– Meu filho, se não deixas essa descarada salafrária, podes considerar que já não tens mãe! Aquela Nídia é pelo menos quinze anos mais velha do que tu! repetia a minha mãe, cada vez com mais força.
– Mãe, não consigo Juro que queria, mas não dá tentava eu justificar-me, num sussurro de derrota.
Eu tinha uma paixão de adolescente, a minha doce Leonor, com catorze anos. Pura, reservada, fascinante. Quando a conheci no baile da escola, eu tinha dezoito. Encantei-me logo com Leonor, de um jeito que quase me punha a chorar.
Com jeitinho e através de uma amiga dela, acabei por conseguir convidá-la para sair. Pensam que ela veio? Nada disso! Virei caçador, decidi ir atrás da presa. Arranjei o telefone da Leonor, ligava, insistia, pedia com todas as forças uma oportunidade. Ela cedeu, finalmente. Mas deixou-me um recado: teria de pedir autorização à mãe antes de qualquer coisa.
Ali estava eu, à porta da casa dela, nervoso, a suar, corado, e o coração acelerado. A mãe da Leonor, para meu alívio, era uma pessoa afável e bem-humorada. Confiou-me a filha mas só por duas horas!, avisou ela.
Passeámos pelo Jardim da Estrela, rimos, falámos sobre sonhos e gostos. Tudo foi perfeitamente inocente. De repente, Leonor olhou-me nos olhos e disse:
– Vasco, tenho namorado. Acho que gosto dele, mas já estou farta de o apanhar com outras. Não tenho de aturar isto. Tenho o meu orgulho. Que te parece se tentarmos ser amigos?
Levantei as sobrancelhas, intrigado. Leonor podia ser tímida, mas também sabia o que queria. Fiquei ainda mais fascinado.
O tempo voou, duas horas passaram num piscar de olhos. Entreguei Leonor sã e salva à mãe.
À medida que os meses iam passando, fui-me tornando dependente da Leonor, não conseguia viver sem ela.
A minha mãe também se deixou encantar pela menina de ouro. Leonor era visita regular na nossa casa. Mãe ensinava-lhe truques de cozinha, segredos para mandar na casa. Às vezes esqueciam-se de mim à conversa animada.
Quando Leonor fez dezoito anos, decidimos pensar em casamento. Todos eu, ela, as duas famílias davam como certo.
Marcámos a boda para o outono.
Chegou o verão. Leonor foi para uma aldeia a visitar a avó. Eu passei os meses na nossa casa de campo, a ajudar a minha mãe na horta.
Andava eu regando os tomateiros quando ouvi uma voz:
– Ó jovem, podes dar-me um pouco de água?
Virei-me e deparei-me com uma mulher de cerca de trinta e cinco anos. Vestia-se de qualquer maneira, despenteada, mas tinha um olhar incendiado. Não me lembrava de tê-la visto antes. Não ia negar-lhe o pedido. Levei-lhe um copo de água do poço:
– Aqui tens. Que te faça bem
Bebeu tudo de uma vez, depois sorriu:
– Ai que sabe tão bem, meu menino! Quase morria de sede. Tirou do saco uma garrafinha de licor de cereja. Prova, é caseiro, em agradecimento.
Aceitei. Gritou um obrigada! e foi-se embora.
Nessa noite, já só na casa, provei o licor durante o jantar. A minha mãe tinha ido a Lisboa, fiquei sozinho. Se ela lá estivesse, nem me deixava tocar na garrafa.
No dia seguinte, a tal mulher voltou. Chamava-se Nídia, vivia ali perto, numa aldeia vizinha. Convidei-a a entrar. Trouxe novamente o licor. Preparei uns petiscos à pressa. Entre conversas e goles, nem notei quando a garrafa terminou. Por muitos anos amaldiçoei-me pelo que se seguiu.
Nídia, com um jeito de raposa, deixou-me completamente rendido. Fiquei preso, como um bezerro atado a uma corda. Nem percebia quem era, andava perdido na tempestade que ela provocava.
Quando dei por mim, Nídia tinha ido embora. De cima de mim, a minha mãe sacudia-me, aflita:
– Vasco, o que aconteceu aqui? Com quem estiveste a beber? Por que está a tua cama parecendo que andou um cavalo aos saltos? exigiu, desconfiada.
Abri os olhos com dificuldade. A cabeça latejava, as mãos tremiam. Nada consegui explicar.
Durante a tarde fui recuperando a consciência, as memórias voltaram e a vergonha, principalmente por Leonor
Mas bastou uma semana, e Nídia estava de novo à porta. E eu ei-lo, contente por ela. A minha mãe, de braços cruzados à porta:
– O que é que quer, mulher?
Corri a puxar a mãe para dentro.
– Mãe, a sério. Podia ao menos querer beber água. Para quê tanto drama?
– Água? Essa mulher é conhecida em todas as aldeias! Nídia malandra, toda a gente a conhece! Anda de casa em casa, sempre com histórias, a caçar homens. Não te quero metido com ela! Expulsa-a, já!
A minha mãe não percebia: já ia tarde. Nídia tinha-me amarrado com aquele seu feitiço de licor. Eu bem sentia que não gostava dela de verdade, que não era dona do meu coração. Mesmo assim, andava atrás dela como uma sombra.
Leonor desapareceu do meu pensamento. E quando contei a Nídia que estava noivo, ela só riu-se:
– Oh, Vasco, a primeira paixão nunca é a noiva verdadeira!
O casamento ficou por terra.
A minha mãe chamou Leonor e contou-lhe tudo.
– Leonor, minha querida, perdoa o Vasco. Não percebe que está a arruinar-se. Se se arrepiar caminho já vai tarde. Não faças caso, segue com a tua vida. Não esperes por ele pediu a minha mãe.
Leonor acabou por casar, foi feliz.
A minha querida mãe, desesperada, resolveu ir ao quartel e pedir que me chamassem para o serviço militar. Tinha adiamento até então. Acabaram por me mandar para Angola. Não vos digo a vida que lá passei Voltei só com sete dedos na mão direita. Ferimento ligeiro, diziam.
A cabeça, porém, nunca voltou ao lugar. Tornei-me indiferente, frio. Nídia esperou por mim. Já tínhamos um filho, fruto de uma semente lançada antes da partida, quando não sabia se algum dia regressaria. Na guerra, sonhava com cinco filhos.
A minha mãe sempre odiou Nídia. Tinha em Leonor uma filha do coração, fazia-lhe casaquinhos para a bebé. Por qualquer razão, minha mãe achava que a filha da Leonor era minha. Isso teria sido um consolo mas era ilusão.
Leonor ia visitá-la, perguntava notícias de mim.
– Oh Leonor, o Vasco continua agarrado aquela desavergonhada. Não sei o que viu nela
Muitos anos mais tarde, a própria Leonor contou-me destas conversas.
Entretanto, fui para o Norte trabalhar. Nídia e os nossos três filhos foram comigo. Lá nasceram mais dois. Realizei o sonho dos cinco filhos. Mas, dois anos depois, a nossa filha mais pequena morreu de pneumonia, levou-a o frio do Norte. Voltámos. Debaixo dos nossos sobreiros, o luto pesa menos.
Cada vez mais, recordava Leonor, a minha noiva esquecida. Uma saudade dolorosa, insuportável. Pedi à minha mãe o número dela. Deu-me o endereço mas avisou: Não vás mexer numa família que já não é tua. Não ressuscites fantasmas.
Liguei. Encontrámo-nos logo. Leonor estava ainda mais bonita. Recebeu-me em casa, apresentou-me ao marido como amigo de infância. Pareceu-me que ele confiava tanto nela que até foi para o trabalho noturno, deixando-nos sozinhos.
Havia champanhe na mesa, frutas, um silêncio inquietante. A filha da Leonor estava na casa da avó.
– Então Vasco, finalmente. Soube sempre de ti pela tua mãe. Conta-me: como tens vivido? Leonor fitou-me profundamente nos olhos.
– Desculpa, Leonor. Assim aconteceu Já nada muda. Tenho quatro filhos balbuciei.
– Não há nada para mudar, Vasco. Encontrámo-nos, lembrámos o que passou, chega. Só tenho pena da tua mãe, sofre tanto por ti. Sê meigo com ela pediu Leonor.
Olhei para Leonor. Era como se o tempo não lhe tocasse. Linda, igual àquela rapariga do ginásio. Peguei-lhe na mão, beijei-a, cheio de ternura.
– Leonor, amo-te como antes, como na juventude. Só que o nosso amor já partiu. Não se pode reescrever a vida. Peço-te perdão!
– Vá, Vasco, está na hora. Vai. É tarde encerrou Leonor, firme.
Mas como partir? A paixão, a saudade, aquela força a puxar-me para ela não resisti.
Na manhã seguinte fui embora, em silêncio. Ela dormia, serena.
Continuámos a encontrar-nos secretamente, durante três anos. Até que Leonor e a família mudaram-se para um subúrbio e nunca mais falámos.
Divorciei-me de Nídia, já os filhos eram crescidos. A minha mãe esteve sempre certa. Uma salafrária é sempre uma salafrária. Passou pela minha vida, calcorreou a minha sorte, rasgou-me o coração.
Por muito que ferva, a água é sempre água.
No fim, só um filho ficou mesmo meu. O primeiro rapazO tempo, esse velho carrasco, tratou de alinhar as peças restantes. Os meus filhos seguiram vidas próprias, cada qual carregando um silêncio diferente, e a minha mãe partiu numa tarde dourada, sorrindo para mim pela última vez, reconciliada com o destino e com o filho que não soube escolher.
Fiquei só só com a sombra das duas mulheres que marcaram a bússola tresloucada do meu coração. De Leonor, herdei a lembrança de um amor impossível. De Nídia, a prova viva de que a paixão sem sossego leva tudo à exaustão.
Ainda hoje passeio entre os sobreiros. As mãos já não procuram companhia, mas de vez em quando ouço um riso na brisa, vejo cabelos claros esvoaçando entre as folhas, sinto a doçura de um olhar antigo. Sento-me à sombra e sorrio. Compreendo, finalmente, que há amores para viver, e outros apenas para recordar e é essa saudade que, de alguma forma, acaba por nos salvar.







