Vou Viver Melhor do que Vocês

Vou viver melhor que vocês

Como é que conseguem viver numa casa assim, neste aperto? Mafalda franziu o nariz de desagrado. Vejam, em vinte anos nem sequer pintaram as paredes! E ainda têm coragem de me ensinar a viver!

Dona Leonor suspirou, curvando os ombros cansados. O senhor Augusto, calado, levou a chávena aos lábios sem olhar para a filha. Mafalda, de rosto afogueado pela zanga, esperava uma reação dos pais. Mas eles permaneciam em silêncio, um silêncio que lhe era ainda mais insuportável do que qualquer reprimenda.

O André é um homem bom, insistiu Mafalda. Vocês é que não percebem nada da vida!

Dona Leonor levantou os olhos tristes para a filha.

Mafaldinha, nós não temos nada contra o André, disse ela, abanando a cabeça. Queríamos só que terminasses os estudos, que tivesses alguma estabilidade.

Estabilidade? Mafalda arregalou os olhos. Acham que quero ser como vocês? Vinte anos no mesmo apartamento sem mudar uma lâmpada!

Tens apenas dezanove anos, filha disse Dona Leonor, com doçura. É cedo demais para casar.

O senhor Augusto pousou a chávena e finalmente fixou o olhar na filha. Nele não havia censura, apenas uma tristeza profunda.

Depois, constróis a tua vida, filha, não somos contra isso, prosseguiu Dona Leonor, tentando apaziguar. Só queremos que tudo corra pelo melhor, com tempo e calma.

Vocês só querem estragar a minha felicidade! Mafalda bateu com o pé, como fazia em criança. É só isso!

Deu meia-volta e agarrou a mala no corredor. Dona Leonor levantou-se e avançou dois passos, na ânsia de a travar.

Mafalda, espera, disse a mãe, estendendo a mão.

Mas Mafalda já vestia o casaco às pressas, atrapalhando-se nas mangas de tanta raiva.

Eu e o André vamos ser felizes! gritou, já a sair. Só para vos contrariar!

O senhor Augusto foi apressado atrás da filha, apoiando-se no batente da porta da cozinha.

Filha, tu não entendes começou, mas Mafalda interrompeu.

Eu vou ter dinheiro, vou viver sem preocupações! respondeu, já com a mão na porta. Nada como vocês!

Abriu a porta com força e desapareceu pelo corredor. O último som que ouviu da casa foi o suspiro amargurado da mãe e um baque surdo vindo da cozinha…

Desceu as escadas sem olhar para trás, convencendo-se a cada passo de estar certa do seu caminho…

… Quatro anos depois, Mafalda encontrava-se diante daquela mesma porta de madeira gasta, a tinta a descascar. Na mão direita apertava com força a mão pequenina do Duarte, o filho de três anos, que olhava o desconhecido corredor com curiosidade infantil. A mão esquerda hesitava, suspensa no ar, sem coragem para bater. Os dedos tímidos tremeram sobre a superfície rugosa da porta. Sentiu que não conseguia. Duarte puxou-a pelo braço, pedindo-lhe respostas com o olhar.

Mamã disse o menino, inquieto.

Mafalda olhou para o filho, depois para a mala gasta a seus pés, a rodinha partida e a esperança ainda mais destroçada. Tudo ali era o que restava daquela vida orgulhosamente prometida. Há quatro anos não via nem falava aos pais, nunca escrevera sequer. Sentia-se acima deles, mais inteligente, mais forte, mais bem sucedida do que aqueles que levavam uma vida singela e honesta. Mas agora ali estava, de rosto lavado em lágrimas e sonhos desfeitos…

Por fim, forçou-se a bater três vezes, o toque incerto e baixo, nada parecido com o estrondo decidido com que partira. Do outro lado, passos soaram célere, como se alguém já a esperasse. O trinco girou. Dona Leonor abriu e arregalou as sobrancelhas, surpresa. Os anos tinham-lhe gravado rugas, o cabelo clareara junto às têmporas.

Reconheceu imediatamente o rosto da filha, com a maquilhagem borrada pelas lágrimas. O olhar demorou-se no menino, encolhido junto à perna da mãe, e na mala desgastada a um canto. Dona Leonor percebeu tudo num instante. Não perguntou nada, não recordou as palavras duras do passado. Apenas cedeu passagem, em silêncio, para que filha e neto entrassem.

Mafalda atravessou o limiar e reparou que pouco mudara: as mesmas paredes, o mesmo roupeiro, o cheiro reconfortante de sempre, que outrora tanto desprezara. Duarte olhava tudo com entusiasmo.

Duarte, vai ver a sala. Mafalda ajoelhou-se. De certeza há ali brinquedos. Vai lá procurar, está bem?

Apontou para a divisão do fundo, e Duarte obedeceu, curioso. Mafalda endireitou-se e olhou a mãe, parada entre a parede e a memória.

Tinha vontade de falar, de se justificar, de se explicar. Mas as palavras não vinham. Só restava a verdade crua e o orgulho ferido. Aproximou-se. Num gesto, atirou-se ao colo da mãe. Os soluços libertaram-se de dentro e sacudiram-lhe o corpo. Chorou como uma criança, perdida no ombro que cheirava ao mesmo detergente de antigamente.

Mãezinha, Mafalda murmurou entre soluços. Perdoa-me.

Dona Leonor abraçou-a, acariciando-lhe as costas como no tempo em que era pequena. Mafalda chorou os sonhos tolos de uma vida vistosa, o casamento desfeito com quem mal conhecia. Chorou o orgulho cego, que disfarçava com desdém.

Tinhas razão, mãe, murmurou com a voz embargada. Tinhas razão em tudo.

Dona Leonor nada respondeu, apenas a apertou com mais força.

Anda, vamos à cozinha, pegou-lhe na mão. Faço já um chá.

Mafalda assentiu, secando as lágrimas. Sentou-se à janela, no velho lugar de sempre. Dona Leonor pôs o jarro a ferver e tirou chávenas do armário. Mafalda olhava para a mãe, pensando em tudo o que perdera nos últimos quatro anos.

E o pai? lembrou-se subitamente.
Está a trabalhar, respondeu a mãe. Chega já.

Mafalda engoliu em seco, sem saber o que fazer aos dedos.

Disse-vos palavras horríveis naquele dia. Sobre a pobreza, sobre a falta de obras

Dona Leonor sentou-se à frente, cobrindo-lhe a mão com a sua.

O importante é que voltaste, esboçou um sorriso. O resto não interessa.

Ele traiu-me, mãe, Mafalda chorou novamente. Trocou-me por outra e pôs-me fora de casa.

Dona Leonor afagou-lhe carinhosamente a cabeça, como antigamente.

E eu acreditava nele, mãe Como vou agora acabar o curso? Como faço a minha vida com uma criança?

Dona Leonor envolveu-a nos braços, embalando-a.

Vamos conseguir, minha Mafaldinha. Juntas, conseguimos tudo. Pode demorar, mas conseguimos, vais ver…

…Passaram-se meses desde aquele regresso ao ninho. Os sonhos de luxo desvaneceram-se. Mafalda sentava-se num café simples com as duas amigas. Filipa rodava uma chávena vazia nas mãos, as sobrancelhas franzidas o Pedro abandonara-a com dívidas de cartões.

Os cobradores ligam-me todos os dias, queixava-se Filipa. E ele já vive noutra cidade.

Mafalda assentia, olhando para Madalena, que criava sozinha a filha porque o namorado nunca quisera assumir compromissos.

O meu, ao menos, não me deixou dívidas, Madalena forçou um sorriso amargo. Só fugiu da responsabilidade, disse-me que não estava pronto.
O meu dizia estar pronto, Mafalda riu-se, sem alegria. Mas afinal era só para outra mulher.

Filipa revirou os olhos, partilhando a ironia da situação.

Que tolas fomos, suspirou, encostando-se à cadeira. Pensávamos que tínhamos encontrado príncipes.
E saíram-nos palhaços, completou Madalena.

As três riram-se da desgraça, naquela mesa modesta.

Pronto, chega de lamúrias, Filipa bateu a mão na mesa. Vamos pedir uma sobremesa ao menos.

Mafalda esboçou um sorriso e acenou ao empregado, contente por aquele pequeno momento de alívio.

Ao final da tarde, Mafalda voltava a casa, pelas ruas silenciosas do bairro. Abriu a porta devagar, espreitando o ambiente. Das traseiras vinha o riso do Duarte, e o som dos pais.

Caminhou pelo corredor e deparou-se à entrada da sala. O senhor Augusto, de joelhos no chão, erguia uma torre de blocos de madeira. Duarte aplaudia cada vez que a torre crescia. Dona Leonor, sentada na velha poltrona, sorria-lhes com os novelos de lã no colo.

Mafalda ficou ali, a olhar. Lembrou-se do desprezo que sentia por aquele apartamento e por aquelas alegrias modestas. Lembrou-se da porta batida, convencida da sua superioridade.

Mas agora via com outros olhos. Dona Leonor e o senhor Augusto estavam juntos há trinta anos, sobrevivendo a tudo: dívidas, doenças, despedimentos, perdas. Tinham uma casa própria, pequena mas sua. Tinham trabalho, tinham sempre teto e comida para a família.

Nunca tinham ido a hotéis de luxo, nem compravam roupas de marca, nem mudavam de carro de dois em dois anos. Eram uma família verdadeira estavam juntos, acontecesse o que acontecesse.

E Mafalda, afinal, estava sozinha com o filho, de coração partido. O orgulho ainda lhe soprava ao ouvido que tudo ia mudar, que havia de conseguir. Mas agora já reconhecia a dura verdade sobre si própria.

A falhada não era a mãe, com a casa simples. Não era o pai, com o casaco velho e o trabalho honesto. A falhada era Mafalda, que perseguira sonhos vazios e deitara tudo a perder.

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