Não conseguiram educar bem os vossos filhos. Já o Alexandre, filho do Miguel…

Não foste capaz de educar decentemente os teus filhos. Olha o que é o Miguel do Duarte…

No início, Leonor não percebia porque é que a mãe implicava tanto com ela. Até parecia que em criança era tudo perfeito. Aliás, era sempre usada de exemplo para o irmão mais velho, sempre a ouvir elogios.

Viviam assim-assim, sem luxo mas sem faltar nada. O essencial havia, para os extras juntavam dinheiro. Até tinham carro, velho, mas andava. Sempre que avariava, lá ia o pai pôr as mãos à obra.

Depois do secundário, o irmão Duarte foi para Lisboa. Um dinheirão ali metido: propinas, renda, comida…

Leonor reparava bem no aperto os pais cortavam em tudo. Só que ela também estava quase a ir para a faculdade, dois anos depois do irmão.

Mais uma lisboeta não aguentamos. Aqui também há universidade, entra cá, ouviu da mãe.

Lá entrou. Arranjou trabalho, primeiro como estafeta ao fim de semana, depois empregada de mesa no café ao lado de casa. Andava a estudar com bolsa, comprava roupa com o que juntava, e às vezes até punha o jantar na mesa lá de casa.

Muito bem, filha, fazes falta cá em casa. Estudas e trabalhas. O Duarte é que não consegue, é muita matéria, exigente. Coitado, anda sempre cansado.

Também eu ando de rastos. Faço trabalhos à noite.

Não é a mesma coisa. Em casa é sempre diferente.

O irmão, lá recebeu o diploma um dia destes e começou a procurar emprego. Voltar à terrinha, para quê? Lisboa é outra coisa. Trabalho havia, mas não ao gosto dele. Querias era muito. Os pais continuaram a apoiar.

É para ele se fixar lá, depois as coisas melhoram.

E melhoraram, pois claro. O Duarte arranjou emprego, e de repente casou-se com a filha do patrão, e em velocidade relâmpago foi casamento de urgência.

Nasceu um rapaz aquilo era colarinho branco! Os sogros compraram apartamento, o sogro deu-lhe uma promoção e aumentou-lhe o ordenado. Que sorte! Os pais da Leonor respiraram de alívio.

A Leonor também casou, mas menos bem. Nem patrão, nem filho de patrão. Foram comprando a casa à custa deles, esquece lá Lisboa.

Tiveram uma filha primeiro, depois gémeos. Esperavam o segundo e veio logo o terceiro. Custou, mas nunca se queixaram. Os miúdos cresceram, foram à escola como todos.

Depois de trinta e cinco anos juntos, os pais decidiram finalmente fazer uma festa. Os 25 anos passaram ao lado, os 30 idem, nunca havia dinheiro, mas agora, finalmente, arriscaram.

O Duarte veio com o filho. A esposa não pôde vir, mas mandou prenda: um vale para comprar electrodomésticos. Insistiu logo numa máquina de lavar loiça.

O Duarte entregou o presente com pompa, compraram, montaram logo. A mãe ficou exultante o resto da noite, a mostrar a todos os convidados. No fim do jantar, nada de lavar loiça que para isso é que serve tecnologia!

O presente da Leonor e família, coitado, eclipsou-se entre tanto brilho do eletrodoméstico. Uma viagem a dois, assim de segunda lua de mel, bem mais cara. Só que, ao lado da máquina de lavar, perdeu todo o charme.

Os pais lá foram de férias, agradeceram, claro, mas não deixaram de comentar que a Leonor gastava dinheiro à toa. As férias acabaram, mas a máquina continua lá a dar serviço.

E depois começou… A cada oportunidade, a mãe dava a bicadinha: o filho na capital, isso é que é gente! Carreira brilhante, apartamento, tudo no ponto!

Só um filho, não três a correr pela casa. Para quê ter três? Há que educá-los! Agora é fácil, mas depois… Olha o Duarte…

Ele tem casa cheia de coisas modernas, um aspirador que anda sozinho, luzes automáticas, máquina de lavar loiça, comida entregue à porta e até uma empregada!

Mãe, eu sei fazer tudo. Os miúdos e o marido ajudam.

Mas olha o Duarte…

Mas o irmão…

O tempo passou e os filhos da Leonor cresceram. Ninguém foi para universidades em Lisboa, mas todos tiraram o curso superior ali mesmo, na terra deles. Sobre isso, a mãe também tinha o seu comentário.

Não conseguiste educar filhos decentemente. Olha o Miguel do Duarte…

Oh mãe, os nossos são bons rapazes, e sobre o Miguel tu é que não sabes tudo! Quando estivemos lá vimos bem… nem tudo é ouro.

Não inventes desculpas. Se tu não prestas, os teus filhos então… só criaste pobretanas!

Pois é, mãe, eu não dei em nada. Um emprego bom, mas não em Lisboa. Um marido competente, mas não o certo. Filhos com boas notas e diplomas, mas da terra.

Casa toda remodelada, só não temos empregada. O aspirador somos nós, a máquina de lavar loiça somos nós quando calha.

Também vos ajudamos, só que não assim tanto! O teu Duarte nem dinheiro para medicamentos vos manda, tem muitos gastos por lá!

Ele sim, é alguém! Tu és ninguém!

Até que um dia o Duarte apareceu em casa dos pais. A mãe achava que vinha só de visita, mas era de vez. A mulher pediu o divórcio, o sogro despediu-o, e com o filho também havia sarilhos.

Trabalho na terra, nada feito. O salário, ao pé do que ganhava em Lisboa, era miserável.

Leonor, decidimos abrir um negócio para o Duarte. Ele está pronto. Não vai agora ser mais um engenheiro vulgar depois da cidade grande, ninguém merece, anunciou a mãe um dia.

Decidiram? Força aí.

Precisamos da tua ajuda, filha. Dinheiro, um crédito. Vocês não precisam, não vivem na capital…

A questão é que o Duarte também já não vive lá, mãe! Hora de pôr os pés na terra.

Vocês não precisam, ele sim, ele…

Mãe, ajudamos os nossos filhos, ajudamos-vos a vocês. Não é muito, mas cada um tem direito ao pouco possível. Estamos a precisar de trocar de carro e de tratar de umas coisitas.

O carro espera! O dinheiro para o Duarte é que é importante.

Eu já sei. O Duarte vai sempre à frente. Assim que foi para Lisboa começou esta história. E não, eu nunca quis estudar lá, mas nem aqui me ajudaram.

A casa dos avós foi à vida só para o mano andar e viver em Lisboa. Até o carro era dos avós do pai, porque o Duarte, ó grande homem, precisava.

Uma vez até pedi dinheiro emprestado para um carrinho de gémeos. Negaram! E achas que íamos visitar o Duarte, passear para Lisboa? Só entregámos prendas vossas! Nem na casa dele ficávamos, ficávamos em hotel. A mulher dele não gostava de provincianos!

Agora já está divorciado e precisa é de ajuda. Nem casa tem.

O carro também já era, todo amolgado. O filho dele deu-lhe bem cabo do motor.

Não vale a pena discutir. Só ajudar.

Não, mãe! Aqui há trabalho, e os ordenados são decentes. Ah pois, para ele são uma ninharia. Para nós servem, para ele são esmola.

E o que é que posso dar? Caridade? Dinheiro para negócios, para carro, para casa nova…? Não, mãe. É estranho ser-se tão bem sucedido e vir pedir dinheiro à irmã pobre, a tal que nem gente era!

Mas tu falas-me assim?

Não te preocupes! Eu percebi, só o Duarte é que é gente. Agora que voltou, que ajude ele em casa. Chegou a vez dele.

Leonor! Obrigas-nos a vender a casa! Percebes o disparate?

Sou eu? Então pelo menos comprem um quartinho para não irem para debaixo da ponte.

Os pais venderam a casa, mudaram-se para um T0 dos antigos, minusculíssimo. O resto do dinheiro para o Duarte, que meteu-se a caminho de Lisboa outra vez. Qual era o sentido de ficar naquela vila parva?

Negócio não se viu, mas o Duarte voltou a ser gente lá nos olhos da mãe. Entretanto, ia dizendo à Leonor que ela era uma nula, sempre a pedir ajuda, que precisava de obras no cubículo novo. A Leonor ajudou, mas obras, não.

Eu sei que a casa acabará por ser do mano, mais vale ele pôr tudo a brilhar. Que trate a grande pessoa!

O dinheiro do Duarte acabou-se e teve de voltar a casa dos pais outra vez. Num estúdio antigo, aquilo era acampamento permanente. Cama de campanha na cozinha só falta de ar.

Mas ao menos, durante uns anos, o Duarte foi gente importante. Afinal, parece que os pais apostaram no cavalo errado. O que é que acham? Comentem e deixem o vosso gosto!

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