Queres Livrar-te de Mim? — Uma Tarde Chuvosa em Lisboa, Um Presente Não Apreciado e a Coragem de Diz…

Queres livrar-te de mim

O que é isso que tens vestido? Maria Eduarda lançou um olhar crítico de cima a baixo na filha, detendo-se na saia. Isso é escandalosamente curto. Já tens idade para deixar de te vestir como uma miúda.

Leonor puxou distraidamente o tecido, apesar de a saia quase ir até aos joelhos. Era apenas uma saia lápis, comprada na última promoção da Zara. Achara-a um achado: corte clássico, cor sóbria.

Mãe, é completamente normal Leonor esforçou-se para que a voz não soasse azeda. Vou trabalhar assim todos os dias.

Pois, é isso mesmo. As pessoas olham e pensam logo o pior. Nos meus tempos

Leonor nem deixou a mãe acabar. Já ouvira aquela ladainha vezes sem conta sobre modéstia, sobre no nosso tempo, sobre como deve parecer uma senhora decente. Em vez de responder, pousou no tampo da mesa um envelope espesso, com o logótipo de uma agência de viagens.

É para ti, mãe

Maria Eduarda calou-se a meio da frase. Olhou para o envelope, para a filha, e de novo para o envelope.

Que tramas é esta outra vez?
Abre, vá.

Leonor esperara por aquele momento durante meio ano. Guardara cada cêntimo abdicando dos cafés, de sapatos novos, das escapadelas com amigas. Tudo para realizar o desejo da mãe: aquele célebre balneário termal no Gerês, de colunas imponentes e águas milagrosas. Leonor tratara de tudo: reserva do melhor quarto, pensão completa, todos os detalhes pensados.

Maria Eduarda retirou o bilhete da viagem e leu-o rapidamente. Leonor aguardava, se não um abraço, ao menos um obrigada, um olhar terno. Mas a mãe fez cara de poucos amigos e afastou o envelope com a ponta dos dedos, como se estivesse sujo.

Andas sempre a decidir tudo por mim.

Faltou o ar a Leonor.

Mãe, é para o Gerês. Sempre disseste que querias
Quem vai regar as minhas violetas? Pensaste nisso? Três semanas ausente, secam todas.
Eu vou lá todos os dias, prometo.
Trabalhas, filha. Vais acabar por te esquecer. Além disso, nesses termas modernos só dão sopa de couve e mais nada. Li num artigo, aquilo agora é só poupar.

Leonor olhou para a mãe e já não sabia se a mãe estava a falar a sério ou a gozar. Meio ano sem um café decente, sem comprar um vestido, sem sair com amigas tudo por isto?

Oh mãe, têm cinco restaurantes lá dentro! Cardápios à escolha, massagens, piscina, trilhos pela serra
Trilhos pela serra Maria Eduarda imitou. Já até sabes os nomes bonitos. Mas lembraste de perguntar se eu quero isso?

Leonor engoliu em seco. Só esperava um fizeste bem. Aquela palavra seca que valia todos os seus esforços.

Sentou-se numa cadeira. Tudo nela parecia ceder, como se o corpo cedesse por si, cansado de resistir. Olhou o envelope, abandonado à beira da mesa.

E depois, esse clima Maria Eduarda já andava pela cozinha, ajeitando a toalha que estava impecavelmente esticada. Aquela humidade não me faz nada bem. Apanho logo uma crise de tensão. Pensaste nisso?

Leonor não respondeu. Pela primeira vez em anos, não tinha vontade de responder. Sentiu um alívio estranho por não precisar justificar-se.

E a viagem? Quanto tempo aquilo leva? Horas enfiada num comboio a sacolejar, com esta minha coluna? A mãe sentou-se defronte dela, as mãos entrelaçadas, pronta para começar um longo discurso. Olha a Raquel do terceiro andar; é meio doida e o marido não vale nada, bebe todos os dias, mas não deixa a mãe sozinha. Vai lá, leva compras, faz companhia.

Leonor observou os vincos junto aos lábios da mãe, as raízes grisalhas tentando vencer a tinta, aquelas mãos tão conhecidas, marcadas por veias e pela vida. Mãos que antigamente lhe faziam tranças antes da escola. Lábios que cantavam cantigas de embalar. Onde teria ficado tudo isso?

Estás a ouvir-me?
Estou, mãe.
Não parece. Estás aí feita estátua. Estou a falar-te de assuntos sérios e tu

Maria Eduarda continuou: agora os quartos dos hotéis eram apertados, o barulho dos vizinhos não deixava ninguém dormir, os médicos não sabiam nada, só receitavam comprimidos. Leonor acenava no tempo certo, mas por dentro só sentia um grande vazio a aumentar.

O relógio da cozinha ia marcando os minutos. Uma hora. Hora e meia. Maria Eduarda ganhava balanço, a conversa passava do Gerês para as queixas habituais noites solitárias, telefonemas raros, acusações de que a filha já não era a mesma.

Compreendes o que é ficar aqui sozinha? O tom subiu. Queres arrumar-me para poder fazer a tua vida?

Oh mãe, é um presente.
Presente! Maria Eduarda bateu as palmas, exasperada. Presente é para agradar, para surpreender, não para despachar a mãe e aliviar a consciência!

Leonor levantou-se devagar, as pernas ainda trémulas, e puxou o envelope para si. Sentiu o papel grosso enrugar-se nos dedos.

Tens razão, mãe. Não te sentes lá bem. Eu devolvo isto.

Maria Eduarda ficou em silêncio. Olhos esbugalhados de espanto, como se tivesse preparado o discurso para uma luta que não chegou a acontecer.

Como assim, devolves?
É isso mesmo, devolvo e pronto. Tinhas razão, não pensei bem.
Leonor, deixa o envelope onde estava.
Para quê? Não queres ir.
Não disse que não quero! Disse que devias ter perguntado! E o rosto ficou vermelho. És sempre assim: fazes tudo à tua maneira e depois admiras-te de eu não gostar!

Leonor segurou o envelope ao peito e caminhou para o corredor. O coração batia-lhe descompassado, mas uma determinação nova dava-lhe força nas pernas.

Onde pensas que vais? Leonor! Estou a falar contigo!
Mãe, estou muito cansada.
Cansada! Maria Eduarda correu atrás dela e prendeu-lhe o braço. Dei-te a vida! Passámos fome, o teu pai abandonou-nos, criei-te sozinha! E é assim que me pagas?

Leonor virou-se, fitando a mãe, os lábios trémulos pelo nervosismo, o rosto pálido de raiva.

Foste tu que disseste que não ias.
O que eu disse é que deverias ter perguntado!
Então pergunto: mãe, queres ir ao Gerês?

Maria Eduarda ficou sem palavras, sem ar para protestar.

Estás a gozar comigo? Queres enervar-me de propósito? Pareces um robô, fria! Deixa o envelope aí, logo decido o que faço!

Com cuidado, Leonor soltou o braço da mão da mãe. Não largou o envelope.

Amanhã ligo-te, mãe.

Fechou a porta atrás de si, antes que Maria Eduarda conseguisse responder.
Ouviu a voz da mãe a insultá-la do outro lado, abafada pelo corredor palavras de mágoa, de juventude perdida, ameaças de arrependimento. Leonor não respondeu, não olhou para trás. As pernas levaram-na pelas escadas abaixo, passando pelas caixas do correio com tinta a saltar, indiferente aos vizinhos.

Na rua caía uma chuva fina. Leonor deixou-se ficar no passeio, de rosto voltado para as gotas, sentindo o cheiro do asfalto molhado. Os passantes desviavam-se, alguém bufou impaciente mas já não lhe importava. O envelope ainda na mão, Leonor pensou: E se fosse eu a ir ao Gerês? Banhos termais, colunas imensas, dias serenos sem críticas ao pequeno-almoço.

Caminhou sem direção, até parar diante da montra de um pequeno café de esquina. Lá dentro, luz amarela quente sobre mesas de toalhas brancas e flores frescas, clientes jantando devagar. Empurrou a porta e entrou.

Boa noite sorriu o empregado, oferecendo o menu com simpatia. Está sozinha?
Sim espantou-se como soou leve aquela palavra.

Escolheu uma mesa junto à parede, afastada dos restantes. Sentou-se, desenrolou a toalha no colo e abriu o menu. Os olhos caíram imediatamente na sobremesa mais cara tarte de pera com caramelo e flor de sal. E pediu também um copo de vinho tinto, encorpado e maduro.

A mãe chamaria aquilo loucura. Dinheiro deitado à rua. Leonor imaginou o franzir de lábios, o olhar reprovador, o eterno nos meus tempos… e confirmou o pedido.

O vinho era profundo e intenso. Leonor bebeu um gole e recostou-se. Sentiu uma leveza estranha, como se algo apertado se abrisse dentro dela. Lembrou-se do medo de trazer um sete para casa, porque a mãe não lhe falaria a semana toda. Recordou a escolha do curso de Economia em vez de Literatura, porque Letras não dá futuro. E como namorara Miguel três anos, até terminar porque a mãe dizia que ele não prometia nada.

A tarte era suave, desfez-se na boca. Leonor fitou o caramelo derretido: não recordava a última vez que fizera algo só porque queria. Não para ouvir um parabéns da mãe, mas por si.

O telemóvel vibrou dentro da mala. Mais uma vez. E outra. Leonor espreitou o ecrã: sete chamadas da mãe e três mensagens de voz. Desligou.

Bebeu o resto do vinho, devorou a sobremesa e pediu a conta. Deixou boa gorjeta, porque lhe apeteceu. E saiu para a noite fresca. Já não chovia, um céu limpo com as primeiras estrelas.

Pensou que, por mais difícil que fosse, dera o passo mais importante permitira-se, finalmente, ser mais do que as expectativas dos outros. E compreendeu: só podemos verdadeiramente cuidar dos outros, quando nos permitimos, também, cuidar de nós próprios.

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Queres Livrar-te de Mim? — Uma Tarde Chuvosa em Lisboa, Um Presente Não Apreciado e a Coragem de Diz…
„Mali by ste si žehliť spodné prádlo, lebo tie nevyžehlené štípu,“ zdôrazňuje svokra.