Traí a memória do meu pai.

Traí a memória do meu pai.

Maria Fernanda arrastava-se pelo bairro já há mais de uma hora, embora da sua casa à padaria não fossem mais de cinco minutos a pé. Mas aquele final de tarde era de uma tristeza pesada, sufocante. Não tinha qualquer desejo de regressar ao apartamento, onde só a esperavam o bule de chá frio, o chão a precisar de uma boa limpeza e o gordo gato Sebastião, o seu único companheiro nos últimos anos se não contasse com a televisão, que ligava cedo de manhã e só desligava quando ia para a cama, porque as vozes dos apresentadores davam alguma ilusão de companhia humana.

As pernas doíam, o joelho acusava a humidade, a meteorologia estava feia, mas Maria Fernanda acabou por entrar no parque infantil. Os bancos e os baloiços já estaban molhados da chuva, mas ela sentou-se mesmo assim, num cantinho, por baixo de um chapéu de ferro enferrujado. Enterrou as mãos nos bolsos do velho sobretudo de lã, que devia ter já mais de sete anos, mas não via sentido em comprar outro.

Outrora, nos tempos em que o António era vivo, era tudo tão diferente. A casa parecia pequena com tanta vida: os dois filhos a crescerem nela o mais velho, o Pedro, e a mais nova, a Mafalda. Agora, os dois tinham voado do ninho. O António faleceu há quase quinze anos, e, sem dar por isso, cada qual seguiu o seu rumo para bem longe. O Pedro ficou com a esposa e os filhos gémeos em Braga; a Mafalda foi para Lisboa, casou-se com um engenheiro informático cheio de futuro e agora andava a saltar entre viagens de serviço e férias no estrangeiro. De Maria Fernanda se lembravam sobretudo nos aniversários e no Natal, através de mensagens no telemóvel: Parabéns, mãe! Beijinhos! e fotos dos netos, crianças cada vez mais crescidas e distantes nunca vinham passar o verão com a avó porque tinham campos de férias, Inglaterra, ginástica e explicadores.

Maria suspirou, observando um melro gordo a saltitar pela calçada molhada, à procura de migalhas. Em tempos sonhou que os filhos a iriam amparar na velhice, que a casa se encheria de risos dos netos, que eles a iriam visitar e telefonar todas as noites. Mas a realidade era outra. Pedro ligava uma vez por mês, se não se esquecesse, sempre com a mesma conversa: Mãe, está tudo bem por aí? Por aqui, trabalho, os miúdos doentes já sabes como é, não tenho tempo. A Mafalda achava que transferir-lhe uns euros para o cartão resolvia tudo assim podia, descansada, tratar da própria vida.

A vida de reformada era agora um eterno Dia da Marmota: acordava, ligava a televisão, alimentava o Sebastião, fazia papas de aveia ou ovos, via televisão outra vez, almoçava em silêncio, à tarde dava uma volta no jardim, à noite novamente televisão, depois a cama. Chegava a comentar em voz alta o que via na televisão, ria ou insultava os apresentadores quando diziam disparates. Nessas alturas, o Sebastião fixava-a com os olhos de âmbar, abanava o rabo lentamente e ia dormir para o cadeirão.

Mas, nesse final de tarde, custava-lhe mais que nunca voltar para casa. Ali estava ela, no banco, debaixo de chuva miudinha, encolhida no casaco, o gorro de lã puxado até às sobrancelhas.

Maria? ouviu de repente, de lado. Maria Fernanda, é a senhora?

Estremeceu e ergueu o olhar. Ao pé do banco estava o senhor Manuel Dias, o vizinho do terceiro andar alto, um tanto curvado, com um velho sobretudo castanho e boné, cabelos grisalhos na fronte e olhos cinzentos atentos. Reconheceu-o logo. Costumavam cruzar-se no elevador, ou à porta do caixote do lixo; trocavam frases neutras sobre o tempo, nada mais.

Manuel? admirou-se Maria Fernanda. Anda aqui com este tempo? Vai apanhar uma constipação.

E a senhora? sorriu ele, sentando-se ao lado dela, depois de pousar um jornal no banco ensopado. Vi-a aqui sentada da janela há mais de uma hora. Pensei: não é normal Talvez esteja a sentir-se mal.

Não, não estou mal, fez-lhe um gesto vago. Só não tenho vontade de ir para casa, Manuel. Sinto-me vazia, aquela tristeza

Conheço essa sensação, assentiu o senhor Manuel, tirando uma pequena garrafa de brandy do bolso do casaco. Distilado. Para aquecer a alma. Quer? Raramente toco, mas há dias em que uns trinta e cinco graus são o remédio certo para um coração entristecido.

Maria hesitou, mas depois pensou: que mal haverá? Ninguém ia ver, ninguém a julgar. Bebeu um pequeno gole. O álcool aqueceu-lhe o peito, invadiu-a uma calorosa promessa de consolo.

Obrigada, murmurou devolvendo-lhe a garrafa. E a sua esposa, Manuel?

Morreu há três anos, respirou fundo. Os rapazes estão em Lisboa. Famílias, empregos. Vêm aqui de seis em seis meses, ligam ao domingo. Vou sobrevivendo. E a Maria?

Os meus estão longe, murmurou ela. Ligam pouco. Marido já morreu há muito.

Pois. Dois solitários, pelo visto, comentou ele em voz baixa. Amigos de solidão.

Ficaram num silêncio sereno, apenas a escutar a chuva a pingar nos baloiços. Era um silêncio confortável, como se há muitos anos partilhassem esses minutos.

Sabe, Maria, tenho andado a observar a senhora, confessou Manuel, corando um pouco. Sempre tão composta, tão serena, sempre sozinha no jardim. Pensei em falar consigo, mas faltava coragem. Hoje foi sinal do destino. Vi-a aqui, estátua à chuva. Tinha de ser.

Maria Fernanda olhou-o surpreendida.

Observar? Para quê?

O que mais me resta? sorriu ele com um encolher de ombros. Já sei o seu horário de passeio, preocupo-me quando não aparece. Habituei-me.

Imagine, abanou ela a cabeça, mas sentiu-se estranhamente reconfortada de saber que alguém se recordava dela, que alguém se preocupava, alguém a esperava. Não fazia ideia.

Que tal começarmos a passear juntos? sugeriu ele. Dois é melhor que um. Eu, mesmo de bengala, protejo-a das gralhas!

Gralhas? riu-se ela pela primeira vez em muitos meses. Os perigos deste bairro

Também das gralhas. Aceita?

Aceito, assentiu Maria.

A partir desse dia, a vida deles mudou. Passeavam juntos no jardim todas as tardes, a não ser quando chovia a potes. Manuel era antigo engenheiro numa fábrica, passava agora os dias a ler, a escrever pequenos artigos para o jornal local. Maria, que tinha sido contabilista, gostava de ouvir as histórias dele sobre a Revolução dos Cravos, as peripécias de jovem no Alentejo mesmo não percebendo muito de história, era boa ouvinte e fazia as perguntas certas. Ele, por sua vez, ouvia com gosto os relatos dela dos filhos, da casa de férias no Douro que construíram nos tempos de António, e que depois venderam por tuta e meia, pois aos filhos não interessava nada.

As conversas prolongavam-se pela noite dentro, sentados nos bancos do jardim, e quando regressava a casa, Maria Fernanda dava por si a sorrir. O seu apartamento parecia agora mais acolhedor: já não cozinhava só para ela, agora fazia mesmo questão de preparar petiscos para receber Manuel. Até o Sebastião, atraído pelos cheiros de comida, tornou-se mais manso e carinhoso.

Um mês depois, foi a primeira vez que Manuel ficou para dormir. Tinham-se perdido nas conversas e, de repente, já era mais de meia-noite.

Fique cá hoje, Manuel Tenho um sofá muito confortável.

Não lhe incomodo? mas os olhos dele brilhavam de esperança.

Tanta casa para mim, riu ela. É favor de ficar.

Repetiu-se, primeiro uma vez por semana, depois mais, até Manuel trazer a escova de dentes, os chinelos e, eventualmente, uma pequena mala. Maria acordava a ouvi-lo mexerica na cozinha e percebia como era bom voltar a sentir alguém por perto. Raramente ligavam a televisão; preferiam conversar. O Sebastião, no início hostil, acabou por render-se e dormir aos pés do novo hóspede.

Manuel, amanhã fazemos arroz de pato? sugeriu uma noite Maria, depois do chá com mel. Gosto tanto, mas sozinha nunca faço.

Faço questão, sorriu ele. Eu trato do pato, a Maria do arroz.

Mãos à obra: na cozinha apertada, fizeram o arroz de pato juntos, de sorriso fácil e alma reconfortada. Maria pensava: Será possível ter esta sorte no fim da vida?

A felicidade só era perturbada quando pensava nos filhos. Não tinha coragem de lhes contar sobre Manuel. Pedro e Mafalda adoravam o pai, viam nele um herói. Maria receava que vissem Manuel como uma traição. Quinze anos depois, Pedro ainda começava todas as conversas com O pai faria assim ou O pai adorava isto.

Manuel, ao perceber a hesitação dela, nunca insistiu.

Maria, são os teus filhos, fazes como quiseres. Um dia estarás preparada.

E assim passaram os meses, até chegar o aniversário de Maria Fernanda. De repente, Pedro enviou mensagem: Mãe, vamos visitar-te, todos juntos com as famílias, três dias. O que queres de presente? Ela ficou feliz, mas logo o pânico instalou-se. Andava às voltas no corredor, sem saber o que fazer.

Manuel, disse à noite, aflita, durante o jantar. Os meus filhos vêm. Com netos e tudo.

Que bom, respondeu ele, calmo. Vais apresentar-me?

Não sei, Manuel. Eles vão-se chatear. Ainda veneram o António. Tenho medo que seja um escândalo. Se calhar voltas a casa, por uns dias Eu preparo terrenos, depois apresento-te.

Manuel ficou em silêncio, depois pousou os talheres.

Maria, francamente? Depois de meio ano juntos, sou para ti um segredo a esconder dos filhos? Tu não me queres mais cá porque eles vêm?

Não é isso, suplicou. Só preciso de tempo para os preparar. Só isso.

Faço como quiseres, disse com voz cansada. Mas não quero ser ninguém que se esconde.

No dia seguinte, Manuel saiu. O apartamento voltou a ser gelo e vazio, o Sebastião vagueava à procura dele. Maria suspirava, acariciava o gato e esperava os filhos.

Vieram sábado de manhã. Pedro, a mulher Joana e os gémeos, chegaram no carro, a Mafalda, o marido Paulo e a filha pequena de avião, de táxi do aeroporto. A casa encheu-se de sorrisos, barulho de crianças, o aroma dos bolos. Maria andava num frenesim, a pôr a mesa, a disfarçar olhares para o armário onde escondia os chinelos de Manuel.

Naquela noite, quando os netos dormiam, chamou Pedro e Mafalda à cozinha. Coração aos pulos, mãos trémulas.

Filhos preciso falar convosco.

O que é, mãe? Pedro, imponente, desconfiado. Algum problema de saúde?

Não. Só que conheci uma pessoa. O senhor Manuel Dias. Estamos juntos há meio ano.

Silêncio sepulcral na cozinha. Pedro ficou petrificado com a chávena na mão, Mafalda arregalou os olhos.

Juntos? sussurrou ela, gelada. Mãe, perdeste a cabeça? Quantos anos tens?

Sessenta e cinco, murmurou Maria Fernanda. Mas ainda não sou uma morta-viva.

Isso não interessa! exclamou Pedro. Nesta casa, que compraste com o pai, onde crescemos, metes cá um estranho qualquer?

Não é estranho, tentou ela. É boa pessoa, fui

Não quero saber! cortou Pedro. Estás a trair a memória do pai! Ele vivia muito para nós, e tu vens com outro?!

Pedro, abaixa a voz, acordas os netos, censurou Mafalda, embora falasse quase tão alto. Mãe, entendemos que sintas solidão, mas achas normal? Ao menos pediste-nos opinião? Avisaste-nos?

Agora preciso da vossa autorização para viver? a voz de Maria embargou-se. Já não sou dona de mim?

Vida pessoal, olha bem! resmungou Pedro. Com essa idade! A cuidar de netos devias estar! Vemos cá com a família e encontras-te com um amante! Onde está ele? Escondeste?

Ele saiu, respondeu com a voz a tremer. Pedi-lhe isto só para vos preparar.

Preparar? Mafalda cruzou os braços. O que conseguiste? Estamos em choque, mãe! Nunca esperei isto de ti! Tenho vergonha, até do Paulo. A minha mãe com um amante, faz ideia

Mafalda, basta! gritou Maria Fernanda. Não tem nada a ver com amantes! É um amigo, cuidamos um do outro!

Vêem televisão juntos, pois ironizou Pedro. O pai, portanto, pode-se esquecer? Anos e anos, e tu trazes outro para cá, assim?

Não fales assim dele! explodiu. Nem sequer o conheces!

Nem quero! vociferou Pedro. Ou nós ou ele, mãe. Se ficas com esse Manuel, nunca mais nos vês. Nem a mim, nem à Mafalda, nem aos netos.

Concordo, disse Mafalda. Escolhe. Nós ou ele.

Maria Fernanda ficou sentada, cabeça baixa, a deixar cair lágrimas grossas na toalha de mesa posta especialmente. Os filhos saíram da cozinha e ela ficou sozinha.

Nessa noite, não conseguiu dormir. Pensou no Manuel, nas tardes juntos, no Sebastião ao colo dele, nos beijos carinhosos à noite e, noutra imagem, via os filhos, o olhar duro, cruel.

Ao amanhecer, de olhos inchados, forçou-se a ir preparar o pequeno-almoço. A nora, Joana, tentava ser simpática.

Como está, sogra? Parece cansada.

Estou, respondeu, seca.

Pedro pousou a chávena.

Eu e a Mafalda decidimos: vamos embora hoje. Não faz sentido celebrar assim.

Como assim, vão-se embora? Só chegaram

É o que é, disse Pedro, inflexível. Os meus filhos não precisam de ver isto. Deixámos os presentes no hall. Depois falamos.

Por favor tentou implorar, mas ele já saía.

Em menos de uma hora, a casa estava vazia. Maria ficou plantada no corredor, a olhar as caixas de presentes. Sentiu-se apunhalada no peito.

Passou o dia sentada numa poltrona, a olhar o ecrã negro da televisão. Sebastião saltou-lhe para o colo, ronronou. Nem isso consolava. Ao entardecer, pegou no telefone e ligou ao Manuel.

Não venhas mais. Acabou-se, disse-lhe, uma sombra na voz. Eles não aceitam. Disseram que se continuar contigo, nunca mais me querem ver.

E tu escolhes-os? ficou ele em silêncio. Eles manipulam-te, Maria! Não têm esse direito!

Eu sei mas são meus filhos. Desculpa, Manuel. Mereces mais.

Maria por favor nós somos só nós. Eles são egoístas. Queres mesmo isto?

Não quero, mas não consigo fazer de outra maneira. Adeus, Manuel.

Desligou. E explodiu num choro convulsivo, mais fundo que quando perdeu o António, porque dessa vez nem filhos junto tinha.

Dois meses passaram. Maria Fernanda voltou ao ciclo da solidão televisão alta, papas só para si, Sebastião a olhar para ela, questionador. Várias vezes quis ligar ao Manuel, mas parava: fizera promessa aos filhos. Eles iam ligando cada vez menos: Pedro mandava só mensagens rápidas, Mafalda nem falava, só partilhava fotos da filha. Nunca perguntavam como estava. Percebeu que estava ainda mais afastada deles.

Um dia, ao voltar do supermercado, cruzou-se no elevador com a Dona Conceição, a fofoqueira do prédio.

Maria, já não a vi passear com o Manuel. Brigaram?

Não, só nos afastámos, respondeu, cabisbaixa.

Que pena, faziam um belo par. Ele parece doente agora, quase não sai, muito magro. O filho veio visitá-lo, mas pouco tempo

Doente? Maria sentiu o coração apertar.

Não sei bem, mas está muito pior.

Ao sair, Maria ficou indecisa no corredor, mão no telefone. Finalmente marcou o número do Manuel. Depois de alguns toques, uma voz débil respondeu:

Sim?

Manuel, sou eu, a Maria. Está tudo bem?

Maria? Os teus filhos deixaram?

Não fales disso. Estás doente? Porque não avisaste?

Para quê? Escolheste. Não quis preocupar-te.

Que disparate, Manuel! Vou já aí.

Vestiu-se à pressa, pegou na mala, e saiu. No andar dele, tocou, esperou. Abriu-se a porta, Manuel, magro, com o rosto mais velho, mas com aquele sorriso bondoso.

Maria porque vieste?

Porque és importante, Manuel. Os meus filhos quase não me falam, estás doente, e eu aqui sozinha. Tu és a única família que me resta. Chega de me sacrificar.

Ele abraçou-a. Ficaram na entrada longos minutos. Depois ela arrastou-o para a cozinha, preparou-lhe chá e sopa, instalou-se para ficar.

Amanhã falo com o Pedro. Ou aceitam, ou não. Vou defender a minha vida.

Não queria ser causa de brigas, Maria, murmurou Manuel.

Chega de chantagem emocional. Dei-lhes tudo, mereço o meu bocado de felicidade. A minha felicidade és tu.

Na manhã seguinte, Maria ligou ao filho:

Pedro, decidi. Vou viver com o Manuel. Amo-o. Se tu e a Mafalda não aceitam, lamento. Mas não vou sacrificar o tempo que me resta. Estou cansada. Amo-vos, mas não me vão mandar mais.

Silêncio. Finalmente Pedro disse:

Estás doida, mãe. Avisámo-te.

Avisaram. Mas escolho-me a mim. Se quiserem visitar-me, as portas estão abertas. Se não, é vida. Mas chega de ordens.

Desligou, soltando um suspiro de alívio.

Uma semana depois, mensagem da Mafalda: Mãe, pensamos melhor. Não gostamos, mas faz o que te fizer feliz. Vem ver os netos quando quiseres, mas não nos fales do Manuel. É só isso.

Leu, respirou fundo. Não era aceitação total, mas era um passo. E o mais importante: ao lado dela estava Manuel e Sebastião ronronava nos joelhos dele. A televisão continuava ligada, só para fazer fundo: agora havia motivos verdadeiros para conversar.

Manuel, amanhã faço cozido à portuguesa, comprei feijão, sorriu Maria, olhos vivos.

Eu vou ao talho buscar as carnes, sorriu ele, e os olhos brilharam como nunca.

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