A Casa de Papel

Casa de Papel

– Mariana, vamos chegar atrasadas!

– Já vou, pai! Mariana pula numa perna só, calçando a meia.

As meias dela são engraçadas. De cores diferentes. Uma cor-de-rosa, a outra verde. A tia de Mariana, Patrícia, que lhe deu. As meias e os ténis. Também desiguais. Diz que agora é moda.

Mariana acredita na Patrícia. A tia sempre foi entendida em moda. Dizia que, se a natureza não dá beleza, é preciso compensar de outras formas.

Com essa ideia da beleza, Mariana não concorda com a tia. Que importa não se encaixar nos padrões atuais? Magra como um feijão, como dizia a avó, morena de olhos cinzentos, Patrícia era tão marcante que Mariana só se ria ao vê-las juntas na rua.

– Ninguém te vê, claro! Olha para trás, até ficam todos de pescoço torcido!

– Quem? Patrícia parava e olhava à volta, divertida.

Nesses momentos, Mariana desatava-se a rir. No fundo, tia Patrícia era quase uma criança. Apesar de mais velha, Mariana sentia-se sempre meio adulta ao pé dela.

A ingenuidade de Patrícia espantava-a.

– Ele disse-me que gostava de mim! Mariana, não sei o que fazer!

– E tu gostas dele?

– Muito! Mas tenho medo!

– Porquê?

– Bonito demais. Todas as colegas do escritório andam atrás dele. E ele foi logo reparar em mim. Deve ser engano!

– Patrícia, tu não és nenhum erro. És linda e inteligente! Por que não gostavam de ti?

A pergunta era mais para a tia do que para si mesma. Mariana tentava, tentava, mas não conseguia furar a falta de confiança da tia. Chegava a zangar-se, a chorar, mas sem sucesso.

– Filha, custa muito mudar o que se constrói durante anos António, o pai de Mariana, abanava a cabeça a consolar a filha adolescente.

– Por quem, pai? E para quê? Porque é que transformam uma rapariga bonita numa insegura? Tu nunca me educaste assim!

– Eu não, mas tive bons professores.

– E a Patrícia? Pai, eu sei que estás a falar da avó. Mas nunca dizes nada direto.

– O que queres que te diga, filha? Que a minha mãe não soube criar a filha? Isso faz bem a alguém? Já és crescida e sabes o que é respeito. A minha mãe criou-nos sozinha, sem o meu pai. Depois veio o meu padrasto. Sabes que sempre gostei e respeitei o Pedro. Ele substituiu-me o pai. Teve paciência enquanto eu me habituava e, depois, ensinou-me muito. Mas não deixou muito a minha mãe intervir na minha educação. Sempre disse que homens educam homens.

– E então, pai? Por que não se meteu ele na educação da Patrícia?

– Tentou, mas aí o princípio dele jogou contra ele. Era uma menina. A mãe é que a educou a seu jeito. Não a julgues. Também teve razões.

– Quais, pai? Quando olho para a Patrícia só me apetece chorar! Ela é tão boa pessoa! Até demais. Mas… tão insegura, tão infeliz até. Tem medo de tudo! Porquê?

– Sabes, filha, a tua avó sempre teve medo pela Patrícia. Talvez venha daí. Era um medo doentio! Levava-a pela mão quase até ao fim da escola. Não sei porquê, enfiou na cabeça que lhe podia acontecer qualquer coisa. A Patrícia foi muito desejada. A mãe esteve em risco quase toda a gravidez. Foi nessa altura que fiquei mais próximo do Pedro. Dois homens, e ela ali no hospital. Vi o Pedro a fazer sopas, sumo de romã, ia ao mercado cedo buscar fígado fresco. Talvez só aí percebi o quanto ele a amava. E o que é ser homem. O Pedro não era de palavras. Tu não o conheceste, é pena.

– Não me lembro, pai… Mas lembro-me do cavalinho de madeira que ele fez para mim.

– Sim! Ele fez enquanto esperava por ti. Era habilidoso de mãos. Não estava bem, mas continuava a trabalhar. Tinha medo de não acabar a tempo.

– E onde está?

– No sótão. Quando tiver netos, vou buscá-la.

– Pai!

– O quê?! Tu um dia ainda me fazes avô!

– Isso ainda falta!

– Ufa! Menos mal!

– Pai!

– O que foi agora?

António desviava a conversa e aliviava o ambiente. Perguntas não iam faltar, mas podia não saber responder a todas.

Em casa deles, nunca nada foi fácil. Patrícia, em miúda, dizia até que moravam numa casa de papel.

– Porquê de papel, Patrícia?

António, já no secundário, magricela, cheio de borbulhas e sempre ocupado, arranjava tempo para conversar com a irmã. Ela fazia-o rir.

– Porque é como o teu cravo de papel! disse Patrícia, rodando o cravo que o irmão dobrara. Olha que bonito! E se eu fizer isto?

Pôs o cravo na palma da mão e bateu por cima com a outra.

– Para quê?! António assustou-se com o barulho.

– Está vazio por dentro! Vês? Faz outro!

– Vais estragar também?

– Não. Presta atenção.

Com esforço, Patrícia foi empurrando plasticina cor-de-rosa pelo buraquinho do cravo de papel que António fizera, até encher o interior.

– Agora já não consegues esmagá-lo. É de papel, mas ficou forte. A nossa casa não, falta-lhe plasticina lá dentro.

António ficou espantado com a capacidade da irmã de entender as coisas. Ficou a rodar o cravo de papel, agora cheio de sentido.

Aprendeu a fazer cravos assim com a vizinha de carteira Inês. Rapariga séria de cara, mas impossível ficar quieta nas aulas.

– Fico inquieta, tenho de fazer qualquer coisa enquanto penso.

Com os dedos finos, a folha transformava-se num pássaro, sapo ou um ramo de cravos. Os professores nem ralhavam, sabiam que Inês era excelente aluna. A folha gasta não fazia mal desde que estudasse.

António levava sempre as obras de Inês para casa, para dar à irmã Patrícia, que delirava a vê-las.

– Como é que ela fez isto?

– Queres que peça para ela te ensinar?

– Quero!

António pedia permissão à mãe para ir ao parque com a irmã. Nunca lhe passava pela cabeça levar Inês a casa a mãe não ia gostar.

Dona Celeste, mãe de António e Patrícia, era rigorosa. Às vezes demasiado. António justificava, achando que era só por medo de perder os filhos.

– António! Tens de pensar no futuro, sozinho! Ninguém te deve nada! Eu sou tua mãe, mas já cumpri: gerei e eduquei, até onde consegui. Agora segue o teu caminho. Ainda tenho a Patrícia. E não contes com o Pedro, não é teu pai. Espero que percebas isso.

António não discutia. Cá no fundo, sabia que se precisasse, o Pedro estava sempre ali. Já há muito não lhe dizia padrasto era o pai, pronto. Sabia também que as conversas de mãe eram para se ter só quando o Pedro não estava. Se ele ouvisse, interrompia logo.

Para o Pedro só a família fazia sentido. Queria que todos fossem felizes, mas António muito cedo percebeu que felicidade era diferente para cada um. Onde o pai via mimo, a mãe via rigor e medo…

Dona Celeste tinha medo vinte e cinco horas por dia punha sempre mais uma por precaução. Antes, quando era só o António, diziam na brincadeira. Quando veio a Patrícia, passou a ser regra.

– Vai alguém magoar a Patrícia!

Valia para tudo e todos. Não via amigas que prestassem para a filha. Professores e treinadores só para relações de trabalho: abraços com a professora nem pensar. Os outros? Para quê? Havia o pai, mãe e irmão, chegava. O resto era risco.

António nunca entendeu esse medo irracional, mas via-a sempre andar de um lado para o outro, sem sossego mudou de emprego para acompanhar a Patrícia, tirou carta só para poder levá-la às atividades, não a deixava andar sozinha. António ajudava, mas quando Patrícia cresceu um pouco, já ele tinha a sua própria vida.

E nessa vida, tanta coisa… Inês Depois, a filha deles, que foi um choque para a Celeste. Netos? Só depois dos vinte e cinco!

– António! Para que foste fazer isso? Tão novo, tão irresponsável… A tua licenciatura quase acabada… – Celeste tremia e recebeu a notícia junto à janela da cozinha.

– Mãe, já não sou criança. Tomo decisões. A Inês está grávida. O filho é meu.

– Podiam ter evitado! Ainda há tempo de…

– Chega! Dizes algo que nunca vou aceitar. Ouve-me, estava à espera de uma reação, mas… fica a pensar.

António levantou-se e, antes de sair, foi ao quarto do Pedro.

Pedro estava há meses doente, a lutar com uma doença difícil, calado e sem queixas, só António sabia pelos gestos.

Naquele dia, Pedro apertou-lhe a mão forte demais e deu-lhe as chaves do apartamento.

– Trato da papelada esta semana. Não te preocupes com a tua mãe e irmã deixo-lhes a casa na aldeia. Vão valorizar agora com o novo empreendimento. Não ficam mal. Vocês vivam aqui. O teu filho tem de ter uma casa segura. Sabes o que quero dizer?

– Sei, pai. Obrigado

Pedro já não conheceu Mariana. Ela nasceu uma semana depois de Pedro partir, sem mais um suspiro ou palavra para o mundo.

António naturalmente tomou conta da família, e Patrícia aliviou um pouco. Sabia que António guardava um cravo de papel na prateleira do seu escritório.

– Para quê? Patrícia passava o dedo pelas pétalas, sentindo o interior duro da velha plasticina.

– Lembra-me do que tenho de fazer, Patrícia. Não posso ser uma casca vazia.

– E o que é?

– Encher a vossa vida com algo que valha a pena. Da Mariana, da Inês, da mãe… de todas.

– Isso é difícil, António. A mãe não ouve.

– Tenho de tentar.

– Pois… tentar ainda podes… suspira Patrícia e muda de assunto.

Ela não queria guerra entre António e Celeste.

E Celeste era cada vez mais difícil. Depois de Pedro partir, parecia que tinha fechado uma porta dentro dela. Patrícia não percebia, António nem precisava adivinhar. Sabia bem o que era, lembrava-se de tudo: tinha só quatro anos quando o pai os abandonou, mas nunca esqueceu as lágrimas da mãe, quando partiu uma jarra valiosa contra a parede. O castigo de ir para o canto, as broncas, os beijos em desespero, tudo lhe ficou. Ele era, de facto, blindado.

– És muito duro, filho! Eu choro e nem uma lágrima a mais. Não tens pena da tua mãe? Celeste torcia as sobrancelhas de preocupação e só descansava quando ele mordia o lábio a aguentar o choro. Ainda bem, és mesmo meu filho! Dá cá um abraço!

António lembrava-se bem dessas manhas e tentava proteger a irmã delas. Mas para isso era preciso viver lá, e ele sabia que não podia: Inês era delicada demais, feita do mesmo papel das figuras que dobrava em criança.

– Filhinho, já te disse! Que sorte a Mariana ter nascido saudável! Pobre Inês… Novo assim, e com o coração doente! Que destino para uma mulher jovem! Isso não devia acontecer!

António apertava os dentes:

– Mãe, basta! Não te vou ouvir.

– Ai filho, não queria já sabes, sou direta.

– Demais… António pegava na filha quando ficava com a avó e ia para casa, esquecendo-se às vezes até de perguntar à irmã como estava.

Patrícia não se queixava. Era o retrato do pai: calada, séria e reservada, só se abria com António e a mãe.

Com a mãe, as coisas eram complicadas. Amor e confiança ali eram de vidro fino um deslize e o gelo de medo partia-se deixando cair a alma na solidão.

A Inês faleceu cinco anos após o nascimento de Mariana. Uma manhã não acordou. António, a preparar-se para sair, fez tudo em silêncio para não acordar a mulher, até que ao entrar no quarto percebeu. O mundo caiu, restou-lhe só um pensamento a pulsar:

«Mariana!»

Foi à cozinha. O urso de peluche da filha estava na almofada, mas ela dormia em casa da avó. Agarrou-se ao boneco, uivou, tentando abafar a dor.

Depois esqueceu-se de tudo por meses, deixou-se andar, nem notava o que fazia. Mariana, como a pressentir tudo, não largava o pai, mal falava da mãe. Um dia viu-a sentada no quarto da mãe, sussurrando à foto emoldurada. E percebeu que a filha já sabia tudo.

Decidiu não entrar. Quando Mariana saiu, abraçou-a e perguntou:

– Quem te contou?

– A avó. Disse que agora tinha de cuidar de ti. E que não era para falar da mãe porque te ficavas triste.

Apertou-a até quase a magoar.

– Desculpa, filha! Podes falar sempre comigo da mãe. Só comigo, ouviste?

Pelo choro convulsivo de Mariana percebeu quanto sofrimento ela guardara. Maldisse-se por a ter deixado tão sozinha.

A pior raiva veio horas depois, quando Patrícia bateu-lhe à porta a meio da noite.

Ele tinha posto Mariana a dormir e estava na cozinha às escuras, a fazer festas ao gato e a ver a chuva.

Só escutou a pancada porque estava tudo quieto.

Chovera o dia inteiro, Patrícia entrou encharcada e lançou-se-lhe nos braços, como António tinha feito há pouco com a filha.

– Patrícia! O quê?

– Dói… quase a desmaiar, António amparou-a.

A ambulância chegou meia hora depois e, passado pouco, Patrícia adormecia no colchão insuflável do quarto da Mariana, sem contar nada ao irmão.

António percebeu de manhã, ao ver as nódoas negras nos braços dela.

– O que é isso?

A t-shirt era grande, mas não escondia as manchas.

– Patrícia?

– António, não quero falar.

– Vais ter de falar, Patrícia. Só assim te posso ajudar.

Ela negou, olhou-o com lágrimas:

– Foi… a mãe? arriscou António.

Ela acenou, pegando-lhe nas mãos.

– Não me leves já para ela. Não agora! Tenho medo…

António pensava enquanto a tentava acalmar. Se fizesse grande escândalo, não ia resolver nada. Tudo aquilo só acontecera porque a mãe cruzara a linha que antes só rondava.

– Conta-me tudo, Patrícia. Vamos decidir juntos. Prometo que não mais te verão chorar! Confias em mim?

Se tivesse hesitado, ele nunca mais se sentiria homem. Felizmente Patrícia percebeu, e fez que sim, e libertou-se, sentando-se direita, tão parecida ao pai. António sentiu um calafrio era impossível decepionar o Pedro. Se alguém devia ajudar-lhe, era ele.

– A mãe descobriu que ando com o Márcio. Lembras-te dele?

– O despenteado? António oferece-lhe uma sandes e um chá.

Come!

– Não aguento. Depois. Tu é que estás despenteado! Mas sim, é ele. Não tivemos nada de especial! Só fomos ao cinema e passeamos. De dia! Nem sequer me tentou beijar!

– Patrícia, acalma-te. Eu acredito. O que se passou com a mãe?

– Gritou! Agarrou-me, sacudiu-me, gritou coisas terríveis Patrícia encolheu-se. Não consigo repetir! Porque é que me trata assim? O que fiz eu de errado? Eu sempre lhe obedeci! Tu sabes! E eu sou esperta, não ia fazer disparates. Mas ela disse que ia acabar como tu, cheia de problemas… Desculpa! Não devia dizer isto, mas António! Sou mesmo boca aberta

Patrícia desatou num choro convulsivo que deixou António perdido.

Depois soube o que fazer parecia-lhe estar com Mariana outra vez em criança, agarrou-a ao colo e murmurou como fazia à filha:

– Vai haver enchente! És mesmo chorona! Ninguém mais te magoa! Eu não deixo! Ouviste?

Patrícia olhou-o com olhos grandes.

– Ninguém! Nem a mãe. Não deixo, Patrícia. Prometi ao pai que não te deixava ninguém fazer mal. Acha que posso falhar à promessa?

Ela abanou a cabeça.

– Pois não. Ele fez-me doer para aprender. O homem tem de honrar o que diz. Vais ficar com a Mariana? Ela acorda já. Dá-lhe de comer, eu vou falar com a mãe.

– Não vás! Patrícia assustou-se.

– Vou! António sentou-a à força e pôs-lhe a sandes nas mãos. Come! E lava essa cara para não assustar a Mariana!

O confronto com Celeste foi duro. Ela chorava, gritava, implorava pelo regresso da filha. António até que ela se acalmasse.

– Mãe, a Patrícia fica comigo.

Impediu que ela protestasse:

– Por agora. Deixa ela acalmar. Tu também precisas.

– Mas António! Ela tem aulas, provas, fim de período!

– Ouves o que dizes? Que fim de período? Nem procuraste pela filha à noite! E se não viesse ter comigo?

– Pensei que estava em casa!

– No teu controlo cego já nem vês pessoas! Nunca viste? Achas que somos bonecos?

– Que disparate, filho!

– Diz-me, quando falaste comigo como mãe e não como chefe? Quando me perguntaste como eu estava, depois da Inês? Só falas como chefe. Com a Patrícia é igual. Mãe, somos teus filhos, não funcionários! Como chefe, aceito que sejas ótima, mas como mãe… desculpa, mas só eu posso julgar. És péssima! E nem agora, com a filha a chorar do outro lado da cidade, pensas só nos troféus e nos testes! Não pode ser! Não digas mais nada! Eu sei. Sobre o futuro, o esforço, o costume. Pois olha! Se a Patrícia chumbar, azar! Pago eu a faculdade e ela será veterinária. Sabias? Ela quer isso! Não medicina como tu querias. Ela quer! E vai ser. Eu garanto!

– Não podes decidir por ela! Ela é minha filha!

– E isso dá-te o direito de a dobrar à força? António acalmou-se.

Diante dele estava uma mulher despenteada, baralhada e sem norte. Já não havia convicção.

Pegou-lhe nos ombros, olhou-a nos olhos:

– Mãe, queres ficar sozinha? Não te ameaço, só aviso. Se continuares assim, nunca mais recuperas nem a mim nem à Patrícia. Ela nunca vai estar sozinha, eu nunca a deixo. Mas e tu? Pensa nisso.

Deu-lhe um beijo na testa e saiu, descendo cansado a escada do prédio de sempre.

Quantas vezes já a descera? Muitas vezes aos saltos, outras arrastado. Agora não tinha força para ir nem para vir. Ficou sentado a contar os degraus de um lanço…

Anos a subir e descer, sem saber quantos são. Não é estranho?

O toque do telemóvel despertou-o, subiu, contou com atenção cada degrau, assentiu para os seus botões e foi para casa. Agora sabia o que fazer.

A sua estratégia funcionou. Celeste não aguentou o afastamento. Dois dias depois apareceu a tentar fazer as pazes com a filha. O processo foi lento.

Patrícia não conseguiu perdoar de imediato. Passaram mais cinco anos de altos e baixos. Celeste esforçava-se, mas percebeu que os filhos já não eram pequenos. Não iriam ficar à espera que ela se recompusesse. Agora ecoava-lhe na alma: Eles são dois, estão juntos, e eu?

Patrícia tirou o curso e arranjou emprego numa clínica veterinária. Mariana fartava-se de rir quando via o pai a suspirar sempre que a tia aparecia em casa com mais um paciente.

– Patrícia! Isso é uma jibóia!

– E então? Repara bem como é simpática! E tão quentinha! Toca-lhe! Vês? Não dói! É só até o dono voltar de viagem. O Zé Jorge fica triste sozinho!

– Zé Jorge? Até tem nome?

– Claro!

Mariana ria-se e ameaçava o pai de seguir o caminho da tia.

– Era bom! António punha-se as mãos à cabeça, fingindo pânico.

Trabalho, casa, encontros tímidos com a mãe. Patrícia vivia numa espécie de piloto automático. Mariana pedia ao pai que lhe arranjasse um amigo, mas sem sucesso.

Até que chegou a novidade!

– Quero apresentar-vos o meu namorado. Patrícia ficava vermelha. Mas, por favor, não se riam!

– Patrícia, até dá vontade de chorar! Mariana abraçava a tia.

O ténis direito, que o último paciente tinha arrastado pela casa, apareceu debaixo da cama de António; Mariana calçou-o e correu para o corredor.

– Estou pronta!

– Finalmente António olhou para a filha Já nem vale a pena correr. A Patrícia não nos vai perdoar!

– Pai, não exageres! Ainda temos meia hora!

No parque, a dupla vê-os ao longe.

– Pai, é aquele? É? Tão despenteado?

O sussurro de Mariana era tão alto que Patrícia ouviu e fez sinal para se calar.

– Márcio.

– António.

Aperto de mão, sorriso, aceno.

– Mariana.

– Despenteado! Márcio ri-se e olha para a namorada. Patrícia, não fiques assim! Quero é ver sempre este sorriso! Uau! Esses ténis são únicos! Também quero uns!

Mariana olha para o pai, sorri, e só agora percebe que houve uma mudança nos olhos da tia. O que era antes aço virou prata. Tão bonito que Mariana ficou de boca aberta e bateu palmas, surpreendendo o futuro primo.

– O quê? Aqui em casa somos todos um pouco doidos. Habitua-te!

– Estou descansado! Agora sei que vou caber bem neste… grupo? Como se diz melhor?

– Família, Márcio, família! Mariana pisca à tia e pega no braço do pai.

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