Chegou ele ao seu septuagésimo aniversário, tendo criado três filhos. O marido da Ana morreu há trinta anos, e ele nunca se casou outra vez. Não encontrou, não acertou, não teve sorte Dáse um milhão de razões, mas será que vale a pena enumerálas? Não lhe sobrava tempo para isso.
Os dois rapazes eram, à maneira de muitos adolescentes lisboetas, briguentos e amantes de confusões. Mudavaos de escola até que, por fim, caíram nas mãos de um excelente professor de física no Colégio de SãoJosé, que percebeu um talento nato nos meninos. De pronto, as brigas, as discussões e os problemas desapareceram como mágica.
A filha, a Inês, tinha dificuldades a conversar com os colegas. O psicólogo da escola já lhe recomendava encaminhála a um psiquiatra. Mas, então, chegou à escola um novo professor de Literatura, que criou um clube de escrita para iniciantes. E foi isso. Inês passou a escrever de manhã até à noite; logo os seus contos apareceram primeiro no jornal da escola e depois em todos os clubes literários da cidade.
Em suma, os rapazes foram aceites numa bolsa de estudos num dos prestigiados institutos de Ciências e Tecnologias de Coimbra, e a Inês ingressou num curso de Letras.
E então ele ficou só. Sentiuse só de repente, como se o silêncio fosse um lobo a uivar ao longe. Começou a pescar no Tejo, a cultivar o huerto e a criar porcos no terreno enorme que herdara ao lado do rio. Rendeu bem, embora descobrisse que um engenheiro numa fábrica de azulejos ganhava bem menos do que ele.
Pensouse então que poderia ainda ajudar os filhos: comprarles carros modestos, darlhes um dinheirinho extra e garantirlhes roupas decentes. Mas, ao fazêlo, o tempo ficou ainda mais escasso. Passavase o dia toda a cuidar da quinta e a fazer pequenos negócios, e ele gostava assim.
Dez anos mais tarde, o aniversario de setenta aproximavase. Planejava comemorálo na solidão. Os rapazes já tinham famílias, mas trabalhavam num projeto ultrasecreto para o Ministério da Defesa e não podiam libertarse nos fins de semana. A Inês viajava de um simpósio de escritores a outro, sempre rodeada de jornalistas. Por isso, não se atreveu a convidar ninguém.
Algum dia, pensava ele. Não há nada para celebrar aqui. Só eu, só
Vou dar uma volta no quintal e, à noite, beber um copo de vinho do Porto. Vou lembrar a Ana e contarlhe como cresceram.
Chegou o dia. Levantouse ao alvorecer para cuidar dos porcos eram de engorda especial, assim se dizia. Saindo de casa, numa clareira ainda iluminada pelas estrelas, deparouse com algo estranho no centro da relva. Um objeto alongado, enrolado em um pano de lona.
Mas o que é isto? exclamou, e, de repente, luzes de projecção se acenderam!
Ficaram a clareira iluminada e surgiram, do outro lado da casa, os seus filhos com as esposas, netos e alguns parentes. A Inês apareceu acompanhada de um senhor alto, de óculos grossos, que segurava um balão. Todos tinham balões nas mãos, sopravam pelos canudos e apertavam botões de pistolas de ar comprimido, gritando e acenando.
Feliz aniversário, papá! bradaram em coro.
Ele já tinha esquecido o objeto estranho. Os netos não lhe permitiram voltar à casa; as esposas já corriam para a mesa, a preparar o banquete.
Espera, papá, espera, disse a Inês. Posso vendarte os olhos?
Então vá em frente, concordou ele.
Ela amarrou-lhe um pano grosso na nuca, girouo algumas vezes e conduziuo a outro lado.
O que mais ideais? perguntou ele, curioso.
Um presente, respondeu um dos filhos.
Espero que não seja caro, resmungou ele. Não preciso de nada.
Não te preocupes, pai, disse outro. É só um mimo barato, um sinal de gratidão.
Levaramo a um local, e a Inês tirou a venda. A música altofalante explodiu, o som da bateria encheu o ar. Diante deles estava o objeto, ainda coberto. As crianças puxaram o pano de lona.
Lá, sob a luz dos refletores, brilhava um Volkswagen Fusca, reluzente como se fosse novo. Ele quase desmaiou de surpresa e quase caiu ao chão, mas foi apanhado e sentado numa cadeira.
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus, repetia ele, atordoado.
Calma, papá, lhe borrifou água a Inês. Tu sempre quiseste este carro.
Mas isso deve ser inacreditavelmente caro, gemeu o velho.
Não custa mais que o teu sorriso, respondeu um dos filhos.
A Inês o conduziu ao interior. Quando tentou sentarse, encontrouse com uma caixa de cartão.
O que será? indagou ele.
Abre, disse a filha.
Ele abriu a caixa e, do fundo, dois olhos lhe olharam. Tirouse um pequeno bichinho felpudo e abraçouo.
Um verdadeiro gatinho siamês! Como o que tínhamos com a tua mãe. Lembraste? Bomba. Quando éramos pequenos adorávamoso.
Claro que lembramos, papá, responderam as crianças.
Não se sentou no Fusca. Subiu ao segundo piso da sua casa, ao seu quarto, e mostrou a foto da Ana ao gatinho. Lágrimas escorriam-lhe pelas bochechas.
Vês, Marta? Vês? Consegui. Não se esqueceram Vês? sussurrou ao retrato.
Mas os filhos não lhe deixaram ficar só por muito tempo. A mesa estava posta, os brindes começavam. A Inês, a sussurrar ao ouvido, contou que estava à quarta gravidez e que o noivo dela ia visitálos.
Vais ficar aqui connosco, já que o teu trabalho de escritora pode ser feito em qualquer lado, disse ela. O noivo vai ao Norte da Inglaterra visitar os pais dele e, dentro de duas semanas, casarnos na igreja da aldeia.
Não se opões, papá? perguntou a filha.
É um sonho mágico, respondeu ele, beijandoa na testa.
O dia passou entre conversas, petiscos, copos de vinho e recordações. Todos estavam muito felizes. À noite, ele foi ao túmulo da Ana, sentouse longamente e conversou com ela como se ainda estivesse ali.
A vida começava a ganhar novo sentido. Aquela máquina velha poderia levaro a comprar roupas novas, a passear na grande cidade de Porto.
Na cama, dormia o pequeno gatinho siamês.
Tomé, disse o homem, repetindo o nome. Tomé.
Tomé ronronou e esticouse, exibindo ainda a sua pequenina estatura. O homem, deitado, acariciava a barriga quente e felpuda e adormeceu.
Na manhã seguinte, acordava cedo novamente: alimentar os porcos, cuidar da horta, pescar no Tejo nada mudava. No andar de baixo, a Inês e o noivo ainda dormiam.
Os rapazes partiram com as famílias, e o silêncio voltou a reinar. Tomé seguia o seu dono, escorregou para o cocho dos porcos e ficou preso nas redes de pesca de um barco. Depois tentou comer a isca de peixe.
Como se a juventude voltasse, riu o homem, acariciando o travesso.
Tomé miou, agarrouse à mão do velho com as patinhas e mordeuo levemente.
Ah, seu bandido! exclamou, a gargalhar.
Esta história não tem grande importância. É apenas um lembrete para quem ainda pode visitar os pais:
Não espere pelo amanhã.
Viaje agora!







