Epá, deixa-me contar-te uma história que parece tirada de um desses jantares longos de família.
Olha, o Ricardo já andava farto de noitadas com os amigos, de engates passageiros, dessas conversas pelo Tinder que só levam a encontros que nunca vão a lado nenhum.
Um dia, cruzou-se com a Joana uma miúda simples, com aquele riso fácil e umas respostas inteligentes, nada convencida.
Ele pensou logo: É isto. Foram juntos beber um café numa esplanada da Baixa, houve música de rua ao fundo, conversaram sobre o trabalho dele na área financeira, sobre a paixão dela por poesia contemporânea, e descobriram, a rir, que os dois adoram salada russa, mas com maçã, como as avós faziam.
Sentiram assim um clique qualquer, sabes?
Marcaram logo um jantar em casa dela, no Campo de Ourique.
A Joana convidou-o e ele preparou-se como se fosse ir pedir emprego barbearia, camisa engomada, a tentar decorar uns versos do Eugénio de Andrade, flores acabadas de comprar e uma garrafa de vinho do Dão na mão.
Foi a caminho com aquele nervosismo bom, a pensar no que ia acontecer.
Achava que estava tudo sob controlo, como aqueles gatos com mania que todos os tupperwares são para eles.
Chegou ao prédio, tocou à campainha, imaginou logo o prato a fumegar na mesa, mas, de repente, abre-lhe a porta um miúdo enorme, com ar de adolescente mas já quase a fazer sombra à mãe.
Olá, sou o Tomás disse o miúdo, segurando-lhe a mão com aquela força de quem tem mãos maiores que a cabeça do Ricardo.
A minha mãe está no duche.
Anda, entra!
O Ricardo ficou parado à porta, a tentar perceber se se tinha enganado no apartamento, mas do modo como o Tomás espirrou (segurando o nariz de uma maneira tão típica da Joana!), percebeu logo que estava no sítio certo.
O entusiasmo dele foi por água abaixo, a garrafa parecia mais pesada e as flores perderam logo o viço.
Entrou para casa, reparou logo nos ténis gigantes do Tomás ao lado das próprias botas, e pensou: Isto não é um filho, é praticamente um adulto já. A Joana, quando finalmente apareceu vinda do duche (já vestida num vestido bonito e maquilhada, cheia de luz), percebeu logo pelo ar do Ricardo que alguma coisa tinha mudado.
Serviu jantar, sem grandes falas, pôs vinho nos dois copos, comeu em silêncio e ele quase não sabia o que dizer.
Porque nunca disseste que tinhas um filho?
perguntou-lhe o Ricardo, meio engasgado.
O quê, assustado por ter bagagem?
respondeu-lhe a Joana, com um sorriso mais triste do que brincalhão.
Bagagem?
O teu filho é um camião TIR tentou brincar o Ricardo.
E ainda por cima puxou ao pai.
Esse era de Trás-os-Montes, pensa lá tu, ainda mais alto do que o Tomás, caçava javalis com as mãos, dizia.
Agora anda por aí em digressão com um urso para circos europeus ou lá o que é.
Ainda lhe escreves?
atirou o Ricardo, aflito.
Às vezes manda postais, mas nem se percebe a letra.
Acho sempre que é o urso que escreve, acredita.
Falou-lhe de como o Tomás tinha acabado de fazer catorze anos e ido buscar o Cartão de Cidadão, sem usar a força, vá lá. Riram-se de nervos, e o jantar seguiu calado, cada um a mastigar as suas próprias dúvidas.
Ricardo lá pediu mais carne.
Isto é javali?
perguntou, surpreso.
Naw, é veado, mas foi o Tomás que fez.
O miúdo adora cozinhar e herdou a mania do pai: uma coleção de facas, uns livros velhos de receitas, até uma cana de pesca e um barco que está no fundo do prédio, só mesmo à portuguesa.
O telemóvel da Joana vibrou; ela foi atender, e ele sentiu que era melhor ir-se embora dali.
Mas antes disso ainda teve de ficar com o Tomás, porque a mãe teve de ir ao escritório de urgência.
Ficasse lá o Ricardo, que ela agradecia e até pagava o serão e uns trocos pela babysitting.
Ele ficou sem jeito, mas aceitou.
Passou as horas a comer restos de carne e a secar a bateria do telefone, até que curioso foi bater ao quarto do Tomás.
E o que encontra?
Uma maquete gigante de comboios elétricos a atravessar a carpete, as paredes forradas com dardos e alvos, um gira-discos a tocar baixinho Xutos & Pontapés.
O Tomás, encolhido num canto, a arranjar apetrechos de pesca.
Belíssima vida tens aqui, comentou o Ricardo, só meio a brincar.
Trabalho no verão, pago quase tudo eu, respondeu-lhe o miúdo, e o Ricardo quase ficou envergonhado, a pensar que a Joana devia andar às voltas para o sustentar e afinal o miúdo já era mais independente do que muita gente crescida.
Ainda lhe perguntou onde estava o carregador, ao que o Tomás respondeu sem olhar para ele: Está ali ao pé da linha férrea. E era mesmo: um circuito eletrificado de comboios, construído peça a peça.
O Ricardo, deliciado, pediu se podia pôr os comboios a dar uma volta.
O Tomás montou o circuito, e passaram nisto horas.
Quando a Joana voltou, já passava das dez.
Encontrou-os aos dois colados à linha dos comboios, difíceis de distinguir quem era o miúdo.
Ela mandou-o embora com um beijo rápido na cara e ainda lhe quis dar vinte euros.
De mulheres não aceito dinheiro, disse ele, armado em macho, e saiu.
Uns dias depois o Ricardo já estava a ligar para ela.
Olha, posso passar aí para ver o Tomás?
Comprei um novo jogo para a Xbox dele.
Não te preocupes, só para estar com ele, já percebi que estás ocupada.
Ela, incrédula, disse-lhe para falar com o miúdo que já tinha aceite , e nesse serão o Ricardo apareceu de t-shirt dos Ornatos Violeta, mochila às costas com batatas fritas, pronto para passar o serão na conversa sobre cinema e música.
A Joana a meio já revirava os olhos: É para verem filmes até de madrugada, ou saírem à pesca, podem-se divertir.
Dali em diante nem pararam: pescaram juntos em Sintra, foram de bicicleta pelo Guincho, fizeram cerveja artesanal numa garrafa guardada do avô do Tomás e até arranjaram coragem para que o Ricardo desse umas dicas para o Tomás convidar a Inês da turma de Ciências para sair.
Entretanto, a vida da Joana continuava um frenesim trabalho, reuniões, nunca tempo para romances.
Um dia, quando tudo parecia tranquilo e a rotina estabelecida, ouvem uma batida brutal à porta.
A Joana abre: cheirava a javali assado, e lá estava o ex-marido dela à porta.
Um armário de homem, ajoelhado, a pedir-lhe para largar tudo e irem juntos para uma terrinha lá em Trás-os-Montes: Vem viver comigo, deixas o trabalho, pescamos com o nosso filho, faço-te feliz.
Até o urso ficou em Lisboa. dizia o homem.
Ela respondeu: Agora lembras-te?
Passados anos?
E o urso, também quer família?
Mal acaba a frase, o Ricardo aparece no corredor, de t-shirt dela toda suja: Desculpa, Joana, tive de te roubar a t-shirt, a minha foi-se com a tinta dos comboios… O ex-marido ficou a olhar de cima para baixo, pronto para atirar um murro, mas pronto mal sabia ele.
Nisto, sai o Tomás do quarto e, com movimentos treinados, imobiliza o pai junto à parede.
Olha, este é o novo reboque.
Anda cá ajudar com tudo o que nos deixaste para trás!
atirou, meio a sorrir, meio com raiva.
Mas eu não deixei nada! o ex, já perdido.
O Ricardo e a Joana, encostados à parede, só viam o filme a desenrolar-se.
No fim, lá os acalmaram.
O ex quis ir no dia seguinte caçar com o Tomás, tentar recuperar o tempo perdido.
O Ricardo, claro, percebeu logo o recado e despediu-se.
No fim do dia seguinte, o Tomás voltou sozinho.
A mãe ficou logo sem fôlego:
Então?
E o teu pai?
Foi-se embora.
Levou o javali, meteu-o na carrinha.
Vai treinar o bicho para os circos.
Deixou-me em casa e seguiu.
A Joana estava entre o irritada e aliviada, e foi logo pegar no telefone para ligar ao Ricardo.
Não é preciso, mãe.
Já falei com ele respondeu-lhe o Tomás, com um sorriso maroto.
Ele prometeu voltar amanhã.
Disse que agora está preso a nós e duvida que algum dia consiga soltar-se.
E pronto, olha, foi assim que o Ricardo, sem dar por isso, acabou por ser o melhor reboque que podiam ter encontrado.






