Hoje escrevo para não esquecer. Há poucos dias, a minha mãe saiu de casa como fazia sempre. De manhã, enviou-me uma mensagem a perguntar se já tinha tomado o pequeno-almoço. Eu respondi: Sim, mãe, falamos depois e continuei o meu trabalho, sem dar importância ao momento. Não estava doente, não havia hospital, não senti preocupação, não houve despedida. Era só mais um dia comum. Aqueles dias que pensamos que nunca mudam nada.
Às 16 horas, recebi uma chamada de um número desconhecido. Era a vizinha, Dona Fernanda. Disse-me: A tua mãe sofreu um acidente. Perguntei onde ela estava e indicou-me a clínica. Fui imediatamente. Contaram-me que tinha caído na rua, bateu com a cabeça e que não conseguiram fazer nada. Assim, sem dramas, sem palavra final.
Não houve última frase. Não houve abraço. Não houve tempo para dizer fosse o que fosse. Fiquei ali, a olhar para uma parede branca enquanto me explicavam sobre documentos, assinaturas, procedimentos. Liguei ao meu irmão, Pedro, com a voz a tremer, e disse talvez a frase mais difícil da minha vida: A mãe morreu.
Mas o verdadeiro choque não foi na clínica. Foi quando entrei sozinha em casa dela para arrumar as coisas. Abri o guarda-roupa e estavam lá as roupas que ia lavar. As sandálias junto à porta, a carteira pendurada na cadeira, as compras meio arrumadas. Era como se tudo tivesse congelado no minuto em que a vida dela parou.
Peguei numa blusa dela para guardar, e senti o cheiro ao seu sabonete. Fiquei de pé, com a roupa nas mãos, incapaz de me mover. Sentei-me na cama e olhei o chão durante muito tempo. Senti raiva.
Depois vêm as pequenas coisas, as que mais doem: marcar o número dela por hábito e lembrar-me que já não existe, chegar a casa depois do trabalho e ninguém perguntar se cheguei bem, passar junto ao prédio dela e não entrar. Ninguém nos prepara para este silêncio.
Ouvimos sempre: Era chegada a hora, Deus sabe o que faz, Agora descansa em paz. Mas eu não sinto paz. Sinto ausência. Sinto que se foi num dia banal, sem permissão, sem aviso, sem tempo para acalmar o coração.
E o que dói mais é não ter sido uma despedida. Foi só um corte abrupto, seco, sem explicação.







