O prazo de prescrição não acabou
Senhora, faz ideia de quem eu sou?
Lurdes Constança não levantou os olhos de imediato. Terminou de preencher uma nota no registo, pousou a caneta com calma e só então olhou para a mulher que estava em frente ao seu balcão.
A mulher devia ter uns trinta e cinco anos, não mais. Cabelo loiro claro, penteado com esmero, daqueles que só saem de cabeleireiro. O perfume era tão intenso que fez Lurdes Constança querer espirrar. Casaco bege de caxemira, evidente até à distância. Mala de braço que, pelo aspeto, custaria certamente mais do que Lurdes Constança ganhava em meio ano.
Diga, por favor respondeu ela, tranquila.
Então porque não abre? Já estou à espera há três minutos.
Não tem autorização de entrada disse Lurdes Constança. Expliquei já ao seu motorista quando ligou. O pedido tem de vir antecipadamente.
O meu marido aluga aqui metade do oitavo andar! O tom da mulher subiu. Empresa Vera Comercial. Sabe ao menos do que está a falar?
Sei, anuiu Lurdes. Mas não tem autorização em nome seu. Ligue ao seu marido, ele pode descer cá abaixo ou telefonar-nos. Tratamos disso num instante.
Não vou ligar a ninguém! Sou esposa do inquilino, tenho direito de entrar!
Lurdes Constança apertou um pouco o olhar. Estudava a mulher sem raiva, do modo de quem observa algo comum, mas já cansativo.
As regras são iguais para todos disse com firmeza.
A mulher aproximou-se do balcão, inclinou-se e soprou baixinho:
Ouça, minha senhora Acha que com esse salário de reforma se pode armar em juíza aqui? Faça-me um favor: ligue para quem manda e abra o torniquete, ou arranjo maneira de a tirar daqui.
Lurdes fez pausa.
Muito bem disse, pegando no telefone.
A mulher endireitou os ombros, satisfeita.
Lurdes marcou um número e, depois da resposta do outro lado, falou baixinho:
Senhor António Simões, aqui é o Posto Um. Tenho aqui uma senhora sem autorização, diz ser esposa do Hugo Álvaro Sampaio, do oitavo andar. Fico a aguardar.
Desligou e voltou ao registo.
Vai demorar? perguntou a mulher.
Logo que respondam.
Ela bufou, tirou o telemóvel e ficou a digitar, toda ofendida pelo tempo perdido. Passaram dois minutos. Do lado dos elevadores chegaram passos. Ao balcão veio um homem alto, bem vestido, semblante algo preocupado.
Vera sussurrou. O que se passa?
A tua porteira não me deixa entrar.
As regras são para todos, amor. Eu disse para ligares antes
Vou telefonar sempre que quiser visitar o meu marido?
O homem virou-se para Lurdes.
Bom dia, esta é a minha esposa, Vera Sampaio. Pode tratar de um passe temporário, por favor?
Com certeza Lurdes preencheu o formulário.
Enquanto lançava os dados, Vera estava a falar ao telefone, recuada à parte. Antes de passar o torniquete, lançou por cima do ombro, para ninguém em concreto:
Isto é surreal.
O marido foi atrás, olhos postos no chão.
Lurdes observou-os, fechou o livro e tirou chá do seu termo. Já estava quase frio.
Ficou a pensar. Não na Vera Sampaio. No facto de o nome Sampaio vir a dar confusão naquele edifício, como sempre previra.
Hugo Álvaro Sampaio.
Lurdes fechou os olhos um instante.
Vinte e dois anos. Muito tempo. As pessoas mudam, envelhecem, ganham família, escritórios no oitavo andar. Mas certas coisas nunca mudam disso, Lurdes sabia de certeza.
O edifício executivo Atlântico existia na Avenida dos Construtores há oito anos. Vidros cinzentos, escadaria de pedra, parque privado vigiado, café no rés-do-chão com sandes a cinco euros. Funcionava tudo como devia. Vinte e quatro inquilinos, desde pequenos escritórios de advogados até grandes empresas comerciais. A Vera Comercial ocupava quase todo o oitavo andar, sempre pagou a tempo, era um dos inquilinos mais valorizados.
Lurdes sabia disso porque lia todos os contratos, todos os autos, todas as atas. Por hábito.
Estava no posto de segurança há sete meses.
Os colegas eram atenciosos, um pouco condescendentes como sempre com idosa em trabalho extra após reforma. Ajudavam com horários, ofereciam bolinhos, substituíam-se sem grandes perguntas. Lurdes agradecia, não corrigia ninguém.
O administrador do Atlântico, António Simões, de cinquenta e dois anos, era um homem metódico e algo nervoso. Trabalhava bem, mantinha ordem, nunca levantava a voz. Lurdes observava-o com simpatia.
Ninguém ali sabia que Lurdes Constança era a proprietária única da empresa gestora do edifício. E não só deste, mas por agora isso não importava.
Decidiu ir para o posto depois de conversar com a filha.
Mãe, não sabes o que se passa no terreno disse-lhe a filha, diretora financeira numa das suas empresas, direta e assertiva, algo que Lurdes apreciava. Ficas no gabinete, só números e decisões. Não vês como as pessoas realmente se comportam, quando acham que ninguém olha.
Lurdes pensou e perguntou:
Achas mesmo que não conheço o ser humano?
Acho que pouco tens visto, cara a cara.
Como quase sempre, a filha tinha razão.
Sete meses no posto deram-lhe muito. Viu como os inquilinos falam com as senhoras da limpeza, quem cumprimenta os seguranças, quem vai assobiando e fingindo que não vê gente. Pequeninas maldades e pequenas gentilezas o tecido do quotidiano.
Assim surgiu Vera Sampaio.
Lurdes não era pessoa de decisões a quente. Deu uma semana a si própria.
Nessa semana, Vera aparece duas vezes no Atlântico. Numa, outra vez sem aviso, esbracejou irritada ao jovem segurança Marco por não poder entrar esquecera o passe em casa. Marco explicava, ela erguia a voz. No fim, o marido desceu. Lurdes viu tudo da sala ao lado, fingindo rever o monitor.
No outro episódio, Vera chegou numa sexta ao fim da tarde, enquanto a dona Gertrudes, da limpeza, lavava o chão nos elevadores. Vera preocupou-se pouco e pisou no chão ainda molhado, a senhora pediu que aguardasse, Vera virou-se e respondeu baixinho algo que Lurdes não compreendeu mas viu, depois, na cara da senhora.
Gertrudes era uma veterana: seis anos na casa, sessenta e três de idade, criava netos. Nunca se queixava.
Lurdes terminou a semana, sentada à cozinha, chá morno, uma pasta de papéis finos.
Depois ligou a António Simões.
Boa noite, António disse-lhe. Desculpe fora de horas. Pode chegar amanhã uma hora mais cedo?
D. Lurdes? espantou-se ele. Sim. Está tudo bem?
Tudo bem. Só quero conversar consigo.
Às oito estou lá.
Dormiu bem, nada de especial. Antes de se deitar, ficou vários minutos a olhar o teto. Vinte e dois anos pode ser muito, mas certas dívidas não prescrevem. Humanas, não legais.
Na segunda-feira, subiu ao gabinete.
Simões estava sentado, ar embaraçado. Esperava um pedido de ajuste de turno, ou alguma queixa do posto. Estava pronto para tudo, menos para o que ouviu.
Lurdes pôs uma pasta à frente dele.
Que é isto? perguntou ele.
Veja.
O administrador consultou. Uma procuração, extrato da conservatória do registo, papéis internos da empresa com assinatura dela.
Leu devagar. Depois olhou para ela; olhou de novo a pasta.
É a senhora?
Sou.
Todos estes meses
Sim.
Fez pausa. Depois, cauteloso:
Posso perguntar porquê?
Claro. Quis observar tudo pessoalmente. Não através de relatórios. Olhar de perto.
Simões assentiu, surpreendido, mas sem mágoa. Antes, respeito.
Gostou do que viu?
Em geral, sim. O trabalho de todos é competente. O seu, também. Mas preciso de ajuda noutro assunto.
Diga.
Vera Comercial, oitavo andar. Preciso rescindir o contrato de arrendamento.
Simões consultou os papéis, voltou a encará-la.
O contrato deles vai até março do próximo ano. Sem falhas. Isto é motivo para litígio…
António, interrompeu Lurdes, com doçura. Conheço bem as regras. Prepare notificação formal de não renovação, proponha rescisão amigável com indemnização razoável. Quero que saiam, mas oferecendo boas condições.
Simões assentiu.
Faço isso. Prazo?
Uma semana para informar. Três meses para desocupar o espaço. Mais que suficiente.
Eles hão de perguntar razões.
Pode dizer que é decisão estratégica do proprietário para refuncionalização. Aliás, penso mesmo fazer salas de reuniões lá.
Simões levantou-se e apertaram as mãos. À porta, voltou-se ainda.
D. Lurdes, vai manter-se no posto?
Ela pensou.
Por mais um tempo. Até terminar este processo.
Hugo Sampaio recebeu o aviso na quarta. Na quinta Lurdes viu-o sair do elevador com ar de quem levara um murro, telefone no ouvido, acelerar em direção ao parque. Na sexta, uma longa conversa com Simões.
Depois, Simões contou-lhe tudo.
Exige explicações disse o administrador. Garante sempre pagar, tem clientes, parceiros, diz que mudar em três meses é impossível. Oferece mais vinte por cento de renda.
Não decidiu Lurdes.
Respondi assim mesmo.
Obrigada, António.
Pensou que seria o fim. Sampaio arranjaria outro escritório. Era aborrecido para ele, mas não fatal. Era competente.
Mas, na terça, Hugo apareceu.
Não procurou Simões.
Procurou Lurdes.
Ela viu-o ao longe. Aproximava-se do balcão diferente não como quem vai tratar de negócios. Aproximava-se como quem tomou uma decisão, mas tem dúvidas.
D. Lurdes cumprimentou.
Ela olhou-o serenamente.
Bom dia, sr. Hugo.
Ele hesitou, desorientado com a calma dela.
Podemos conversar?
Força.
Olhou em redor. Não havia muita gente.
Eu… soube quem é a senhora.
Suspeitou finalmente…
Disseram-me. Fez pausa. Queria explicar-me.
O quê, concretamente?
O que aconteceu em 1999.
Lurdes pousou então a caneta.
O ano de 1999. Tinha ela quarenta e três. O marido, António, ainda vivo, estavam a começar do zero. Apenas um pequeno armazém, dívidas por pagar, esperança de crescer. E um sócio jovem, em quem confiaram.
Hugo Sampaio tinha então vinte e sete. Inteligente, educado. Trabalhara lá ano e meio. E aprenderam-lhe tudo, tratavam-no quase como da família.
Até ao dia em que Hugo levou consigo toda a carteira de clientes, duplicando dados às escondidas, além de renegociar um contrato a favor dele, enquanto António estava hospitalizado após um ataque cardíaco. Não morreu logo. O segundo ataque, três anos depois, foi fatal.
Ela nunca culpou Hugo diretamente pela segunda morte. Seria injusto. O coração do marido era fraco; mas lembra-se da frase dele, ainda pálido na cama, olhos na parede: Não entendo, Lurdes. Tratei-o como filho.
Fale pediu ela.
Hugo falou. Tinha o discurso ensaiado. Disse que era jovem, que errou, percebeu tarde, arrependeu-se. Disse que pensou muitas vezes em tudo aquilo. E, a certa altura, confessou:
Tenho uma coisa sua. Da sua família.
Lurdes ficou em silêncio.
O António confiou-me uma coisa, lembra-se? As horas de bolso.
Ela recordava. O velho relógio do avô do marido. Tinha passado a guerra sempre com ele. Mais do que objeto, era memória. António confiara o relógio a Hugo para mostrar a um relojoeiro. Depois veio a doença, a separação, e nunca voltou.
Quero devolvê-lo disse Hugo. E peço que reconsidere expulsar-nos.
Então era isso.
Lurdes estudou-lhe o rosto, o fato caro, as mãos cruzadas. Já não era novo, quase cinquenta, cabelos grisalhos. Tinha tudo: esposa elegante, escritório amplo, carro de luxo.
Pensava se ele sentiria mesmo vergonha.
E percebeu que talvez nem ele próprio soubesse. Vergonha? Ou só medo de perder o escritório? O ser humano raras vezes distingue.
Traga o relógio murmurou, inflexível.
Ele suspirou fundo.
Quando preferir, posso…
Traga o relógio, deixe-o no posto. Eu recolho.
E quanto ao escritório…
A decisão está tomada.
Sabe o que significa para mim? Investi ali tudo…
O António também investiu. Em si. Recorda-se?
Silêncio.
O relógio, sr. Hugo. Depois, não me volte a procurar por este assunto.
Ele ficou mais uns segundos, virou costas e saiu.
O relógio chegou no dia seguinte. Um embrulho discreto, deixado ao segurança Marco. Lurdes desembrulhou-o ao fim do turno. Era mesmo aquele reconheceu-o logo. Tampa arranhada, mas perfeito, parecia funcionar bem.
Ficou uns instantes só de relógio nas mãos.
Guardou-o na mala e foi para casa.
Seguiram-se duas semanas de imobilidade tensa no Atlântico. Os funcionários da Vera Comercial só souberam da mudança dias depois, então começaram as conversas. Gente do oitavo andar perguntava a Marco e outros se era verdade ou só boatos. Marco dizia que não sabia.
Vera apareceu uma semana depois do marido falar com Lurdes. Era quinta-feira, por volta do meio-dia, e Lurdes no posto.
Dessa vez, Vera aproximou-se devagar. Casaco azul-escuro, rosto não mais arrogante.
Bom dia disse ela.
Bom dia respondeu Lurdes.
Gostava de falar consigo.
Pode passar ao torniquete, abro já.
Não. Ela abanou a cabeça. Quero falar aqui.
Lurdes ergueu as sobrancelhas.
Diga.
Houve silêncio. Notava-se que Vera nunca se desculpara a ninguém a sério. Mas estava ali era um começo.
Fui mal-educada confessou. Quando vim aqui de rompante. Disse-lhe coisas erradas.
Chamou-me avó recordou Lurdes, impávida.
Vera desviou o olhar, depois retomou.
Pois. Peço desculpa.
Lurdes olhou-a. Mulher nova, habituada a resolver tudo por posição e dinheiro, não a pedir desculpa a uma segurança.
Aceito o seu pedido disse Lurdes.
Vera assentiu. De mansinho:
Não vai rever a decisão sobre o escritório?
Não.
Entendo.
Já ia sair, quando Lurdes chamou:
Vera. Espere só um pouco.
Vera virou-se.
Lurdes fitou-a demoradamente. Ela sustentou o olhar, embora desconfortável.
Trabalha? perguntou Lurdes.
Como?
Trabalha. Num emprego.
Não. Cuido da casa. Do nosso filho.
Que idade tem ele?
Oito anos. Está na escola.
Então tem tempo livre de dia.
Vera estava confusa.
Tenho uma vaga no arquivo. Serviço simples, mas importante. Arrumar documentos, catalogar, digitalizar quando houver. Aviso já: não é glamoroso.
Silêncio.
Está a oferecer-me emprego? indagou Vera.
Estou.
Porquê?
Lurdes hesitou.
Porque veio aqui dizer isto e não virou costas logo.
É simples, só educação ripostou Vera, agora quase zangada.
Pois é, Vera. Simples. Mas não fez isso na primeira, nem na segunda ocasião. Fez agora, sem ter já nada a perder. Isso é diferente.
Nova pausa.
Salário? perguntou finalmente Vera.
O mínimo. Mas com contrato, tudo certo.
Passou muito tempo.
Vou pensar respondeu Vera.
Óptimo. O contacto do senhor Simões tem, ele trata disso.
Lurdes voltou ao registo, o assunto encerrado.
Em março, Vera Comercial saiu do oitavo. Calmamente, sem dramas. Sampaio aceitou compensação e foi para outro edifício menos central, mais barato. Diziam que perdeu alguns contratos importantes nesse processo, mas Lurdes não confirmou.
Viu, da janela do terceiro, a mobilização das mudanças. Dois homens empurravam trolleys com caixas, outro carregava um painel de vidro embrulhado. Fim de um gabinete, início de outro. Nada de especial.
Tirou os óculos, limpou-os e voltou a pô-los.
Vinte e dois anos. Longo.
Não sentia triunfo. Esperava sentir, mas não. Sentia somente um peso estranho, límpido, como libertação do muito guardado.
António morreu em 2002. Tinha cinquenta e seis anos. Lurdes ergueu tudo sozinha, passo a passo, sem sócios, sem confiar em ninguém. Custou, mas também trouxe recompensas.
Nunca se queixou. Só lembrava.
O arquivo ficava num edifício ao lado, também gerido por ela, um centro de escritórios mais modesto, sem escadas de granito. Ali, três dezenas de pessoas: ambiente calmo. O lugar para Vera já existia há muito, não era só para ela.
Vera ligou a Simões quatro dias após aquela conversa.
Lurdes soube pelo próprio.
Aceitou informou Simões, visivelmente baralhado, demasiado polido para indagar. Começa para a semana. Está tudo tratado.
Muito bem, obrigada.
D. Lurdes pediu ele, após pausa. Vai continuar no posto?
Ela olhou a Avenida dos Construtores, céu cinzento, neve tardia, poucos transeuntes.
Não decretou. Chega. Vi o que queria ver.
Que pena lamentou ele, sincero. Os colegas já se habituaram à senhora.
Passe-lhes cumprimentos. Ao Marco especialmente. É um bom rapaz.
Passo, sim senhora.
Saiu do posto discretamente, sem despedidas. No gavetão, deixou o termo, uma caneta boa e um minúsculo cacto de Novembro. Escreveu: Ao cacto basta água de quinze em quinze dias. Não precisa de mais.
Gertrudes viu-a junto ao elevador. Lurdes já com o casaco vestido.
Vai-se embora? perguntou a senhora.
Vou.
Que pena Pausa. Sempre cumprimentou as pessoas. Todos os dias. Há quem não o faça um ano inteiro, mas a senhora sempre.
Lurdes respondeu:
Não é nenhum feito, Gertrudes. É simplesmente o normal.
Pois é, devia ser, concordou. Mas nem toda a gente percebe isso.
Despediram-se à porta.
Lurdes saiu para a rua. O frio de final de março deixava o ar gelado. Abotoou o casaco e caminhou até ao carro, estacionado a dois quarteirões também isso parte do hábito e do experimento de estar ali.
Caminhar soube-lhe bem.
Pensava em Vera Sampaio. No que sairia daquela história. Lurdes não era ingénua: uma conversa na receção não faz ninguém novo e, no arquivo, ninguém se transforma milagrosamente. A vida raras vezes se compara a contos morais.
Mas Vera apareceu. Disse o que disse. Isso conta, é uma semente de que pode nascer algo ou nada. Depende de cada um.
Lurdes deu-lhe uma oportunidade. Só isso.
O resto já não era com ela.
Chegou ao carro, entrou, pousou a mala no banco ao lado. Lá dentro, o relógio de vez em quando tirava-o, sentia-lhe o peso, confirmava o funcionamento. Um bom relógio. Forte.
Sentou-se uns minutos, motor parado, a observar o Atlântico através do vidro. A fachada cinzenta refletia as nuvens.
Sete meses, pensava. Passou-os ali, livro, telefone, termo de chá. E nesses meses aprendeu mais sobre a vida, o trabalho, as pessoas e sobre si própria do que em anos no gabinete, entre relatórios e vista para o rio.
A filha tinha razão.
Lurdes ligou o carro.
Ia para casa. Pensava sobre escolhas morais. Raramente são bonitas, limpas. Hugo trouxe o relógio porque queria manter o escritório. Vera pediu desculpa porque o marido lhe contara com quem falava naquela manhã. Será que no meio de tudo houve sinceridade? Talvez. Os motivos dos humanos são uma mistura; nunca se sabe.
Isso não os faz maus faz deles pessoas.
Ela própria estava longe de santa. Rescindiu o contrato não só porque Vera faltou ao respeito à dona Gertrudes. Fê-lo porque aquele nome, Sampaio, nunca apagara nem perdoara o que se passou em 1999.
Perdoar é soltar. Ela soltou. Mas não esqueceu.
Também isso era ser humano.
Em casa era quente e sossegado. A filha ligou à noite, falaram longamente de negócios, planos para o verão, o neto que em breve iria para a escola.
E o posto? perguntou a filha.
Terminei. Fiz o que precisava.
E aprendeu?
Lurdes fez pausa.
Que as pessoas são como aparentam. Nem muito boas, nem muito más. E que a dignidade não se mede pelo dinheiro ou pelo cargo. Já sabia, mas tinha-me esquecido.
Pareces um livro, mãe riu a filha.
É da idade devolveu Lurdes. Faz parte.
Despediu-se.
Guardou o telefone, foi até à janela. A cidade brilhava, as janelas iluminavam-se, lá em baixo gente com sacos de supermercado, passava um autocarro. Verdades da vida são assim, sem luz especial, sem solenidade. Apenas mais um fim de tarde, mais uma janela, o consolo de se ter feito o certo.
Não perfeito, certo.
Duas coisas diferentes aprendeu há muito.
Vera começou no arquivo à terça-feira.
Lurdes soube porque Simões lhe mandou um SMS curto: Chegou. Tudo calmo. Respondeu: Obrigada.
O futuro de Vera era incógnita. Talvez aguentasse uma semana e saísse: o arquivo era duro, monótono, sem estatuto, só papéis e pó. Talvez ficasse um mês e aprendesse algo profundo sobre si. Talvez não aprendesse nada, mas pelo menos passasse a cumprimentar quem vale menos.
Lurdes já não esperava milagres. Deram-lhe uma hipótese, sem garantias. O resto já não era consigo.
Nunca mais viu Hugo Sampaio, nem sentiu necessidade disso.
Colocou o relógio na estante da sala, junto à foto do António. O melhor lugar.
Fora este o percurso de uma mulher, iniciado há décadas num armazém húmido, passado por perdas, conquistas, traições e solidão, anos de luta sem descanso, sem descontos pela idade ou pela ausência de companheiro.
Aos setenta, lá estava à janela do próprio apartamento, chá na mão, com a noite a chegar e o neto a preparar-se para começar escola no verão.
É isso a vida.
Não uma parábola sobre o bem e o mal, nem história de vinganças, nem moralismos. Só vida, com todos os seus débitos e créditos, com pessoas que erram e por vezes pagam, com quem faz o bem e recebe outra coisa.
Lurdes Constança sorveu o chá, deixou a janela e foi à cozinha preparar o jantar.
No dia seguinte tinha reunião sobre um novo projeto. O oitavo andar do Atlântico estava vazio. Queria lá instalar salas de reuniões modernas, café decente, isolamento acústico de jeito. Era preciso. Era a coisa certa. E ela tinha planos e energia para isso.
Cortava a cebola, pensava nas lições simples da vida, tão óbvias e tão ignoradas. Há gente que passa pela existência inteira tratando o porteiro como mobília, a mulher da limpeza como ar. Um dia, a conta chega. Raramente ruidosa. Às vezes, só uma notificação fria, ou uma conversa breve junto de um balcão, que fica a ecoar.
Cebola fazia arder os olhos.
Lurdes enxugou as lágrimas, sem parar, continuando a cortar.







