Olha, tenho de te contar o que fiz à minha sogra no Dia da Mulher, foi mesmo à tuga!
Ó Rita, isto não pode ser! Isto de, logo no início do nosso casamento, a tua mãe já andar a aparecer cá em casa como se fosse dela, imagina quando tivermos filhos! Ela ainda vai montar acampamento na nossa sala!
Ela não nos vai dar descanso! Já estava eu a refilar, depois de a Rita me dizer que a mãe não pensa abrandar com as visitas inopinadas.
Pronto, olha, se a Dona Vitória não percebe com palavras, amanhã trato de chamar um serralheiro e mudo as fechaduras! atirei num tom meio a sério, meio a brincar.
Ó Chico, a minha mãe não é pessoa qualquer para mim, sabes disso Por muito que mudes as fechaduras, mais tarde ou mais cedo ela vai arranjar maneira de ter outra chave. Vais andar sempre a trocar o canhão da porta?! E ainda por cima ficas com ela chateada, não se faz isso! Temos de encontrar uma maneira de ela perceber, sem dramas, que não pode continuar assim! Rita tentava pôr água na fervura.
Rita, se a tua mãe não percebe nem quando lhe falo nem quando finjo que estou a dormir e gesticulo, só medidas radicais mesmo! disse eu, já com aquele ar decidido.
Que estás tu a tramar? Rita arregalou os olhos.
Diz-me uma coisa, se a Dona Vitória tem a chave de nossa casa, tu também não terás a chave da casa dos teus pais, certo? perguntei-lhe já de sorriso maroto nos lábios.
Ora bem, o senhor Américo e Dona Vitória acordaram cedo num sábado para ir à feira municipal. A Feira das Flores do 8 de Março é um clássico aqui na vila, e ali apanha-se queijos e legumes dos produtores da zona por preços bem mais simpáticos do que no Pingo Doce.
Os reformados não achavam trabalho nenhum levantar-se às sete para poupar uns euros nos ovos ou apanhar uma posta de vitela mesmo boa.
Ah, Américo, apanhámos uma carne mesmo tenrinha! E o peixe, viste? Ainda agora estão a espernear dentro do saco! Hoje frito um para nós, o outro levo à Rita ela que frite para o Chico ao jantar. Já estou a ver a cara do nosso genro, quando o Zé Carpas começar a pular na bancada da cozinha! ria-se Dona Vitória a imaginar a minha reacção.
Ouve lá, mulher, deixa-os lá viver! Eles querem a sua vida sem o teu nariz em cima de tudo. Já têm trinta anos, dono! E tu sempre a rondar, qual Miss Marple, a investigar onde é que o genro deixou as meias Não tens outra coisa para fazer? tentava o senhor Américo pôr juízo na mulher.
Quando iam a entrar em casa
Espera aí Américo, deixaste o chuveiro ligado na casa de banho?! Estás a ouvir água a correr? Dona Vitória foi directa à casa de banho, sem pensar, abriu a porta e saiu disparada, aos gritos.
Ai, Nossa Senhora! Está ali um homem nu! A banhar-se na minha casa!
Mas quem é esse homem?! Fala direito! senhor Américo hesitava entrar.
O nosso genro, o Chico! O que está ele a fazer aqui?! gritava, já quase a perder as estribeiras.
Então, nada de especial A água cá em casa anda castanha, saí há pouco do turno e estava todo suado. Vim tomar banho aqui, estava mais à mão! disse eu, e saí do banho de roupão como se aquilo fosse rotina.
Dona Vitória, já que é Dia da Mulher, aproveito para lhe fazer um reparo: não é bonito ter a roupa interior toda pendurada pelos radiadores e pelo suporte das toalhas Se ainda fossem coisinhas de rapariga nova, vá que não vá, agora assim?! Não queria estar na pele do senhor Américo! fui dizendo, numa descontração à Chico, enquanto ligava a máquina de café, aquela que lhes demos no Natal.
Mas como é que te atreves?! Isto é minha casa, penduro a roupa onde quero! lá bufava Dona Vitória.
Dona Vitória, oferecemos-lhe a máquina de café há seis meses e já está a pedir reforma. Aquilo está uma miséria, nem as porcas da quinta tratam assim da loiça! arrisquei mais um pedaço de sermão.
Vai com calma, Chico o senhor Américo tentou acalmar os ânimos.
Mas, oh senhor Américo, veja lá a desarrumação desta casa, nem parece gente! Tudo espalhado, um caos como numa garagem velha! continuei, já com vontade de rir.
A senhora, Dona Vitória, devia ir para tropa, que lá aprendia disciplina e limpeza! e lá fui eu circulando pela casa dela, apontando cada senão.
E o frigorífico?! Fui ver, estão aí iogurtes fora de prazo há duas semanas, fiambre aberto… e a manteiga cheia de migalhas! fui direto ao lixo com metade das tralhas do frigorífico.
E aquela tigela de arroz pela metade?! Isso é um atentado! Não sabe a trabalheira que dá depois limpar aquilo? Só porque tem máquina de lavar louça, acha-se uma rainha! ia eu já quase a abrir a máquina, quando Dona Vitória se pôs em frente, de braços abertos.
Ora bem, chega de abusos! Rua da minha casa, ou chamo já a polícia e faço queixa! Não quer saber se és meu genro, vais mesmo apanhar uma multa e bem! Esta é a minha casa, é a minha cozinha, a minha casa de banho e as minhas cuecas, ouviste? Ninguém te deu licença para entrares aqui à vontadinha e ainda por cima me insultares! berrou ela cheia de razão.
O senhor Américo já sacou o filme todo, ri-se baixinho, mas deixa-me acabar à vontade. Dona Vitória, ainda a fumar pela cabeça, não percebia metade do plano.
Pronto, Dona Vitória, era mesmo isso que eu queria provar-lhe. Tudo aquilo que agora me disse, devia pensar se não faz igual connosco! Anda para ali a entrar casa dentro quando não estamos à espera, a dar sermões e inspecções, como se a nossa casa fosse extensão da sua!
E sobre a polícia, não foi a primeira a sugerir. Se tentar outra vez, eu também não me calo, mesmo sendo sua filha ou genro, está percebido? Mas acredito que não vai ser preciso, certo? fui-me vestindo, já a preparar-me para sair.
E já agora, parabéns atrasados e adiantados pelo Dia da Mulher! No balcão deixei-lhe uma garrafa de vinho verde e uns perfumes, e a si, senhor Américo, um garrafão de Aliança velho a Rita disse que são os vossos preferidos! fechei a porta atrás de mim, já com aquele sorriso de quem fez asneira mas ficou tudo no ponto.
A Dona Vitória, ainda passada, abriu logo a garrafa de vinho para acalmar e, vá lá, bebeu um cálice enquanto terminava o café que deixei já feito agora sim, máquina impecável!
Oh Vitória, o Chico é um diplomata! Montou isto com uma subtileza, nem doeu! Até a despedida teve classe o Américo ria-se, apreciando os presentes e a fantástica garrafa de vinho.
Olha, parabéns mais uma vez, mulher! Foste a primeira a ser celebrada hoje: espetáculo de teatro em casa e ainda levaste um presentinho. E mais logo vamos ao teatro ver aquela peça dos Aventuras do Malandro. O teu marido também sabe surpreender! piscou-lhe o olho e mostrou-lhe os bilhetes que guardava na gaveta.
Depois daquele episódio, Dona Vitória só apareceu em casa da Rita e do Chico quando era mesmo preciso sem amuos, sem stresses, mas com muito respeito pelas regras lá da casa. O Chico, por fim, podia dormir descansado, sem se preocupar com a sogra a mexer-lhe nos pares de peúgas enquanto ele roncava em paz.







