Não se deve pegar o que não é seu

Não se deve pegar o que é dos outros
A única filha dos pais, Filomena, era a princesa da casa tudo girava em torno dela. Os pais, gente fina, trabalhavam numa instituição de investigação científica: o pai era professor universitário. Desde que Filomena se lembrava, a casa estava sempre cheia de visitas.
Dona Teresa mãe de Filomena era uma verdadeira mestre da culinária, os seus bolos e tartes eram lendários e o modo como punha a mesa fazia qualquer um ter vontade de devorar tudo.
Ó Teresa, tu és um fenómeno, é sempre comida boa e mesa bonita! Só de olhar já me cresce o apetite brincavam os convidados sempre que apareciam.
Na escola, Filomena ia bem, não era uma géni, mas também nunca dava desgostos aos pais: notas sólidas, sempre entre quatro e cinco (agora é escala de vinte, já nos perdemos nas contas). Nada de pressão para estudar, ela era responsável, disciplinada desde pequena. Chegava, trocava de roupa, comia e ia estudar.
Filomena, já foste à aula de música hoje?
Sim, mãe, já lá fui, acabei de chegar.
Filomena frequentava a escola de música, especialidade em violino. Ela adorava tocar pegava no instrumento e esquecia-se do mundo, inspirava-se e só parava quando já era noite. Era a referência da turma, o professor falava dela como exemplo.
Os anos de escola voaram. Filomena era simpática e tinha muitos amigos. Morava com os pais numa cidade grande Lisboa, claro e queria entrar para a universidade lá mesmo.
Tu não tens de preocupar, Filomena, os teus pais trabalham na universidade, ainda te vão arranjar um lugar de qualquer maneira! Eu, coitada, com o esforço da minha mãe, nem sei se vou conseguir ir além do secundário comentava a amiga Gracinda.
E vais para onde então?
Para lado nenhum, vou trabalhar. Só tenho mãe, ela faz o que pode, vou tentar ajudar e ganhar uns trocos. Sempre fica mais fácil para ela respondia Gracinda, que, em bom português, ia levando vida de poupança
Filomena não entendia, pois não lhe faltava nada, os pais tinham bons empregos.
Mãe, pai, preciso de um vestido novo e sapatos para o baile de finalistas avisou.
Claro, filha, amanhã é sábado, vamos às lojas prometeu Teresa.
Compraram um vestido lindo, sapatos a condizer, agora era só passar nos exames e celebrar o finalista. E que venha a vida adulta.
Filomena entrou na Universidade Técnica de Lisboa, claro que os pais deram um empurrãozito, mas ela também era capaz sem favores. O networking da mãe era impressionante, havia sempre um conhecido ou outro para garantir o futuro da filha.
Pronto, queridos pais, agora sou estudante universitária! anunciou Filomena ao ver seu nome na lista.
Parabéns, filha! exclamou o pai, oferecendo-lhe um telemóvel topo de gama (na altura, nem toda a gente tinha um, era o luxo!).
Na universidade, tudo era novo: aulas, professores, festas, trabalhos, mil aventuras. A vida mudou de figura nada de escola básica, era mundo de adultos. A Gracinda trabalhava numa fábrica, nem se viam muito, era outro ritmo, outra realidade.
No verão, Filomena juntou-se a grupos de voluntariado era uma animação! Simpática e extrovertida, muitos rapazes gostavam dela, mas nada de grandes paixões, só encontros passageiros, amizade tudo leve.
No último ano, conheceu Simão rapaz que já tinha cumprido serviço militar, trabalhava numa oficina de eletrodomésticos. Conheceram-se por acaso no cinema, onde Filomena foi com Gracinda (finalmente conseguiram sair juntas):
Olá, meninas, posso juntar-me a vocês? perguntou educadamente Simão, enquanto elas bebiam um sumo antes do filme.
Pode sim respondeu Gracinda, mas ele não tirava os olhos de Filomena.
Simão apresentou-se hoje está cheio de gente aqui, quase que não se arranja lugar justificou-se, olhando à volta.
Sou Gracinda, e esta é Filomena respondeu a amiga, sorrindo.
Vim ver este filme, foi recomendado por um amigo.
Nós também, faz meses que não conseguimos estar juntas: eu trabalho, ela estuda explicou Gracinda, interessada, mas Simão só tinha olhos para Filomena.
Combinaram depois do filme encontrar-se outra vez, pois tinham lugares separados. Passearam juntos até tarde, Simão acompanhou as duas primeiro Gracinda, depois Filomena e pediu-lhe o número de telemóvel.
Simão era um charme, culto e conversador, Filomena apaixonou-se. Começaram a namorar e em meio ano casaram. Os pais dela gostaram do futuro genro, aprovaram o casamento.
Filomena trabalhou pouco depois de terminar o curso, logo foi para licença de maternidade, nasceu o filho Martim. Era feliz com Simão, ele era um marido dedicado, pai protetor, dava apoio em tudo.
Mãe, tive muita sorte com o Simão repetia Filomena , é como viver na fortaleza!
Estou contente, filha respondia Teresa. Simão é mesmo bom homem, família em primeiro lugar.
O pai também adorava o genro, jogavam xadrez juntos, conversavam de tudo.
Filomena teve de recomeçar do zero
Mas felicidade, como bem sabe o português, dura pouco Martim tinha cinco anos quando Simão e Filomena sofreram um acidente. Estavam num carro, apareceu uma mota a alta velocidade Filomena foi projetada fora do carro, provavelmente salvou-lhe a vida, mas Simão morreu. Felizmente, Martim estava com os avós.
Meu Deus, porquê? murmurava Filomena, meio consciente no hospital, com a mãe ao lado.
Graças a Deus, Filomena, acordaste chorava Teresa. Fraturaste a perna e costelas, mas estás viva, minha querida.
Simão foi sepultado por Filomena em cadeira de rodas. Recuperou lentamente, os pais ajudaram, ficou a viver com Martim em casa deles. Estava profunda e tristemente deprimida, só Martim a salvava.
Obrigada, meu Deus, meu filho está bem rezava ela a olhar para o santinho da sala. Por causa do Martim, eu consegui continuar.
Filomena decidiu dar um novo rumo.
Mãe, decidi mudar para a costa algarvia. Temos lá uma casa, quero viver junto ao mar. O clima vai melhorar a minha saúde e Martim adora o mar. Podem nos visitar. Aqui só penso no Simão
Os pais aceitaram. Mudou-se, encontrou paz, arranjou trabalho de administradora num hotel, conheceu novos amigos. Martim entrou para a escola. Nos fins de semana, ia para a praia, apanhava sol, passeava com o filho.
Num desses passeios, Filomena perdeu a aliança de casamento na areia era valiosa, cheia de significado. Chorou, revirou a praia.
Porque está a chorar? ouviu uma voz masculina.
Perdi o meu anel é muito importante para mim.
Quem é que vai à praia com anéis?
Eu vou mais perguntas?
Ok, vou ajudar disse o homem chamo-me Cristiano, e tu?
Filomena respondeu enquanto juntos procuravam pela areia, até encontrar o anel nos bolsos das calças.
Obrigada, Cristiano.
Vieste há muito tempo para cá? perguntou Cristiano vim com um amigo, ele ficou no hotel, ontem exagerou, por isso hoje estou sozinho.
Eu vivo aqui, na verdade respondeu Filomena.
Conversaram e Cristiano convidou-a para um café.
Está na hora de sair da praia concordou Filomena , está calor demais, bora para o café!
No café fresquinho, beberam cocktails gelados. Filomena estava tranquila, o filho estava com os avós, ia ficar o mês todo com eles, e depois voltava para a escola. Cristiano logo avisou: era casado, tinha uma filha, trabalhava no aeroporto da cidade dele.
Filomena contou-lhe a sua história, a morte do marido.
Por isso comecei tudo de novo confessou ela. Mudámos para cá.
Cristiano era simples, bem-disposto, sem dramas. Levou-a a casa, despediram-se ali. Três dias depois, encontraram-se de novo Cristiano esperava-a com um grande ramo de flores ao sair do trabalho.
Olá, estava cheio de saudades disse ele, entregando as flores.
Olá, Cristiano Filomena ficou feliz. Amanhã começo férias anunciou.
Maravilha, temos mais tempo juntos! Cristiano ficou contente. Quero levar-te a jantar e apresentar-te ao meu amigo.
Divertiram-se no restaurante, depois Cristiano ficou na casa dela. O inevitável aconteceu
Oh Deus, apaixonei-me outra vez pensou Filomena.
Nunca mais tivera ninguém após a morte de Simão, mas passou quase todas as férias com Cristiano. Ele pediu férias sem vencimento, mas teve de voltar à cidade dele. A despedida custou muito. Uma semana depois, Cristiano ligou:
Filomena, volto aí em breve percebi que não consigo viver sem ti. Contei tudo à minha mulher, ela pediu o divórcio.
O destino queria testar ainda mais Filomena
Filomena ficou radiante nem pensou na mulher e filha dele, só queria ser feliz.
Sou mulher, mereço felicidade!
Cristiano voltou e logo se casaram depois do divórcio. Um ano depois, Filomena teve uma filha. Estavam felizes.
Mas parece que o destino queria mais um teste. A felicidade durou dez anos. Cristiano começou a curtir fora de casa cidade de férias, tentações mil. Vieram as discussões, ele mentiu por um tempo, mas depois confessou. Filomena já o tinha visto nas praias com raparigas novas.
Filomena pediu divórcio, Cristiano voltou à sua cidade, reconciliou-se com a ex-mulher. Não deixou de apoiar a filha, pagava pensão generosa. Os filhos cresceram, seguiram suas vidas: Martim foi para Lisboa, estudou e casou lá. A filha ficou com Filomena, depois casou e foi morar com o marido.
Filomena tem dois netos e uma neta. Vão visitá-la, os pais já idosos também aparecem com Martim. Toda a vida de Filomena é feita dos filhos e netos.
E Cristiano? Nunca mais voltou a aparecer. Filomena decidiu: basta de homens, já aprendeu.
Paguei caro por me apaixonar por um homem casado não se deve pegar o que não nos pertence, não se constrói felicidade sobre a infelicidade dos outros.
Filomena não quer mais testar o destino, tem medo do bumerangue e das suas dores. Vive sozinha.
Obrigada por terem lido, pelas mensagens e apoio. Boa sorte e felicidades a todos!

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