Eu e o Olegário vivemos juntos doze anos. Durante esse tempo, nunca chegámos a ter um crédito à habitação, mas tivemos um carro, ambos tínhamos empregos estáveis e um filho no quinto ano. Para quem olhava de fora, parecíamos a família perfeita organizada, resistente, sem grandes discussões ou dramas. Eu acreditava mesmo que a felicidade de um casal se baseava nas pequenas coisas: um jantar quente após o trabalho, camisas bem passadas, tudo arrumado nos armários e visitas obrigatórias aos pais dele ao fim de semana. Parecia-me que ser o suporte de retaguarda era o verdadeiro papel de uma esposa. Mas fui percebendo que o Olegário tinha uma visão bem diferente do que lhe fazia falta.
Nesse fim de tarde, ele chegou a casa estranho, irrequieto. Recusou-se a jantar, andava de um lado para o outro pela casa, mudando tralhas de sítio, como quem não encontrava lugar para si. De repente, sentou-se à minha frente. Evitou o meu olhar e disse:
Mafalda, sinto-me cansado. Casa, trabalho, os trabalhos do nosso filho, os teus telenovelas à noite. É tudo igual. Tenho trinta e nove anos e já pareço um velho.
Eu fiquei ali parado, ainda com o pano da cozinha nas mãos.
O que queres dizer? Há alguma coisa que não gostes?
Não é bem isso Gosto da previsibilidade, mas sinto-me apertado. Quero emoção, quero silêncio, quero perceber quem sou fora disto tudo. Preciso de viver sozinho algum tempo.
Queres divorciar-te? perguntei, em voz baixa.
Não, Mafalda Não é um divórcio. Só preciso de uma pausa. Vou ficar no apartamento do Vítor um mês (um amigo dele que está em trabalho fora). Preciso respirar, fazer as minhas coisas. Levantar-me quando quero, comer uns rissóis, jogar PlayStation até tarde. Só peço que não faças drama nem pressões. Se começares a chatear, aí sim, saio de vez.
No dia seguinte, ele arrumou uma mala com o essencial e foi-se embora. Quando saiu, deu-me um beijo na cara, quase mecânico, e prometeu vir ver o filho ao fim de semana. Para mim, a primeira semana foi só ansiedade. Chorava à noite, repetia mil vezes a nossa última conversa, só via defeitos em mim. Achava que estava aborrecida, que tinha engordado, que já não tinha encanto. Esperava pelas chamadas dele como se fossem salvação. E ele ligava, raramente. Mas nessas vezes, parecia até bem-disposto, animado. Contava como foi ao café com amigos, como dormiu até tarde no sábado.
Então vá, Mafalda, tudo a correr dizia-me daquela forma condescendente. Cuida de ti. Ainda não decidi se volto, preciso de tempo.
No início da segunda semana, comecei a notar diferenças. O cesto da roupa suja já não enchia desalmadamente. Antes, eu punha máquinas a lavar quase todos os dias. Olegário trocava de roupa mil vezes. Agora, a máquina descansava. Comida no frigorífico não desaparecia num instante. Uma panela de sopa dava para mim e o miúdo três dias inteiros. Já não passava o serão em pé a inventar jantar. Lá em casa, tudo começou a estar mais limpo, nada de meias espalhadas, migalhas no sofá, televisão aos gritos. À noite, depois de deitar o nosso filho, fazia um chá e via um filme meu, em sossego. Sem resmungos, sem cobranças, sem comentários sarcásticos sobre o meu cabelo.
Quando chegou a terceira semana, achei estranho, mas já não sentia falta dele. Zero. Pior pensar nele a voltar deixava-me inquieto. Imaginava o fim da pausa, ele a regressar e a casa a ficar de novo cheia dos seus comentários, exigências, falas sobre o tal dia da marmota, que na verdade ele próprio criava porque não mexia uma palha para mudar nada. Percebi então que o cansaço dele não era culpa do nosso casamento. Era vazio lá dentro dele, que eu tentei tapar anos a fio com cuidado, conforto e rotinas. Quando parei de me esforçar tanto, respirei de alívio.
Nessa sexta-feira à noite, ele ligou.
Olá, Malu! ouvi animado. Estava a pensar Se calhar, este fim de semana passo por aí. Deu-me vontade daquele teu cozido à portuguesa. Depois volto para o Vítor, ainda preciso de pensar melhor.
Ou seja, queria transformar-me na solução de recurso. Se lhe apetecesse, via cá comer comida caseira, sentir-se mimado. Se não, voltava a desaparecer. Vida de solteiro, mas mantendo as portas abertas.
Não, Olegário respondi calma. Não venhas.
Como assim?!
Assim mesmo. Já decidi.
No sábado, acordei cedo. Peguei nos sacos grandes axadrezados e comecei a arrumar-lhe tudo. Casacos de inverno, botas, ferramentas, canas de pesca, a tal caneca que adorava ficou tudo a jeito. Sem choro, sem raiva, fiz tudo devagar, metódico. Chamei um táxi de mercadorias, mandei tudo para o apartamento do Vítor. Quando o motorista me avisou que já estava entregue, enviei-lhe só uma mensagem:
Olegário, tu querias viver sozinho e sentir-te livre. Respeito o teu desejo. As tuas coisas estão à tua espera à porta da nova casa. Não é preciso voltares, nem agora nem nunca mais. Descobri que gosto bem de viver assim. Adeus.
Depois disso, esteve uma semana a ligar-me sem parar. Esperou à minha porta, tentou querer falar, jurou que eu entendi tudo mal, que era só um teste, uma brincadeira. Nunca lhe abri a porta. Já percebi o que é viver sem chantagem emocional com calma, liberdade e sem ter de andar atrás das vontades de um adulto inseguro. Não me via a voltar à versão dócil de esposa disponível.
A saída dramática, o vou pensar, não era busca interior era truque para me pressionar. Uma forma de se valorizar, de me fazer ter medo de perder para aceitar tudo sem queixas. Ele achava mesmo que eu ia esperar, angustiar-me, implorar pelo regresso. Esqueceu-se foi do principal: o dia-a-dia de que se queixava estava praticamente todo nas minhas mãos. Ausentando-se, não partiu a minha vida pelo contrário, libertou-me.
Recusei a indefinição e não aceitei ser solução temporária. Ao arrumar-lhe as coisas, fiz da pausa uma decisão final. Um casamento não é um hotel, para entrar e sair conforme apetece. Tomei a iniciativa e acabei com aquilo de cabeça erguida, sem gritos ou humilhações.
E vocês? O que fariam se o vosso companheiro sugerisse morar em casas separadas só para descobrir os sentimentos? Esperavam ou diziam logo adeus?







