“Por que a sua mãe pode ficar conosco por uma semana, e a minha não?”, questionou o meu marido.

A minha sogra é imagine a figura super protetora do seu menino. Em todos os dias deste agosto fora do tempo, o meu marido passa pela casa da mãe para almoçar. Recebe mensagens dela a toda a hora: parece que o telemóvel nunca descansa. Qualquer problema, corre para os braços maternos em busca de solução. Se falta dinheiro, vai à mãe pedir uns euros.

Hoje, regresso do trabalho pela rua cheia de azulejos, e encontro a minha sogra na nossa cozinha, já sentada, uma mala velha ao lado cheia de coisas e livros.

Boa noite, Dona Olinda! digo, estranhando. O que faz aqui com essa mala?

Decidi ficar cá esta semana, filha, para te ajudar nas lides da casa, com o miúdo, com o João. No fundo, tens de alimentar bem o marido. E não tens tempo para tudo, pois não? Trabalhas de manhã à noite! responde ela, como se fosse tudo natural.

Claro, Dona Olinda é daquelas mulheres de pulso firme e voz grave, mistura de mãe galinha e agente secreto que tudo vê. Não discuti com ela, nem tentei explicar fui ter com o João. Ao ouvir-me, João quase deixa cair a chávena de café!

Então, espera lá… A tua mãe nunca veio ficar connosco sem perguntar, e a minha chega, instala-se e ainda diz que tu não sabes mandar na casa?

A mim não me incomoda. Que ela fique responde ele, encolhendo os ombros, como quem nada sente. Porque a tua mãe não pode vir cá uma semana, e a minha pode? Achas que a tua mãe vale menos? Quando ela esteve cá uns dias, reclamei por acaso? pergunta, sem notar o absurdo da situação.

João… A minha mãe mora em Braga, só vem uma vez ao ano! A tua está aqui ao virar da esquina, aparece quase todos os dias! Eu não vou mandá-la para um hostel! respondo, já algo desesperada.

Não suporto imaginar Dona Olinda remexendo nas gavetas, mexendo nas nossas coisas nos meus sonhos estranhos de noite, como se ela tivesse poderes mágicos de abrir armários sem chave. Sinto que ela vai mexer onde não deve, como em sonhos em que as casas têm corredores que não conheço.

O João cresceu com esta vigilância de mãe, não se incomoda já tem cabelos brancos mas a Olinda continua a saltar de casa em casa, trazendo sopa quente, limpando-lhe o nariz, como se nunca deixasse de ser criança. Discutimos isto vezes sem conta e no fundo, o que me incomoda é ele nunca se desligar verdadeiramente dela. Ela ressente-se se eu não cuido do filho dela com perfeição! Por isso, enche-me de conselhos sobre como viver, sobre o que cozinhar, sobre cuidados maternais, como se eu fosse sempre principiante.

Quando nos casámos, Dona Olinda vinha cá todos os dias, lavava as meias do João e esperava, sentada, por nós com o jantar feito. Chegou um tempo em que já não suportava isso. Falei com o João, ele tentou por travão: reduziu as visitas dela para duas ou três vezes por semana. Mal nasceu o nosso menino, ela regressou ao ritmo de antes.

Agora, sentada à mesa a beber um café forte, decido em silêncio: se Dona Olinda continuar a comandar a casa, vou arrendar um apartamento só para mim e o miúdo, mudar-me sozinha, ir viver noutra avenida cheia de plátanos. Contei isto ao João, que olhou para mim magoado como se eu fosse estrangeira aqui.

A minha mãe só quer ajudar! diz ele, ofendido.

E achas que eu preciso da ajuda dela?

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“Por que a sua mãe pode ficar conosco por uma semana, e a minha não?”, questionou o meu marido.
Vais sair daqui tal como entraste! – Disse o marido. Mas a sua autoconfiança acabou por se virar contra ele