O CORAÇÃO VOLTA A BATER Tatiana teve a sua Nica sem nunca saber ao certo de quem. Diz-se que “esco…

O CORAÇÃO VOLTA A BATER

Tatiana trouxe ao mundo a sua filha, Leonor, sem nunca revelar quem era o pai. Diziam por aí, baixinho, que tropeçou antes de casar.

Sim, Tatiana tinha a atenção de um jovem bonito, encantador, mas nunca ouviu um pedido de casamento. Ele exibia um sorriso conquistador e fazia-se passar por um verdadeiro cavaleiro. O orgulho de Tatiana era atravessar o passeio de braço dado com ele, cabeça erguida, enquanto as senhoras idosas junto ao portão as autênticas girassóis do bairro viravam as cabeças para os ver passar.

O rapaz não trabalhava. Gostava de saltitar pela vida como uma borboleta. Tatiana cuidava dele, dava-lhe de comer, deixava que dormisse junto a ela. Estava disposta a deslizar como um tapete colorido debaixo dos seus pés. Mas, um dia, ele declarou estar aborrecido com Tatiana, dizia que ela não o valorizava como homem. E mais acrescentou: Tatiana devia levar-o ao Algarve, se me amas mesmo

Ela chorou durante uma semana. Depois, rasgou e queimou a fotografia do pouco-amado. Sofreu, sozinha, durante um mês. E, então, conheceu o Vítor.

Certa manhã, Tatiana estava atrasada para o trabalho. Esperava ansiosa na paragem de autocarro quando um táxi parou ao seu lado. O motorista abriu a porta e convidou-a a entrar. Tatiana aceitou de imediato. Durante a viagem, foram conversando e ela reparou logo: o homem era de meia-idade, bem arranjado, cheiroso, cabelos cortados, tudo impecável. Sentiu um conforto especial na cortesia do motorista, um gesto de quem cresceu rodeado de cuidados femininos, talvez os da mãe.

Vítor apresentou-se era o oposto do rapaz anterior. Tatiana, sem hesitar, deu-lhe o número de telemóvel e encantou-se com a ideia de voltar a vê-lo. Foi a única vez em que andou de táxi sem pagar um cêntimo.

Começaram a namorar. Vítor enchia Tatiana de flores e mimos. Num dia primaveril, passeavam numa mata, Tatiana apanhou malmequeres e Vítor juntou-se à apanha com entusiasmo. Cada um saiu com o seu ramo. Ao entrarem no carro, Tatiana sentou-se com o seu pequeno bouquet, e Vítor colocou o seu belo ramo no banco de trás. Tatiana pensou: Talvez sejam para a mulher… Ficou hesitante seria ele casado? Ao fim de seis meses de namoro, já estava habituada ao Vítor atencioso, mas preferiu ignorar a dúvida.

No entanto, não muito depois, apareceu em casa de Tatiana a esposa de Vítor, acompanhada de duas crianças pequenas, e disse:

Aqui estão! Tome conta deles, minha senhora, adoram o pai!

Tatiana apenas conseguiu responder:

Peço desculpa, não sabia que Vítor era casado. Jamais destruiria uma família.

Desse mesmo dia em diante, terminou a relação.

O próximo amor foi Mamede, um português nascido na Beira. Entrou na vida de Tatiana como um vendaval e partiu tão depressa como chegou. Conheceram-se na festa de aniversário de uma amiga, e ele tomou logo conta da conversa. Tatiana deixou-se cativar. Mamede conquistou-a com generosidade e alegria; ao lado dele não havia espaço para tristeza. Organizador de festas, conhecedor de tudo, parecia não enfrentar qualquer adversidade. Tatiana sentiu que podia ir com ele até ao fim do mundo. Mas, infelizmente…

Durante um ano, Mamede tratou Tatiana como a mulher mais especial do mundo. Depois partiu de volta para a sua terra, diziam que por motivos de saúde da mãe, ou talvez não tenha encontrado raízes em Lisboa.

Tatiana sentiu-se abandonada, perdida. Decidiu não sofrer mais: Antes só do que mal acompanhada.

Quando já aceitava a ideia de viver sozinha, descobriu que carregava uma nova vida no ventre. Ficou atónita! Quem seria o pai? Como seguir em frente? Como resistir?

Nasceu uma menina. Tatiana chamou-a Leonor. Leonor tornou-se o centro do mundo de Tatiana. Era a cara de Mamede: os mesmos caracóis, olhos escuros, sorriso encantador. Ver essas semelhanças enchia Tatiana de alento; afinal, amara Mamede como não amara mais ninguém. Olhando para Leonor, recordava dias felizes e despreocupados ao seu lado.

Havia momentos de desespero, e a inveja pela vida das amigas casadas espreitava. Mas criar Leonor ocupava-lhe todo o tempo não havia espaço para lágrimas.

No primeiro dia de aulas, Leonor foi sentada ao lado de um rapaz, Daniel. Não gostou dele, e ele chamou-a de caracóis parvos. Antipatia mútua imediata. A professora teve de os separar, mas nem isso impediu discussões nos intervalos. Tatiana foi à escola procurar explicações para os arranhões que Leonor trazia para casa. A professora, sentindo-se culpada, deu-lhe o endereço do Daniel e sugeriu que falasse com os pais.

Tatiana, decidida, foi à morada indicada. A porta foi aberta por um homem jovem, que limpava as mãos a um pano pendurado ao pescoço.

Entre, faça o favor! Já lhe sirvo um café, só preciso dar de comer ao danadinho, disse ele apressado, desaparecendo para a cozinha.

Tatiana, descalça, seguiu até uma sala pequena, onde o desarrumo, o pó e o cheiro intenso a tabaco denunciavam a ausência de toque feminino.

Santa paciência…, pensou ela.

O dono da casa regressou com uma bandeja, trazendo duas chávenas de café fumegante o aroma incrível jamais seria esquecido por Tatiana.

Então, em que posso ajudar uma senhora tão simpática? perguntou ele.

Sou mãe da Leonor, disse Tatiana.

Ah, já percebi. O meu Daniel está apaixonado por ela, respondeu ele a sorrir.

E por isso é que a minha filha aparece toda arranhada? retrucou Tatiana.

Desculpe? perguntou ele, genuinamente espantado.

Por favor, fale com o seu filho. Obrigada pelo café, despediu-se Tatiana.

Claro que sim, não se preocupe, respondeu o pai de Daniel.

O rapazinho mantinha-se silencioso na cozinha. Tatiana voltou para casa, mas nessa noite demorou a dormir, a cabeça cheia de pensamentos sobre aquele homem simples e afável, com ar caseiro. Era um verdadeiro sonho! E aquele café… nenhum namorado lhe oferecera antes uma chávena de café apenas champanhe, vinho, martinis. Ficou curiosa sobre aquela família. Na imaginação, já via a casa limpa, mobília arrumada, flores nas janelas… E teve vontade de afagar os cabelos do danadinho.

No dia seguinte, pediu a Leonor para ser mais simpática com Daniel na escola.

As semanas passaram.

Num encontro de pais, Tatiana voltou a cruzar-se com aquele homem. Descobriu, então, que Daniel não tinha mãe. O coração de Tatiana amoleceu de vez.

No final da reunião, o pai de Daniel ofereceu-se para acompanhar Tatiana e Leonor a casa. Era dezembro, escurecia cedo. Tatiana, de sorriso fácil, aceitou.

Ele apresentou-se:

Alexandre.

Gostei de conhecer, sou Tatiana, disse ela, animada.

Pelo visto, Tatiana também agradou a Alexandre. Ele propôs que passassem o Ano Novo juntos. Tatiana, cansada de esperar príncipes e depois de sete anos de solidão, aceitou.

Mais tarde, Alexandre contou que se divorciara há muito. A ex-mulher casou-se com o melhor amigo, e o filho ficou consigo.

Alexandre não imaginava que também precisava tanto do carinho de uma mulher ou do quanto Daniel precisava de ter uma mãe. Declarou todo o seu amor a Tatiana e revelou que a pensava desde aquele primeiro dia. Viu nela a esposa ideal e uma mãe verdadeira para o filho.

Tatiana e Leonor mudaram-se para a casa de Alexandre. Mas, antes, pediram a aprovação dos filhos. Leonor e Daniel, ainda relutantes, acenaram com a cabeça.

A vida mudou. Alexandre, transbordando felicidade, parecia capaz de mover montanhas. A família adquiriu um novo apartamento arejado. Tatiana dedicou-se ao lar e às crianças. Leonor e Daniel cresceram rodeados de carinho e amor. Tatiana tratava Daniel como se fosse sangue do seu sangue. E Alexandre mimava Leonor como a mais preciosa das meninas.

Os anos passaram e, quem diria, Daniel e Leonor… casaram-se. Tatiana e Alexandre deram-lhes a bênção. Os noivos escolheram Paris para a lua de mel, e Tatiana propôs que ela e Alexandre descansassem na costa algarvia.

Alexandre hesitou:

Tati, pega nesse dinheiro e compra algo para ti.

Alex, será que não podemos, só uma vez, aproveitar o tempo a dois? Relaxa e vem comigo! insistiu ela.

Alexandre acabou por ceder. Passaram juntos uma semana numa vila à beira-mar. Foram dias de pura felicidade; Alexandre superou-se, encheu Tatiana de flores, ternuras e declarações sentidas.

No último dia, foram cedo à praia para se despedirem do mar. O sol mal tinha nascido e a praia estava vazia. Alexandre deu-lhe um beijo terno e, num tom melancólico, disse:

Tatiana, amo-te tanto… vou só dar um mergulho antes de irmos.

Tatiana nunca o viu regressar.

Alexandre afogou-se. Nem mesmo o mar calmo permitiu resgatá-lo. Os nadadores-salvadores nada conseguiram fazer.

Tatiana voltou para casa sozinha. Ficou meses em choque. A morte súbita de Alexandre virou tudo do avesso. Porquê ele? Nadava tão bem! Porquê tornar-se viúva aos cinquenta e cinco anos? Porquê não ter dito que o amava também? Percebeu, tarde demais, que Alexandre se despediu naquele beijo… Ficou-lhe uma montanha de perguntas sem resposta.

Tatiana fechou-se no seu mundo. Passou a detestar o mar. Tudo perdeu cor. Nem ao menos tinha uma campa onde pudesse chorar. A alma parecia desfazer-se em mil pedaços. Sentia que respirar era sofrimento. Dizem que o tempo cura. Não é verdade. Só adormece a dor, mas a ausência permanece. Quando a memória remexe fundo, a saudade dói com a mesma força de sempre. Não há esquecimento para quem amamos.

Anos depois, Tatiana caminhava de mão dada com os netos, Catarina e Martim, pelo parque no outono. Tornara-se tradição irem depois ao café. Tatiana comprava gelado para os netos e ficava com uma chávena de café aquele aroma inconfundível que a fazia sonhar com Alexandre ali ao lado, a sorrir-lhe.

Depois de tanta dor, aceitando tudo com serenidade, Tatiana agradecia à vida por Alexandre vinte e cinco anos de felicidade conjugal. A vida pode acabar, mas o amor, esse perdura para além do tempo.

No fim, Tatiana compreendeu: o coração volta sempre a bater, mesmo quando pensamos que não conseguimos recomeçar. E nunca devemos hesitar em dizer amo-te às pessoas que mais importam.

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