No escritório, a secretária sentiu-se mal e saiu para a rua: ao sentar-se num banco e fechar os olhos, ao acordar viu um idoso a tentar retirar-lhe a pulseira do pulso.

Olha, deixa-me contar-te uma coisa que aconteceu hoje aqui no escritório, parece uma cena de novela portuguesa, mas foi a sério. Então, a nossa secretária, Leonor Andrade, estava na reunião, sempre ao lado do diretor, a tomar notas de tudo, como é habitual. Mas hoje, via-se mesmo que ela estava exausta. O calor na sala era impossível, a atmosfera pesada, e o ar parecia parado. Começou a sentir-se enjoada, com uma pressão no peito que só piorava, como se tivesse um saco de batatas em cima dela.

De repente, Leonor sentiu as pernas a fraquejar. Pediu desculpa baixinho, agarrou-se à mesa para não cair e saiu dali o melhor que conseguiu. O diretor ainda lhe perguntou se estava bem, mas ela mal ouviu. Foi logo para fora, ali junto ao jardim do Largo de São Pedro, procurando aquele ar fresco típico de Lisboa, mas não lhe soube a alívio nenhum estava cada vez mais fraca.

Acabou por se sentar num banco, fechou os olhos por uns segundos, a rezar que aquele mal estar lhe passasse. O coração dela batia tão depressa que podia jurar que toda a praça ouvia. Quando abriu os olhos, viu um senhor idoso curvado ao lado dela devia ter uns setenta ou mais, com um casaco gasto, boina puída, e aquele olhar esperto mas calmo. Estava com mão no pulso da Leonor e parecia a analisar-lhe o braço.

Leonor, ainda meio atordoada, perguntou num tom arrastado: O que está a fazer? Não toque em mim Esse bracelete é oferta do meu marido.

O senhor ficou calmo, nem discutiu. Disse apenas: Esse bracelete está a fazer-lhe mal. Veja bem.

Ela olhou para o bracelete. Era de ouro maciço, daqueles bem portugueses, e nunca o tirava, sabes? E nesse instante quase desmaiou de novo. O ouro tinha manchas escuras mesmo ali, onde tocava a pele. Parecia que alguém tinha passado tinta por cima, um efeito arrepiado.

Ela, quase a chorar, perguntou: Quem é o senhor?

Ele disse com voz segura: Sou antigo joalheiro. Trabalhei quarenta anos com ouro aqui em Lisboa. Quando vi que estava a sentir-se mal, reparei na sua mão. Gente comum não apanha este detalhe.

Mas o que quer dizer? Leonor estava a tremer.

São marcas de tálio, explicou baixo. É um veneno tão traiçoeiro Não se vê a olho nu, mas consegue infiltrar-se pela pele. O ouro reage ficando escuro. Alguém pôs uma camada finíssima aí.

Ela quase desmaiou quando percebeu o que aquilo implicava.

Quem lhe deu esse bracelete sabia bem o que estava a fazer. Queria que ficasse doente, fraca e nunca se levantasse.

Leonor olhou para o bracelete, para as mãos, e lembrou-se do marido, o olhar dele frio, a insistência nos últimos tempos: Não o tires nunca. É o meu presente.

Foi nesse momento que tudo se tornou claro.

O senhor, com jeito, retirou o bracelete e embrulhou-o num lenço velho.

Tem de ir já ao médico e à polícia, recomendou ele. Nunca mais use isso.

Ela assentiu, sem dizer uma palavra. Ficou ali sentada no banco, mãos tremendo, a perceber que tinha escapado, por acaso, a uma tragédia. Com sorte, tinha encontrado aquele joalheiro reformado ali no jardim, e a vida dela mudou por completo naquele instante.

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No escritório, a secretária sentiu-se mal e saiu para a rua: ao sentar-se num banco e fechar os olhos, ao acordar viu um idoso a tentar retirar-lhe a pulseira do pulso.
Um homem passou mal em plena rua e fui o único a ajudar.