Quero viver para mim e dormir em paz disse o Luís quando saiu.
Já se passaram três meses. Três meses de noites mal dormidas, de berros do meu filho Diogo, ao ponto de a vizinha Dona Amélia bater na parede, talvez esperando que alguém desse um jeito na situação. Três meses em que eu, Beatriz, parecia uma sombra de mim mesma, com olheiras profundas e mãos sempre a tremer.
E o Luís circulava pelo apartamento com aquele ar cada vez mais carrancudo.
Imagina só, Beatriz, chego ao escritório com cara de indigente! atirou ele outro dia, analisando-se ao espelho. Olha para estas olheiras. Pareço que acabei de sair dum turno de vinte e quatro horas.
Limitei-me a calar. Alimentar o Diogo, tentar embalar, alimentar outra vez, repetir o percurso. Sempre o mesmo. E o Luís, meu marido, ao invés de apoiar, só se queixava.
Olha, será que a tua mãe pode cá vir ficar uma noite? sugeriu ele, já depois do banho, fresco e descansado. Estive a pensar, talvez fosse boa ideia ir passar uma semana à casa de campo do Rui
Fiquei petrificada com o biberão na mão.
Preciso de repouso, a sério, Bea Já arrumava roupa na mala desportiva. Já nem me lembro da última vez em que dormi uma noite completa.
E eu, será que dormia? Mal fechava os olhos e o Diogo chorava de novo. Quarta vez só naquela noite.
Também está difícil para mim murmurei.
Eu sei que não está fácil respondeu com desdém, enfiando a camisa favorita na mala. Mas o meu trabalho exige responsabilidade. Não posso dar a cara assim diante dos clientes.
Naquele momento, olhei para nós eu, de robe velho, cabelo desgrenhado, filho aos berros no colo; ele, a fugir, mala na mão.
Quero viver para mim e descansar resmungou, sem sequer olhar para mim.
Ouvi a porta bater.
Ali fiquei, o Diogo a chorar nos meus braços e a sentir a vida desmoronar-se um bocadinho por dentro.
Passou uma semana. Depois outra.
O Luís ligou três vezes, só para saber como estava tudo. Voz distante, como quem fala com uma conhecida de vista.
Venho no fim-de-semana.
Não veio.
Amanhã sim, apareço.
Também não veio.
Continuei a embalar o Diogo, trocar fraldas, preparar leite. Dormir, só aos resquícios, nos intervalos das amamentações.
Está tudo bem contigo? perguntou a Sara, minha amiga.
Ótimo menti.
Porque é que invento? Vergonha, talvez. Vergonha porque o Luís me deixou assim, sozinha com o bebé.
Pensava que não podia ser pior. Mas o momento insólito foi no supermercado cruzei-me com a colega do Luís, a Catarina.
Olá, Beatriz! O Luís por onde anda? perguntou ela.
Está muito ocupado no trabalho.
Pois, eles são todos iguais riu-se. Sempre que nasce filho, passam o tempo todo no escritório. Aproximou-se, sussurrando: O Luís ainda faz muitas viagens em serviço?
Que viagens?
Ah, ele esteve no Porto na semana passada, não sabes? Disse que foi a um congresso. Mostrou até umas fotos.
No Porto? Quando?
Lembrei-me: a semana passada o Luís não ligou durante três dias. Disse que estava “em tarefas”.
Mentira. Estava no Porto a passear.
O Luís apareceu ao sábado. Trazia flores.
Desculpa andar desaparecido. Imenso trabalho
Foste ao Porto?
Parou com o ramo na mão.
Quem te disse?
Não interessa quem. Importa sim: porque mentiste?
Não menti. Só preferi não contar. Imaginei que ficasse triste por não poder ir.
Ir? Eu com um bebé? Nem pensar.
Luís, preciso mesmo de ajuda. Não durmo há semanas.
Contratamos uma ama.
Com que dinheiro? Não tens dado.
Não dou? Pago a renda, as contas de casa
E comida? Fraldas, medicamentos?
Silêncio.
Talvez pudesses arranjar trabalho, nem que fosse a part-time? Não se percebe estar aqui em casa sem fazer nada. Com o ordenado a ama era possível.
Ficar em casa, como se fosse férias!
Peguei no Diogo e ao olhar para o Luís tive uma certeza: nunca me amou. Nunca mesmo.
Vai-te embora.
Como assim?
Sai. E não voltes até decidires: família ou liberdade.
Luís pegou nas chaves e saiu. Dois dias depois enviou: “Estou a pensar.”
Durante esse tempo, não dormi. E pensei, também.
Imaginem: primeira vez em meses, sozinha com os meus pensamentos.
A minha mãe telefonou:
Beatriz, tudo bem? O Luís está aí?
Está em viagem de trabalho.
Mentira outra vez.
Queres que vá aí ajudar?
Eu desenrasco-me.
Só que ela veio na mesma.
Como estão as coisas? olhou em volta. Meu Deus, Beatriz, olha para ti!
Olhei no espelho. Estava um trapo.
E o Luís?
No trabalho.
A esta hora?
Fiquei calada.
O que está a acontecer?
Desabei. Chorei como nunca, um choro verdadeiro e desamparado.
Ele foi-se embora. Disse que quer viver só para ele.
A minha mãe ficou calada. Depois murmurou:
Que grande canalha.
Fiquei surpresa. Não era de insultar.
Sempre achei o Luís fraco. Mas nunca imaginei tanto.
Mãe, será que fui injusta? Devia ter compreendido?
Beatriz, tu estás bem?
Foi aí que percebi: só pensava nele, no cansaço do Luís, no seu conforto.
Em mim, nunca.
O que faço agora?
Vives. Sem ele. É melhor só do que mal acompanhada.
O Luís voltou ao sábado. Maçado deve ter estado a “pensar” numa casa de campo qualquer.
Falamos?
Sim.
Sentámo-nos à mesa.
Beatriz, eu sei que te custa. Mas também me está a ser complicada esta fase. Podemos fazer um acordo? Ajudo no dinheiro, venho visitar o Diogo, mas por agora quero viver noutro lado.
Quanto?
O quê?
Dinheiro. Quanto dás?
Sei lá, uns quinhentos euros.
Quinhentos euros! Para comida, bebé, remédios?
Luís, vai à tua vida.
O quê?!
Ouviste. Não voltes.
Beatriz, é uma proposta racional!
Racional? Queres liberdade e e eu?
E então o Luís disse algo que pôs fim na conversa:
Que liberdade é que tu tens? És mãe, já não contas.
Olhei para ele. Ali estava o verdadeiro Luís. Egoísta infantil, para quem ser mãe é uma sentença.
Vou pedir pensão de alimentos. Pela lei, um quarto do teu salário.
Nem penses nisso!
Vou fazê-lo.
Saiu batendo com a porta. Pela primeira vez, respirei com alívio.
O Diogo chorou. Mas agora, sabia: vou conseguir.
Um ano depois.
O Luís tentou voltar duas vezes.
Dás-me outra oportunidade?
É tarde.
Choramingou, disse que eu era fria. Não convenceu.
Arranjei ama, comecei a trabalhar como enfermeira.
No hospital conheci o Dr. André.
Tens filhos?
Um filho, sim.
E o pai?
Vive só para si.
Apresentei-os. O André trouxe um carrinho de brincar ao Diogo. Jogavam juntos, riam.
Depois passeávamos sempre os três, no Jardim da Estrela.
O Luís soube. Telefonou:
O miúdo faz um ano e tu já estás com outro homem?
E querias o quê? Que ficasse à tua espera?
Mas és mãe!
Sou sim. E daí?
Nunca mais ligou.
O André era diferente. Quando o Diogo ficou doente, veio logo. Quando estava exausta, levava-nos à casa de campo dele no Alentejo.
Agora Diogo tem dois anos. Chama o André de tio. Do Luís já nem se lembra.
O Luís casou de novo. Paga pensão.
Não guardo mágoa.
Agora também vivo para mim. E é maravilhoso.







