca, mas finalmente já se percebia o que queria dizer.
Estávamos no último ano do jardim-de-infância e aproximava-se o Dia da Mulher, oito de março. Decidimos atribuir ao João um poema para recitar, apesar de sabermos que era um desafio enorme para ele. Sempre sentiu vergonha da sua fala e da cicatriz nos lábios. No entanto, acreditávamos que era importante ele passar por esta experiência, para fortalecer a sua autoconfiança e mostrar a si próprio que não era diferente dos outros.
O desejo era dele também: quando via os colegas a recitar poemas, João sussurrava as palavras atrás deles, mexendo os lábios com vontade de participar.
O poema foi sobre mães. A mãe de João ficou radiante ao saber que ele tinha sido escolhido; nem ela mesma esperava. O João achava, sinceramente, que ninguém lhe confiaria tal tarefa, sentindo-se diferente das outras crianças.
Dedicar-se tornaram-se rotina: todos os dias, repetiam juntos os versos, de frente ao espelho, para familiares, em voz alta, em voz baixa, até à exaustão.
Chegado o dia da festa, era a vez do João subir ao palco para recitar. O menino estava visivelmente nervoso, mas não quis faltar ao compromisso. Disse que iria declamar para a mãe só para ela, para quem ele tinha decorado o poema.
Entrou o João, de fatinho e gravata borboleta, arrumado e bonito. Começou a recitação de forma correta e firme mas, a meio, talvez por nervosismo, começou a atrapalhar-se. Chegou aos versos:
Do parapeito gritou o António:
A minha mãe é bombeira! Que tem isso?
Mas o João, por exemplo,
A mãe do João é (forçou a memória para lembrar a palavra difícil)
A mãe é fri-ga-ri-fi-cis-ta!
Soaram risinhos na plateia. João corou, baixou a cabeça, enfiou as mãos nos bolsos e fez beicinho, mas continuou:
Já a mãe do Tiago e da Vera
Ambas são
Frigorificistas! berrou alguém divertido do fundo da sala. E, desta vez, muitos não se contiveram e caíram na gargalhada.
O João virou-se e correu porta fora. Fui ao seu encontro pelas escadas. Encontrei-o encostado à parede, limpando lágrimas com a manga do casaco, cheio de zanga e tristeza. Aproximei-me e disse-lhe baixinho ao ouvido que aquela brincadeira tinha sido muito tola, e perguntei se queria tentar de novo, só para a mãe e para mim, desta vez com a palavra polícia. Disse-lhe que, se se enganasse, eu estaria ao lado para ajudar.
Primeiro abanou a cabeça, ainda a fungar. Depois, pensou e declarou que queria pela mãe, mas tinha medo. Prometi-lhe que estaria a seu lado, a segurar-lhe a mão e a sussurrar se precisasse.
O João aceitou. Entreguei o menino aos cuidados de uma funcionária para lavar o rosto, e voltei à sala. Assim que terminou o número anterior, pedi a palavra aos pais.
Confesso que tremia de nervos, mas estas foram mais ou menos as palavras que disse, recordando-as claramente passado tantos anos:
O João tem seis anos e passou a maior parte da sua curta vida em hospitais e clínicas. Fez mais operações do que teve aniversários. Durante muito tempo, não conseguiu falar, mas neste ano, finalmente, aprendeu a dizer as palavras de forma compreensível. Teve coragem de subir ao palco e quer agora recitar um poema, mas só para a mãe. Peço, por favor: apoiem-no. Vai ser muito difícil para ele.
A sala calou-se. Trouxe o João do corredor. Ele arrastava os pés e olhava para o chão. Um miúdo pequeno, atarracado, de beiço saliente, ainda húmido de lágrimas mas determinado, ficou ao meu lado, sem dizer palavra.
Força, João! gritou a mãe dele.
Força, João! repetiu a mesma voz marota do fundo. Ajoelhei-me ao lado do menino e segurei-lhe a mão.
Vai, João, para a mãe murmurei.
O João inspirou fundo e começou de novo. Chegando à parte:
Do parapeito gritou o António: A minha mãe é bombeira! Que tem isso?
Engoliu em seco e prosseguiu:
Mas o João, por exemplo,
A mãe do João é po-lí-ci-a!
Já a mãe do Tiago e da Vera
Ambas são en-ge-nheiras!
E olhou desafiadoramente para os espectadores.
Nunca na vida a pequena sala ouvira tal salva de palmas. Todos bateram palmas pais, crianças, educadoras, auxiliares. Alguns até de pé. O João já nem conseguiu continuar o poema foi tanto o barulho e emoção.
Mas não era preciso: ele já tinha provado tudo o que tinha de provar.
Depois da festa, a professora de música chamou-me de lado.
Devias era apanhar um belo raspanete disse ela, meio a sério meio a rir.
Desabei em lágrimas naquele instante. Tudo o que guardei naquele dia veio à tona. A colega deu uma risada, fechou a porta e fez-me sentar.
Devias era ter levado um puxão de orelhas por teres quase estragado a festa, mas sabes? Os vencedores nunca são julgados. E hoje, tu e o João, foram vencedores. Limpa a cara e vai ter com os miúdos.
Por que me lembrei deste episódio tantos anos depois? Porque, há pouco tempo, encontrei a mãe do João na rua e ela reconheceu-me. Contou-me que o João entrou este ano direto para a universidade, numa vaga pública, e passou a tudo à primeira. E sabem para que curso? Para Filologia!
E ela fez ainda questão de transmitir as palavras do filho: Se não tivesse acontecido aquilo, teria continuado a sentir-me diminuído para sempre.
O mais importante desta história é a persistência, a força de vontade… e as pessoas ao redor! O essencial é que, em vez de uma criança marcada pela diferença, cresceu um jovem íntegro. E isso só foi possível pelo apoio, compreensão e carinho de quem o rodeava.
Vamos ser mais compreensivos e gentis uns com os outros. Todos crescemos com um gesto de apoio.






