A senhora que ouviu a história da avó da Leonor pagou as compras pela pobre idosa. A avó da Leonor agradeceu de coração à sua amiga e disse-lhe que era a única pessoa em quem podia confiar para a ajudar.

Olha, deixa-me contar-te o que aconteceu, quase como se estivési la comigo. Estava a conversar com a Dona Carminda, uma senhora já de idade lá do bairro, e ela, com aquele olhar meigo, contou-me que está completamente sozinha, sem família ou amigos que lhe deem uma mão. Falou-me com tristeza que a reforma dela mal chega para pagar a renda e os medicamentos, quanto mais para comer o suficiente numa semana. Uma amiga nossa acabou por pagar-lhe as compras nesse dia, mesmo de coração.

Uns dias depois, recebi uma chamada da minha amiga de infância, a Sílvia. Ela perguntou-me se estava tudo bem com a minha família. Pelo que percebi, um amigo nosso tinha visto por acaso a minha avó, a Dona Beatriz, num supermercado e olha que ela nem mora sequer naquela zona!

A minha avó Beatriz sempre foi cheia de energia, até dava aulas de matemática lá na escola do bairro quando era mais nova. Agora está reformada, mas todos os ex-alunos ainda a cumprimentam com respeito quando passam por ela. O meu amigo viu-a naquele supermercado, mas não como a professora vivaz de antigamente viu antes uma senhora idosa e triste.

A avó Beatriz acabou por contar à senhora que a escutava, com um tom baixo, que estava sozinha e precisava de ajuda. Partilhou que a pensão pequena dela se vai logo com o arrendamento e os remédios, e que não sobra quase nada para a comida. Nessa altura, a tal amiga fez questão de lhe comprar algumas mercearias para ajudar.

Curiosamente, a minha amiga de infância disse-me que, ao sair do supermercado, viu uma senhora idosa e foi ter com ela, pensando ser também alguém a precisar de auxílio. Mas essa senhora apressou-se a dizer volta para trás e foi-se embora rapidamente. Pelos vistos, foi só um mal-entendido a avó da minha amiga tem boas condições e nós ajudamos sempre que é preciso, mas aquela senhora queria apenas comprar algumas coisas para comer.

Nessa noite, fui visitar a minha avó Beatriz. Não andei com rodeios e perguntei-lhe logo o que se passava. Depois de me explicar tudo, confesso que fiquei sem saber muito bem como agir com ela.

A verdade é que ela anda a experimentar um truque novo: vai a supermercados longe de casa, mesmo longe para ninguém conhecido a ver. Mas lá está, acabei por topar a situação porque uma das minhas melhores amigas apareceu no caminho! Por incrível que pareça, o truque dela resulta quase sempre geralmente, seis em cada dez vezes, disse ela. E depois, o que faz com os produtos? Oferece tudo na igreja do bairro em vez de ficar para si por isso, indiretamente, está a ajudar os mais necessitados!

Juro que não entendo de onde vem esta vontade de fazer experiências assim nesta fase da vida dela. Se tem tanto tempo livre, porque não adota um cãozinho ou um periquito qualquer? Que pena! A minha amiga Sílvia pediu-me para não contar isto a ninguém e pronto, cá estou eu a partilhar só contigo.

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A senhora que ouviu a história da avó da Leonor pagou as compras pela pobre idosa. A avó da Leonor agradeceu de coração à sua amiga e disse-lhe que era a única pessoa em quem podia confiar para a ajudar.
Lembro-me vividamente do dia em que assinei os papéis das terras do meu pai. Era uma manhã fria, e dentro de mim havia uma mistura estranha de ansiedade e expectativa.