Destinos Cruzados: A História de Alzira, a Filha Mimada, e do António, o Filho do Coração – Entre So…

Pessoas Diferentes

Beatriz nunca foi uma menina fácil. Tanto o João como a Matilde sabiam que, no fundo, a culpa era deles próprios. Davam-lhe todos os mimos do mundo. Mas como era possível não mimar aquela filha? Tão bonita, tão meiga, e tão difícil de conseguir Matilde tinha tentado engravidar durante anos. Percorreram todos os médicos, de norte a sul de Portugal, até foram ao Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Ninguém encontrava explicação.

Se estava tudo bem, porque não vinham filhos? Um dos médicos antigos recomendou-lhes procurar uma rezadeira. E assim foi. Encontraram uma senhora nas redondezas de Coimbra, que deu a Matilde uma infusão amarga, com cheiro a azedo. Devia tomar umas gotas por dia. Matilde quase vomitava, mas era persistente. E, um mês depois, engravidou. Nunca houve alegria maior naquela casa. O João até dançou fado de contentamento, ao ponto de a vizinhança ouvir.

A gravidez foi pesadíssima. João achou mais do que uma vez que Matilde ia perder o bebé. Vomitava a toda a hora, não suportava cheiros, cheirava tudo mal, inchava dos pés às mãos. Não dormia. Raramente punha um pé fora de casa. Quando começou o trabalho de parto, João ficou esperançado mas o pior ainda estava para vir. Depois de mais de dez horas em sofrimento, os médicos do Hospital dos Covões, em Coimbra, decidiram fazer uma cesariana. A bebé nasceu fraquinha, magra, e Matilde perdeu tanto sangue que ficou entre a vida e a morte. Dois dias de incerteza, duas semanas de hospital, até mãe e filha regressarem, finalmente, a casa.

João estava radiante, ansioso por pegar na sua menina e viver, finalmente, a vida de família que sempre sonhara. Agora sim, teriam uma casa realmente feliz.

Quando Beatriz fez cinco anos, João chegou a casa, sentou-se à frente da mulher e disse, com ar decidido:

Matilde, temos mesmo de construir uma casa nossa. Como é que conseguimos viver os três neste T1? Agora ainda é pequena, mas quando a Bia crescer? Uma rapariga precisa do cantinho dela.

Matilde sempre apoiou o marido, mas sentiu-se perdida. Onde iriam descobrir dinheiro para tal?

Eu já pensei em tudo. Se formos fazendo com calma, um bocadinho de cada vez, acabamos por ter uma casa como deve ser. O segredo é não ter pressa. Vai dar certo!

Matilde sentiu a razão nas palavras dele. Sonhar com a casa grande era a ambição de uma família.

Mas o destino trocou-lhes as voltas. Seis meses depois, Beatriz adoeceu gravemente. Uma gripe comum passou a otite, depois complicou-se com outras doenças Matilde e a filha não saíam dos hospitais. Foram de Coimbra ao Porto, de hospital em hospital. As dívidas acumularam-se. Mas conseguiram salvar Beatriz. Levou quase três anos de tratamentos.

Nunca mais João falou do sonho da casa. Agora, precisavam era de pagar tudo o que deviam. Matilde via que João sonhava em silêncio, mas não dizia nada.

Beatriz já bastante autónoma, Matilde arranjou trabalho numa fábrica de conservas em Aveiro. Pagava bem melhor, e achou que, se trabalhassem ambos muito, talvez um dia ainda se realizasse o sonho antigo.

Só conseguiram saldar todas as dívidas quando Beatriz já tinha 14 anos. E era cada vez mais difícil poupar: a rapariga crescia, queria vestidos novos, casacos como o da amiga Ana, e o baile de finalistas batia à porta. Matilde e João tentavam pôr algum de lado, convencidos de que, mal Beatriz fosse para a universidade, começariam finalmente a obra.

Mas a vida prega partidas. Beatriz lá entrou na Universidade do Porto e foi estudar para longe. Os pais, babados de orgulho, viram a filha partir. Nos dois anos seguintes, João ergueu as paredes da casa, tijolo a tijolo. Ainda só tinha placas de madeira nas janelas e portas improvisadas, mas já havia ali um lar.

Dois anos depois, num domingo à tarde, Matilde e João chegaram, exaustos mas felizes, de mais um dia de obras. Tinham acabado de colocar duas janelas. Quando tocaram à porta, Matilde abriu e sentiu o chão fugir.

Beatriz?! gritou ela, ao ver a filha na entrada, com uma enorme barriga de grávida. Ao lado, um rapaz magro, de cabelo comprido.

Ó mãe, então O bebé está quase a chegar! Este é o Luís, meu namorado, vai viver connosco e vamos casar!

Luís acenou, mastigando uma pastilha elástica.

Na sala, ao pé da mesa posta, João tentou perceber:

Beatriz, porque não disseste nada?

Para quê? Para ouvirmos lições de moral?

E a universidade?

Não me faz falta nenhuma. O Luís largou o curso, está ótimo!

João olhou para o rapaz:

Em que é que trabalha, então, o nosso genro?

Ó pai, não comece Ele não encontrou ainda a sua área de vocação.

João não resistiu:

Mas como vão viver, se não trabalham e vão ter um bebé?

Eu ainda tenho os meus pais, não é? respondeu Beatriz, achando tudo óbvio.

Mais tarde, João sugeriu a Matilde:

Acho melhor mudarmos para a casa. Acabamos um quarto e vamos fazendo o resto. A apartamento fica para eles. Um presente de casamento.

Matilde hesitou, mas aceitou. Os jovens ficaram genuinamente felizes. João e Matilde levaram apenas o essencial.

A casa estava vazia, sem quase nada, mas Matilde não se queixava. Chegava do trabalho, fazia o jantar, lavava roupa em alguidares, carregava água da bomba a trezentos metros, ajudava João na obra. De vez em quando, Beatriz aparecia a pedir dinheiro. Os pais ajudavam, mas o dinheiro não chegava para tudo.

Um dia, João não aguentou mais. Foram visitar Beatriz:

Então, Luís ainda não trabalha?

Pai, não há empregos adequados à altura dele. Não pode andar a carregar sacos de cimento!

E a família dele a comer do ar?

Beatriz tentou intervir, mas João foi direto ao assunto:

Quero ouvir o Luís.

O rapaz olhou, pela primeira vez sério:

Nunca pensei andar a construir casas e a carregar tijolos.

Pensaste o quê? Que tudo te cairia de céu? Olha o exemplo!

Na despedida, João sugeriu à filha:

O teu marido está sem fazer nada. Por que não vem ajudar a acabar a casa? No fim, será sempre para vocês.

Beatriz irritou-se:

Agora querem que ele ajude? Fizeram a casa sem lhe pedir nada!

João calou-se, encolhido por dentro. Matilde deu à filha algumas notas discretamente.

Uma semana mais tarde, Luís arranjou trabalho. Não na construção, mas a entregar recados num escritório, mal pago, mas foi o que conseguiu. Os pais suspiraram de alívio.

Na vizinhança, um miúdo de dez anos, chamado António, andava sempre a espreitar enquanto João e Matilde trabalhavam. Tinha vontade de ajudar, mas era tímido. Vivia com a avó, Dona Conceição, numa velha casa afogada em macieiras. Uma noite, João convidou-o para um chá no quintal.

Então como te chamas?

António.

Foram conversando. António não tinha pais, vivia apenas com a avó, que já era muito velha e doente.

No final, António perguntou:

Posso vir ajudar nas férias? Não gosto de estar sempre parado.

João olhou para Matilde, ambos sorriram:

Claro que sim, toda a ajuda é bem-vinda. A avó não se importa?

Que nada, ela até fica contente se tiver que fazer.

No dia seguinte, António já os esperava. Era um ajudante nato. João depressa disse à Matilde, a sorrir:

Vai-te embora, mulher, finalmente tenho um assistente que entende realmente disto!

Matilde viu Dona Conceição ao portão, foi lá cumprimentá-la.

A senhora não se importa que o António nos ajude?

Imagina, minha filha. Mais vale um rapaz aprender um ofício que andar a desperdiçar tempo. O teu marido é bom homem, nota-se.

Matilde sentia-se sempre protegida com João. Queria tanto que a filha tivesse conhecido um homem assim.

Quer vir tomar chá connosco ao fim da tarde?

Claro, menina, vizinhança serve para isso, não é? Estarei lá!

De tarde, sentados no quintal, entre risos e conversas, enquanto João e António planeavam canalizações e as mulheres falavam da vida.

Nesse dia, Beatriz foi mãe. Matilde e João correram para o Hospital de Aveiro, carregados de presentes. Até Luís, estranhamente, apareceu de flores na mão. Ao regressarem, fizeram um jantar para os vizinhosDon Conceição e António vieram também. Todos celebraram a chegada do novo membro à família.

Mas, pouco depois, Luís começou a mostrar impaciência. Queria autonomia, não gostava das visitas constantes de Matilde. Um dia, Matilde ouviu-o dizer:

A tua mãe não tem mais nada que fazer? Já somos família, não precisamos que venha cá dizer-nos como viver!

Matilde ficou magoada e contou tudo a João.

Deixa, não te preocupes mais com isso disse-lhe o marido. Se quiserem ajuda, que peçam.

António, pelo contrário, tornou-se ainda mais família. Era ele que ajudava Matilde a carregar tudo, mesmo depois de entrar para o liceu, e nunca lhes faltava à sexta-feira à noite para jantar juntos.

Chegaram à reforma, e decidiram que iriam ajudar António a ir para a faculdade. Mesmo antes de acabarem de comentar, António já arranjara trabalho à noite. Contava sempre que a bolsa e o salário chegavam. Passava todos os fins de semana com Matilde e João.

E então Matilde adoeceu. Emagreceu, perdeu forças. João desesperava. Conseguiu convencê-la a internar-se. Um dia, chamou-o o médico:

João, a Matilde tem cancro. Está numa fase muito avançada. Prepare-se

Para João, o mundo caiu. Ligou, tremendo, à filha:

Beatriz, a tua mãe está muito mal

Lamento, mas o que queres que eu faça?

É cancro, filha os médicos dizem que lhe resta meio ano

Amanhã cedo passo no hospital.

Beatriz foi ver a mãe uma vez. Quando Matilde teve alta, disseram a João que ela precisava de tudo, até para comer ou tomar banho. João tentou ser forte. Ligou à filha:

Beatriz, podes vir ajudar a lavar a mãe?

Vou tentar, mas não prometo. Agora tenho de andar sempre de um lado para o outro?!

João esperou o dia todo. Sabia que ela não viria; não ligou mais, não queria perder a esperança. Carregou ele sozinho com tudo, noite dentro. Matilde chorava:

Por que é que é assim? Só te causo sofrimento. Preferia já ir embora.

Não digas isso, Matilde! Sem ti aqui, nada faz sentido respondeu João.

Um mês depois, Matilde partiu. António, agora com 22 anos e acabado de se formar, chorou aberta e desesperadamente. João, dorido, não contou logo ao rapaz o quão grave era. Mas António fez questão de ir vê-los quase todas as semanas.

Arranjou emprego na sua terra, alugou um quarto. João sabia que o rapaz era reconhecido e seria alguém. A casa estava impecável; João e Matilde tinham-na tornado num lar quente e acolhedor.

António vinha muitas vezes a casa, só para tomar um chá com João. Este resistia em convidá-lo a ficar, mas António era de ideias feitastinha de ser independente, dizia.

Beatriz raramente aparecia: ou para pedir dinheiro, ou para levar algo. Passava o tempo a calcular em pensamento como seria viver ali, todos com o seu espaço. Se não mudavam, era porque o pai de Luís nunca se entendera com o seu marido. E assim cinco pessoas viviam num T1 em Espinho.

João sentia a idade a pesar e desde que Matilde morreu, o coração nunca mais fora firme. Tomava remédios ao acaso, recomendados pelas vizinhas, o que irritava António.

Assim não podes cuidar de ti. Vai ao médico!

João encolhia os ombros.

Numa noite, o peito apertou tanto que João não aguentou. Ligou para Beatriz:

Filha, acho que o coração está a falhar

Toma o valium, ou então chama o INEM. Não posso ir até aí!

O telefone ficou mudo, e o desespero apertou. Sem outra opção, ligou a António:

António, desculpa, estou muito mal.

Eu já vou, aguenta só um bocadinho.

António chegou com a namorada, Leonor, que era técnica no INEM. Ela logo viu que João precisava de ir ao hospital.

Eu amanhã vou estar de serviço, mas deixo já comida feita para dois dias, João. Só tens de aquecer.

Ficaram até tarde. No dia seguinte foi Beatriz, que mal pôs o pé dentro de casa.

Nem vieste ao hospital, filha

Para quê? Estavas cheio de médicos à volta! Ia fazer diferença?

És minha filha

Não aguento estas lamúrias! Decididamente, cansaste-me!

Não te quero ouvir com esse tom, Beatriz. Nunca vieste ajudar a mãe e até duvido és mesmo nossa filha?

Beatriz explodiu:

Já chega! Viveste a vida toda sozinho numa vivenda destas e eu apertada num T1! Quando morres, hein? Precisava-se era que fosses antes!

João ouviu, e não se perturbou. Era o que esperava, só se surpreendeu pela brutalidade. Começou a pensar no que fazer. Queria falar com Matilde. Sentia-a todos os dias em sonhos.

De manhã, António ligou:

João, como está?

Até iria para o quartel, tal é a minha vitalidade! Preciso só que me arranjes um notário que venha a casa.

Porquê?

Há uns papéis a tratar.

Na hora marcada, o notário apareceu e ficou admirado com o pedido, mas João foi firme: tudo ficou legal e pronto. Depois, sentou-se a escrever:

António, se estás a ler isto, já não estou entre vocês. Não te aflijas, estou com a Matilde. Casa-te com a Leonor, faz uma família bonita. Em nome de tudo o que vivemos, deixo-te esta casaé o meu presente de casamento. Luta por ser feliz. Não te atrevas a recusar.

João terminou, pôs tudo num envelope, juntou uma foto com Matilde e deitou-se. Acariciou a fotografia, lembrando-se de todos os dias felizes.

António e Leonor chegaram. O quintal parecia mais sereno do que nunca. Ninguém os recebeu. Encontraram João no sofá, com a foto junto ao peito. António sentiu-se desabar.

Pai

Leonor avaliou João e abanou a cabeça, com tristeza.

Quando já só restava o vazio, Beatriz e Luís chegaram. António reparou na carta. Leu-a em silêncio. Beatriz e Luís andavam pela casa, a medir paredes.

António entregou a carta a Leonor, que chamou Beatriz:

Teu pai escreveu-te antes de morrer. É para mim, mas devias ler também.

Beatriz leu. Ficou encarnada, gritou:

Velho estúpido! Perdeu o juízo! Isto não fica assim!

Saiu disparada da casa, cheia de mágoa e raivaMas António, com voz serena, dobrou a carta e olhou-a nos olhos, com uma firmeza que ela nunca vira nele.

Beatriz, a casa foi do teu pai e da tua mãe murmurou. Eles construíram-na com o sonho de família, mas também com trabalho, suor, e coração. Respeita-lhes a última vontade.

Beatriz tremia de raiva e mágoa. Fez menção de protestar, mas Luís já olhava envergonhado para o chão, impotente. Perante o silêncio, António continuou:

Não guardes rancor. O que lhes deste ou não deste, o que recebeste ou não, já não muda nada. Agora segue o teu caminho, cria o teu próprio lar e sê feliz, se conseguires. Foi isso que a Matilde me ensinou: ninguém escolhe a família de sangue, só a família do coração.

Beatriz atirou o envelope para cima da mesa e saiu, batendo a porta. Luís foi atrás, cabisbaixo.

Quando o eco dos passos se perdeu, só Leonor e António ficaram, rodeados de sossego. Caminharam juntos até ao quintal, a luz dourada do fim da tarde atravessando as macieiras. António sentiu-se, por fim, em casa ali onde nunca imaginara encontrar família, descobrira alguém que lhe abria o futuro com um sorriso.

Sem palavras, Leonor apertou-lhe a mão. Ao longe, Dona Conceição, com a voz trémula, acenava do portão. António sorriu-lhe, sentindo que tudo se fechava e reabria nas pequenas alegrias partilhadas, no aroma das maçãs caídas, nos risos afetuosos de uma nova geração.

O vento trouxe-lhe a memória de João e Matilde, sussurrando entre as folhas. E António percebeu, de uma vez por todas, que não era o sangue, mas o amor, que fazia de pessoas diferentes, uma verdadeira família.

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