Irina Chega a Casa em Silêncio para Não Acordar a Mãe—Depois de Um Casamento de Ostentação Repleto d…

Inês entrou no apartamento devagarinho, descalçando os sapatos na ponta dos pés para não acordar a mãe. Quase soltou um gemido quando tirou os sapatos novos nem o Papa aturaria o que calhou aos seus pobres pés. Benditos sapatos da moda

Tão cedo em casa? Já fugiste da festa? O casamento não prestava? ouviu a voz da mãe a espreitar pelo corredor.

Ó mãe, mas tu não dormes nunca? Estás-me à espreita, é? resmungou Inês, meio agastada.

A mãe fechou os lábios num risco e desapareceu para o quarto. O peso já vinha: Inês sentiu-se logo culpada. A mãe tinha estado acordada só para esperar por ela, morta de curiosidade pelas novidades e ela, Inês, responde torto. Enterrou-se no sofá ao lado da mãe e deu-lhe um abraço de apaziguamento.

Agora não te ponhas com graxas, filha. Não queres, não contes. Eu amanhã sei tudo pela mãe da Helena, que até melhor que o jornal do bairro.

Desculpa, mãezinha. Olha que estou estafada, e os pés São só bolhas! O restaurante era um luxo, mais de cinquenta convidados. Aquilo foi um destroço de animação.

E a Helena, tão bonita, de branco, parecia uma rainha. O noivo, um galã foi relatando Inês.

E então, porque vieste embora antes do fim? interrompeu-a a mãe.

Aquilo estava cheio de gente empinada, mãe, cada um mais pomposo que o presidente. E amanhã ainda tenho de acordar com as galinhas.

Amanhã? Mas é domingo! admirou-se a mãe, fitando-a com aquele olhar de raio-X que toda mãe portuguesa tem.

Amanhã conto, mãe. Agora vou tomar banho. deu um beijo rápido na mãe e foi direto trocar de roupa.

Despida, olhou o vestido de festa com um certo fastio: ali, no meio de tantos brilhos e rendas, parecia uma peça de feira. No banho, esfregou-se com vigor, como se conseguisse lavar a recordação da mão húmida e peganhenta daquele senhor redondinho que a arrastou para a pista.

Ele tinha insistido num baile, ela fugia mas não conseguia fugir dele. Prendeu-a a si como se fosse balão de Santo António. Sentiu as mãos húmidas nas costas e as solas dos sapatos a espetarem-se nos pés. Sobreviveu ao tango milagrosamente.

Depois, o dito senhor colou-se à mesa dela, a encher-lhe o copo. Ninguém ligava: a amiga estava ocupada com os convidados e o namorado fresquinho. Só de raspão é que Inês apanhou um olhar curioso do tal desconhecido, mas também fez trabalho de estátua: não veio socorrê-la.

Pegou na desculpa da casa de banho e, já à porta do restaurante, apostou num táxi e foi para casa.

Casamento daqueles? Mais valia não. Tinha tudo no guião, como peça no teatro e ela, Inês, mero figurante.

Dançava-lhe na cabeça a música, tilintar de copos, piadas, brindes Lembrou-se do estranho cavalheiro. Se ao menos fosse ele a convidar para dançar, e não aquele chibo barrigudo Olha, deixa lá, pensar nisso é perder tempo, murmurou Inês antes de se virar na cama e, pouco depois, adormecer.

Veio outubro: chuva, frio, guarda-chuvas num balé triste pela Baixa. Helena voltou da lua-de-mel e convidou Inês para um lanche, pôr a conversa em dia no covil dos ricos.

Inês queria ver aquilo saber como vivia um casal nababo , mas não ia de mãos a abanar. Passou numa pastelaria e comprou os pastéis preferidos da amiga. Assim que saiu, esbarrou com um senhor à porta.

Olhe, é mesmo a menina! exclamou ele.

Inês levantou os olhos e reconheceu logo o tal mistério do casamento. Ficou colada à porta.

Passa, rapariga, que estamos a empatar o trânsito! riu ele, puxando-a para o lado.

Vais como a Cinderela, fugiste e nem me deixaste conhecer-te! e mostrou uns dentes brancos de publicidade a pasta dentífrica.

Só não perdi foi o sapato alinhou Inês, divertida.

Vai para casa? Faça-me o favor, deixe-me oferecer-lhe boleia.

Não, vou ver a Helena, a noiva. O senhor não ia às compras? Inês ergueu uma sobrancelha.

Com este reencontro, até passo sem doce o resto da vida! gracejou, reparando na caixa da pastelaria. Vamos, deixe-se ir e já a encaminhava para o seu enorme todo-o-terreno.

Nunca na vida tinha Inês entrado num carro tão confortável. E raro era andar noutros! Ele conduzia com ar seguro, sem lhe perguntar a morada. Ela desconfiou.

Já sei onde mora a sua amiga. Sou sócio e amigo do marido dela explicou, apanhando o brilho ansioso nos olhos de Inês.

Contou-lhe que se chamava Vasco, divorciado, dono de um labrador.

Bonito, rico, simpático. O sonho da minha mãe pensou Inês.

Ao chegar a casa, a mãe estava no ponto de ebulição.

Que horas são estas, menina? Já estava a pensar no pior!

Fui visitar a Helena. Aquilo sim, mãe Inês contou detalhes da mansão, da amiga bronzeada em pleno outono molhado.

E foste para lá como? Aquela zona a Vale dos Tesos nunca vi ricos com tão pouca graça no nome!

Um conhecido deu-me boleia disse Inês, sem vontade de alimentar o interrogatório.

Conheceste-o no casamento? É da alta, não é? E deste-lhe o telemóvel ao menos?

Sim, mãe, insisti tanto que até eu fiquei convencida! respondeu, enfastiada.

Estás amuada? Um homem daqueles repara em ti e tu, nem um sorriso? Conheço-te!

Pronto, mãe, dei o número. Posso ir agora? Ou vai fazer o inquérito todo de uma vez? bufou Inês.

Mas filha, tu irritas-te por quê?

O que cansas é sempre a mesma pergunta: quer é despachar-me, é?

Não digas tolices. Quero ver-te bem casada, como a Helena! Não quero filha a viver com orçamento de estudante.

Quando é que andámos a viver de caridade? Inês semicerrava os olhos.

Olha pronto, exagerei um bocadinho admitiu a mãe, atrapalhada. Mas diz lá, não gostas dele, é?

Mãe, sossega. Não quero casar para já.

Aquele instante salvou-a: tocou o telemóvel. Era Vasco.

Achei que não devia adiar mais. O que fazes este domingo?

Nada de especial, estudar para segunda.

O dia todo? A meteorologia diz que vai estar espetacular. Passeio a cavalo? Já o fizeste? Se não, passo às 11h.

Inês disse que sim e só depois percebeu que já estavam na tua.

Cavalos, só via os da avó em Trás-os-Montes e sempre de longe. O passeio foi giro; Vasco era mestre em mostrar um mundo de possibilidades e dinheiro sem nunca soar arrogante.

Com ele, tudo parecia abrir portas e Inês sentia-se especial.

No domingo seguinte, apareceu a casa dela com flores e um bolo daqueles de festas. Inês odiou pensar que ele ia reparar no tapete gasto, nas paredes amareladas mas Vasco nada disso viu. Dizia que crescera numa casa pequenina igual àquela. A mãe derretida.

Que raio de homem é sonho ou realidade? Se pedir a tua mão, recusas? sussurrou a mãe quando Inês voltou.

Ó mãe, vimos-nos cinco vezes, que proposta qual quê bufou Inês.

Mas antes do Ano Novo, Vasco pôs-se de joelhos, anel de diamante na mão.

Finalmente posso ir descansada para o outro mundo! suspirou a mãe, mão ao peito. Inês só abanou a cabeça.

Casaram-se numa quinta perto de Sintra, começo de março, sol aberto, tudo a pingar primavera esperança. Inês exigiu só um casamento simples, nada de bandas nem fogo de artifício. Vasco acedeu.

Após o casamento, Inês foi viver com o marido. Helena rejubilava:

Finalmente alguém para conversar! As esposas dos outros só falam de outfits, SPA e outlets em Madrid. Livra, já leram um livro?

Viviam tudo perto, Helena já com uma barriga redonda de seis meses.

Mas Vasco não deixava Inês andar sozinha. O motorista levava-a e vinha buscá-la do instituto todos os dias. Um dia, uma aula foi cancelada e ela decidiu voltar a pé sozinha, bebendo o ar quase de verão.

Sashinha, colega de curso, apanhou-a a meio do caminho e convidou-a a tomar um café. Como ela sentia saudades de conversa normal

Nunca lhe faltava nada material, mas faltava-lhe vida, conversa simples. No grupo, desde que tinha casado, até a olhavam de lado.

Em que estás a pensar? perguntou Sashinha.

Já tenho de ir.

O Vasco controla-te?

Não, só tenho de ir e saiu apressada.

Ao chegar a casa, Vasco já ali: olhar frio.

Onde estiveste?

No instituto.

Não mintas. Sabes que cancelaram a aula e não ligaste ao motorista. Para quê? Para te encontrares com o amante?

Ele não é amante nenhum! É meu colega! Inês entrou em pânico.

Vasco nunca tinha falado assim, olhos de gelo, áspero.

Fomos ao café. Que é que tem? tentava resistir, mas só saía desculpa.

És minha mulher. Tenho inimigos e invejosos, não te podes dar ao luxo de me deixar mal visto.

Então achas mesmo que te desonro por tomar café com um colega?

Não percebeste?! levantou-se do sofá, imponente.

Não me fales assim! Inês recuou, magoada.

Não te largo sibilou Vasco enquanto a agarrava pelo pulso com força. Se não te comportas

Então, o quê? Vais acorrentar-me ao sofá? Quando for médica, achas que todos os doentes são meus amantes?

Nem viu o que aconteceu. De repente, um som agudo nos ouvidos, dor na boca. Vasco gritava, ela só via os lábios a mexer. Sentiu sangue na boca. Tentou responder, mal ouvia as palavras:

Eu percebi

Outro estalo caiu-lhe em cima, tão rápido que não se protegeu. Caiu para trás. E apagou-se.

Quando acordou, Vasco já não estava. Sentia-se bicho na armadilha. Ao fim de muito choro, tentou ir buscar gelo, mas a porta estava trancada. Não soube quando ele a tinha fechado.

Na manhã seguinte, o inchaço aumentara. O telefone, nem vê-lo. Tentou encontrar saída, mas estava presa como passarinho em gaiola. Até ouvir a empregada, que limpava antes do almoço.

Deixe-me sair, faça favor, senão ele mata-me a mim e a si! suplicou Inês.

A chave estava à porta. A senhora, trémula, abriu e ficou boquiaberta ao vê-la.

Ele vai-me despedir! gemeu.

Diga que fui rápida, pediu-me água e eu fugi combinou Inês enquanto descia.

Pelo menos ponha o capuz, filha, para tapar a cara aconselhou, olhos aflitos.

Inês agradeceu, vestiu-se e saiu pela rua, desviando-se das pessoas para esconder o rosto. Chegou a casa; a mãe, ao ver, desmaiou quase.

Meu Deus, filha, parecia tão boa pessoa. Perdoa-me, eu só queria o melhor. E se ele aparece cá? As nossas portas abrem-se com um sopro

Não digas disparates, mãe.

Já nada lhe importava, só que não piorasse. Ligou a Sashinha.

No último ano, ele estagiava no INEM e acorreu a ajudar. Trataram-lhe as feridas e fotografaram tudo, caso Vasco resolva armar-se em valentão outra vez assim as fotos iriam diretas à net.

Nunca mais Vasco apareceu. Só passadas duas semanas, sem inchaços nem nódoas negras, voltou ao instituto.

O divórcio não tardou. No verão, depois dos exames finais, Inês e Sashinha foram tomar um café. Passou Vasco agarrado a uma miúda.

Quando Vasco saiu para o WC, Inês sentou-se com a rapariga:

Seja esperta, menina. Fuja desse homem. Faz coisas horríveis. Digo por experiência.

Mas quem é você? desconfiou a rapariga.

A ex-mulher. Por amor de Deus, não lhe diga que me viu. Ainda vai a tempo! e sumiu antes que Vasco regressasse.

Pela porta de vidro, viu Vasco perguntar algo à moça. Ela encolheu os ombros. Não contou, suspirou Inês de alívio.

Para quê avisar? E se ela o contar? protestou Sashinha à saída.

Ninguém me avisou Assim nunca teria casado. Tentei perguntar, mas todos faziam-se desentendidos, até a Helena respondeu Inês.

Acabaram por mudar de cidade. Sashinha virou cirurgião, Inês cardiologista. Tiveram um filho. Mãe nunca mais se meteu em decisões da filha.

Um dia, no cabeleireiro, Inês cruzou-se com uma revista escandalosa:

Empresário Vasco Pires envia mulher para os anjinhos, dizia o título.

Lá fora, viu Sashinha passeando o filho no carrinho. Ainda bem que escolhi o amor certo. O resto O dinheiro vale o que vale, desde que vivamos em paz e sejamos gente decente, pensou.

Pode sentar-se chamou a cabeleireira, pronta para mais uma história da vida real.

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