O meu amigo e eu temos 60 anos. Decidimos viver juntos e arrendar o outro apartamento.

Hoje escrevo no meu diário sobre o dia importantíssimo em que, depois de conversas longas com a minha amiga Leonor, decidimos partilhar casa. Agora, olhando para trás, quase me rio de atrevimento. Mas quem nos podia julgar? Aos sessenta anos, a vida traz singurătate e, por mais que tentemos, não se encontram facilmente homens com quem dividir alegrias nesta fase. Os filhos e netos vivem longe, em cidades como Braga e Évora, e as nossas famílias suspiravam de alívio ao saber que não ficaríamos aborrecidas no nosso canto. No fundo, isto fez-nos recordar os tempos em que alugávamos o mesmo apartamento, há tantos anos, com as nossas crianças pequeninas a correrem pela casa. Tínhamos personalidades bem diferentes, mas, de alguma forma, conseguíamos cuidar do lar, cozinhar pratos tipicamente portugueses e até programar uma tarde de teatro ou uma visita ao museu para não ficarmos presas entre quatro paredes.

Uma das grandes vantagens que vimos foi estabilidade financeira. A juntar os rendimentos do arrendamento do meu apartamento em Setúbal, e ao dividir as despesas da casa, sentíamo-nos até mais folgadas do que antes. E claro, uma podia sempre cuidar da outra, caso a saúde pregasse partidas, coisa bem importante à nossa idade.

Mas a realidade, como quase sempre, trouxe outras provas. A primeira divergência foi logo na escolha do novo lar. Cada uma de nós queria manter o seu território Leonor não queria deixar o seu T2 em Lisboa e eu preocupada em deixar tudo arrumado na minha casa algarvia. Cedi no final, mas não sem fazer notar que não era hábito meu dar sempre o braço a torcer.

O segundo percalço foi a quantidade de tralha. Quando comecei a transportar as minhas coisas para casa da Leonor, ela logo resmungou que era demais, sem espaço para tudo. Fiquei sem saber se deixava móveis e loiças no apartamento, mas não confiava nos inquilinos. Acabámos por alugar uma garagem ali perto e lá armazenámos tachos, panelas e coisas do género.

Logo achámos uns estudantes para arrendar o meu apartamento, e foi aí que começaram as ironias da vida em comum. Ao princípio, sentia que Leonor queria impor as suas regras e rotinas. Senti-me quase hóspede, mas tentei não dar importância. O problema agravou-se quando percebi que não havia igualdade entre nós. Ela queria que os produtos de limpeza ficassem sempre no armário ao lado do frigorífico, quando eu preferia outra divisão. Nas refeições, confiava no gosto dela, mas acabei por esquecer as minhas preferências já nem me lembrava quando tinha feito pela última vez arroz de pato como gosto.

Outra diferença veio com os hábitos noturnos. Sou muito sensível ao barulho, preciso do silêncio absoluto para descansar, e a Leonor não consegue adormecer de televisão desligada. Nenhum tampão resultava para mim; acordava sempre que mudava de canal ou ria dos concursos da RTP.

As cedências começaram a pesar. Tentávamos dialogar, encontrar equilíbrios, mas pequenas irritações começaram a tomar conta de nós. Até ao dia em que reparei que Leonor estava verdadeiramente incomodada comigo. Por mais que me esforçasse em fazer tudo a seu gosto, nada parecia acalmá-la.

Deixámos de falar. Passou um dia, depois dois, depois uma semana só pensava se teria dito algo que a magoara. Cheguei ao limite: desabei num choro na frente dela. Leonor também chorou, confessou que nem sabia explicar tamanha irritação. Então percebi: cada pessoa precisa do seu espaço e das suas rotinas. É melhor sermos vizinhas que companheiras de casa.

Rescindimos o contrato de arrendamento, e em poucos dias, senti o peso levantar-se. A nossa amizade reencontrou a leveza de outros tempos.

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