Gracinha

Maçazinha

Havia um pai com três filhas. Duas eram formosas, de tal beleza que quem as via ficava boquiaberto, mas a terceira pequenina, magrinha, com a costa encurvada. Só os seus olhos enormes brilhavam no rosto. No campo não dava jeito para trabalhar, e em casa não conseguia acompanhar as irmãs mais velhas sempre se cansava.

As mais velhas Margarida e Beatriz tinham pretendentes e mais pretendentes batendo à porta, os rapazes enchiam a rua de trás a querer cortejá-las, mas à mais nova, Maçazinha, ninguém sequer lançava um olhar. As irmãs diziam:

Enquanto não arranjarmos um casamento para a Maçazinha, nós também não casamos!

O tempo passava e ninguém pedia Maçazinha em casamento. As irmãs vestiam-na, punham-lhe rouge nas faces, mas nada resultava. As amigas já gozavam:

Ainda andam a arranjar casamento para a Maça? Olhem que ainda acabam solteironas vocês também!

Maçazinha ouvia aquilo tudo e o coração ficava-lhe apertado, mas não por ela pelas irmãs. Então pensou consigo:

Não quero mais ser peso na vida delas! Melhor ir-me embora. Assim podem casar em paz. Vou para Lisboa, talvez encontre trabalho lá como criada.

Esperou a casa adormecer, preparou um saquinho com pão e um lenço para a cabeça, e escapuliu-se no silêncio da noite.

Caminhou Maçazinha toda a noite, numa paisagem sem parecida, banhada ao luar. Avançava pela estrada berrante e não sentia medo. Ao chegar ao pinhal, estranhou: e se aparece um javali? Mas continuou mesmo assim, pelos carreiros do bosque.

Começava o mundo a clarear. Maçazinha cansou-se: ainda faltava muito para Lisboa. Ao passar junto de um arbusto de avelã, encostou-se, pôs o saco debaixo da cabeça, cobriu-se com o lenço e adormeceu. Não se sabe quanto tempo dormiu, mas acordou com um barulho: tac, tac, tac, como um machado a bater. Maçazinha sentou-se, ouviu melhor, e ali ao lado tchac! uma árvore velha caiu pesadamente. Maçazinha assustou-se, quis fugir, mas viu um velhote a aproximar-se. Era baixo, robusto e de barba tão branca quanto o sal. Segurava um machado.

Maçazinha ficou ainda mais assustada, mas o velho falou:

Não tenhas medo, netinha, mal nenhum te faço.

E o senhor é quem, avô? Quase me acertou com a árvore!

Sou o guarda-florestal disse o velhote. Vivo aqui perto. Vim cortar esta árvore. E tu, que fazes sozinha na mata?

Maçazinha contou-lhe tudo. O velho coçou a barba, pensou, e disse:

És boa rapariga, vejo bondade nesses olhos. Se quiseres, fica a viver comigo na cabana. Faço-te minha neta. E se mudares de ideias, levo-te eu até Lisboa.

Maçazinha aceitou e ficou na cabana do guarda-florestal, e passaram a viver juntos. O velho trabalhava na floresta e Maçazinha tratava da casa, coisa pouca e fácil.

Era homem bondoso, bem-disposto, cheio de histórias fantásticas, contadas de maneira tão viva que ela se perdia nos sonhos das palavras. Foi mostrando-lhe as ervas, os cogumelos, as raízes, e ensinou-lhe como colhê-los, como curar maleitas, como preparar chá para todos os males, e nunca escondeu segredo algum.

Veio o tempo da despedida. O velho sabia que a morte estava perto. Maçazinha chorou, mas ele disse-lhe:

Não chores, netinha, tudo tem o seu tempo. Quando eu for, enterra-me e volta para casa. Ensinei-te tudo que sabia. Eu vivi para servir o bosque, tu viverás para ajudar as pessoas.

O velho faleceu, Maçazinha chorou, enterrou-o, e pôs a manta ao ombro para regresso à aldeia.

Ao chegar, encontrou as irmãs já casadas, ambas com dois irmãos gémeos, moravam todos no maior casarão da aldeia. Quando viram Maçazinha bem viva, uma alegria tomou conta da casa! Deram-lhe um quartinho de luz, e ela viveu com eles, auxiliando as irmãs em tudo.

Sabia agora sobre a terra, como curar doenças, eliminar pragas, e curar a tosse do gado tudo aprendizagens do velho da floresta! O campo dava colheita triplicada, as vacas engordavam belas, e ninguém adoecia numa casa que era só felicidade.

Rapidamente a fama se espalhou, e toda a vila vinha buscar conselho junto de Maçazinha. Ajudava a todos, nunca pedia dinheiro em escudos quem queria dava-lhe ovos, um lenço, uma maçã; quem nada tinha, só recebia um sorriso.

Na mesma aldeia vivia ainda a velha TiMística, rezadeira. Era mulher de feitiços e rezas, mas temida por todos, trazia dentro dela força escura. Quando Maçazinha começou a servir o povo, todos acorriam a ela e a casa da velha TiMística ficava esquecida. Ficou ciumenta a feiticeira, matutou como haveria de tramar.

Foi bater à porta um dia:

Boa tarde, Gracinda Maria, filha querida!

Muito boa tarde, avó! respondeu Maçazinha sorridente.

Eu venho pedir-te ajuda, meu bem. Estas minhas mãos doem tanto, já nem mexer consigo

Sente-se aqui, avó, que eu vejo isso.

Maçazinha apalpou-lhe as mãos.

Tem a certeza, avó? Será essa mesmo a mão dorida? Deixe-me ver a outra.

É esta, sim, menina! Que dor, nem comer posso!

Maçazinha abanou a cabeça:

Nestas mãos não vejo mal nenhum, avó.

Então como não? gritou ela, Vê só, estão todas trôpegas!

Maçazinha estranhou, mas não mudou o que via:

Como queira, avó, mas não lhe encontro dor nessas mãos.

Então pronto, não dói, não dói. Pelos vistos já me aliviei só de falar consigo! Obrigada, Gracinda Maria, tens bom coração. Toma lá este espelhinho de presente. És rapariga, deves gostar de te ver nele!

Obrigada, avó, que tudo o que diz seja de bondade! Palavra carinhosa tem mais força que a amarga.

Mas a TiMística, deitando feitiços ao espelho, embruxou-o antes de o dar!..

O tempo passou, e pareceu desaparecer a corcunda da Maçazinha. As pessoas olhavam para ela e pensavam: endireitou-se, deixou quase de coxear. Olhava-se no espelho da velha e sorria. A feiticeira, vendo que nada resultara, voltou à carga: agora queixava-se das costas.

Maçazinha preparou-lhe ervas, ensinou o uso, e TiMística trouxe outro presente um pente de osso.

A beleza de uma moça precisa de mimo dizia e tu tens cara prendada, tens de cuidar de ti!

Maçazinha aceitou o pente.

Muito obrigada, avó, generosa é a senhora! Que tudo o que me deseja seja dobrado para si.

O tempo correu, e Maçazinha estava cada vez mais bonita, com a face rosada, a trança espessa, todo o corpo repleto de saúde e alegria. A velha TiMística secou as mãos dela mirraram como ramos secos, as pernas não lhe obedeciam. Ficou de cama, chamava por Maçazinha.

Margarida e Beatriz tentaram impedir a irmã:

Não vás, irmã, a velha é bruxa, naquela casa só coisas estranhas se passam!

Não se preocupem respondeu Maçazinha. A manhã é sempre mais sábia do que a noite.

Na madrugada seguinte, Maçazinha lavou-se em água pura, vestiu roupas novas, e preparou uma cesta: mel silvestre, maçãs do pomar, e ervas aromáticas.

Margarida e Beatriz ao vê-la exclamaram:

Estás uma autêntica donzela, irmã! Ou é o vestido novo, ou então é milagre, mas não és a mesma.

Maçazinha foi até à casa da feiticeira. Mal tentou abrir o portão, este bateu-se à frente dela, impossível de mover.

Avó, abre, não consigo entrar! gritou ela.

Dentro da casa ouvia-se um rumor estranho, panelas a tilintar no forno, ecos de vozes estranhas:

Não abram! Ela here não entra! Os maus feitiços não pegam nesta alma pura, maldição não lhe chega, todas as doenças fogem dela, palavra amarga vira doce entre os seus lábios!

Maçazinha bateu de novo:

Avó querida! Estará tudo bem? Venho para ver de ti, mas não me deixam entrar.

Nada. Lá dentro ouviam-se vozes que zurravam como burros, ladravam como cães, mugiam como vacas. O forno tilintava tanto que parecia a casa prestes a ruir.

O povo saiu à rua nunca tinham visto tamanha confusão: a casa de TiMística tremia, rodopiava! Maçazinha bateu à terceira vez:

Responde-me, avó! Trouxe-te mel silvestre, maçã do pomar, ervas aromáticas.

Ela colocou a cesta por cima do portão, e logo da chaminé saiu um fumo tão negro quanto carvão, corvos saltaram das janelas, a casa ficou queimada como tronco depois de incêndio. O povo ficou em pânico, correram com baldes dágua, partiram a vedação, pensando que tudo arderia.

Mas então o sol tocou a terra com o primeiro raio, o fumo desapareceu. Onde fora a casa da feiticeira, restava só um montinho de carvão. Desaparecera tudo, sem lume e sem fogo.

A própria maldade da TiMística a devorou! murmuraram uns. Quis fazer mal à Maçazinha, mas com esta alma limpa, até os feitiços se tornam bênçãos. Voltou-se tudo contra a velha!

Maçazinha, desde esse dia, tornou-se ainda mais formosa, quase impossível de reconhecer. Logo surgiu um pretendente, rapaz da própria aldeia. Casaram-se felizes, nunca houve discórdia entre eles. Margarida e Beatriz rejubilaram pela irmã!

No lugar onde foi deixada a cesta de Maçazinha, rebentou uma moita de framboesas tão grandes e aromáticas que até o nome da aldeia mudou: passaram todos a chamar-lhe Framboeiral. Toda a aldeia colhia as bagas, sem mais medo, e diz-se que nunca mais faltaram frutos nem alegria naquele lugar.

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A Julinha Diferente