Fiquei grávida aos 16 anos, ainda a estudar na escola. Na nossa pequena aldeia portuguesa, isso causou um verdadeiro escândalo.

Fiquei grávida aos 16 anos, ainda estava a estudar no liceu. Na nossa pequena aldeia, isso foi um escândalo daqueles que toda a gente comenta. As pessoas apontavam para mim na rua e os meus pais nem sabiam onde se esconder da vergonha. O meu pai chegou ao ponto de nem querer olhar para mim. Mais valia teres morrido do que passar essa humilhação! Vai para casa da tua avó, já não suporto isto. Fui para casa da minha avó, numa aldeia vizinha, onde ela vivia numa casa antiga na periferia. A casa era fria e pouco acolhedora, mas aguentei. O mais difícil foram mesmo os últimos meses de gravidez: ninguém ajudava, ninguém queria saber. Quando chegou a hora do parto, o INEM por pouco não chegou a tempo. Mas consegui, e criei o meu filho na velha casa da avó. Toda a gente dizia que eu devia procurar um marido, mas não quis. Dedicava-me ao trabalho e vivia só pelo meu filho. Quando o Diogo cresceu e foi estudar para a cidade, eu também decidi emigrar, fui para Itália trabalhar.

Nunca quis sair antes porque não conseguia deixar o meu filho sozinho. Trabalhar fora parecia-me um paraíso, comparado com a vida difícil na aldeia. Fui tomar conta de uma senhora idosa, muito boa pessoa, que sempre me tratou bem. Ganhava o suficiente e, de vez em quando, a senhora dava-me mais 100 ou 200 euros, apenas para agradecer o meu cuidado. Com esse dinheiro consegui, ao fim de alguns anos, comprar um T1 para o meu filho e garantir que nada lhe faltava. Mas o dinheiro mudou muito o Diogo, que até deixou de visitar a avó. Isso deixava-me triste, mas continuava a enviar-lhe 500 euros por mês, guardando o resto para um dia comprar uma casa para mim, porque voltar para a casa velha, nunca mais.

Passaram-se anos e o Diogo resolveu casar. Claro que paguei o casamento e até ajudei com as coisas importantes que precisavam. Achei que, finalmente, podia juntar algum para mim. Mas em cinco anos já tinham dois filhos e, quando começou a guerra, a nora ficou grávida do terceiro. Continuei a ajudar. Apesar de tudo, consegui juntar vinte mil euros para comprar um apartamento. Uma amiga estava a vender um T1 todo remodelado e fiz acordo com ela para ficar com a casa.

No verão fui a Portugal tratar dos papéis no notário, e aí o Diogo apanhou-me de surpresa. Mãe, vendemos o apartamento e comprámos uma moradia. Demos a entrada e agora precisamos que nos dês o dinheiro para a segunda prestação. Que dinheiro? Dezoito mil euros. Estás a brincar? Esse dinheiro é para eu comprar uma casa para mim! Mãe, não faças isso. Com três miúdos não cabemos num T1. Eu estava a contar contigo. Por que não foste tu poupando? E nem me avisaste disto! Não, desenrasca-te, já combinei a compra. Posso ajudar com um pouco mais tarde, mas o grosso não dou. Então não te importas com os teus netos? Claro que me importo, por isso mesmo é que vos enviei todos os meses 500 euros. Se tivessem poupado, já tinham o suficiente. Em dois ou três anos fazes dinheiro para uma casa, para quê precisares dela agora? Vais acabar por voltar para Itália! E se me acontecer algo e eu tiver de regressar a correr? Ou se adoecer? Onde é que fico? Ficas na aldeia com a avó! Então vai tu com os teus filhos para lá!

Mantive a minha decisão e não dei o dinheiro. Não podia perder o meu apartamento. O Diogo ficou mesmo chateado e deixou de me falar. Sei que pediu dinheiro a quem pôde e a quem não pôde. Mas será que ainda tinha obrigação de dar-lhe mais? Até quando?

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Когато вече е твърде късно