Ouve bem: se não a expulsares deste restaurante já, vou garantir que nunca mais trabalhas em nenhum restaurante. Este desgraçado não devia estar aqui!

Era sexta-feira. Mariana passara por um dia difícil. Fechara alguns contratos e tivera uma conversa tensa com a chefia. Competia-lhe mostrar opções de apartamento a potenciais inquilinos. Decidira que, ao fim da semana de trabalho, merecia jantar fora.

O restaurante era um dos mais sofisticados de Lisboa. Frequentemente, ali celebravam-se aniversários importantes. Pelo pátio ao lado, viam-se sempre carros de luxo a reluzir. Um simples petisco custava tanto quanto um vestido de cerimónia. Mas, por que abdicar de um mimo? O gerente aproximou-se de Mariana, conduzindo-a à mesa. Pouca gente preenchia o restaurante, mas a música, suave e envolvente, enchia o ambiente. Uma fadista interpretava, com emoção, um tema melancólico.

Bem-vinda ao nosso restaurante, disse o empregado cordialmente. Permita-me sugerir a especialidade de hoje: sopa de marisco. Obrigada, para já gostaria apenas de um copo de água, pediu Mariana, tentando ganhar tempo. Sabia que aquele restaurante era caro, mas tanto assim? Parecia que o número do telemóvel tinha menos dígitos do que o preço de cada degustação. Notou o olhar crítico do gerente quem pede só água num espaço daqueles? O staff avaliava discretamente a sua aparência: ténis brancos, já marcados pelo tempo, casaco preto com sinais de desgaste, uma mala que parecia ter muitos anos.

Os empregados trocaram olhares e sussurros, julgando-a uma pedinte. Mariana abriu o menu e fingiu estudá-lo com atenção. Camarões em molho de natas por este preço Preferia pagar a luz ou a água com esse dinheiro… Tiramisu por metade do meu ordenado? Melhor fazer em casa. Posso pedir uma tábua de queijos com pera? perguntou ao empregado. Terei de confirmar com o chef, já que essa é uma opção normalmente servida no pequeno-almoço.

Agora, não só os empregados e o gerente, mas quase todo o restaurante a observava. Ouve, disse o gerente ao empregado baixinho, tenta explicar discretamente à senhora que aqui não é um café qualquer. Faz isso rápido, antes de perdermos os clientes habituais. Mas se ela aqui está, também é cliente, replicou o empregado. Se não a puser já fora, faço questão de ninguém mais o empregar em Lisboa! Este género de gente não tem lugar aqui.

Uma senhora à mesa ao lado ouviu tudo. Entrementes, Mariana ajeitava-se na cadeira, tentando melhorar a aparência. Mas sentia-se deslocada, desconfortável. Então o empregado trouxe-lhe um prato com carne tenra, regada em doce de ginja. O aroma inundou a sala.

Peço desculpa, mas não encomendei isto, exclamou Mariana, confusa. Não se preocupe, está por conta de uma das nossas clientes, respondeu-lhe o empregado, indicando a senhora da mesa vizinha. Mariana nunca provara nada tão saboroso; a carne dissolvia-se-lhe na boca. Espreitou o menu a medo, quase arrependida ao ver o preço absurdo. Sentiu-se embaraçada, quis aproximar-se da senhora, pedir-lhe o NIB para devolver o dinheiro assim que recebesse o ordenado.

Desculpe, mas não posso aceitar tamanha generosidade. Não tenho como retribuir, insistiu. Porquê convidar-me para esta refeição? Entendo o que sente, disse a senhora num sorriso sereno. Não me caiu nada do céu. Sou de uma aldeia do interior, criada pela avó depois de perder os pais num acidente. Devo-lhe tudo o que sou. Trabalhei duro, fiz-me empresária, mas nunca esqueci os ensinamentos da minha avó: ajuda sempre quem podes. Por isso hoje estou aqui, para si, explicou.

Quando Mariana saiu, a senhora chamou o gerente. Está despedido. Não admito julgamentos baseados na aparência. Aquela senhora era uma cliente como qualquer outra, jamais devias tê-la posto na rua. Peço desculpa, não voltará a suceder. Já chega. A partir de amanhã, não fará mais parte da minha equipa. O meu restaurante não tem espaço para quem falta à humanidade.

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Ouve bem: se não a expulsares deste restaurante já, vou garantir que nunca mais trabalhas em nenhum restaurante. Este desgraçado não devia estar aqui!
„Освободи стаята в къщата, защото родителите ми ще живеят там сега,“ ми съобщи мъжът с решено изражение.